1 de dezembro de 1998

O Manifesto Comunista ainda pode ser considerado um documento de importância histórica?

Nodari A. Simonia

Tradução / Este ano marcou o sesquicentenário da data em que Marx e Engels publicaram em Londres seu Manifesto. Muitos poderiam perguntar: "Por que se deveria atribuir tanta importância a esse documento? Já não está superado? Especialmente hoje em dia, depois que a URSS caiu por terra e o sistema socialista mundial desapareceu de vez?"

Em primeiro lugar, o tipo de socialismo que existia na URSS era um quase-socialismo e não um socialismo genuíno. A própria ideia de construir um socialismo num país agrário atrasado num tempo em que até os países mais desenvolvidos do Ocidente não estavam amadurecidos para esse sistema político, foi antimarxista. Antes de sua enfermidade, Lenin de modo algum nunca afirmou que havíamos construído o socialismo. Quando viu que suas esperanças numa revolução na Europa desapareceram completamente, Lenin lançou a idéia da Nova Economia Política (NEP), cujo ponto crucial era um tipo particular de capitalismo estatal. Stalin abandonou a NEP e começou a construir um comunismo primitivobaseado no terror político econômico.

Em segundo lugar, como documento que se destinava a ações específicas de um partido político no tempo proposto, o Manifesto ficou sem duvida superado. Seria simples loucura que alguém quisesse hoje obedecer a letra desse documento. Todavia, como obra, na qual Marx e Engels profetizaram que o capitalismo seria seguido pelo período do comunismo, ele ainda é o documento do futuro. Marx comprovou depois, de forma científica, essa previsão com uma análise profunda em seu Das Kapital, tendo demostrado de que modo a conseqüente e crescente socialização da produção, por si só, está levando a humanidade para o futuro período comunista.

É óbvio que Marx, exatamente como todos os outros gênios, estava circunscrito dentro das limitações de seu tempo, enquanto suas aspirações revolucionárias o impeliam, e a Engels, para uma reavaliação da maturidade do capitalismo e da disponibilidade das sociedades humanas para a nova vida. A história subseqüente demostrou que apenas agora o novo modo de vida da sociedade do futuro está se estabelecendo no seio dos países capitalistas desenvolvidos, e esse processo se baseia na concepção de novas forças produtivas da tecnologia e da informática da era pós-industrial.

Em geral, o teórico muitas vezes colidiu com o revolucionário, um contradizendo o outro, nas personalidades de Marx e Engels. Marx, por exemplo, insistiu de fato que a ideologia e especialmente a psicologia das massas eram os pontos mais estáveis e que seriam os últimos a mudar. A impaciência revolucionária, porém, levou-os repetidas vezes a interpretar explosões, movimentos e ações revolucionárias, que em sua essência objetiva visavam à libertação burguesa, como o começo de uma sublevação social. Contudo, Engels, que sobreviveu a Marx por um total de 12 anos, e chegou quase até o fim do século XIX, teve tempo de desiludir-se com o potencial revolucionário do proletariado da Inglaterra o país capitalista mais desenvolvido daquele tempo. Hoje, com a revolução da tecnologia e da informática se alastrando, as forças da produção industrial estão adquirindo um sentido cada vez mais secundário. Com os processos de origem e instituição de novas forças produtivas da era pós-industrial a força social predominante da futura sociedade socialista irá crescer e ganhar força.

Ocorreu também um grave erro de lógica. Desse modo, Marx e Engels claramente apontam em seu Manifesto que durante cada uma das disposições anteriores (escravocrata, feudal) duas classes principais opunham-se entre si (senhores de escravos e escravos, senhores feudais e servos), e que a luta entre essas duas classes sempre terminava com a reconstrução de toda a sociedade e a destruição geral das classes conflitantes. Seria lógico supor que o mesmo devesse ocorrer com a sociedade burguesa e suas duas classes principais, uma vez que o proletariado, exatamente como os escravos e os camponeses feudais antes dele, não estava preparado para servir como a força dominante na reconstrução de uma sociedade nova, mais elevada. Todavia, nesse aspecto a lógica abandonou Marx e Engels (assim como mais tarde abandonou Plekhanov e Lenin) , eles proclamaram que o proletariado seria responsável pela construção da sociedade do futuro, criando assim sérias dificuldades para o desenvolvimento do movimento comunista.

Contudo, é difícil superestimar a importância da idéia de Marx de que o comunismo deve suplantar o capitalismo. Pelo que tudo indica, o assustador fantasma do comunismo mais uma vez começa a vagar pelo mundo, pelo menos nas mentes de muitos pensadores liberais. Com o devido respeito, será curioso mencionar a prova que se pode encontrar na resenha A economia mundial, publicada por uma revista respeitável: The Economist (20 set. 1997). A revista cita as opiniões de pessimistas-liberais expressando sua apreensão de que a globalização possa solapar as bases de economias nacionais, causando assim uma nova crise, e então "Marx rirá por último no fim das contas" (p.6). As idéias de que democracia e liberalismo não são uma só nem a mesma coisa, de que o capitalismo dificilmente pode continuar a conviver em harmonia com a democracia, e de que no decorrer dos últimos 50 anos a democracia vem solapando o capitalismo, limitando a liberdade da iniciativa privada, perpassam toda a resenha da revista (p.6-8).

Realmente, ri melhor quem ri por último!

O original em inglês – Can the Manifest der Kommunistichen partei be still regarded as document of hystorical significance? – encontra-se à disposição do leitor no IEA-USP para eventual consulta.

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