1 de maio de 1996

O Vaticano, do antissemitismo dos anos trinta à recuperação-reciclagem dos carrascos

Annie Lacroix-Riz

GOLIAS

Presta-se hoje grande atenção à declaração de Pio XI, em setembro de 1938, «O antisemitismo
é inadmissível; espiritualmente somos todos semitas», ou pensa-se que Pacelli, que veio a ser Pio XII, ao impor-se silêncio sobre o sofrimento das vítimas do nazismo, designadamente judeus, teria vivido «um drama interior de uma rara acutilância»[1]. Os arquivos dos anos trinta e quarenta trazem uma outra luz sobre o «antijudaísmo» da Igreja romana, do qual resumiremos aqui alguns elementos ou
grandes linhas esclarecedores[2]. O seu conteúdo revela a virulência do antissemitismo clerical, que, entre muitos outros, foram testemunhados pelos casos alemão e austríaco (unificados de fato por uma adesão formal do Vaticano ao Anschluss [Anschluß ou Anschluss é uma palavra do idioma alemão que significa conexão ou anexação. É utilizada em História como referência à anexação político-militar da Áustria por parte da Alemanha, em 1938] a partir de 1918-1919 e Bento XV); as suas manifestações de antes, durante e depois da guerra, apoiadas ou suscitadas pela Cúria, levam-nos
diretamente às questões:

1.º a participação nos massacres de elementos do clero apoiados e dirigidos pelos seus superiores hierárquicos, da recusa de ajuda às vítimas confirmado por circulares eclesiásticas, e mesmo da eventual pilhagem de bens de judeus;
2.º a negação direta pelo Vaticano do genocídio praticado pelos hitlerianos e os seus sequazes de diversas nacionalidades;
3.º a recuperação-reciclagem dos carrascos, operação em massa a que trabalhos, sobretudo estrangeiros, começaram a dedicar-se a partir de 1969[3].

O antissemitismo: De alguns prelados e da cúria romana antes da guerra

O núncio apostólico em Munique (desde maio de 1917), a seguir no Reich (dezembro
de 1919), e depois «de facto único representante do papa na Alemanha e na
Áustria», como tinham planeado os franceses desde 1920, «cardeal secretário de
Estado» de «Berlim»4 (respetivamente, em dezembro de 1929 e fevereiro de 1930)
cont inuou neste posto a ocupar-se do Reich, tanto como antes. Pacelli era
pangermanista até à obsessão antissemita desta corrente ideológica: a sua
correspondência do período pós-guerra com o Vaticano sobre a Baviera está cheia de
referências carregadas de ódio ao «judeu» fulano de tal, de Eisner a Lévine,
considerando o «judeu francês» como um revolucionário por natureza. Nomeou ou
promoveu (ao cardinalato) todo o episcopado alemão e austríaco e rodeou-se de
prelados cuja contribuição para o objetivo do nazismo e do antissemit ismo foi
relevante. Traçar-se-ia o mesmo retrato do secretário de Estado (de 1914 a 1929)
Gasparri, sempre em busca de causas antissemitas, por exemplo dos húngaros ou do
seu querido embaixador alemão (a partir de 1920) von Bergen, cuja carreira se
desdobrou entre o II Reich, Weimar e o III Reich. Recordemos até que ponto os
problemas da restauração do pós-guerra enraizaram, em Roma e no conjunto do
mundo clerical, a velha equação judeus=vermelhos: toda a imprensa ultramontana
apoiou a Hungria branca na campanha antissemita que se seguiu à derrota de Bela
Kun, parte integrante da terrífica repressão do calvinista Horthy (a quem a Cúria
perdoava o seu protestantismo). A Cruz que, em 11 de novembro de 1920, assimilou
«a justo título» os dois inimigos vencidos, estigmatizou «a raça conquistadora» que
tinha tentado impor o bolchevismo à Hungria católica, e justificou a lei sobre o
numerus clausus universitário como indispensável «para salvar a juventude
católica-magiar», reduzir o poder da imprensa judia, desencadear «a renascença
católica»: a Hungria ficava, assim, «moralmente curada (…) O espírito católico
tornou-se o grande orientador da vida económica e da política»5 . Deste
antissemitismo católico romano ou nacional citaremos apenas os exemplos
significativos de alguns dignitários germânicos cuja carreira foi criada ou melhorada
com o núncio Pacelli:
Monsenhor Gröber, nomeado arcebispo de Friburgo, em junho de 1932, instrumento
essencial das concordatas de Baden (12 de outubro de 1932) e do Reich (20 de julho
de 1933) – transitado do apoio claro aos nazis, antes da sua subida ao poder, ao
3 Werner Brockdorff, Flucht vor Nürnberg. Pläne und Organisat ion der Fluchtwege der N-S
Prominenz im "Römischen Weg", Verlag Welsermühl, Munich-Wels, 1969; ver também Mark Aarons
e John Loftus, Des nazis au Vatican, Paris, O. Orban, 1992.
4 Notas, 10 de fevereiro, 10 abril de 1920 (sublinhado no texto), Saint-Siège 1918-1940 (mais à frente
nome de país + ...), vol. 13 e 2 e carta n.° 6470 de Tirard, Coblence, 20 de agosto 1920, Alemanha...,
vol. 370, arquivos do MAE, Quai d'Orsay (fonte de todos os fundos originais aqui citados).
5 Emma Fattorini, Germania e Santa Sede: le nunziature di Pacelli tra la grande guerra e la
Reppubblica di Weimar, Laterza, 1992, p. 105-106, e passim, Hungria..., vol. 42-43, e O Vaticano...,
cap. 4.
3
nazismo puro e duro, este «“membro-promotor” das SS» (förnderndes Mitglied),
pagava as suas quotas mensais desde 1933. Foi rapidamente cognominado como «o
bispo castanho» (der braune Bischof), e escrevia muito. Os seus trabalhos,
conformes aos cânones do Santo Ofício, tornam clara a contribuição do catolicismo
alemão para a «Solução final»: o seu «Manual das questões religiosas do tempo
presente» (Handbuch der religiösen Gegenwartsfragen), publicado em 1935,
definiu-o como o campeão do sangue e da raça, no ano das leis de Nuremberga, que o
artigo «Raça» justificava assim: «cada povo carrega a sua própria responsabilidade
pela manutenção da sua existência, e a contribuição de um sangue inteiramente
estrangeiro representará sempre um risco para uma nacionalidade que provou o
seu valor histórico. Não se pode, pois, recusar a nenhum povo o direito de manter
sem perturbação a sua velha cepa racial e decidir medidas de salvaguarda para
este efeito. A religião cristã apenas exige que os meios utilizados não ofendam a lei
moral e a justiça natural». O propósito foi explicitado pelo artigo «Marxismo» do
manual sobre o «judeu Karl Marx»; pelo artigo «Bolchevismo», «despotismo de
Estado asiát ico, realmente ao serviço de um grupo de terroristas dirigido por
judeus»; pelo artigo «Arte», sobre o judaísmo ateu e pervertido, responsável pelos
«aspetos antialemães da arte posterior ao século XIX» (e pela sua carta pastoral de
30 de janeiro de 1939 contra os judeus assassinos de Jesus e animados por um
imperdoável «ódio assassino»)6 .
Monsenhor Hudal [Luigi Hudal (1885 - 1963) foi um bispo católico austríaco baseado em Roma.
Durante 30 anos, foi o chefe do Colégio Teutónico de Santa Maria dell'Anima em Roma e, até 1937, um
representante influente da igreja austríaca. No seu livro de 1937, Die Grundlagen des
Nationalsozialismus: Eine ideengeschichtliche Untersuchung ("As Bases do Nacional Socialismo",
publicado em Lípsia e Viena, em 1936–37), Hudal elogiou Adolf Hitler e algumas de suas políticas e,
indiretamente, atacou as políticas do Vaticano. A anexação alemã da Áustria (Anschluss) foi apoiada
com entusiasmo por Hudal na imprensa austríaca, contrariamente à posição de vários bispos da
Áustria. – NT], reitor de Santa Maria dell‟Anima (Igreja nacional da Áustria e da
Alemanha e um dos feudos do pangermanismo em Roma) desde 1923, hoje
conhecido como um dos principais responsáveis do Vaticano pela «exfiltração» dos
nazis desde 1944. Hudal era o protegido de Innitzer, cardeal-arcebispo de Viena de
que mais se conhecem os «Heil Hitler» a partir de março de 1938, do que o passado
muito pacelliano: este «Alemão dos sudetas», nascido em 1875 em Weipert, na
«Boémia alemã», fez o essencial da sua carreira em Viena, depois dos estudos em
Santa Maria dell‟Anima, «colégio teutónico» de que Pacelli se tornou o «protetor» a
partir de 31 de março de 1930, depois da morte de Merry del Vale (seu titular desde 8
de novembro de 1907). Innitzer foi chamado para a universidade em 1911, e escalou
todos os degraus da hierarquia até ao lugar de decano e depois de reitor, em 1928-
1919 – período em que assinou publicamente proclamações «reatadoras» a favor do
Anschluss - , antes de se tornar ministro, em setembro de 1929. Pacelli encarregou-o
da realização de duas grandes etapas da expansão alemã, o Anschluss e o seu
corolário, a liquidação da Checoslováquia: entre 1929 e 1933, antes de lha confiar,
reorganiza uma pequena «congregação» alemã instalada na Checoslováquia, «a
ordem teutónica», «órgão de propaganda» encarregado de «prepar[ar…] as
6 Gunther Lewy, The Catholic Church and Nazi Germany, Londres, Weidenfeld e Nicolson, 1964, p.
45-46, 275, 277 , Gordon Zahn, German Catholics and Hitler's wars, New York, Sheed e Ward, 1962,
p. 123 sq., e fundos do MAE citados, O Vaticano..., cap. 7.
4
operações alemãs simultaneamente na Áustria e na Checoslováquia». Essa missão
valeu-lhe uma ascensão vertiginosa: em novembro de 1932 foi nomeado arcebispo de
Viena e, em meados de fevereiro de 1933, o respetivo chapéu, um dos presentes de
Hitler pela sua promoção, recompensa tanto mais notada quanto se tratava de uma
modesta promoção (seis eleitos para dezoito lugares vacantes) após mais de dois anos
sem nomeações7 .
Protetor de Hudal, seu auxiliar durante mais de dez anos e também um nazi precoce,
Innitzer encontrou nele um porta-voz barulhento que também teve uma carreira
pacelliana, sobre a qual coincidem os arquivos franceses dos anos trinta, os do Office
of Strategic Services (OSS) da década seguinte e as pesquisas de Simon Wiesenthal.
A sua ascensão romana acelerou-se quando Pacelli se tornou secretário de Estado:
Hudal, mandatado pelo chanceler Schober, tinha discutido uma futura concordata
austríaca com Pacelli, em 1929; «chefe da comunidade católica alemã de Roma», em
1930 foi nomeado conselheiro do Santo-Ofício, santuário da doutrina: é a este título
que multiplica as «rondas de conferência[s]» na Itália e na Alemanha, pregando «a
enormes multidões de católicos germanófonos» a fórmula do 30 de janeiro de 1933.
Exprimia regularmente o seu fervor, como aconteceu em maio de 1933, declarando
«diante de uma plateia» de diplomatas e dignitários nazis reunidos em Sta. Maria
dell‟ Anima «que, nesta hora marcada pelo cunho do destino, todos os católicos
alemães que vivem no estrangeiro saúdam a chegada do novo Reich, cuja filosofia
está de acordo, quer com os valores nacionais, quer com os valores cristãos». Em
junho de 1933 recebeu uma recompensa «rara» para um reitor de colégio, o título de
«bispo titular de Ela», consagrado por uma missa celebrada em Anima por Pacelli.
