12 de dezembro de 2012

A grande fuga

Como um campo sobreviveu a tempos difíceis

O artigo apresenta um balanço da historiografia norte-americana sobre trabalhadores. Após detectar momentos de crise dentro desse campo de pesquisa, aponta os caminhos de recuperação e vitalidade, com novas temáticas e abordagens.

por Leon Fink

Labor: Studies in Working-Class History of the Americas

Tradução / Com longa experiência em seguir as pistas dos oprimidos brigões da história, o campo da história do trabalho acabou por imitar seus próprios objetos ao achar formas habilidosas e inventivas de sobrevivência intelectual. Pode-se argumentar que a história do trabalho norte-americana é hoje mais rica em amplitude, intuição e rigor analítico do que nunca, como explicitamente evidenciado pela existência de uma associação profissional vigorosa, a Labor and Working Class History Association (LAWCHA), pela realização de conferências temáticas regulares e pela publicação de três revistas acadêmicas especializadas (Labor, International Labor and Working-Class History (ILWCH), e Labor History. [2] No conjunto, argumentarei aqui, são realizações impressionantes, sobretudo em face do clima político e intelectual errático, até mesmo intimidante, desde os anos 1990. Também reconheço que o amplo espectro das ambições hoje presentes no campo trouxe embutidas suas próprias nuvens cinza autolimitadoras. Num balanço geral, contudo, os portões disciplinares estão mais abertos do que nunca, e tanto os praticantes seniores quanto os juniores estão dando passos substantivos para reformatar o campo em alicerces mais amplos, mais variados, mas ainda assim reconhecíveis.

Para avaliar as realizações recentes, devemos primeiro reconhecer a adversidade, até mesmo a ameaça potencialmente mortal que o campo superou. Desde as suas origens, com a escola de Commons, na Era Progressista, pode-se dizer que a história do trabalho norte-americana extraiu seu vigor de duas forças vivas. A primeira foi o poder do movimento operário organizado (da forma como ele emergiu inicialmente no final do século XIX), que por sua vez ajudou a constituir as relações industriais. Uma compreensão simpática dessas relações dirigiu os estudos de economia institucional que se tornaram o primeiro modelo para a história do trabalho. A segunda - refletida no mundo contemporâneo menos no movimento operário organizado do que nos movimentos sociais "dos anos 60", que não se centraram, eles mesmos, em trabalhadores enquanto trabalhadores - era a capacidade de mudança social democrática (ou "agência") vinda "de baixo". Em certo sentido, os Novos Historiadores do Trabalho inseriram no núcleo temático mais político-institucional dos seus predecessores um interesse mais amplo e mais humanístico no povo trabalhador, em suas comunidades e sua cultura (e por fim "identidades"). A exploração da complexidade, das divisões e da hierarquia interna percebidas, e mesmo da subordinação explícita de pessoas por raça e gênero dentro das "comunidades" trabalhadoras - um tema que se pode dizer que tem ocupado o último palco reconhecível da Nova História do Trabalho - ainda se baseava na premissa da capacidade essencial das pessoas comuns para agir (para o bem ou para o mal) por si mesmas.

Não é preciso ser um gênio para sugerir que o prazo de validade das duas fontes de inspiração do campo tinha vencido em grande medida em meados dos anos 1980, mesmo se muitos trabalhos de primeira qualidade (nutrindo-se ou de energia armazenada ou de novas fontes de luz) continuaram a emergir. A despeito de seus muitos dramas internos e personagens cheios de vida, o movimento operário organizado, não mais uma ameaça à ordem social, atraía um público cada vez mais reduzido (dentro e fora da academia) para as suas lutas defensivas. Ao longo de meio século, a presença sindical despencou de um em cada três trabalhadores para um em cada dez. Sem trabalhadores organizados (especialmente no setor não governamental), o que restava das "relações industriais'" Sejamos diretos: nada de relações industriais, nada de história do trabalho. Para ser exato, em meio à Queda, havia bolsões de resistência heroica e momentos de recuperação encorajadora - incluindo a corajosa greve dos trabalhadores do frigorífico Hormel em Austin, Minnesota, organizados na seção local P-9 do United Food and Commercial Workers Union; a greve dos mineiros de carvão de Pittston; a eleição de John Sweeney para a presidência da AFL-CIO; a campanha "Justice for Janitors" do Service Employees International Union (SEIU); a "Immigrant Workers' Freedom Ride", e, mais recentemente; a greve de ocupação da Republic Windows - , tais eventos interromperam, mas não reverteram a maré de calmaria nos locais de trabalho. Além do mais, apesar de todo o seu apelo inicial e de seu aparente maior élan, outras fontes de identidade para além da de classe fracassaram em proporcionar qualquer reação efetiva contra a precarização das relações de trabalho e as visões neoliberais que a acompanharam. Assim, ao mesmo tempo em que tínhamos motivos para nos preocupar com a questão da relevância da "nova história do trabalho" ou da "nova história social", podíamos notar a mesma perda de fôlego na história das mulheres, na história afro-americana e em todo o edifício dos estudos culturais construído sobre identidades contenciosas ou alternativas. No conjunto, o triunvirato de Herbert Gutman, "trabalho, cultura e sociedade", parecia eclipsado por forças mais poderosas - negócios, império, guerra, terrorismo e economia global - , tornando as pessoas comuns comparativamente passivas e inertes (e assim, historicamente desimportantes).

