3 de janeiro de 1995

Podemos escrever a história da Revolução Russa?

Este texto, aqui publicado pela primeira vez, foi apresentado como “Isaac Deutscher Lecture” em Londres, em 3 de dezembro de 1996. Seu objetivo é discutir, entre outros temas, o problema da história contrafactual (“e se...”).

Eric J. Hobsbawm

The Deutscher Memorial Lecture

Escolhi meu tema como um tributo a Isaac Deutscher, cuja obra mais permanente é um clássico na história da Revolução Russa, ou seja, sua biografia de Trótski. Assim, a resposta imediata a essa pergunta do título é, obviamente, sim.

Mas isso deixa em aberto a questão mais ampla: podemos algum dia escrever a história definitiva de alguma coisa — não apenas a história conforme vista hoje, ou em 1945 —, inclusive, é claro, da Revolução Russa? Nesse caso, em um sentido óbvio a resposta é não, a despeito do fato de que há uma realidade histórica objetiva, que os historiadores investigam, para estabelecer, entre outras coisas, a diferença entre fato e ficção. Somos livres para crer que Hitler fugiu dos russos e se refugiou no Paraguai, mas não foi assim. Todavia, cada geração faz suas próprias perguntas novas sobre o passado. E todas continuarão a fazer isso. Lembremos também que na história do mundo moderno estamos lidando com uma acumulação quase infinita de registros públicos e privados. Não há jeito nem mesmo de imaginar o que os futuros historiadores procurarão e descobrirão neles que nós não havíamos pensado. Os arquivos revolucionários franceses mantiveram os historiadores ocupados durante duzentos anos, e não há nenhum indício de que os retornos estejam decrescendo. Mal estamos começando a escalar o himalaia de documentação dos arquivos soviéticos. Portanto, não é possível uma história definitiva. No entanto, a história como atividade séria é possível porque os historiadores podem concordar sobre o que estão falando, sobre quais questões estão discutindo e até sobre boa parte das respostas para reduzir suas diferenças o bastante para o debate significativo.

No campo da história russa do século XX, durante muito tempo, isso foi quase impossível. Agora, o fim da União Soviética inevitavelmente alterou o modo como todos os historiadores encaram a Revolução Russa, porque agora são capazes ou, de fato, obrigados a vê-la numa perspectiva diferente, como um biógrafo de uma pessoa morta, em contraste com o de uma pessoa viva. É claro que levará muito tempo até que as paixões daqueles que escrevem a história da URSS se reduzam à temperatura morna daqueles que hoje escrevem a história da Reforma Protestante, que costumava ser um assunto de grande rancor entre estudiosos católicos e protestantes, ou daqueles que escrevem sobre a Revolução de 1688 fora dos distritos de Derry de Martin McGuiness e Bushmills do reverendo Ian Paisley, terra daquilo que uma vez me foi descrito por um ideológico bebedor irlandês como “um uísque protestante”. Na ex-URSS e sucessores dos Estados socialistas, a história da Revolução Russa ainda é escrita nesse espírito, motivo pelo qual nada além de novas fontes para história, embora não para boa história, tenda a vir de lá. Mesmo do lado de fora, a maioria de nós ainda é emocionalmente muito próxima e parcial para considerar a Guerra Fria entre capitalismo e comunismo — uma vez que os dois sistemas jamais combateram um contra o outro no campo de batalha — com os mesmos olhos com que consideramos a Guerra dos Trinta Anos.