Hudal, depois de ter estado associado à concordata austríaca, e sem dúvida à alemã,
reforçou a sua intimidade com von Papen [Franz von Papen, 1879-1969. Foi Chanceler da
República de Weimar e, após a ascensão dos nazis, veio a nomear Hitler para o posto de chanceler,
tendo sido um dos seus aliados incondicionais. A partir de julho de 1933, von Papen foi o
representante do governo de Hitler no Vaticano para a assinatura da Concordata entre a Alemanha e a
Santa Sé – NT], de quem foi conselheiro, quando os hit lerianos, depois da derrota do
golpe de julho de 1934, enviaram esta «serpente» - segundo a expressão de Göbbels –
para Viena. Depois do Te Deum saudando, em Sta. Maria dell‟ Anima, o plebiscito do
Sarre, foi muitas vezes posto em relevo, em 1935, ano em que foi o intérprete da
tentativa romana de conciliação doutrinária, de que o anticlericalismo nazi troçava
como de um azar: editou em Innsbruck e mandou publicar sob a forma de um
«estudo» pela Bayerische Volkszeitung a obra «Roma, o crist ianismo e o povo
alemão» (Rom, Christentum und deutsches Volk) em que defendia uma aliança
íntima entre «germanismo» e «cristianismo».
Ele «revelou-se sobretudo depois do acordo austro-alemão» de 11 de julho de 1936,
como «o filho de M. Papen» (e de Schacht) com o qual Schuschnigg entregou a
Áustria à «Alemanha de Hitler»: acolheu «este ato pacificador» com «artigos
lisonjeiros (…) apelando com todas as suas forças a uma estreita colaboração entre
o catolicismo austríaco e o nacional-socialismo alemão, pelo progresso e pela glória
da raça e do ideal germânicos». Nessa altura teorizava acerca das maravilhas da
7 Correspondência de 1928 a 1938, Santa Sé..., vol. 47, Canet, vol. 33, 40, 41, Áustria..., vol. 82, 83,
190.
5
gestão futura da questão judia (Schönere Zukunft. Gedanken zur Judenfrage, junho
de 1936) e sobre os aspetos gerais da colaboração católico-nazi. Em novembro de
1936, o seu livro que exaltava o nazismo e o seu trabalho ant i-semita, As bases do
nacional-socialismo, foi publicado precedido de uma nota do Osservatore, segundo o
qual ele «não tinha sido inspirado por nenhuma autoridade romana». Pós-datado
de 1937, foi publicado em Leipzig e em Viena, com a chancela de Innitzer que
«subscrev[ia] calorosamente esta “preciosa tentativa de apaziguamento da situação
religiosa dos alemães”».
Matraqueava os dois tópicos do costume, «a luta contra o bolchevismo» e os judeus,
exaltando as leis de Nuremberga como «uma medida necessária de autodefesa
contra a invasão de elementos estrangeiros» - o direito canónico tinha excluído os
judeus «até que os muros do gueto tivessem sido derrubados no século XIX pelo
Estado liberal primeiro e não pela Igreja»; «os princípios do Estado moderno»
fundados na regra da igualdade de tratamento perante a lei «foram criados pela
Revolução francesa e não são o que de melhor há do ponto de vista do cristianismo e
da nacionalidade». No Reich, coube-lhe a sorte de todos os «teóricos» clericais que
desejavam que o NSDAP [Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei - abreviado NSDAP,
mais conhecido como Partido Nazi – NT], «para colaborar com o catolicismo (…), fosse
expurgado previamente dos seus preconceitos anticristãos [:] os nazis rejeitaram
esta proposta. Os jornais atacaram vivamente o prelado e o seu livro»,
anteriormente «autorizado pela intervenção pessoal de M. von Pappen», foi
colocado no «índex nacional-socialista». Este conflito serviu a tese do Vaticano
quanto à existência de divergências católico-nazis, mas a obra foi maciçamente
difundida na Áustria – único local onde foi útil - , e Hudal recebeu «a medalha de
ouro do partido». O leitor curioso pode ler por aí os pormenores das operações
germano-austro-vaticanas que aderiram ao Anschluss, tão funesto para os judeus
auastríacos como para os «vermelhos» cujos episcopados unidos festejaram em
delírio o triunfo plebiscitário. Hudal celebrou-o em Santa Maria dell‟Anima com um
Te Deum seguido do «Deutschland über Alles» e recebeu elogios de von Bergen pela
sua longa contribuição para «uma Grande Alemanha» e a sua solicitude junto de
«nós» (os nazis)8.
De von Faulhaber, cardeal-arcebispo de Munique (respetivamente, em 1921 e 1917),
íntimo dos íntimos do antigo núncio, a diplomacia da «decadência» francesa9
obstinou-se nos anos trinta a fazer um “resistente” ao nazismo: os arquivos alemães
e franceses ignoram esta “inteligência rara”», um pró-nazi convicto, manipulado de
novo, depois da guerra, primeiro pelos Aliados americanos – franceses e ingleses
depois – até à pretendida exceção que o prelado tinha instituído em matéria de
antissemitismo católico alemão. Este «capelão geral dos exércitos do reino da
Baviera» durante a I Guerra mundial, tão pangermanista como o exigia a sua função,
8 Correspondência de 1935 a 1938, Áustria..., vol. 190, 191, 198, 199, 200, Alemanha..., vol. 692,
Itália..., vol. 264; ficha OSS, setembro 1944, Mark Aarons e John Loftus, Des nazis..., p. 49; Gunther
Lewy, The Catholic..., p. 165, 281, 211-218, von Bergen, 25 maio 1938, Documents on German Policy
(Documents...), series D, vol. I, p. 1039 et 1042 e cap. 7 e 8 de O Vaticano....
9 Jean-Baptiste Duroselle, Politique étrangère de la France, la décadence 1932-1939, Paris, Le Seuil,
1983.
6
entregou-se publicamente a explosões de antissemitismo no início dos anos vinte:
assim aconteceu no «congresso católico» de 27-30 de agosto de 1922 em Munique,
onde, depois de Pacelli, como de costume, amaldiçoou a «revolução» judeobolchevista
de 1918-1919, «um perjúrio e uma alta traição (…) marcada na história
do crime de Caim» e bramou contra os judeus e a «imprensa semita», «profissão de
fé antirrepublicana e antissemita», que lhe valeu os «aplausos frenéticos» da
assistência. Nos seus sermões do Advento de 1933, sobre os «valores morais do
Antigo Testamento», o ocidente cristão, Paris incluído, reconheceu «de alguma
forma o processo de antissemitismo». Em 14 de dezembro, o Osservatore elogiou a
sua «corajosa afirmação doutrinária» sobre a validade do Antigo Testamento para
fazer esquecer, comentou o embaixador de França Charles-Roux, o mutismo das
«autoridades superiores da Igreja, guardiãs da ortodoxia católica» sobre a polít ica
antissemita de Hitler. O filossemitismo de Faulhaber não resiste aos arquivos: «a
imprensa americana», disse ele num telegrama de 30 de março de 1933 enviado a
Mundlein, arcebispo (alemão) de Chicago, «exagerou grandemente as violências
contra os judeus»; no seu sermão de dezembro de 1933, explicou ele definitivamente
em 1934, não tomava «a defesa dos judeus perseguidos pelo regime hitleriano»:
«não tomou posição a respeito da questão judaica tal como ela se coloca hoje»,
informou ele, em 31 de agosto, o secretário da conferência israelita mundial de
Genebra; em novembro, tornou público, por escrito e «do púlpito (...) o seu protesto»
contra a fama de filossemita, que lhe atribuíam desde o final de 1933 «os emigrados e
publicistas estrangeiros (...) em certos jornais de Praga, de Basileia e de
Sarrebruck», que ele «afrouxou» especificamente1 0.
Dando cobertura ou promovendo prelados que estavam no seu círculo de personae
gratissimae, a Cúria não fez mais do que refugiar-se atrás daqueles que, em última
análise, exprimiam a sua posição profunda sobre a «judiaria arrogante» - expressão
de 1936 do muito fiel monsenhor Baudrillart. A Cúria pressionava Baudrillart,
defensor de um dos porta-vozes do antissemitismo da Igreja e da aliança (precária)
da Polónia com o Reich hitleriano, o polaco Hlond1 1 , arcebispo-primaz de Poznan e
Gniezno, que depois se tornou cardeal (em 1926 e 1927), contra o «nacionalista»
Verdier (voltar-se-á a este assunto mais adiante). Esta oposição não poupou a esfera
da «questão judaica», e isto muito cedo: a Santa Sé não encontrou nada para dizer
em relação à perseguição oficializada pelo boicote dos jornais judeus de 1 de abril de
1933 e as violências praticadas pelas SA e as SS. De acordo com Charles-Roux, Pacelli
encarregou-se destas «precauções» em relação a Berlim: a partir do momento em
que «as perseguições contra os judeus» provocaram a «indignação do mundo»,
censurou Monsenhor Verdier, autor de uma carta de solidariedade com o grande
rabino de França, «cuja publicação foi anunciada [em abril?]: não foi publicada».
10 Setembro de 1922, Allemagne..., vol. 367, Canet, vol. 56, e Jacques Nobécourt, "Le Vicaire" et
l'histoire, Paris, Le Seuil, 1964, p. 138-140. 1933, Allemanha..., vol. 700 et 689, Canet, vol. 36;
Gunther Lewy, p. 275, et chap. 9-10, 1934, Allemanha..., vol. 691. Documentos... e fundos do MAE.
11 Expressão de Baudrillart no seu comentário dos planos de aliança antirrussa de Hlond, publicados in
extenso (entrevista, 19 dezembro de 1936) no boletim do seu «comité católico das Amizades
francesas no estrangeiro», Polónia..., vol. 328 (e o jogo contra Verdier, O Vaticano..., cap. 9).
7
Os dossiês alemães mostram que a alegada intervenção prescrita ao núncio sucessor
de Pacelli (e íntimo deste último e do papa), Orsenigo, não foi além da preocupação
de deixar uma falaciosa marca por escrito. É disso testemunha um episódio do longo
mas vazio folheto das «negociações» e das «notas de Pacelli» sobre a concordata de
julho de 1933 – exemplo típico dos correspondência-biombo, de cujas versões oficiais
a Santa Sé regurgita. Em 12 de Setembro, Pacelli reenviou ao encarregado de
negócios da Alemanha no Vaticano, Klee, um «memorando em três pontos», em que
o terceiro dizia respeito, designadamente, aos «católicos de origem judia»: limitou-o
aos dois primeiros quando Klee argumentou que o ponto 3 «não tinha nada a ver
com a concordata», objeção que reconheceu justificada. Quando Klee insistiu neste
problema, «não religioso mas de raça», Pacelli recordou que este texto «tinha
voltado à primeira forma a pedido do papa, que se orientava apenas pelos pontos
de vista religiosos e humanos»; depois Klee «insistiu» no compromisso do Vaticano
de, «desde o princípio», «não se imiscuir nos assuntos internos da Alemanha», na
necessidade de eliminar a parte judia do ponto 3 e de «baixar o tom sobre o resto»:
Pacelli «decidi[u então] não enviar o memorando». Dirigiu a Klee, nessa mesma
tarde, uma nota em conformidade com os seus desejos e antedatada com o dia 9,
(portanto, antes da ratificação da concordata com o Reich, no dia 10, tática que
permite fazer crer que se continuava a negociar este texto): essa nota dedicava cinco
linhas e meia «para juntar uma palavra dirigida aos católicos alemães de origem
judaica», recente ou afastada, «e que por razões conhecidas do governo alemão»
sofrem igualmente dificuldades económicas e sociais»1 2.