Somando-se tudo, a história do trabalho sofreu um golpe avassalador e foi às cordas. Ainda assim, eu sugeriria, dois suplementos nutricionais frescos (ou no mínimo requentados) ajudaram o campo a voltar a ficar de pé. As pistas do primeiro podem ser identificadas na diretiva expressa na conclusão de Huckleberry Finn: "partir para a Fronteira". No caso da história do trabalho, as "fronteiras" - equivalentes à sede por novas aventuras, fuga do tédio historiográfico, assim como estímulo político - se referem à até então desocupada periferia do campo. Por "periferia" eu me refiro às áreas intelectuais limítrofes em suas múltiplas dimensões. Geograficamente, significou um horizonte mais amplo, transnacional, de literatura histórica - como testemunham o alcance hemisférico regular deLabor, a ênfase comparativa profundamente enraizada de ILWCH, e o pot-pourri global de Labor History, assim como estudos publicados como livros (por exemplo, de Julie Greene sobre o Canal do Panamá, de Jana Lipman sobre os trabalhadores de Guantánamo, de Samuel Truett sobre a fronteira do cobre entre México e Estados Unidos e de Leon Fink sobre o "Nuevo" New South ["Nuevo" Novo Sul]).3 Ao mesmo tempo, os estudos centrados nos Estados Unidos também deslocaram o foco dos centros urbanos industriais da Costa Leste e do Meio-Oeste em direção aos centros extrativos e de transporte do Oeste. Assim, um arcabouço geopolítico revisado ocupa o centro do palco na abordagem muito diferente de Thomas Andrews e John P. Enyeart sobre a mineração de carvão nas Montanhas Rochosas, e o mesmo acontece na exposição de Theresa Case sobre a greve ferroviária daGreat Southwest [Grande Sudoeste].[4]

De maneira semelhante, os historiadores têm demonstrado interesse renovado no 'trabalho' fora da fábrica e do escritório, campos tradicionais do trabalho assalariado. Um movimento evidente em nova direção tem incluído uma exploração séria das vidas de trabalho agrícola e centradas em áreas rurais. Respondendo ao tratamento dos trabalhadores migrantes da Costa Leste por Cindy Hahamovitch, um impressionante desfile de livros sobre trabalhadores em cítricos (Garcia, 2001), cana-de-açúcar (Rodrigue, 2001), na colheita da beterraba (Mapes, 2009; Norris, 2009), na indústria avícola (Striffler, 2005), sobre madeireiros (Jones, 2005) e arrendatários sulistas (Roll, 2010), assim como a transposição, nos dois sentidos, da divisão entre trabalho rural e urbano (Higbie, 2003).[5] Outra mudança 'setorial' tem ocorrido em direção às arenas do emprego doméstico e dos serviços em geral, mais dominadas pelas mulheres. Dentre os itens mais ambiciosos nessa categoria está a apreensão do processo de organização tanto no local de trabalho quando na comunidade, feita por Laurie Green em um estudo do movimento de direitos civis em Memphis; o trabalho de Lisa Krissoff Boehm sobre trabalhadores domésticos durante a Segunda Grande Migração; a exploração de Lisa Levenstein sobre os múltiplos espaços das lutas por políticas urbanas de bem-estar; o estudo (no prelo) de Eileen Boris e Jennifer Klein sobre trabalhadores no setor de atendimento domiciliar.[6]