Há ainda outra coisa. Podemos fazer um juízo da revolução que deu início à URSS, mas não ainda do seu fim, e isso certamente afetará o juízo histórico. A catástrofe na qual mergulhou a gente comum da antiga URSS ao final do antigo sistema ainda não acabou. Penso que o salto súbito, revolucionário, do antigo sistema para o capitalismo que lhes foi imposto talvez tenha perturbado mais a economia que a Segunda Guerra Mundial e mais que a Revolução de Outubro, e a economia da região já levou mais tempo para se recuperar disso que nos anos 1920 e 1940. Nossa avaliação de todo o fenômeno soviético continua provisória. Não obstante, podemos agora começar a perguntar: sobre o que podem hoje legitimamente concordar os historiadores da Revolução Russa? Podemos alcançar um consenso sobre algumas perguntas que precisam ser feitas quanto à história da Revolução Russa, e sobre alguns de seus elementos que possam ser solidamente estabelecidos pelas regras da pesquisa e da evidência e que, portanto, sejam realmente indiscutíveis?

Um problema é que as mais complexas dessas questões residem fora do alcance habitual da prova e refutação, porque dizem respeito ao que poderia ter acontecido. Muito do que de fato aconteceu pode agora ser conhecido porque se dispõem de informações, embora durante praticamente toda a existência da URSS grande parte fosse inacessível, oculta atrás de arquivos trancados e barricadas de mentiras e meias verdades o􀆘ciais. É por isso que um volume enorme da literatura surgida naquele período agora terá de ser sucateada, apesar de sua engenhosidade na utilização de fontes fragmentárias e da plausibilidade de suas conjecturas. Simplesmente não precisaremos mais dela. The Great Terror [O grande terror], de Robert Conquest, por exemplo, desaparecerá como grande abordagem de seu tema, simplesmente porque as fontes dos arquivos encontram-se agora disponíveis, ainda que elas não eliminem toda discussão. Conquest será lido como um notável esforço pioneiro de avaliar o Terror de Stálin, mas um livro que inevitavelmente se tornará obsoleto enquanto abordagem dos fatos terríveis que tentou investigar. Em suma, acabará lido mais por aquilo que seu livro nos conta sobre a historiografia da era soviética que por aquilo que nos conta sobre sua história. Quando dados melhores ou mais completos se tornam disponíveis, devem tomar o lugar dos dados deficientes e incompletos. Por si só, isso transformará a historiografia da era soviética, mas não responderá, contudo, a todas as nossas perguntas, particularmente as concernentes ao período soviético inicial antes da burocratização plena do regime, quando o governo e o partido soviéticos de fato não sabiam muito do que estava acontecendo em seu território.

Por outro lado, os debates mais acalorados sobre a história russa do século XX não giram em torno do que aconteceu, mas do que poderia ter acontecido. Eis aqui algumas questões. Era inevitável uma revolução na Rússia? O czarismo podia ter se salvado? Estaria a Rússia a caminho de um regime capitalista liberal em 1913? Uma vez ocorrida a revolução, dispomos de um conjunto ainda mais explosivo de contrafactuais. E se Lênin não tivesse voltado para a Rússia? A Revolução de Outubro teria sido evitada? O que teria acontecido na Rússia se ela tivesse sido evitada? Mais centrais aos marxistas: o que levou os bolcheviques a decidirem tomar o poder com um programa de revolução socialista obviamente irrealista? Deviam ter tomado o poder? E se a revolução europeia — ou seja, a revolução alemã, na qual apostavam suas 􀆘chas — tivesse acontecido? Os bolcheviques poderiam perder a Guerra Civil? Mas não fosse a Guerra Civil, como teriam se desenvolvido o Partido Bolchevique e a política soviética? Vencendo-a, havia alternativas para o retorno a uma economia de mercado sob a NEP (“Nova Política Econômica”)? O que poderia ter acontecido se Lênin tivesse continuado em plena atividade? A lista não tem fim, e apenas mencionei algumas das questões contrafactuais óbvias do período até a morte de Lênin. O objetivo desta conferência não é dar a minha resposta a essas perguntas, mas tentar colocar essas questões na perspectiva de um historiador em atividade.