Resta o caso pessoal de Pio XI, germanófilo endurecido, servido por um núncio, e
posteriormente secretário de Estado, pangermanista. Supondo que não tenha sido tão
antissemita como o seu subordinado, mantém-se o facto de o ter protegido e
promovido; que elaborou o conjunto da polít ica alemã da Santa Sé até à sua morte –
e, em particular encorajou e apoiou o expansionismo germânico à custa da Europa
odiada por Versalhes; que a famosa encíclica de março de 1937 Mit brennender Sorge
[Com ardente preocupação – NT] – redigida no quadro de uma campanha de opinião
internacional virada para a antiga Entente – não foi mais pró semita que antinazi:
dividia-se entre a litania da «pátria» e do Reich e referências religiosas,
designadamente ao Antigo Testamento, sem dizer uma palavra quanto ao destino dos
judeus alemães; e que o papa, por fim, profundamente vexado com a recusa de
Hitler, em maio de 1938, de lhe fazer a visita que lhe solicitou constantemente,
«deix[ou]», no verão, «os judeus ao governo italiano, em troca de concessões que
[acabava] de obter» para a Ação católica, depois de um novo atrito com o Quirinal
sobre a questão. Perante um religioso francês, em 8 de setembro, «o papa julgou
muito severamente as medidas antissemitas do governo italiano». Mas, em meados
de novembro, o seu jornal ficou «mudo» quanto à «combinação» negociada no fim
de agosto, sobre a interdição dos casamentos mistos: a «solução (…) encontrada»
através do artigo 6 do decreto-lei permitiria à Igreja benzer uma união que, em
violação do artigo 34 da concordata italiana de 1929 que atribuía valor civil ao
casamento religioso, não teria «nenhum efeito civil (…). O dire ito canónico ficou
12 Charles-Roux n° 233, 19 junho de 1933, Alemanha..., vol. 689, setembro-outubro de 1933,
Documentos..., C, vol. I, p. 782-786, 789-790, 793-794 (sublinhado por nós), p. 927 -928.
Courriers-paravents, O Vaticano..., passim.
8
salvaguardado e a legislação fascista satisfeita». O Osservatore reivindicou «o
carácter universal da Igreja» e o seu apego à «igualdade das raças», e fingiu que
esta rotura da concordata tinha sido decidida «sem o acordo da Santa Sé», daí a sua
dolorosa surpresa; mas ele quase admitia, acrescentando: «o catolicismo é
desfavorável aos casamentos mistos e desaconselha-os», pois «desconfia da
mestiçagem». Em janeiro de 1939, no Avvenire d‟Italia (jornal decididamente prónazi,
fundado pela Ação Católica, em setembro de 1933, no seguimento da concordata
do Reich, e jornal favorito de Pacelli), o padre Gemelli, reitor da Universidade do
Sagrado Coração de Milão, o «mais importante instituto católico», «figura mais
visível do mundo universitário confessional de Itália, conhecido (…) por gozar da
confiança e da estima do papa» - e filofascista convicto – explicita o testemunho: «os
cardeais e os bispos têm sempre combatido em todo o lado o racismo estrangeiro,
mas (…) este não tem nada a ver com a política racial da Itália»1 3 .
DA GUERRA AO PÓS-GUERRA
Os arquivos de guerra atribuem um significado aos «silêncios» de Pio XII sobre o
extermínio de judeus, que nega a tese das suas terríveis torturas morais.
A IGREJA E OS JUDEUS DURANTE A GUERRA
Dignitários…
Se o novo papa (a partir de março de 1939) nada disse, os dignitários submetidos à
autoridade pont ifical falaram e agiram muito. Sabe-se muito pouca coisa sobre a
Europa ocidental porque os acontecimentos do após guerra não conduziram os
Estados a clarificar o papel da Igreja. À medida que vão aparecendo as descobertas
dos investigadores, o balanço torna-se, entretanto, mais pesado e tende a
contrabalançar, através de descobertas irrefutáveis, a intervenção corajosa, mas
tardia, de alguns prelados a favor dos judeus deportados – assim foi a iniciativa
aparente de Saliège, em 23 de agosto de 1942, contra «as perseguições atuais», na
realidade concertadas com Gerlier, depois de uma conversa deste último com o
grande rabino de França1 4 (discurso caridoso e reticências ant ialemãs que valeram a
Saliège, como ao corajoso de Solages, um ódio do Vaticano post bellum [Expressão
latina que signific a “depois da guerra” – NT] que contrastava com a glória dos prelados
colaboradores até ao fim: o dossiê, em França e em toda a Europa central e oriental,
constitui um critério comparativo seguro das opções romanas). Daqui ressalta que,
no oeste da Europa, também houve, às vezes mesmo antes da guerra, uma
13 1938, Alemanha..., vol. 697-698, 700, Canet, vol. 40; Gitta Sereny, Au fond des ténèbres. De
l'euthanasie à l'assassinat de masse: un examen de conscience , Genève, Ed. Famot, 1977 (trad. de
Into that Darkness, London, 1974), p. 374; fevereiro, março, maio, Documentos..., D, vol. I, p. 1022,
1023, 1036-1039; Itália..., vol. 264, 267, Santa Sé..., vol. 38, Canet, vol. 42 (e O Vaticano..., cap. 7 à
9).
14 Outubro 1943, agosto 1944, Guerra 1939-1945 Londres-Argélia (Argel...), vol. 1373 e 1374; Jean-
Louis Clément, Mgr Saliège, archevêque de Toulouse, 1929-1956, Paris, Beauchesne, 1994, cap. 9
e12; Jean-Marie Mayeur, «Les églises devant la persécution des juifs en France», Georges Wellers
et al., ed., La France et la question juive 1940-1944, Paris, Ed. Sylvie Messinger, 1981, p. 156-170, e
Christian Terras, «La véritable histoire des évêques sous l'Occupation», Golias, n° 29, primavera
1992, p. 35-154.
9
participação clerical na rapina económica antissemita: depois do Anschluss, em
junho (?) de 1938, Eugen Haisler, secretário de Innitzer, foi a França preparar «um
comité católico de amizade franco-alemã» e encontrou Rossé, chefe dos
autonomistas alsacianos financiados pelo Reich, «que o encarregou de adquirir por
ele, em Viena, uma tipografia judia por um preço vantajoso». Hoje dispomos de
informações substanciais sobre os chefes clericais franceses da colaboração, de
Suhard, sucessor de Verdier na primavera de 1940, a Braudillard, passando por
Beaussart, bispo auxiliar de Paris: entre outros, Suhard «mostr[ou] um grande
espírito de conciliação» aquando das buscas da Gestapo de 26 de julho de 1940
visando «provar o conluio de fogo do cardeal Verdier com os judeus» e a
«conspiração urdida contra o Reich pelos emigrados polít icos e pelo arcebispado de
Paris»: «na própria sede do arcebispado de Paris, a Quinta coluna t inha os seus
informadores», como provou a investigação alemã que permitiu apanhar o exemplar
que lá se encontrava do «relatório da[s] conversações» de Monsenhor Verdier e
Benès [Edv ard Beneš (1884-1948) foi um dos fundadores da Checoslováquia e seu presidente da
República, de 1935 a 1948 (de 1938 1945 no exílio como presidente do Governo provisório
checoslovaco) – NT] – provavelmente sobre as alianças franco-checo-soviéticas – por
ocasião do congresso católico de Praga, de 27 de junho a 1 de julho de 1935: os nazis
estavam tão bem informados que a sua polícia mandou «abrir a gaveta tal, do móvel
tal, situado na dependência tal, porque eles sabiam que nesta gaveta se encontrava
o dossiê da missão do cardeal Verdier e o relatório» em questão1 5 .
A informação sobre a Europa oriental é muito mais rica, porque os Estados
confrontados com uma furiosa oposição da Cúria (como os seus predecessores entre
as duas guerras e por razões territoriais similares, isto é, terem sido tomados
territórios tidos por definitivamente alemães) tiraram maciçamente das prateleiras –
na viragem dos anos quarenta e cinquenta, no quadro de grandes processos – os
arquivos de Estado ou eclesiást icos (adquiridos após requisição). Segundo os
diplomatas franceses, e isto em plena guerra fria em que classificavam de bom grado
como «propaganda» qualquer iniciat iva dos governos comunistas de leste, trata-se
de documentos originais, não truncados e credíveis. Esses arquivos apontam para
pistas irrefutáveis para a Igreja católica da observação de Saul Friedlander sobre «a
liberdade de atuação deixada aos bispos» que levou a atitudes confessionais muito
diferentes em relação ao extermínio de judeus: enquanto o patriarca ortodoxo de
Constant inopla ordenava aos seus bispos que fizessem tudo para salvar os judeus,
nada de semelhante provinha de Roma1 6.
A Igreja teve na Rússia ocupada responsabilidades idênticas às que assumiu na
Croácia de Pavelic [Ante Pavelić (1889-1959) foi o líder e fundador do movimento fascista croata
15 Agosto-setembro 1940, Vichy Europa..., vol. 559; sobre Suhard depois de 1940 e Baudrillart, morto
em maio de 1942, Rita Thalmann, La mise au pas. Idéologie et stratégie sécuritaire dans la France
occupée, Paris, Fayard, 1991, p. 86-95, 155-156, 237, C. Klein, «Le clergé et les chrétiens de France
tels que les voyaient certains dirigeants nazis sous l'occupation», Eglises et chrétiens dans la IIè
Guerre mondiale, la France, Lyon, PUL, 1982 (colóquio de Grenoble), p. 383-399, Philippe Burrin,
La France à l'heure allemande 1940-1944, Paris, Le Seuil, 1995, p. 30, 80, 224, 226-232, 411-413;
1943, Vichy Europa... vol. 553, julho 1952, Polónia 1944-1960 (mais à frente nome de país +
1944...)..., vol. 135, O Vaticano..., cap. 10; e nota (alemã), serviços de Alsácia-Lorena, 19 julho 1938,
Canet, vol. 40.
16 Saul Friedlander, Pie XII et le IIIè Reich, Paris, Ed. du Seuil, 1964, p. 138.
10
dos Ustaše, na década de 1930 e foi mais tarde o líder do Estado Independente da Croácia. Foi o
principal organizador do Holocausto na Croácia, no qual se estima terem sido assassinados entre
seiscentos mil e um milhão de sérvios, judeus, ciganos de etnia Romani e prisioneiros políticos, no
período compreendido entre 1941 e 1945 – NT] ou na Eslováquia de Tiso [Monsenhor Jozef
Tiso (1887-1947) era um sacerdote católico eslovaco que foi deputado do parlamento tchecoslovaco,
membro do governo e, finalmente, presidente da República Eslovaca "Independente", entre 1939-1945,
protetorado da Alemanha nazi. Ele deportou cerca de 60.000 judeus para os campos de concentração
nazistas, além de perseguir opositores. Depois da Segunda Guerra Mundial, Tiso foi executado pelas
autoridades tchecoslovacas, por traição e colaboração com o nazismo – NT], sem que o Vaticano
pudesse invocar a sua ignorância dos factos: de agência de informação mais notável
do globo (uma das poderosas mot ivações do interesse americano, depois do fim da I
Guerra mundial, para manter uma ativa posição em Roma), o Vaticano foi, com o
papa à cabeça, informado dos mais ínfimos detalhes dos acontecimentos da guerra.