Em segundo lugar, nesse quesito, os historiadores deixaram de dar por estabelecida uma dicotomia nítida e absoluta entre sistemas de trabalho escravo, por empreitada e 'livre', e passaram a explorar muito mais as intersecções (ou 'misturas') entre esses sistemas em determinados períodos. O premiado Scraping by: wage labor, slavery, and survival in Early Baltimore [Labutando: trabalho assalariado, escravidão e sobrevivência na antiga Baltimore] (2009), de Seth Rockman, oferece um ótimo exemplo. Outras incursões impressionantes na direção do trabalho 'não tão livre' que vêm de pronto à mente incluem Reinventing free labor [Reinventando o trabalho livre] (2000), de Gunther Peck, Coolies and cane: race, labor, and sugar in the Age of Emancipation [Coolies e cana: raça, trabalho e açúcar na era da emancipação] (2006), de Moon-Ho Jung, e a ênfase atual nas pesquisas em curso de Peter Way sobre os padrões de trabalho e resistência do início da era moderna entre trabalhadores empregados em atividades militares nas origens do mundo Atlântico. Esses últimos trabalhos se beneficiaram, sem dúvida alguma, do filão de história jurídica do trabalho, iniciada por The state and the Unions [O Estado e os sindicatos] (1985), de Christopher L. Tomlins, que incluiu investidas importantes de Robert Steinfeld e de Amy Dru Stanley sobre as fronteiras porosas entre trabalho livre e trabalho por empreitada, incluindo o estudo comparativo entre Grã-Bretanha e Estados Unidos feito pelo primeiro, The invention of free labor [A invenção do trabalho livre] (1991).

Um movimento 'forasteiro' dentro do campo, mas relacionado aos anteriores, voltou-se ao trabalho penitenciário.Twice the work of free labor: the political economy of convict labor in the New South [Duas vezes o trabalho de um assalariado: a economia política do trabalho de detentos no Novo Sul] (1996), de Alex Lichtenstein, é um dos diversos trabalhos importantes nessa área, que também inclui Steel Drivin' Man [O condutor do aço] (2006), de Scott Reynolds Nelson, ganhador de vários prêmios. De fato, a própria publicação de um número temático deLabor dedicado ao tema testemunha por si só a riqueza do assunto.

Se um movimento para fronteiras geográficas e temáticas tem dado a tônica do campo, penso que sua contrapartida intelectual tem sido fornecida por um engajamento muito necessário com a relação entre trabalhadores e a economia política circundante, no plano do Estado e dos negócios. Se os trabalhadores e suas criações estão sendo golpeados por toda parte - é o que sugere a lógica subjacente a essa tendência - , temos de entender melhor as forças que vêm agindo tão poderosamente contra eles. E da mesma forma que ocorre com o tema da 'periferia', os estudos de economia política (ou do que podemos denominar simplesmente como 'as forças maiores agindo sobre os trabalhadores') também vêm em muitas formas e tamanhos. Para situar o declínio contemporâneo do movimento operário em um contexto político-cultural mais amplo, podemos felizmente nos voltar a trabalhos como State of the Union: a Century of American Labor [Estado do sindicato: um século de movimento operário americano] (2002), de Nelson Lichtenstein. O ímpeto comum de três importantes trabalhos publicados em 2009 é óbvio: The Retail Revolution: how Wal-Mart created a Brave New World of business [A revolução do atacado: como o Wal-Mart criou um admirável mundo novo de negócios] (2009), também de Lichtenstein; To serve God and Wal-Mart: the making of Christian Free Enterprise [Servir a Deus e ao Wal-Mart: a criação da livre empresa cristã] (2009), de Bethany Moreton; assim como Invisible hands: the making of the Conservative Movement from the New Deal to Reagan [Mãos invisíveis: a criação do movimento conservador doNew Deal a Reagan] (2009), de Kim Phillips-Fein.