Elas não podem ser respondidas com base na evidência sobre o que aconteceu porque giram em torno do que não aconteceu. Assim podemos dizer, para lá da dúvida relevante, que no outono de 1917 uma onda enorme de radicalização popular, da qual os bolcheviques foram os principais beneficiários, varreu para o lado o governo provisório, de sorte que, no momento da Revolução de Outubro, tratava-se menos de capturar o poder que recolhê-lo de onde havia caído. Dispomos de fortes evidências disso. A ideia de que Outubro não foi mais que uma espécie de golpe conspiratório simplesmente não conseguiria ser sustentada. Para reconhecer isso temos apenas de ler o relato, escrito antes da Revolução de Outubro pelo então correspondente do Manchester Guardian, Philips Price, após uma viagem de várias semanas pelas províncias do Volga. A propósito, não sei de nenhuma outra testemunha estrangeira, com bom conhecimento da Rússia e fluência na língua, que tenha feito semelhante viagem pelo coração da Rússia naquela época. “Os fanáticos maximalistas”, escreveu, “que ainda sonham com uma revolução social por toda a Europa, segundo minhas observações nas províncias, recentemente adquiriram, ainda que amorfo, um imenso número de seguidores.” No momento que o artigo, enviado de Yaroslav, chegava a Manchester, os bolcheviques haviam tomado o poder e, por isso, o jornal o publicou em dezembro de 1917 com a manchete “Como os maximalistas obtiveram o comando”, mas na verdade havia sido enviado antes de outubro.

Mas, naturalmente, questões sobre alternativas não podem ser solucionadas dessa maneira — o que poderia ter acontecido, por exemplo, se os bolcheviques não tivessem decidido tomar o poder, ou tivessem se disposto a tomar o poder à frente de uma ampla coalizão com os demais partidos socialistas e social-revolucionários. Como poderíamos saber? Philips Price, por exemplo, no mesmo despacho, sugeria a possibilidade de que o enorme ódio da guerra, que, segundo ele imaginava, era o que organizara “a confusa massa social” da revolução (palavras suas), produziria “um Napoleão — um ditador da paz [...] que colocará um fim à guerra mesmo à custa de perdas territoriais para a Rússia e ao preço das liberdades políticas conquistadas pela Revolução”. Sabemos que alguma coisa desse tipo aconteceu. Retrospectivamente, podemos notar que, na situação de 1917, ele certamente tinha razão de supor que, de um modo ou de outro, era inevitável que a Rússia logo saísse da guerra. Mas ele também supunha que logo que isso acontecesse a Revolução se dividiria em facções em luta que resultariam em sua derrota. Isso não aconteceu, mas, para um excelente observador contemporâneo, também parecia muito provável. Como não aconteceu, mesmo os historiadores não podem fazer mais que especulações a respeito.

Mas como exatamente especulamos? E qual o sentido de, pelo menos, algumas dessas especulações? A dificuldade reside em que há pelo menos três tipos diferentes de contrafactuais. Um deles, apesar de fascinante, é analiticamente inútil. Considere-se Lênin, ou a esse respeito, Stálin. Sem a presença pessoal desses homens singulares, a história da Revolução Russa certamente teria sido muito diferente. A despeito de uma série de evasivas gerais de ordem política e ideológica, os indivíduos nem sempre fazem tanta diferença assim na história. Os EUA, por exemplo, perderam de fato sete presidentes antes do final de seu mandato devido a assassinato ou outras circunstâncias desde 1865, mas, na perspectiva do século, isso não parece ter feito muita diferença ao perfil da história norte-americana. Por outro lado, às vezes os indivíduos realmente fazem diferença, como no caso de Lênin e Stálin — ou, nesse sentido, nos últimos anos da URSS. Um ex-diretor da CIA contou ao professor Fred Halliday em uma entrevista à BBC: “Acredito que, se Andropov fosse quinze anos mais novo quando tomou o poder em 1982, ainda teríamos conosco uma União Soviética, continuando a declinar economicamente, cada vez mais deficiente tecnicamente [...] mas ainda sobrevivente”.1 Não gosto de concordar com diretores da CIA, mas isso me parece totalmente plausível. Entretanto, após dizer isso, quase não há muito mais a ser dito. Pode-se analisar o tipo de situações históricas nas quais pessoas singulares podem representar uma drástica diferença, tanto positiva quanto negativamente. Talvez, como faz Alan Bullock em suas biografias paralelas de Hitler e Stálin, possamos investigar as maneiras como as mesmas se combinam para reforçar seu poder pessoal, como certamente fez Stálin, mas Lênin claramente não tentou fazer. Podemos estabelecer os limites daquilo que tais indivíduos dotados de poder interno absoluto podem alcançar, ou de que maneira suas metas e políticas não eram específicas a si mesmos enquanto indivíduos, mas essenciais a seu tempo, lugar e situação.