Falconi não conseguiu demonstrar de maneira nenhuma que, desde setembro de
1939, Pio XII ignorasse os métodos de guerra alemães, e os arquivos franceses
corroboram as suas fontes polacas e jugoslavas1 7 . Não se consegue distinguir dos seus
tutores clericais, padres ou laicos, as organizações terroristas, «o exército católico da
Ucrânia» saído da «Organização dos ucranianos nacionalistas» (OUN) do nazi
ucraniano Stefan Bandera. Ao terrorismo de antes da guerra sob a batuta do Reich
seguiu-se o da guerra para esta «polícia suplementar» dos ocupantes, que
massacravam os combatentes do Exército Vermelho, judeus e guerrilheiros, com um
entusiasmo que fazia por vezes inveja aos alemães sequiosos da liquidação
«racional» e organizada. Raul Hilberg chamou a atenção para isso, a propósito de
todos os correligionários dos nazis, desde os ucranianos aos eslovacos, dos croatas
aos bálticos, dos romenos aos húngaros, e não apenas dos «alemães étnicos» que se
encontravam no terreno; também chamou a atenção para o veto a qualquer socorro
aos judeus perseguidos pelos Einsatzgruppen, [Esquadrões da morte paramilitares na
Alemanha nazi – NT] ordem dada aos seus padres pelos bispos, como o lituano Brizgys.
Foi nas fileiras da polícia bált ica, bielorrussa e ucraniana que se recrutaram os
elementos da divisão SS Galicia, formada em 1942-1943 (com 20 000 ucranianos
selecionados entre o dobro dos voluntários). Os carrascos foram escoltados pelos seus
clérigos, como aconteceu depois do massacre de 6 000 judeus «que durou três dias e
três noites», de que foi testemunha o jovem Simon Wiesenthal. Perpetrado no verão
de 1941 pela OUN para «celebrar [o seu] regresso a Lvov» (jurisdição de monsenhor
Szepticky), o massacre foi interrompido pelo toque a rebate dos sinos da igreja, com
«uma voz ucraniana grit[ando]: “Chega, por esta no ite! É a hora da missa”». Isto é
um exemplo banal da cobertura dada pelo clero, de cima a baixo na hierarquia, aos
cruzados católicos contra os russos e os judeus, pois, apesar da lenda de que teria
havido reticências por parte da Igreja, de resto posteriores a Estalinegrado, a
respeito das atrocidades alemãs ou equiparadas, os bispos controlaram de muito
perto esta aliança entre laicos e padres, como o velho bispo uniata [Diz-se do cristão
grego que aceita a autoridade do papa – NT] de Lemberg (Lvov), monsenhor Szepticky,
verdadeiro símbolo do avanço germânico em terra eslava: o seu combate antirrusso (e
antipolaco) ao serviço da Áustria (antes de 1914), a seguir do Reich (depois de 1917),
17 Carlo Falconi, Le silence de Pie XII 1939-1945, essai fondé sur des documents d'archives recueillis
par l'auteur en Pologne et en Yougoslavie , Monaco, Ed. du Rocher, 1965, Santa-Sé..., vol. 40,
depois de setembro-outubro 1939, e Pologne..., vol. 329, Léon Papeleux, Les silences de Pie XII ,
Bruxelles, Vokaer, 1980, 3ª parte, e O Vaticano..., cap. 10.
11
foi relançado pela guerra a partir de junho de 1941; a sua cruzada e o trabalho dos
seus subordinados nunca fizeram distinção, de facto, entre o imperativo de «vencer
de uma vez por todas o comunismo ateu e militante» e o desembaraçarem-se dos
judeus locais. Como os seus pares, benzeu a divisão SS Galicia, «guiada pelos seus
capelães uniatas», que se lançou ao ataque «dos bolcheviques ímpios»1 8.
O que é válido para a Rússia vale para toda a Europa central e oriental, onde a
hierarquia não só não protegeu as vítimas, como proibiu a sua proteção. Não se
percebe por que milagre os bispos reconhecidamente antissemitas da Polónia,
Hungria, Eslováquia, Roménia, que colaboraram nos países pogromistas [Países que
praticaram pogroms, massacres, particularmente de judeus – NT] dotados de uma severa
legislação antijudia antes da guerra, que participaram ativamente na elaboração e na
adoção destas leis (e que mostraram, em 1945, a sua inclinação para repetir) se
tivessem de repente apiedado dos perseguidos. «É part icularmente significativo
sublinhar que os lituanos não judeus foram encarregados de ir à procura de
candidatos» à exterminação, observou Taylor no seu memorando de 26 de setembro
de 1942 enviado ao secretário de Estado Magnioli, «no Ghetto da morte de Varsóvia
(…) É uma tragédia que a população polaca esteja a ser açulada pelos alemães
contra os judeus e que as relações entre os polacos e os judeus tenham sido
agravadas ao último grau. Isto é particularmente grave em Lemberg» – feudo de
Szepticky. Raul Hilberg desenhou, país a país, um quadro impiedoso de uma atitude
em perfeita cont inuidade com um longo passado; ora, as circulares dos bispos aos
padres, como a atrás citada na Lituânia e todas as outras intervenções, implicavam o
aval de um núncio.
Conhece-se a importante contribuição da Eslováquia de monsenhor Tiso, antigo
arcebispo de Bratislava, considerado por Hilberg como estando entre «os satélites
por excelência», para as deportações de judeus. Os arquivos da altura, trazidos à luz
do dia depois da guerra, provaram que a «atitude [dos bispos] a respeito do
massacre dos judeus da Eslováquia [tinha sido], pelo menos, suspeita» e que não se
tinham mostrado «muito desinteressados dos bens deste mundo». O cônsul de
França em Bratislava, na altura do processo «por alta traição» de janeiro de 1951 de
três bispos eslovacos, defensores do partido Hlinka [Andrej Hlinka (1864-1938), padre
católico eslovaco, jornalista e banqueiro, líder do Partido Popular Eslovaco no período de 1938 a 1945,
durante os anos da Segunda Guerra Mundial; este partido criou uma milícia de ultradireita, de caráter
terrorista, conhecida como Guarda Hlinka – NT] e, depois, apoiante de Tiso (Monsenhores
Vojtassak, de Spis, Buzalka, auxiliar de Bratislava e Godjic, uniata de Presov), para
apresentar as confissões autenticadas pelos arquivos do Estado eslovaco dizia,
amenizando a descrição: Vojtassak aprovou, entre outras decisões de Tiso, a
deportação dos judeus (ata estenografada da sessão de 3 de fevereiro de 1943) e
participou na pilhagem dos seus bens, «designadamente em Baldovce e em
Betlanova», aumentando o seu património, do qual tirava um rendimento anual de 3
a 4 milhões de coroas.
18 Raul Hilberg, La destruction des juifs d'Europe, Paris, Gallimard, 1991, 2 vol. (reed.), passim depois
o cap. VII (exemplo, vol. 1, p. 266); Wiesenthal, Mark Aarons e John Loftus, Des nazis..., cap. 8;
Hansjakob Stehle, Eastern Politics of the Vatican 1917-1979, Athens, Ohio, 1981, p. 219-220 (na
base dos ADSS, vol. 3), e o Vaticano..., passim.
12
A católica Hungria, colocada entre «os satélites oportunistas», mostrou-se
igualmente fiel às suas tradições pogromistas: mesmo em 1944, quando todos os seus
dirigentes, incluindo os clérigos, se esforçavam para escapar à sorte de terem de se
desculpar aos olhos dos anglo-saxónicos, o primaz Seredi não pôde, na sua carta
pastoral de 29 de junho, censurar a violência do seu antissemit ismo com a desculpa
da sua impotência total de impedir o que quer que fosse. O seu sucessor, nomeado em
1941, o antigo bispo de Veszprem Mindszenty, Joseph Pehm de seu verdadeiro nome,
alemão de «origem suábia» [A Suábia é uma região administrativa do Estado alemão da Baviera,
cuja capital é a cidade de Augsburgo – NT] não tinha nada a invejar-lhe: obscuro até à sua
glória do pós-guerra (dois volumes dos arquivos Hungria 1944… desapareceram do
Quai d‟Orsay) [Expressão usada para referir o Ministério dos Negócios Estrangeiros francês – NT]
lembrou o seu passado pela audácia das suas declarações antissemitas,
designadamente em 1948, perante Bertha Gaster, correspondente em Viena do News
Chronicle: esta filha do rabino de Whitechapel (coisa que ele ignorava) fez-lhe uma
certa publicidade.
Na Croácia, a «purificação étnica» atingiu quer os sérvios ortodoxos quer os judeus:
as perseguições são conhecidas há muito tempo, graças às pesquisas de Falconi nos
fundos de Estado jugoslavos, perfeitamente fiáveis, apesar de Rhodes reprovar a este
autor católico o ter «invalidado algumas das [suas] conclusões anticatólicas» por
causa de não dominar o servo-croata e o seu recurso aos «documentos oficiais
comunistas» habilmente selecionados1 9. O argumento parece tão sério como aquele
que impediria os judeus de se interessarem pela Shoah [Shoah, que significa "calamidade"
em hebreu, tornou-se o termo utilizado para significar o Holocausto do século XX – NT] e Belgrado
não teve necessidade de «selecionar». O dossiê católico-croata é de uma tal crueza
que resistiu às tentações revisionistas da guerra fria por parte dos diplomatas
franceses. Não foi Tito que inventou os números enormes dos massacres de sérvios e
judeus pelo «Estado livre da Croácia» de Pavelic, foram os arquivos de guerra que
determinaram a sua avaliação: no fim do verão de 1942, um pouco mais de um ano
depois da invasão da Jugoslávia, o diplomata americano Biddle, ministro junto do
governo jugoslavo no exílio, considerou apenas os «atrozes massacres de sérvios» e
avaliou-os, com números confirmados, em «600 000 homens, mulheres e crianças».
Esses massacres prosseguiriam «com frenesim» e eram acompanhados pela
«destruição de tudo o que era sérvio na Bósnia». Depois dos trabalhos de Falconi e
de Aarons e Loftus, deixa de se colocar a questão de saber se Roma ignorou as
atividades do Estado de Pavelic e a grande contribuição que lhe foi dada por um
«clero (…) no conjunto composto por fanáticos ou homens petrificados pelo medo»
de alto a baixo na hierarquia. O Vaticano, com Pio XII a chefiá-lo, apoiou o regime
ustachi [Os ustachis, (em servo-croata Ustaše) eram um movimento separatista croata, antisemita,
fascista e antijugoslavo. O movimento chamava-se Ustacha e os seus membros genericamente
chamavam-se ustachis. Depois dos anos de clandestinidade, os ustachis tomaram o poder na Croácia ,
em 1941, com o apoio da Alemanha e da Itália, depois da invasão e do desmembramento d a Jugoslávia.
Instauraram uma ditadura particularmente feroz e assassina tendo perpetrado numerosos massacres
das populações sérvias, ciganas e judias da Croácia e da Bósnia-Herzegovina – NT] até à sua queda.
19 Foreign Relations of the United States (FRUS) 1942, vol. III, p. 776: Raul Hilberg, La destruction...,
passim depois o cap. VII, janeiro 1951, Checoslováquia 1944..., vol. 154, e julho 1948, Hungria
1944..., vol. 18. Anthony Rhodes, The Vatican in the Age of Dictators 1922-1945, London, Hodder
and Stoughton, 1973, p. 327, cuja exposição infirma em parte a desconfiança, p. 323-336.