O impulso da economia política, por certo, se estende muito além das dinâmicas antioperárias contemporâneas. Sua 'chegada' com plena força pode ser datada da publicação de Citizen worker: the experience of workers in the United States with democracy and the free market during the Nineteenth Century [Cidadão trabalhador: a experiência dos trabalhadores dos Estados Unidos com a democracia e o livre mercado durante do século XIX] (1993), de David Montgomery. Com seu foco menos no ativismo dos trabalhadores do que no papel repressivo das empresas, do Estado e dos tribunais, é de longe o trabalho mais sombrio e pessimista de Montgomery. Falando de maneira geral, uma ênfase remodelada sobre a 'estrutura' em relação à 'agência' transparece em muitos dos melhores trabalhos do período recente. Pode-se achar um foco similar nos métodos de 'controle' de cima para baixo em Capital moves: RCA's 70-year quest for cheap labor [O capital se move: setenta anos de busca da RCA por trabalho barato], de Jefferson Cowie, e Soul by soul: life inside the antebellum slave market [Alma por alma: a vida dentro do mercado escravo antes da Guerra Civil], de Walter Johnson, ambos de 1999. Relatos menos duros, mas igualmente sóbrios e complexos das estruturas mais amplas, no interior das quais os trabalhadores operam, incluem: The Racketeer's progress: Chicago and the struggle for the Modern American Economy, 1900-1940 [O progresso dos mafiosos: Chicago e a luta pela economia moderna norte-americana, 1900-1940] (2004), de Andrew Wender Cohen; For all these rights: business, labor, and the shaping of America's public-private Welfare State [Por todos esses direitos: negócios, trabalho e a formatação do Estado de Bem-Estar público-privado na América] (2003), de Jennifer Klein; e Impossible subjects: illegal aliens and the making of modern America [Súditos impossíveis: estrangeiros ilegais e a criação da América moderna] (2004), de Mae Ngai.

O quanto a direção do campo mudou ao longo dos últimos 30 anos pode ser percebido pela comparação do conteúdo de duas antologias, cada uma delas uma compilação do que pode ser chamado 'os melhores trabalhos em desenvolvimento'. A primeira delas, Working-class America: essays on labor, community, and American Society [América trabalhadora: ensaios sobre trabalho, comunidade e sociedade americana], organizada por Michael H. Frisch e Daniel J. Walkowitz (1983), reflete em geral uma geração de aspirantes formada ou influenciada pelos progenitores da 'nova história do trabalho': David Brody, David Montgomery e Herbert Gutman. Dez ensaios abarcam da força de trabalho têxtil familiar nas origens da Nova Inglaterra (Jonathan Prude) a levantes de trabalhadores da indústria automobilística durante a Segunda Guerra Mundial (Nelson Lichtenstein). Entre esses dois extremos cronológicos, os ensaios lidam com os efeitos da economia metropolitana tanto sobre artesãos homens (Sean Wilentz) quanto sobre mulheres nos sweatshops [fabriquetas com condições de trabalho precárias] (Christine Stansell) na cidade de Nova York; o significado para a cultura da classe trabalhadora do lazer de massas (Francis Couvares), do consumo de massas (Susan Porter Benson) e da religião (Elizabeth e Kenneth Fones-Wolf); assim como as fontes cambiantes da ideologia política que perpassaram os Jacksonianos radicais (Wilentz), os Knights of Labor [Cavaleiros do Trabalho] (Leon Fink), a democracia industrial dos trabalhadores do vestuário (Steve Fraser) e os trabalhadores de transporte comunistas (Joshua Freeman). No conjunto, pode-se dizer com justiça que o volume "trombeteava o potencial e a amplitude extraordinariamente rica do que esses jovens historiadores tinham ajudado a reconceituar como história da classe trabalhadora".[8] Pode-se também dizer que os artigos apontavam igualmente para o que o parecia ser o "rico potencial e a amplitude" do movimento dos trabalhadores norte-americanos em si mesmo, fundamentado de formas variadas em infraestruturas baseadas no local de trabalho e nas comunidades e sustentado por um radicalismo gerado na intersecção entre republicanismo operário e ideias com sabor imigrante. Notadamente, nenhum ensaio enfatizava a derrota e os recuos dos seus objetos, nem enfatizava as divisões internas a esgarçar, quando não a despedaçar, o próprio conceito de unidade da classe trabalhadora. Bem urdidos como eles eram naquele momento (por pesquisadores que tinham estabelecido, todos eles, carreiras acadêmicas e/ou editoriais de destaque), os ensaios de 1983, digamos assim, têm baixa cotação no mundo acadêmico de hoje.