Pode-se afirmar, por exemplo, com total plausibilidade, que havia margem para mais ou menos rigidez no projeto de industrialização acelerada pelo planejamento estatal soviético, mas se a URSS se envolvesse em semelhante projeto na época, por maior que fosse o envolvimento genuíno a ele dedicado por milhões de pessoas,2 iria exigir uma boa dose de coerção, mesmo se a URSS tivesse sido governada por alguém não tão implacável e cruel quanto Stálin. Ou então se pode afirmar, com Moshe Lewin, que mesmo o poder total não propiciaria a Stálin controle sobre a máquina burocrática em constante dilatação na qual a URSS necessariamente se convertia. Apenas o terror, o medo da morte para funcionários temporariamente onipotentes, poderia garantir que obedecessem ao autocrata e não o enredassem na teia de aranha burocrática. Ou, além disso, pode-se demonstrar que, dados antecedentes históricos determinados, mesmo o que fazem os autocratas obedece a velhos padrões. Tanto Stálin quanto Mao sabiam que eram os herdeiros de imperadores absolutos, e se conformaram, pelo menos até certo ponto, a seus predecessores imperiais — certamente tinham consciência de que seriam vistos a essa luz por seus súditos. Mas, quando se disse tudo isso e mais, ainda não se respondeu a questão das alternativas históricas. Tudo que se disse é: “as coisas teriam sido diferentes se Lênin não tivesse conseguido sair da Suíça até 1918”, ou, no extremo, “as coisas teriam sido muito diferentes” ou “não muito diferentes”. E não se pode ir mais longe, exceto na ficção.

Uma segunda série de contrafactuais é um pouco mais interessante, no mínimo porque de fato ajuda a história da Revolução Russa a remover os antolhos da polêmica ideológica. Tomemos o exemplo da queda do czarismo. Nenhum observador sério, mesmo antes de 1900, esperava que o czarismo sobrevivesse muito tempo no século XX. Uma revolução russa era universalmente prevista. O próprio Marx, em 1879, esperava “um grande desastre e não muito distante na Rússia; imagina-se que começará por reformas de cima para baixo que o velho edifício não será capaz de suportar e que levarão ao seu desabamento total”,3 e o político britânico que relatou suas opiniões à filha da rainha Vitória achava essa visão “não despropositada”. Retrospectivamente, parece inegável que as chances do czarismo, após sobreviver a sua primeira revolução em 1905, eram pequenas, e praticamente nulas bem antes da Grande Guerra; e não havia muitas pessoas na época que pensassem o contrário durante mais que um momento. Não precisamos nos incomodar muito com a teoria de que a Rússia czarista fazia progressos no sentido de se tornar uma próspera sociedade capitalista liberal quando a Primeira Guerra Mundial e os bolcheviques surgiram, como se do nada, e a arruinaram. Não fosse por necessidade do argumento antimarxista, essa teoria jamais teria sido levada a sério.