13
Deu cobertura aos crimes dos padres, desde a participação pessoal ou adesão às
organizações nazis, até aos massacres (em campos de concentração e todos os outros
locais, incluindo os edifícios religiosos ortodoxos) e às pilhagens dos bens dos judeus
e ortodoxos, atestados por documentos escritos por Saric (bispo de Serajevo, um dos
chefes de longa data do campo antissérvio) e Rozman (bispo de Ljubljana). Ele não
ignorava nada, como vários chefes da Cúria não ignoravam. Tisserant, natural de
Lorena, secretário da Oriental [O Papa Pio IX criou uma secção dedicada às Igrejas orientais no
seio da Congregação De propaganda fide (para a propaganda da fé) em 1862. Esta secção foi
autonomizada em 1917 pelo papa Bento XV, com o nome de Congregação para a Igreja oriental – NT]
diretamente visado no dossiê, diante do delegado de Pavelic no Vaticano, atribuiu as
culpas à barbárie dos croatas, notória desde «a Guerra dos Trinta anos», em que
devastaram a sua região natal. Tardini viu nas suas declarações (sem o designar
claramente) «erros» de juventude. Pio XII preferiu falar dos riscos da derrota da
«cruzada militar em comum contra o bolchevismo».
A «resistência» de Stepinac – candidato pró-alemão que, em 1937, tinha sucedido ao
alemão Bauer em Zagreb e hoje nomeado para canonização – é uma lenda. Stella
Alexander, nos seus dois livros apologéticos, não encontra na sua única fonte
primária - Katolicki List, jornal do arcebispado - senão sinais de adesão ao regime:
todos os documentos contraditórios são de segunda mão. Os fundos documentais
franceses, o dobro do livro de Falconi, acrescentam-lhe precisões. Os arquivos
ustaches, que foram simbolicamente reagrupados no palácio arquiepiscopal de
Zagreb, foram descobertos pelos titistas [Apoiantes do marechal Tito. No final dos anos trinta
torna-se dirigente do Partido Comunista Jugoslavo. Durante a II Guerra mundial dirigiu a resistência
no seu país. Reunificou o país que tinha sido desmembrado com a invasão alemã de 1941 – NT] em
1945: aí se encontravam, entre outras, muitas fotos de Stepinac fazendo a saudação
ustachi (braço levantado) junto de altos funcionários; e textos, como a sua circular
aos bispos, publicada no seu jornal de 29 de abril de 1941, glorificando o «Estado
croata ressuscitado» e «o chefe de Estado croata» e ordenando um «„Te Deum‟
solene em todas as igrejas paroquiais». «Não existe nenhum documento dele
protestando contra os crimes cometidos na Croácia pelos ustachis e os alemães». Os
horrores acumulados pelo «ocupante e (…) os ustachis [, com os quais] muitos chefes
[muçulmanos] colaboraram», descobertos ainda em 1945, confirmam a fusão da
Igreja e do Estado de Pavelic. Pululavam os mosteiros-arsenal, como o de Siroki Bijeg
(na Herzegovina), onde os franciscanos criminosos de guerra foram presos em 1945.
O tesouro ustachi, encontrado no início de 1946 no convento de Kaptol, dos
franciscanos de Zagreb, tinha jóias, ouro, dentes em ouro fixados em maxilares
inteiros, anéis em dedos cortados, etc., provenientes da pilhagem dos ortodoxos e dos
judeus assassinados em massa; uma guia de embalagem redigida para cada caixa
provava a presença de funcionários ustachis em todas as operações. Não foram
apenas «certos padres exaltados que foram, pelo ódio e pelo medo do comunismo,
ao ponto de ajudar os ustachis e a Wehrmacht (…) durante a ocupação», mas o
conjunto de um corpo dominado pelos franciscanos: a Igreja jugoslava tinha-se
«comprometido a tal ponto que seria possível elaborar contra ela um processo
acusatório invocando apenas testemunhos religiosos». Guy Radenac, cônsul em
Zagreb, ouvia ainda esses testemunhos mais de dois anos depois da guerra,
significativos do que Falconi chamou «hedionda mistura de carnificinas e de festas»:
os massacres de ortodoxos, como o de Glina em (maio) de 1941, confirmado pelo
14
relato do padre Thomas, trapista [A Ordem Trapista (oficialmente, Ordem dos Cistercienses
Reformados de Estrita Observância, ou em latim Ordo Cisterciensium Strictioris Observantiæ,
OCSO), é uma congregação religiosa católica derivada da Ordem de Cister. O seu nome é devido ao
mosteiro cisterciense de Nôtre-Dame de la Trappe. Os trapistas são monges beneditinos cenobitas, isto
é, vivem em comunidade – NT] francês refugiado durante a guerra em Banja-Luka: 2 000
mortos durante a noite, homens, mulheres e crianças, assassinados e pilhados; as
festividades com o ocupante, os «grandes jantares em honra dos oficiais alemães»
organizados por um convento em que se serviam «bolos (sic) (sic no texto)
ornamentados com cruzes gamadas» descritos pelo padre Loewenbrück, beneditino
francês de Pleterje (segundo o qual «sozinhos, entre as ordens sem clausura, os
dominicanos foram irrepreensíveis» mas foram todos mortos por uma bomba
britânica no fim da guerra). Porque é impossível dissociar o martírio dos sérvios
ortodoxos do dos judeus jugoslavos, evoquemos a «conversão forçada» dos
ortodoxos, intelligentsia estritamente excluída na medida em que era considerada
irrecuperável: este regresso à «Inquisição espanhola» obrigava as vítimas, quando
não tinham sido massacradas de imediato, a «escolher» entre a adesão ao catolicismo
e a morte. O decreto ustachi de 3 de maio (completado por muitas outras medidas)
que fixava as regras, não foi apenas uma ordem ustachi, mas também um texto
vaticano ratificado por Tisserant [Eugène Tisserant começa a sua missão eclesiástica tornando -
se, aos 24 anos, conservador dos manuscritos orientais da Biblioteca vaticana. Durante a I Guerra
mundial foi oficial intérprete, tornando-se membro dos serviços secretos franceses da secção de África
do Estado-maior do Exército. Entre 1938 e 1949 é presidente da Comissão bíblica pontifical. Foi
também secretário da Congregação para as Igrejas orientais e arquivista dos Arquivos secretos do
Vaticano – NT] .Belgrado esperou por 1952 para fazer essa revelação num Livro Branco
sobre as relações Vaticano-«Estado independente da Croácia» extraído ao mesmo
tempo do «diário pessoal» de Stepinac e dos arquivos ustachis: desculpava o
secretário francês da Oriental, único prelado «romano» hostil à «ata de conversão»,
que não tinha assinado senão «contra a sua vontade», que reproduzia os processos
verbais das suas conversas tempestuosas com Rusinovic (fontes de Falconi). Os
franceses, alarmados com a enormidade destas revelações, consultaram Tisserant:
invocando o «papel moderador» de Stepinac, confirmou tudo, acrescentando que «a
secretaria de Estado tinha sido bastante branda»20.
…na Cúria
São conhecidos desde os anos sessenta os silêncios de Pio XII sobre «o
anticrist ianismo do regime hitleriano, as perseguições, as deportações, os métodos
abomináveis de guerra e de ocupação» alemães (de Blesson). O dossiê foi
definitivamente tratado por Saul Friedlander na base de documentos alemães e dos
volumes III e II dos FRUS [Foreign Relations of the U.S. (FRUS): Relações externas dos Estados
Unidos – NT] de 1942 e de 1943 (que completam os fundos franceses). Dali sobressai
20 9 setembro, FRUS 1942, vol. III, p. 812-813, maio 1949, Jugoslávia 1944..., vol. 36, e n° 5 do Serviço
de Imprensa 10 junho 1941, Guerra 1939-1945, Vichy-Europa (Vichy-Europa...), vol. 548, Le
Vaticain..., cap. 8, 10, 11, Stella Alexander, The triple myth: a life of Archbishop Alojzije Stepinac ,
New York, Columbia University Press, 1987, cap. VI-VIII, Church and State in Yugoslavia since
1945, Cambridge, Cambridge University Press, 1979, cap. 1; Carlo Falconi, Le silence..., passim;
dezembro 1945, setembro 1946, Jugoslavia 1944..., vol. 34, setembro 1948, setembro 1954, ibid.,
vol. 36 e 107, janeiro, fevereiro 1946, ibid., vol. 34, agosto 1947, ibid., vol. 36; agosto 1952, ibid., vol.
105.
15
que a Cúria foi informada ao mais pequeno detalhe pelas fontes judias, americanas (o
americano Myron Taylor, «representante pessoal» de Roosevelt «junto do papa Pio
XII», forneceu-lhe uma lista completa das exterminações na Polónia, em 26 de
setembro de 1942) e alemãs; que ela não os denunciou mesmo quando, entre julho e
outubro de 1942, «os Estados Unidos e outros governos», entre eles o da Grã-
Bretanha, uniram os seus «esforços (…) para obter do papa um protesto público
contra as atrocidades nazis nos territórios ocupados pela Alemanha». Os diversos
motivos invocados antecipam ao mesmo tempo a negação dos crimes e a tese da
inocência alemã:
. «o papa nos seus discursos já condenou as ofensas contra a moral em tempo de
guerra e que ser mais específico, atualmente, só servirá para agravar as coisas»;
. «o povo alemão, na amargura da sua derrota, censurá-lo-á mais tarde por ter
contribuído, ainda que indiretamente, para esta derrota (…) é precisamente uma tal
acusação que foi feita à Santa Sé pelos alemães depois da última guerra, por causa
de certas frases pronunciadas e de certas atitudes adotadas por Bento XV [durante]
as hostilidades» (Montini a Tittmann);
. «chegaram igualmente à Santa Sé, através de outras fontes, relatórios sobre as
medidas severas („severe measures‟) tomadas contra os não-arianos mas que até ao
presente não tinha sido possível verificar a sua exatidão» (Maglione, 16 de outubro
de 1942, três semanas depois do relatório Taylor sobre a Polónia);
. «a Santa Sé não podia denunciar as atrocidades part iculares („specific‟), mas (…)
tinha condenado muitas vezes as atrocidades em geral» e «não podia verificar os
relatórios dos Aliados a respeito do número de judeus exterminados, „et coetera‟»
(Maglione, 26 de dezembro, depois da condenação solene, em 17, pelas Nações
Unidas «desta política bestial de extermínio a sangue-frio»).
Pio XII usou um duplo argumento em 30 de dezembro de 1942, pouco depois da
mensagem de natal que apresentou a Tittmann, «encarregado de negócios dos
Estados Unidos», como sendo uma resposta aos desejos de todos os que o
pressionavam para «expressar uma palavra („some word‟) de condenação das
atrocidades nazis». Este longo texto insignificante, dividido em «cinco pontos
fundamentais para a pacificação da Sociedade humana» tinha, no quinto ponto,
uma alusão «a centenas de milhares de pessoas que, sem terem nenhuma culpa, pelo
simples facto da sua nacionalidade ou da sua origem étnica, foram votados à morte
ou a uma progressiva extinção»: quatro linhas e três palavras em 13 páginas na
tradução francesa, a que ninguém prestou atenção, nem mesmo Berlim:
. invocou «um certo exagero para fins de propaganda» nos «relatórios dos Aliados
sobre as atrocidades»;
16
. «explicou que, sempre que falasse de atrocidades, não podia mencionar os nazis
sem mencionar ao mesmo tempo os bolcheviques, o que (…) poderia não agradar
verdadeiramente aos Aliados»2 1 .
