4 de setembro de 1995

Quando todos os homens são iguais

Eugene D. Genovese

The New Republic


Lars T. Lih, Oleg V. Naumoy e Oleg V. Khlevniuk. Letters to Molotov, 1925-1936. Yale University Press: 1996.

Tradução / Em 1969, Viacheslav Molotov divulgou 86 cartas que recebeu de Josef Stálin entre 1925 e 1936, traduzidas para o inglês em "Stalin's Letters to Molotov" (As Cartas de Stálin a Molotov).

A maior parte da correspondência (71 cartas) foi escrita de 1925 a 1930, em tempos de ásperas disputas internas no Partido Comunista. Empreendia-se nessa época a sangrenta coletivização da agricultura, além da industrialização em ritmo forçado.

Os bolchevistas construíram então "o socialismo num só país", à medida que se desvaneciam as esperanças de outras revoluções comunistas na Europa e na China. Como era de se esperar, as cartas de Stálin contêm apenas traços das atrocidades que campeavam nos anos 20 e atingiram uma amplitude aterrorizante na década de 30.

Sem dúvida, Molotov aparou sua coleção com todo o cuidado. Além de não ter incluído suas próprias missivas a Stálin, deixou de fora as cartas de 1928 e 1934, anos particularmente críticos. Em 1934, assistiu-se às manobras políticas para manter Stálin no poder e ao assassinato de Kirov, que ofereceu uma pequena amostra dos amplos expurgos que estavam por vir.

A maioria das cartas foi escrita à mão, algumas às pressas, outras com cuidadosa elaboração. Elas confirmam o argumento de Lars T. Lih de que Stálin trabalhava numa "perspectiva antiburocrática", baseada na aquisição por parte da União Soviética de tudo o que era necessário ao estabelecimento de uma industrialização socialista. O menor fracasso era logo explicado como deliberada sabotagem de inimigos de classe que se insinuavam no aparato estatal. Mais do que uma disputa pessoal pelo poder, os intermináveis expurgos de Stálin foram uma extensão da guerra das classes.

Muitas vezes o ditador demonstrava um temperamento intempestivo que transformava vinganças em sérios erros políticos -o que contrasta com sua reputação de calculista. A prisão e o julgamento de técnicos e especialistas "burgueses" em 1928, por exemplo, abalou todo o país. No entanto, era só o início de um longo processo de mutilação.

Stálin considerava qualquer fracasso como traição, por mais leal ou até heróico que tenha sido o empenho dos camaradas em questão. Se uma fábrica não atingisse o nível de produtividade designado pelo partido, era sinal de que os gerentes eram sabotadores, ou então de que tinham se tornado preguiçosos ou corruptos.

Stálin desconfiava de todas as elites, principalmente dos antigos burocratas do regime czarista e dos "técnicos burgueses" que viraram a casaca e aderiram ao partido, ou passaram a trabalhar para o Estado soviético. Precisava deles para erguer uma economia socialista, mas a desconfiança e o ressentimento não tardavam a se transformar em fúria defensiva. No fundo, não via a hora de se livrar de todos eles.

Sempre que algo ia mal, como era frequente, buscava-se o motivo não em dificuldades reais ou no próprio sistema socialista, cuja validade não podia ser questionada, mas sim na possibilidade de subversão. Quanto mais cedo o partido abandonasse a tolerância do erro -ou seja, as concessões ao apodrecido sentimentalismo burguês- e quanto mais cedo expurgasse sem piedade esses perniciosos sabotadores, mais cedo poderia se lançar plenamente à construção do socialismo.

Assim, Stálin verberava "esses 'comunistas' que se infiltraram na nossa organização como ladrões e maliciosamente ajudam a afundar a causa do Estado dos trabalhadores" (...) "Vamos expulsar essa gente de Moscou e pôr no seu lugar jovens companheiros, gente nossa, comunistas".

Dotado de um engenho excepcional, Stálin sabia muito mais sobre o mundo do que se imaginava. No entanto, sua inteligência e seus conhecimentos mostravam-se ineptos quando o sistema se revelava essencialmente impraticável. A visão partidária de um novo mundo era sustentada pela razão dialética e sua filosofia materialista não podia ser criticada; sua teoria política, econômica e social estava cientificamente embasada.

Diante de dificuldades financeiras, Stálin propunha sua solução preferida: "Vamos fuzilar de uma vez por todas duas ou três dúzias de sabotadores, junto com várias dúzias de tesoureiros comuns".

No trato com os subordinados, Stálin provava que realmente não era bobo. Pai do comportamento politicamente correto, recrutava todos para sua causa, desde o mais vil oportunista até o mais desinteressado idealista.

Ele sabia que os oportunistas, que se venderam a ele, poderiam vender-se também a seus inimigos, e sabia que os revolucionários poderiam "engolir qualquer coisa". Stálin sabia, em suma, que nunca poderia confiar nos homens que executavam suas ordens. Era o bom senso que o mandava fuzilá-los depois de terem servido a seus propósitos.

Por mais que o talento político de Stálin apegasse as pessoas à sua personalidade, seus melhores colaboradores estavam a seu lado por lealdade à causa que ele personificava. Não importavam seus crimes: era ele o guia dos soviéticos e de toda a humanidade progressista rumo à terra prometida.

Stálin tirou proveito do mito do bom czar às voltas com funcionários maus. O povo se referia ao mais brutal dos expurgos políticos como "Yezhovschina" -os tempos terríveis de Yezhov, chefe da polícia secreta-, mas nunca como "Stálinschina".

Em seu sermão final, no último congresso partidário de que participou, Stalin expôs todo o seu ideal visionário. Exortou os camaradas a cumprir sua sagrada obrigação para com a causa. Stalin entusiasmou o congresso com a profecia que - mal sabia ele - acrescentava os últimos retoques à sua petição de imortalidade. Cabe a nós, exultou, criar "um futuro radiante para os povos".

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