A propósito, nem mesmo os liberais afirmaram com confiança que uma Rússia liberal, democrático-parlamentar, era uma possibilidade muito grande após a queda do czar. Muitos deles gostariam de acreditar que não foi mais que um golpe leninista que cortou a garganta de uma promissora democracia liberal russa, mas eles o fazem sem convicção. Posso lembrar apenas, de passagem, que nas únicas eleições relativamente livres, realizadas logo após a Revolução de Outubro, para a Assembleia Constituinte, os liberais burgueses somaram 5% e os mencheviques 3%.

Por outro lado, os comunistas também dispõem de seus mitos sobre possibilidades diferentes de história. Minha geração, por exemplo, foi educada no conto da traição da Revolução Alemã de 1918 pelos líderes social-democratas moderados. Os Ebert e os Scheidemann abortaram a Revolução Alemã potencialmente socialista e proletária, a Rússia soviética continuou isolada — e o desenvolvimento lógico esperado por Marx e Engels não aconteceu, ou seja, uma revolução russa acendendo o pavio da revolução proletária em países menos obviamente despreparados para erigir uma economia socialista.

Ora, esse mito difere daquele sobre um czarismo liberal em um aspecto importante. Antes de 1917, nenhum observador realista esperava, durante mais que um único momento, que o czarismo sobrevivesse, e muito menos superasse seus problemas, mas em 1917-8, o roteiro de Marx e Engels parecia muito provável. Não culpo os revolucionários alemães e russos por terem essas esperanças no período de 1917 a 1919, embora eu tenha afirmado alhures que Lênin não deveria ter acreditado nisso até 1920. Durante algumas semanas ou mesmo meses no período de 1918 a 1919, poderia parecer provável uma expansão da Revolução Russa para a Alemanha.

Mas não era. Penso que hoje há um consenso histórico a esse respeito. A Primeira Guerra Mundial abalou profundamente todos os povos nela envolvidos, e as revoluções de 1917-8 foram, acima de tudo, revoltas contra aquele holocausto sem precedentes, principalmente nos países do lado que estava perdendo. Mas em certas áreas da Europa, e em nenhuma outra mais que na Rússia, foram mais que isso: foram revoluções sociais, rejeições populares do Estado, das classes dominantes e do status quo. Não acho que a Alemanha pertencesse ao setor revolucionário da Europa. Não acho que parecesse pelo menos provável uma revolução social na Alemanha em 1913. Ao contrário do czar, acredito que, não fosse pela guerra, a Alemanha do kaiser poderia ter solucionado seus problemas políticos. Isso não quer dizer que a guerra fosse um acaso inesperado e inevitável, mas essa é uma outra questão. Claro que os líderes social-democratas moderados desejavam impedir que a Revolução Alemã caísse nas mãos dos socialistas revolucionários, porque eles próprios não eram nem socialistas nem revolucionários. De fato, nem mesmo desejavam se livrar do imperador. Mas não é esse o ponto. Uma revolução de outubro na Alemanha, ou algo parecido, não era um risco sério e, portanto, não precisou ser traída.

Penso que Lênin estava enganado ao apostar suas fichas em uma revolução alemã, mas não acho que ele pudesse ter percebido isso em 1917 ou 1918. Simplesmente não parecia provável. É nisso que a retrospecção histórica difere da avaliação contemporânea das possibilidades. Se em política temos de tomar decisões, como Lênin teve, nós as tomamos conforme as percebemos — e para ele era natural percebê-las dessa maneira. Mas o passado aconteceu, a partida não pode ser jogada de novo e, por isso, podemos perceber as coisas com mais clareza. A Revolução Alemã não foi um partida perdida comparada ao ponto da jogada anterior do time. A Revolução Russa estava destinada a erigir o socialismo em um país atrasado e logo extremamente arruinado, embora eu ainda precise ser convencido por Orlando Figes, que afirma que em 1918 Lênin já havia desistido de pensar em uma revolução se expandindo para mais algum lugar da Europa. Ao contrário, desconfio que os arquivos irão mostrar que, por vários anos ainda, a liderança soviética, ainda que não preparada para colocar em risco sua base doméstica na Rússia, permanecia tão envolvida com a revolução internacional quanto Fidel Castro e Che Guevara o estiveram, e, se assim posso dizer, muitas vezes com tantas ilusões e a mesma ignorância que os cubanos sobre a situação no exterior.4