Nem sempre mudos, Pio XII e L‟Osservatore «condenaram os bombardeamentos de
Roma» com paixão até ao verão de 1944 (depois de terem tentado evitá-los desde
1940), e os que, depois de 1942, foram lançados contra as cidades do Reich. Os seus
gritos foram muito mais notados na medida em que o papa se quedou mudo quanto
às deportações em massa dos judeus, como as que t iveram lugar «debaixo das [su]as
janelas» na Roma ocupada pelos alemães, desde os meados de outubro de 1943.
Tinha confiado a Hudal a tarefa de discutir com o general Stahel, comandante geral
de Roma, esta «questão delicada [e] desagradável para as relações germanovaticanas
», mas que foi «liquidada», segundo von Weiszäcker – novo embaixador do
Reich, chegado a partir do início de julho de 1943, para preparar com a Cúria e os
anglo-saxónicos o melhor futuro possível para a Alemanha – em menos de dez
semanas: esta missão por si mesma constitui uma confissão, tendo em conta o
antissemitismo do nazi austríaco Hudal e o seu contacto em Roma com Walter Rauff,
«chefe dos serviços de espionagem das SS», «responsável pelo programa das
câmaras de gás móveis» de 1941 no leste (enviado na primavera de 1943 em Roma
por seis meses por Martin Bormann, Rauff foi destacado em setembro «para uma
unidade SS que operava na região de Génova-Milão-Turim» com a mesma missão).
Ainda menos se ouviu de Pio XII sobre as deportações de 1944, designadamente as
dos judeus húngaros, que se tornaram de massas a partir de maio22.
A RECUPERAÇÃO-RECICLAGEM DOS CARRASCOS
A partir deste momento, e na perspetiva de uma «viragem das alianças» que se
mostrava impossível do ponto de vista militar geral, mas progrediu em marcha
forçada no plano político, Washington e o Vaticano tinham começado a recuperaçãoreciclagem
dos carrascos: o primeiro, designadamente através de Taylor, e o símbolo
eclesiástico da «mina de ouro» americana em Roma desde 1925, monsenhor
Spellman, financiou em grande parte esta operação de massas, realizada
essencialmente graças à rede eclesiástica do cont inente, que consegue dar sentido aos
«silêncios» de Pacelli23.
Da guerra…
Walter Rauff, chefe da «secção anticomunista», foi, durante as negociações da
rendição separada do Exército alemão de Itália, reveladas em março-abril de 1945, «o
21 Blesson, outubro 1943, Argel..., vol. 1373; FRUS 1942, vol. III, p. 772, 777, FRUS 1942, vol. I, p. 70,
FRUS 1943, vol. II, p. 911-912; dezembro 1942, Vichy-Europa..., vol. 551; FRIEDLANDER S., Pie
XII..., passim.
22 Bombardeamentos, ver sobretudo FRUS 1942, vol. III, p. 800, FRUS 1943, vol. II, p. 910-953, FRUS
1944, vol. IV, p. 1274-1314; 2, 4, Vichy-Europa..., vol. 551, e O Vatican..., cap. 10; sobre os judeus,
Saul Friedlander, Pie XII..., p. 190-205 (especialmente 193-194), Gunther Lewy, The Catholic..., p.
301-302 (et 269-308), Werner Brockdorff, Flucht..., p. 71 sq. e passim, Mark Aarons e John Loftus,
Des nazis..., p. 52-53, 273, e Raul Hilberg, La destruction..., p. 577.
23 Prós e contras da estratégia americana, Le Vatican..., sobretudo cap. 2, 3, 5 e 9 a 11.
17
principal interlocutor» de Allan Dulles, um dos dois irmãos (com Foster) do célebre
escritório de advogados de negócios Dulles, Sullivan e Cromwell, ligados ao banco
Schroeder, sustentáculo de Hitler, e executores, após 1919, da liquidação doce de
Versalhes. As conversações falharam aparentemente – a capitulação em Itália
precedeu não em muito (2 de maio) a capitulação geral – mas salvaram «os oficiais
nazis que lá se juntaram» como Karl Wolff, «chefe do estado-maior pessoal de
Himmler» e de um «grupo de intervenção SS» na URSS, «pessoalmente
comprometido no assassinato de 300 000 pessoas», condenado em 1949 a quatro
anos de prisão, de que não cumpriu mais do «que uma semana». Estas negociações
tinham tido por mediador o Vaticano, onde, entre 1943 e 1944, Rauff e Hudal criaram
a «rede de evasão» dos criminosos de guerra, coberta pelos anglo-americanos (e os
franceses), em funcionamento muito antes de maio de 194524.
O que nós sabemos das relações entre Hudal e Pio XII infirma a tese dos
historiadores oficiais da Cúria, como o P.e Graham, segundo o qual «“Monsenhor
Hudal não desempenhou nenhum pape l” no seio da Comissão pontifical de
assistência»; e aponta para a tese de Ladislas Farago, que afirma que o papa içou
Hudal «ao nível mais alto da hierarquia da Santa Sé» e o tornou o principal adjunto
de Montini (futuro Paulo VI) na «operação de exfiltração dos nazis». Hudal aparece
nas investigações dos últimos decénios como o pivô, com os monsenhores Montini,
Riberi e Siri, arcebispo de Génova, do dispositivo montado em Roma e em toda a
Europa ocupada, financiado pelos tesouros nazis e equiparados, «branqueados» e
engrossados pelo mercado negro e os fundos aliados. Em 23 de agosto de 1944, com a
cobertura de «ação caritativa a favor dos prisioneiros de guerra», a Santa Sé pediu
às autoridades aliadas o envio de um «representante» acompanhado por um
secretário, para levar «aos prisioneiros católicos uma assistência religiosa normal».
Depois da concordância americana, em 2 de dezembro, reclamou para o «diretor
espiritual dos alemães, residente em Itália» - Hudal – o direito de «visitar em Itália
os internados civis de língua alemã». Hudal encetou assim a sua missão nas Rat
Lines (nome de código anglo-saxónico das fileiras da evasão), com Rauff e Riberi,
igualmente encarregado, em novembro de 1944, «de se ocupar oficialmente, em
nome do Santo Padre, dos alemães detidos em Itália pelos Aliados»: «a comissão
pontifical de Assistência» assim criada, «instrumento eficaz da política americanovaticana
», subtrairia em massa ao castigo os criminosos alemães, croatas, húngaros,
eslovacos, ucranianos, bálticos, franceses, etc., com o apoio permanente, entre
outros, de Taylor e do RP Carroll, segundo sucessor, desde o final de 1940 (depois de
monsenhor Hurley), de Spellman em Roma.
Trabalhos alemães, anglo-saxónicos, cartas do Quai d‟Orsay de todas as
proveniências infirmam as conclusões da equipa de historiadores franceses aos quais
Monsenhor Decoutray confiou o exame dos arquivos eclesiásticos para estudar o
papel da Igreja na salvação do ex-miliciano Touvier [Paul Claude Marie Touvier (1915-1996)
foi um colaboracionista nazi na França ocupada durante a II Guerra mundial. Em 1994, Touvier
tornou-se o primeiro francês condenado por crimes contra a humanidade – NT], exemplo típico
24 Setembro 1944, Santa Sé 1944..., vol. 8, julho 1945, Estados-Unidos 1944..., vol. 171, Mark Aarons e
John Loftus Des nazis.., p. 57-60, 275, 343, p. 958 (e indíce, Wolff); Mark Aarons e John Loftus, p.
317-329 (sobre os franceses, cap. 11 e p. 316), Werner Brockdorff, Flucht..., loc. cit.
18
dos criminosos de guerra mascarados de refugiados aniquilados pelo destino: alguns
prelados franceses inconscientes ou mal informados teriam, por caridade, socorrido
um carrasco que tomaram por vítima, sem estarem mandatados ou apoiados. Uma
parte da Igreja francesa comprometeu-se na realidade como todos os seus homólogos
numa operação de Roma. Desde novembro de 1944, Tardini, da secretaria de Estado,
justificou perante o diplomata francês Guérin o apelo feito pelos «quatro padres
americanos» à secretaria de Estado «pela importância crescente dos negócios»
comuns, de auxílio às necessidades da correspondência em inglês «em particular da
organização do socorro», que implicavam cooperação. Em fevereiro de 1945, «os
diversos organismos», as duas comissões pontificais de Assistência aos refugiados e
aos repatriados, foram agrupadas «numa única obra, a comissão pontifical de
Assistência», financiada pela «UNRRA [United Nations Relief and Rehabilitation
Administration (UNRRA), organização das Nações Unidas criada em 1943 numa conferência de 44
nações, na Casa Branca. A sua missão era prestar assistência económica às nações europeias depois da
II Guerra mundial e repatriar e dar apoio aos refugiados que ficassem sob o controlo dos Aliados.
Organização dominada fundamentalmente pelos EUA – NT]» - os Estados Unidos - «por
intermédio do Vaticano». Na viragem de 1944, funcionava em Roma e em toda a
Itália, através «dos centros diocesanos paroquiais» e no estrangeiro, para as suas
várias missões, «algumas das quais se renderam na Alemanha, na Áustria e na
Hungria». Os «refugiados políticos» chegados de Itália «são dirigidos ao padre
Faller», residente na Piazza Cairoli, «religioso alemão que se ocupa do centro de
acolhimento destinado a todos os refugiados que se encontram na Itália. Este
centro, que teve uma atividade particular em 1944 e 1945, recebeu
indiscriminadamente os refugiados de todas as nacionalidades vindos da Europa
Central e part icularmente da Alemanha». Faller «põe-nos em contacto com o padre
[francês] Blondeau», do hospital Fato Bene Fratelli, na ilha do rio Tibre. Blondeau,
pivô de uma rede de «conventos cujo pessoal era parcialmente francês», «comunicalhes
o endereço de um convento em Roma suscetível de os albergar». Faller envia-os
também a Riberi, via Pó, que «lhes entrega um cartão que dava acesso a uma messe
pontifical». «A comissão», que trabalhava «em coordenação com as autoridades
italianas ou aliadas e com a UNRRA», a partir de 1944, serviu «três milhões de
refeições» no refeitório pontifical da Via Pó. Blondeau «envia por fim a cada um,
consoante a sua situação, uma soma em dinheiro» para a compra de roupas e
objetos de primeira necessidade. Últ ima etapa: «alguns refugiados obtiveram
passaportes para se dirigirem à América do Sul»: a Cruz Vermelha internacional, a
pedido dos anglo-saxões muito influentes na Suíça, enviou a Hudal, para Santa
Maria dell‟Anima, esses passaportes cujo fluxo aumentaria a partir de maio de 1945.
Grandes peixes tinham já escapado da rede: Bormann, considerado por Hilberg como
morto em 1945 durante «a batalha de Berlim», «teria deixado a Alemanha a 10 de
maio de 1945 pelo Tirol e para a Argentina, alguns meses depois de segredo romano
sob a proteção de monsenhor Hudal», segundo Jen-Pierre Blancpain, e de Rauff
(Werner Brockdorff); a transferência deste protegido da Cúria verificou-se, segundo
Paul Manning, em 1948, tendo-lhe sido entregue uma grossa fatia da «reserva
financeira do Deutsh Bank»25 .
