2 de março de 1998

Força e falhas do Manifesto

James Petras

New Politics

Tradução / A seqüência da expansão capitalista, a destruição dos vínculos tradicionais e a integração global foi, segundo Marx, o processo de criação de uma classe trabalhadora unificada, consciente de seus interesses de classe e ligada através de fronteiras nacionais. Sua cadeia de raciocínio carece de um entendimento claro acerca da importância das tradições e dos vínculos sociais que precedem o capitalismo, desempenhada na criação de solidariedade social para confrontar o capitalismo e sustentar a consciência de classe.

Quando Marx descreve a burguesia enquanto redutora das relações humanas a “nexos de pagamento à vista”, tal qual um prelúdio ao desenvolvimento da consciência de classe, ele encontra-se essencialmente descrevendo a condição da classe trabalhadora dos EUA – provavelmente a menos desejosa e hábil a identificar sua fonte de exploração quanto mais a luta contra essa última. O despir das velhas crenças – que Marx e Engels denominaram, lamentavelmente, de “sentimentalismo filistino” – inclui o sentido de comunidade e não necessariamente a crença em um “superior natural”.

Assim, a admissão de que “a insegurança e a agitação duradouras” que os autores do Manifesto associam ao “revolucionamento dos meios de produção” do capital não necessariamente “obriga (o homem) a afrontar com sentidos sóbrios suas condições reais de vida e suas relações com sua espécie.” Na realidade, os processos econômicos estão tendo os efeitos opostos no aprofundamento da reação, atomizando o trabalho, estimulando a guerra étnica e alimentando um vasto vapor de produção econômica através da América Latina, da África e da Ex-URSS, bem como em outros lugares.

Assim, a centralidade da “tradição”, da cultura e da comunidade no definir a formação da consciência de classe encontra-se perdida diante da verve de Marx e Engels e de sua celebração acrítica do potencial revolucionário do desenvolvimento das forças de produção.

Similarmente, o asselvajamento da força de trabalho do Terceiro Mundo, processando-se sob a égide da internacionalização do capital, não conduziu a maior consciência de classe ou a comportamento “civilizado”.

Um olhar para as zonas livres de comércio haveria de dissuadir qualquer um dessa noção. Pelo contrário, isso rompeu laços de classe e promoveu maior reverência e servilidade.

A globalização burguesa não criou “um mundo segundo a sua imagem”, tal como Marx e Engels alegaram. Hoje, essas coisas são “pietismos sentimentais”, impressos nos folhetos de propaganda das relações públicas do Banco Mundial, trompeteando a “modernização” do Terceiro Mundo.

Sua falta de um sentido de consciência de classe diretamente relacionada com os produtores e não derivada do processo capitalista de produção esclarece as dificuldades que muitos “marxistas” possuem de criar uma alternativa ao capitalismo. Hoje, os capitalistas não “conclamam à existência os homens que manejarão as armas” para assestarem um golpe mortal ao capitalismo.Criam milhões de trabalhadores atemorizados, incertos e temporários, ligados ao nexo do pagamento à vista. Para tornar-se marxista, no sentido da realização dos objetivos do Manifesto Comunista, é necessário rejeitar as falsas premissas de Marx e Engels acerca do “papel revolucionário” da burguesia. Para mover-se rumo à ação da classe trabalhadora, a concepção de Marx e Engels tem de ser sujeitada à crítica mais ácida.

Onde Marx e Engels dizem que “a consciência do homem modifica-se com cada uma das modificações havidas nas condições de sua material existência, em suas relações sociais em sua vida social”, as mudanças que o capitalismo produziu minaram a construção de uma consciência revolucionária, em todos os pontos. A noção de que a burguesia revoluciona a produção através da competição e, no curso, “força” os trabalhadores a “confrontarem” suas condições e, subseqüentemente, a agregarem-se conjuntamente, é falsa, em todas as contas.

A mudança mais importante não é o revolucionamento da produção, mas sim a transformação das relações políticas e sociais, por todas as partes do mundo, de um modo em que se mina a possibilidade de “reconhecimento material de proletários.”

Para falar do Manifesto hoje, é preciso mover-se da brilhante análise econômica para as conclusões revolucionárias, construindo uma nova teoria da ação revolucionária.

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