Tendo a pensar que Lênin teria desejado tumultuar o Palácio de Inverno mesmo se tivesse certeza que os bolcheviques seriam derrotados, naquilo que poderia ser chamado pelos irlandeses de princípio da “Ascensão da Páscoa”: fornecer inspiração para o futuro, mesmo da forma como a derrotada Comuna de Paris havia feito. Todavia, tomar o poder e declarar um programa socialista apenas fazia sentido se os bolcheviques esperassem uma revolução europeia. Ninguém acreditava que a Rússia pudesse fazê-la por si mesma. Então, a Revolução de Outubro deveria ter sido feita? E se deveria, com que objetivos? Isso nos remete para o terceiro tipo de contrafactuais, que, na verdade, diz respeito a alternativas consideradas possíveis na época. De fato, a questão não era se alguém mais devia arrebatar o poder ao governo provisório de Kerensky. Esse já estava morto. Tampouco era a de quem deveria assumir, porque os bolcheviques eram os únicos em condições, isoladamente ou como parceiro dominante em uma aliança. A questão era como: se com ou sem uma insurreição planejada, antes, durante ou após o iminente Congresso dos Sovietes, como parte de uma ampla coalizão ou não, e com que objetivo, dado que não se tinha a menor ideia se um governo bolchevique, ou um governo russo central, poderia sobreviver. E sobre essas questões havia discussões reais na época, não só entre bolcheviques e outros, mas entre os próprios bolcheviques.

Mas, lembrem-se: se hoje, como historiadores, achamos que Kamenev, por exemplo, estava certo, e não Lênin, não estamos realmente avaliando as chances de Kamenev convencer o Partido Bolchevique em outubro de 1917. Estamos dizendo: se nos encontrássemos nessa situação hoje, deveríamos adotar sua opinião. Estamos falando do jogo agora ou no futuro, não do jogo em 1917, cujo placar não pode mais ser alterado. E, mais uma vez, o que exatamente estamos dizendo, se decidirmos, retrospectivamente, que teria sido melhor, digamos, se os bolcheviques não tivessem se envolvido, com efeito, no governo de partido único? Estaremos sugerindo que um governo de coalizão teria sido realmente melhor para dar conta da situação desesperada da Rússia na época, ou no longo prazo — se tivesse havido um longo prazo? Ou estaremos simplesmente concordando com Gorbachev que teríamos preferido que a Revolução de Fevereiro evoluísse de maneira diferente? O fato de que teria sido melhor se da revolução tivesse brotado uma Rússia democrática é algo com que a maioria das pessoas concordaria. Mas é uma proposição sobre nossas ideias políticas e não sobre a história. Em 1917, outubro veio depois de fevereiro. A história deve partir do que aconteceu. O resto é especulação.