25 L. Farago, Aftermath, Londres, Pan, 1976, p. 210 sq., Mark Aarons e John Loftus, Des nazis.., p. 50-
69; Léon Papeleux, L'action caritative du Saint-Siège en faveur des prisonniers de guerre (1939-
1945), Bruxelles, Instituto histórico belga de Rome, 1991 , p. 170 e 268-269, novembro 1944, Etats19
… até ao pós-guerra
A ideologia da inocência alemã que, nos discursos do papa, tinha evoluído depois do
tempo da derrota assegurada, foi, no decorrer dos anos da guerra fria of icial,
libertado de toda a autocensura. Era parte visível do iceberg da prática, uma vez que
a salvação dos criminosos de guerra prosseguiu durante muito tempo sob a batuta de
Hudal, cuja obra póstuma de 1976 (Römische Tagebücher. Lebensbeichte eines alten
Bischofs) [Diários romanos. Confissões de um velho bispo – NT] reivindica um nazismo
intacto e «a sorte de ter podido visitar, nas suas masmorras e nos campos, tantas
vítimas do pós-guerra para as consolar, ajudar e prover de falsos documentos que
lhes permitissem fugir para um país mais feliz». Entre eles figurava Franz Stangl,
antigo comandante dos campos de Sobibor e depois de Treblinka, que ele acolheu
desta forma: «O senhor deve ser Franz Stangl. Já estava à sua espera»; alojou-o no
Germanicum [Collegium Germanicum et Hungaricum de Urbe conhecido também simplesmente
como Collegium Germanicum, fundado em 1552, é um seminário germanófono para formação de
sacerdotes católicos em Roma – NT] antes de lhe enviar o «seu novo passaporte (…) da
Cruz-Vermelha».
O empreendimento, que mobilizou todos os episcopados, implicou a Suíça, sede do
Comité Internacional da Cruz Vermelha, controlado de facto por Washington,
submetida a uma pressão à qual o seu estatuto de refúgio dos interesses
entrecruzados de capitais e os seus laços diretos com o capital a lemão tornavam
sensível. A França foi, no outono de 1945, o primeiro alvo da campanha incansável do
CICR [Comité Internacional de la Croix Rouge, em francês, Comité Internacional da Cruz Vermelha –
NT] a favor da proteção dos «prisioneiros alemães [que] os franceses mata[va]m à
fome». Em agosto, o núncio de Roncalli (futuro João XXIII), em Paris recebeu do
Quai d‟Orsay o livre acesso a todos os campos. Visitou-os assiduamente, com o
pretexto de levar «palavras de reconforto e encorajamento de ordem espiritual» aos
prisioneiros de guerra em geral e aos seminaristas em particular, de Chartres a
Monpellier, passando por Noisy-le-Sec. Na viragem de 1945, os campos franceses sob
autoridade americana, tais como os da Normandia, de Brienne-le-château e Mailly,
eram passadores de alemães e «Jugoslavos»: os prisioneiros de guerra vestiam sobre
os seus fatos de prisioneiros, com o distint ivo POW (prisoner of war) [Prisioneiro de
guerra – NT] um «uniforme americano sem nenhuma marca particular»; «nenhuma
medida de precaução particular» era tomada em relação aos «criminosos de guerra
(…) reconhecidos», munidos de falsos documentos26 pelos franceses da «Mão
Vermelha» (organização clandestina de extrema direita).
A missão pontifical de Socorro
Unis 1944..., vol. 200, agosto, fevereiro, março, Santa Sé 1944..., vol. 9; René Rémond (dir.) e alii,
Paul Touvier et l'Eglise, Paris, Fayard, 1992, passim, Raul Hilberg, La destruction..., p. 942 (e
índice), Jean-Pierre Blancpain, «Amérique latine et nazisme. De l'immigration juive au mythe du
IVè Reich (1933-1945)», L'information historique, n° 5, vol. 53, 1991, p. 176, Mark Aarons e John
Loftus, p. 326 (Manning), Werner Brockdorff, Flucht..., loc. cit., 83, e passim.
26 Le Vatican..., cap. 10-11; J.-P. Blancpain , «Amérique (...)», p. 174-175, Gitta Sereny, Au fond..., p. 17,
320, 323, 336-337; julho, outubro, agosto 1945; visitas, novembro, dezembro 1945, fevereiro, abriljunho;
nota DU n° 7 63, 15 março 1946, Alemanha 1944..., vol. 22.
20
Em outubro de 1945, Montini, interlocutor privilegiado dos americanos (principal
agente do Vaticano e chefe das Rat Lines, segundo Aarons e Loftus) fez, em Maritain,
umas semi-confissões sobre os caminhos da evasão sul-americana, «a missão
pontifical de Socorro» para a «Áustria e a Alemanha», dirigida por monsenhor
Chiarlo, antigo núncio na América do Sul e com posto em Francoforte (na zona
americana): «os seus colaboradores pertencem a todas as nacionalidades da Europa
central e levarão até às diversas populações, especialmente refugiados e fugit ivos,
„assistência espiritual e também uma ajuda material‟». Monsenhor Chiarlo e
Gawlina (capelão do exército polaco) esquadrinhavam, desde novembro de 1945, as
zonas americana e britânica (os franceses ainda lhes vedavam a sua) para «visitar o
maior número possível de antigos prisioneiros de guerra, presos políticos e
sobretudo refugiados de todas as nacionalidades» - germânica sobretudo. Em
dezembro, o dispositivo estava pronto e, nos dias 5 e 6, reuniram em Berlim cinco
prelados encarregados do Leste, com delegados das organizações de socorro e
acolhimento dos refugiados alemães. Lot, representante do nazismo episcopal, apesar
da lenda de «resistente» do seu presidente, von Preysing, arcebispo de Berlim (e um
dos três cardeais da primeira promoção alemã do pós-guerra, com von Galen e
Frings) – lenda por falta de informação, porque o seu dossiê de guerra, em que os
investigadores dos anos sessenta tinham interesse, desapareceu. Na reunião que ele
convocou para 21 de maio de 1947, na sua residência de Trèves, o bispo Bornewasser
foi claro quanto ao papel dos seus na fuga dos nazis: «é atualmente dever absoluto e
também do interesse da Igreja conduzir o povo alemão para se lembrar ainda com
orgulho da sua nobre origem alemã. É a juventude que terá toda a nossa solicitude,
organizaremos cursos noturnos onde os nossos jovens terão a possibilidade de se
aperfeiçoar no conhecimento de línguas estrangeiras, de preferência o espanhol e o
inglês, para que, os que o desejem ou tenham de fazê-lo, emigrar para a América do
Sul possam aí mostrar o rosto do “verdadeiro germanismo”. Devem educar a
juventude no sentido de uma Alemanha “total e nacional”».
O organismo «pontifical» tomou forma definitiva em maio de 1946, em que
monsenhor Munch, bispo germano-americano de Fargo, se tornou «representante da
Santa Sé» na Alemanha e chefe da «missão vaticana da Assistência aos refugiados»
- no lugar de Chiarlo, nomeado núncio no Brasil (grande centro de acolhimento).
Nascido no Wisconsin «de cepa alemã», despachado pelo «departamento de
Guerra», Munch chegou em agosto de 1946 a Berlim, «num avião militar
americano». «Capelão das forças alemãs de ocupação», sucedeu a Spellman, que
mantinha a supervisão de «todos os assuntos importantes» e se reuniria em breve ao
clã dos favoritos «de Pio XII e de monsenhor Tardini». Em março de 1947, quando
Pio XII, perante o diretor para Itália da Associated Press, Guptill, «reivindic[ou] a
liberdade da Santa Sé, dos bispos e das associações católicas do mundo inteiro» de
prestar «ajuda aos que dela necessitam», sobretudo «aos emigrados e refugiados»,
o trabalho estava já muito avançado. O número das «sopas populares» servidas via
Pó tinha passado dos três milhões em 1944 para 28 771 150 em 1945 e para 40 731
750 em 1946. Os movimentos financeiros eram dirigidos para as zonas de fuga, em
coordenação com as Pie Opere di Religione [Conhecido atualmente como Instituto para as
Obras Religiosas, IOR, é um banco privado, formalmente instituído em 1942 elo papa Pio XII , tem
sede na cidade do Vaticano e é considerado como banco central do Vaticano. O IOR esteve muitas
vezes no centro de escândalos, não apenas financeiros e, entre outros, a falência do Banco Ambrosiano
21
- NT]. Depois de outras cartas, as franceses confirmam o aspeto tentacular de uma
ação que Blondeau atribuiu, em março de 1947, aos «deveres de caridade» sem
convencer Maritain, informado de que «pessoas gravemente suspeitas ou
condenadas por contumácia conseguiram passar para o estrangeiro»27 .
Do refúgio suíço às associações católicas
De leste a oeste a Igreja participou no processo. A Suíça, submetida no segundo
semestre de 1945 à «intervenção americana» permanente, suplantou, no virar de
1945, a UNRRA na «ajuda às populações» da Alemanha e da Áustria e aos alemães
expulsos, com o pretexto «de lutar contra a propaganda soviética». Desde a
«Dádiva Suíça» para «Socorro às crianças» e a Caritas até à «Central sanitária
suíça» da Cruz Vermelha, as ajudas e socorros à «Europa» reunidos pelos meios
financeiros de Zurique a Basileia (com a indústria química ligada à IG Farben à
cabeça) cingiram-se cada vez mais estritamente aos germânicos. Solicitada para
reabilitar o clero protestante alemão, questão da mais alta importância para o
branqueamento dos quadros, a Suíça foi também mobilizada no seu feudo
germanófilo católico. O Vaticano encontrou executantes em muitas dioceses: em
Friburgo, monsenhor Besson (morto em 1944 e substituído pelo cónego Charrière)
onde «as ideias e o nível intelectual [de] uma importante fração d[o] clero e [dos]
fiéis (…) estavam tão paralisados como o poderiam estar os de uma diocese bretã
sob a Ordem moral» [A Ordem moral é uma coligação de direita formada depois de quedas
sucessivas de Napoleão III e do governo republicano provisório. É também o nome de uma linha
política desejada pelo governo de Albert de Broglie, empossado em 27 de maio de 1873 – NT]; na
abadia beneditina de Einsiedeln, «posto de escuta aberto a muitas mensagens»; no
galófobo Tessin, cujo bispo Jelmini transformou o «sanatório» de Agra, perto de
Lugano, de instituição «de notoriedade pública» em «plataforma reguladora para a
evasão dos nazis para a América do Sul» (função banal dos sanatórios suíços, como
Davos, depois de 1945). Jelmini salvava ali os alemães e os seus aliados, como o
abade Jassédé, «excelente francês», disse ele, a quem confiou, em 1947 «a paróquia
de Agra» e o posto de capelão do «sanatório», incluindo «a educação moral e
religiosa» das crianças do Sarre [Região de França – NT] recolhidas: este «antigo agente
da Gestapo (…) condenado por colaboração» foi procurado em 1946 pela polícia de
Orleães28.