Mas neste ponto devemos deixar de lado a especulação e voltar para a situação concreta de uma Rússia em revolução. Grandes revoluções de massa que eclodem de baixo para cima — e a Rússia em 1917 talvez tenha sido o exemplo mais impressionante de uma revolução desse tipo na história — são, em certo sentido, “fenômenos naturais”. São como terremotos e grandes enchentes, principalmente quando, como na Rússia, a superestrutura do Estado e instituições nacionais virtualmente se desintegram. Numa grande medida, são incontroláveis. Devemos parar de pensar a Revolução Russa em termos das metas e intenções dos bolcheviques e dos demais, de sua estratégia de longo prazo, e de outras críticas marxistas de sua prática. Por que, de fato, não caíram, ou não aceitaram a derrota, como poderiam muito simplesmente ter feito? Inicialmente, o novo regime não tinha poder nenhum — certamente nenhuma força armada significativa. A única vantagem real com que o novo governo soviético contava, além de Petrogrado e Moscou, era sua capacidade de articular o que o povo russo desejava ouvir. O que Lênin almejava — e, em última análise, ele conseguia impor sua vontade no partido — era irrelevante. Ele “poderia não ter nenhuma estratégia ou perspectiva além da escolha, dia após dia, entre as decisões necessárias para a sobrevivência imediata e aquelas que corriam o risco do desastre imediato. Quem poderia se permitir considerar as possíveis consequências de longo prazo de decisões que tinham de ser tomadas agora, caso contrário, a Revolução chegaria ao fim e não haveria nenhuma consequência ulterior a ser considerada?”.5 Nada estava predeterminado. A qualquer momento as coisas poderiam dar errado. Somente depois de 1921 o regime poderia contar com sua permanência, avaliar a situação assustadora à qual a Rússia havia se reduzido, ou começar a pensar em termos de anos, e não mais de meses ou mesmo de semanas. Nesse momento seu curso futuro estava mais ou menos determinado, e era muito diferente de tudo que os marxistas, inclusive Lênin, teriam imaginado para a Rússia antes da Revolução. Tanto a doutrina soviética ortodoxa quanto a teoria da conspiração anticomunista imaginavam a Revolução como controlada e dirigida de cima para baixo: Lênin não acreditava nisso.

Então, como a Revolução de Outubro passou a sobreviver? Em primeiro lugar — e aqui concordo inteiramente com Orlando Figes em seu excelente A People’s Tragedy 6 — os bolcheviques venceram porque lutaram sob a bandeira vermelha e, conquanto enganosamente, em nome dos sovietes. Em última análise, os camponeses e operários russos preferiam apoiar os vermelhos contra os brancos, que, segundo pensavam, iriam confiscar a terra e trazer de volta o czar, a pequena nobreza e os chamados boorzhooi (burgueses). Os vermelhos defendiam a revolução desejada pela maioria dos russos. E, lembrem-se, a Revolução Russa foi feita pelas massas e, durante seus dez anos iniciais, seu destino foi determinado pelas massas russas — por aquilo que elas desejavam ou não apoiariam. O stalinismo colocou um fim nisso.

Em segundo lugar, os bolcheviques sobreviveram porque eram a única força potencial de governo nacional depois do czar. A alternativa em 1917 não era, e não poderia ser, entre uma Rússia democrática e uma ditatorial, mas entre Rússia e não Rússia. Aqui era essencial a estrutura leninista centralizada do Partido Bolchevique, uma instituição formada para a ação disciplinada e, portanto, de facto para a construção do Estado, embora a um custo maior para a liberdade que sob o czarismo. Mas: se não os bolcheviques, então, ninguém. De fato, uma das poucas realizações da Revolução Russa que não é negada nem mesmo por seus inimigos é que, ao contrário dos outros impérios multinacionais derrotados na Primeira Guerra Mundial, o dos Habsburgo e dos otomanos, a Rússia não se esfacelou. Foi salva como Estado multinacional bicontinental pela Revolução de Outubro. Constantemente subestimamos a simpatia que a Rússia soviética despertava, portanto, em russos apolíticos, e mesmo nos patriotas de direita, tanto durante quanto depois da Guerra Civil: de que outro modo poderíamos explicar o curioso retorno de um contingente pequeno mas influente de exilados russos, civis e militares, no período do Plano Quinquenal? (Mais tarde, alguns podem tê-lo lamentado.)