Destes traidores e criminosos, a Europa oriental forneceu o grupo mais conhecido,
com a sua gigantesca rede movimentada do lado ucraniano por Monsenhor Bucko,
um dos chefes da cruzada antirrussa. A Croácia aprendia com o exemplo, uma vez
que o auxílio do padre Draganovitch, secretário de Saric, camarada de guerra de
27 Mark Aarons e John Loftus, Des nazis..., passim; outobro 1945, Santa Sé 1944..., vol. 8, setembro,
dezembro 1945, Alemanha 1944..., vol. 67, outubro 1946, maio 1947, ibid., vol. 68; Gordon Zahn,
German..., p. 119- 120, Gunther Lewy, The Catholic..., p. 219 e 227, Annie Lacroix -Riz, «Politique
scolaire et universitaire en Allemagne occupée», Gabriele Clemens, ed., Kultur im besetzten
Deutschland 1945-1949, Franz Steiner Verlag, Stuttgart, 1994, p. 133-136; maio, agosto 1946,
janeiro 1947, Alemanha 1944..., vol. 68, agosto 1946, Uruguay 1944..., vol. 6, agosto, março 1947,
janeiro 1948, Santa Sé 1944..., vol. 9.
28 Janeiro, fevereiro 1946, dezembro 1945, fevereiro, julho 1946 (e 1946-1949), Suíça 1944..., vol. 30;
março 1946, outubro 1945, julho, novembro 1948, ibid., vol. 17, dezembro 1948, ibid., vol. 30, e
novembro 1946, Estados-Unidos 1944..., vol. 173.
22
Magnioli, Montini e Pio XII, tinha subtraído ao castigo cerca de 30 000 criminosos
croatas, no qual se incluíam Pavelic, Saric e Rozman: a «placa giratória [romana] da
operação», «o Instituto San Girolamo» (São Jerónimo), recolhia, antes da sua
partida (de Génova), estes homens reagrupados pelo arcebispo de Zagreb, os
conventos e outras instituições croatas (incluindo a Cruz Vermelha), colocados sob a
tutela de Stepinac, que estava no seu lugar na altura da derrocada; depois pelo altoclérigo
da Áustria e a «missão pontifical» de Salzburgo; e por fim pela Cúria, o
arcebispo de Génova, «a polícia italiana» e muitos chefes da Democracia cristã
(incluindo Gasperi). Não foi senão «com a cumplicidade das autoridades
ocupantes», que «antigos ministros» e responsáveis do regime de Tiso se safaram da
zona americana da Alemanha para Roma. A Santa Sé tratava-os aí com toda a
consideração, no início de 1946: Karel Sidor, ant igo delegado de Tiso e legislador da
perseguição dos judeus para a Eslováquia «ainda autónoma», entre janeiro e março
de 1939, abrigava uma trintena de emigrados no seu palácio romano, entre os quais
Durkansky, o pai de Polakovic, subdirector da Propaganda, e o professor Miskovic,
antigo presidente da «Prol» (sokols [Organização juvenil de cariz militarista nascida na
Checoslováquia, alargando-se a outros países eslavos da Europa central. Teve vários papéis políticos ao
longo da história – NT] católicos) que, antes da sua partida, tinha deixado à «Juventude
Hlinka» o seu «enunciado de instruções» contra o novo regime.
Na primavera de 1946, l‟Unità conduziu uma campanha contra a Pax Romana, antiga
«confederação das associações católicas» sediadas antes da guerra em Friburgo, que
tinha «alargado os seus quadros e ampliado os seus objetivos». Pilar da
reconstrução das «Internacionais católicas», atuando entre Salamanca, Friburgo e
Roma (onde os jesuítas «desempenhariam um papel importante»), concedia falsas
«bolsas de estudos» e verdadeiros falsos passaportes aos «criminosos de guerra
notórios». Madrid tinha como delegado em Itália o jornalista Ruiz, «homem de
confiança do ministro dos Negócios estrangeiros, Artajo, [com o objetivo] de
reagrupar e organizar os (…) fascistas fugit ivos» da Hungria, Bulgária, Roménia,
Jugoslávia e Polónia para os transferir para Espanha. Este fluxo, financiado pelos
Estados Unidos, arrastou a criação em Madrid, nos anos cinquenta, de uma
quantidade de organismos «católicos» para «refugiados políticos».
O papel da Pax Romana, desment ido pelo Popolo [Il Popolo foi um jornal diário político
fundado em Roma em 5 de abril de 1923 por Giuseppe Donati. Foi orgão do Partido popular (1924-
1925), da Democracia Cristiã (1944-1994) e de novo do Partido Popular (1994-2003) – NT], foi
confirmado pelos franceses que, incluindo os católicos, desconfiavam de uma
organização cujos congressos acolhiam, desde 1946, «delegações da Croácia,
Eslováquia, Lituânia, Boémia, Hungria e Polónia» compostas «por jovens
refugiados da Europa central». Segundo Radenac, «os meios ustachis de Zagreb»
divulgavam ainda em 1947 os endereços conhecidos dos conventos que acolhiam
fugitivos, sustentados por bolsas da «Pax romana». Ele mesmo sabia através «de
fonte direta» que o filho mais novo de Radic, refugiado mais de seis semanas em
Roma no «convento de São Jerónimo», acabava de dar «esse endereço a um amigo».
A Caritas desempenhava o mesmo papel, assegurando o socorro às famílias dos
emigrados e de ustachis terroristas no terreno. Os processos jugoslavos definiram
mais precisamente a amplitude do auxílio: o regime, apoiado em «factos reais»,
provou que os culpados, como, em 1952, os franciscanos de Mostar, acusados entre
23
outras coisas de «recetação de ouro e de objetos preciosos pilhados pelos ustaches e
descobertos numa das suas igre jas de Zagreb (…) e de cumplicidade na fuga de exustaches
perseguidos pelos seus crimes durante a guerra», tinham agido «segundo
as directivas do Vaticano»29.
Os que escaparam à barbárie nazi tiveram pior sorte do que os seus carrascos : saído
de Roma em 13 de julho de 1945, Hlond, assim que entrou na sua diocese de Poznan,
organizou com os seus pares os pogroms desencadeados no sul, em Sapieha, Cracóvia
(designadamente em 11 de agosto). A exemplo do «governo» de Londres que Papée
cont inuava a representar, no Vaticano, a «resistência» de extrema-direita (NSZ) foi
encarregada de liquidar os raros sobreviventes judeus (80 000), que tinham fugido
da Polónia em 1939 para se refugiarem na URSS e eram considerados como o
símbolo do inimigo russo (ao ponto de, desde abril de 1946, 50 000 terem de novo
fugido e assim cont inuavam). Promovido a arcebispo de Varsóvia em abril de 1946,
Hlond, como Sapieha, rematou o trabalho noticiando com uma conferência de
imprensa em 12 de julho, o pogrom de Kielce do dia 4, o mais importante (80 mortos,
uma centena de feridos, «a maior parte gravemente»), organizado com a
cumplicidade do bispo local Kaczmarek: esta «monstruosa infelicidade» não devia
nada ao «racismo», «o clérigo de Kielce cumpriu o seu dever», os polacos salvaram a
vida de judeus durante a guerra, etc.: «a culpa tem de ser imputada aos judeus que
ocupam na Polónia postos dirigentes e tentam impor ao país um regime cuja
maioria da população não deseja»; não podia dar uma opinião sobre o NSZ, pois
«está proibido de abordar» os problemas políticos relativos à «Polónia interior»; a
uma pergunta sobre o motivo da não condenação pública, pelo clero, do
antissemitismo depois da libertação, respondeu que um inquérito tinha demonstrado
a inut ilidade do primeiro pelo desaparecimento do segundo: um outro pogrom matou
então trinta judeus na via-férrea Kielce-Czestochowa. Nesta atmosfera cultivada pelo
«Mikolaczik de sotaina» (alcunha de Hlond) a esquerda denunciou «a mão do
Vaticano “protector dos alemães”». Hlond não disse uma palavra sobre o pogrom de
Kielce, o que também fez a grande imprensa americana, demasiado obcecada pelo
anticomunismo para largar este terreno – enquanto os diplomatas franceses no
terreno ferviam de indignação.
Outro indício do sentido dos «silêncios» dos pacellianos: os prelados mais
colaboracionistas – por vezes não dissociáveis dos criminosos de guerra –
conheceram em 1945 uma glória que contrastou com os rigores reservados aos
audaciosos da guerra: tornado cardeal, porque Pio XII foi obrigado a nomeá-lo em
1945 – Paris tinha advertido que recusaria em caso contrário qualquer nomeação
francesa – , Saliège, submetido, como de Solages, a muita humilhação, testemunha-o
eloquentemente30 .
29 Mark Aarons e John Loftus, Des nazis..., 1ª e 2ª partes, Werner Brockdorff, Flucht..., passim; março,
maio 1946, Checoslováquia 1944..., vol. 47, abril 1946, Espanha 1944..., vol. 63, outobro 1946,
Suíça 1944..., vol. 21, agosto 1947, Santa Sé 1944..., vol. 9, março 1952, Roménia 1944..., vol. 88;
junho 1946, agosto 1948, Santa Sé 1944..., vol. 11 e 7; agosto, novembro 1947, janeiro 1948,
Jugoslávia 1944..., vol. 36, e julho 1952, ibid., vol. 105.
30 Julho 1945, a litania dos pogroms de setembro 1945 a julho 1946, Polónia 1944..., vol. 52, Marc
Hillel, Le massacre des survivants en Pologne, 1945 -1947, Paris, Plon, 1985, p. 287 e passim; Le
24
As Atas e Documentos da Santa Sé relativos à Segunda Guerra mundial (ADSS),
documentos oficiais cujas primeiras publicações foram suscitadas pelo escândalo em
torno da peça de Rolf Hochhuth, O vigário, puseram o acento tónico na vontade
profunda, mas sempre autocensurada ou congelada em estado oficioso, de o Vaticano
se opor à «destruição dos judeus da Europa». Face aos «silêncios», é grande a
tentação de investigar os traços do que se poderia ter passado se … A recente obra, de
resto escrupulosa, de Georges Passelecq e Bernardo Suchecky, A encíclica escondida
de Pio XII. Uma oportunidade falhada da Igreja face ao antissemitismo (Paris, La
Découverte, 1995), revela, uma vez mais, os limites metodológicos de uma
investigação que parte do princípio da presunção de inocência apoiada numa
documentação no essencial não original: a consulta dos dossiês originais coloca o
acento tónico sobre a recusa de auxílio da Igreja romana, precocemente
acompanhada da negação ou da desvalorização dos massacres feita pelo Vaticano e,
nos terrenos nacionais, de práticas de perseguição que a Cúria, na hipótese menos
desfavorável, não reprovava. Os arquivos originais colocam-nos mais vezes na lógica
do antissemit ismo, particularmente profundo difundido antes da guerra – e depois,
por muito tempo – por parte da instituição católica.

1 Gérard Cholvy e Yves-Marie Hilaire et alii, Histoire religieuse de la France, Toulouse, Privat, 1984-
1986, t. 3, p. 57, e Xavier de Montclos, Les chrétiens face au nazisme et au stalinisme. L'épreuve
totalitaire, 1939-1945, Bruxelas, Ed. Complexe, 1991, p. 278 e 34, etc.
2 Tudo a que aqui aludimos é longamente exposto em diversos capítulos (onze, sobretudo 4 e de 7 a 11)
da nossa obra Le Vatican, l'Europe et le Reich de la Première Guerre mondiale à la Guerre froide, a
publicar, Armand Colin, setembro de 1996: todas as referências se encontram aí, com as suas cotas
precisas.

* Professora na Universidade de Toulouse-le-Mirail, atualmente em Paris 7.
Vatican..., chap. 11 e a nossa comunicação «Le Vatican, la France et l'Allemagne après les deux
guerres mondiales», Georges-Henri Soutou e Rainer Hudemann, Le rôle des tiers dans les
relations franco-allemandes, Atas do colóquio de Paray-le-Monial, 6-8 octobre 1994, a publicar,
1996.