Em terceiro lugar, sobreviveram porque o apelo de sua causa não era meramente russo. As potências estrangeiras podem ter ficado desestimuladas a apoiar os diversos e mutuamente hostis exércitos brancos na Guerra Civil, por vários motivos — mas após o fim da Grande Guerra sabiam que não poderiam ter enviado grandes contingentes próprios para participar na guerra, muito menos contra o regime considerado por seus soldados como o da revolução dos trabalhadores. Além disso, depois da guerra, os bolcheviques retomaram o controle da Transcaucásia essencialmente porque a Turquia os via como uma força contra o imperialismo britânico e francês. Até a derrotada Alemanha, confiante em sua própria imunidade ao bolchevismo, estava preparada para chegar a um acordo com eles. Em todo caso, enquanto o Exército Vermelho derrotava a ofensiva polonesa em 1920 e avançava na direção de Varsóvia, o general Seeckt, do exército alemão, enviava Enver Pasha para a Rússia para sugerir algo surpreendentemente parecido com a partilha da Polônia prevista nas cláusulas secretas do tratado Molotov-Ribbentrop de 1939. A derrota do Exército Vermelho na entrada de Varsóvia colocou um fim em tais sugestões.

Mas o impacto internacional de Outubro me remete ao último ponto, que é também minha conclusão. A Revolução Russa tem realmente duas histórias entrelaçadas: seu impacto sobre a Rússia e seu impacto sobre o mundo. Não podemos confundir os dois. Sem o segundo, nada mais que uns poucos historiadores especializados teriam se interessado por ela. Fora dos EUA não há muitas pessoas que sabem sobre a Guerra Civil norte-americana alguma coisa além do fato de que ela é o cenário de E o vento levou... No entanto, foi a maior guerra entre 1815 e 1914 e, de longe, a maior da história dos EUA, e também pode merecer ser chamada de segunda revolução norteamericana.

Teve e tem muito significado dentro dos EUA, mas bem pouco significado exterior, pois exerceu pouco efeito óbvio sobre o que aconteceu em outros países que não aqueles abaixo de suas fronteiras sulistas. Por outro lado, tanto na história russa quanto na história mundial do século XX, a Revolução Russa é um fenômeno imponente — mas não o mesmo tipo de fenômeno. O que significou para os povos russos? Ela levou

a Rússia ao pico de seu poder e prestígio internacionais — muito além de tudo alcançado sob os czares. Stálin certamente ocupa um lugar tão permanente e importante na história russa quanto Pedro, o Grande. A revolução modernizou grande parte de um país atrasado, mas, embora suas realizações tenham sido titânicas — principalmente a capacidade de derrotar a Alemanha na Segunda Guerra Mundial —, seu custo humano foi enorme, sua economia fechada estava fadada a se esgotar e seu sistema político, fadado a se esfacelar. Reconhecidamente, para a maioria de seus habitantes que consegue se lembrar, a velha era soviética certamente parece muito melhor que a situação pela qual os ex-soviéticos estão hoje passando, e continuarão a passar por um bom tempo. Mas ainda é muito cedo para fazer um balanço histórico.

Devemos deixar que os diversos povos socialistas e ex-socialistas façam sua própria avaliação do impacto da Revolução de Outubro em sua história. Quanto ao resto do mundo — apenas a conhecemos em segunda mão. Como uma força para a libertação no antigo mundo colonial e, em toda a Europa, antes e durante a Segunda Guerra Mundial; como o inimigo supremo para os EUA e, de fato, para todos os regimes conservadores e capitalistas durante a maior parte do século, exceto entre 1933 e 1945; como um sistema profundamente (e compreensivelmente) detestado por liberais e democratas parlamentaristas, mas, ao mesmo tempo, reconhecido, a partir dos anos 1930, na esquerda do mundo industrial, como algo que assustava e obrigava os ricos a conceder alguma prioridade política aos interesses dos pobres. O terrível paradoxo da era soviética é que o Stálin vivenciado pelos povos soviéticos e o Stálin visto no exterior como força libertadora eram a mesma pessoa. E era o libertador para os primeiros porque, pelo menos em parte, era o tirano para os de fora.

Poderão os historiadores chegar a um consenso sobre semelhante personalidade e semelhante fenômeno? Não consigo imaginar como poderiam, até onde o futuro é previsível. Tal como a Revolução Francesa, a Revolução Russa continuará a dividir as opiniões.

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