Voltemo-nos agora a outra antologia, Trabalhadores através das Américas: a guinada transnacional na História do Trabalho (2011, Oxford University Press). Organizada pelo comitê editorial de Labor e baseada na Newberry Conference de 2008 sobre "Workers, the Nation-State, and beyond", Workers across the Americas agrupa 15 ensaios de pesquisa (junto a comentários adicionais) em cinco áreas temáticas que por si só sugerem a considerável distância intelectual percorrida desde a alvorada da Nova História do Trabalho: Trabalho e Império, Povo Indígenas e Sistemas de Trabalho, Feminismo Internacional e Trabalho Reprodutivo, Recrutamento de Trabalho e Controle da Imigração, Política Trabalhista Transnacional e Internacionalismo Operário. Estendendo-se de discussões do recrutamento militar do século XVIII à Conferência Internacional das Mulheres patrocinada pela ONU em 1975, o novo volume, assim como o precedente, fervilha com as novas energias do campo. Porém, a seleção de tópicos, assim como a perspectiva geopolítica, revelam mudanças óbvias. Pescadores e tecelões nativos, por exemplo, recebem aqui um tratamento igual ao dos gráficos e trabalhadores da indústria automobilística, mesmo que as duas últimas ocupações sejam abordadas menos pelas suas histórias sindicais do que pelo seu contexto histórico transnacional. A centralidade da política de imigração para a política trabalhista é assinalada na discussão tanto sobre o medo da "escravidão branca" quanto sobre o Programa Bracero. O movimento operário do século XIX é invocado, mas principalmente na sua assistência aos escravos fugitivos. Os radicais dos frigoríficos da CIO recebem atenção, mas apenas como um dos canais percorridos pelo legado radical da Revolução Mexicana. A institucionalização do movimento operário não é negligenciada, mas nesse caso a luta por um salário mínimo para os marítimos ou pela licença maternidade é tratada em fóruns internacionais como a Organização Internacional do Trabalho (OIT). Como ocorre com qualquer coleção, a prova da relevância jaz no emaranhado de respostas dos leitores. Meu ponto aqui, contudo, é simplesmente que o apanhado de trabalhos não revela um campo estático ou em ocaso, mas sim dinâmico, uma comunidade acadêmica dominada por novos estímulos e mobilizada por um senso renovado de finalidade.

Os trabalhos que citei - representando uma seleção muito parcial do que os escritos recentes oferecem - demonstram uma vanguarda de pesquisadores tão profunda e criativa quando pode ser encontrada em qualquer momento ao longo dos registros históricos da história do trabalho. Isso não significa dizer que os vislumbres de hoje não vêm à custa de certas cegueiras. O reconhecimento internalizado da fraqueza relativa ou da infrequente ação dos trabalhadores "como uma classe" ou "para si" tem aparentemente tornado menos atraente para os pesquisadores um exame íntimo do processo de trabalho, de culturas ocupacionais específicas e das comunidades que transcendem raça ou etnicidade. Provavelmente pela mesma razão, estamos experimentando uma escassez de novos trabalhos sobre a política interna, a liderança e o processo decisório dos sindicatos. [10] De acordo com o costume usual da "coruja de Minerva", o terreno provavelmente terá de mudar à nossa volta (comoções prolongadas, revoltas populares, uma nova onda de greves?) antes que os historiadores (mesmo os historiadores do trabalho) agucem plenamente a sua visão sobre centros locais, nacionais e transnacionais de ativismo. Nesse meio-tempo, porém, está claro que o estudo dos trabalhadores e de seus mundos sociais está recebendo tratamento engenhoso, cuidadoso e altamente sofisticado. Que esse impulso continue nos bons e maus tempos.

Notas:

1 Originalmente publicado em Labor: Studies in Working-Class History of the Americas, v.8, n.1, Mar. 2011, p.109-117. Uma versão prévia deste ensaio foi preparada para um painel sobre "State of the Field: American Labor History", The Historical Society's 2010 Conference, George Washington University, 3-5 June 2010.

2 Em benefício do tema em foco, deixo de abordar aqui a experiência agridoce da separação de Labor a partir de Labor History em 2003. A boa notícia é que a divisão criou canais para a publicação de um arco mais amplo de trabalhos acadêmicos do que havia antes.

3 GREENE, Julie. The canal builders: making America's empire at the Panama Canal. New York: Penguin, 2009; LIPMAN, Jana K. Guantánamo: a Working-Class History between Empire and Revolution. Berkeley: University of California Press, 2008; TRUETT, Samuel. Fugitive landscapes: the forgotten history of the U.S.-Mexico borderlands. New Haven: Yale University Press, 2006; e FINK, Leon. The Maya of Morganton: work and community in the Nuevo New South. Chapel Hill: University of North Carolina Press, 2003; ver também FRANK, Dana. Bananeras: women transforming the Banana Unions of Latin America. Cambridge (MA): South End Press, 2005.

4 ANDREWS, Thomas G. Killing for Coal: America's Deadliest Labor War. [Matando por carvão: a mais letal guerra trabalhista da América]. Cambridge (MA): Harvard University Press, 2008; ENYEART, John P. The quest for "just and pure law": Rocky Mountain workers and American social democracy, 1870-1924 [A busca pela "lei pura e justa": Os trabalhadores das Montanhas Rochosas e a social democracia americana, 1870-1924]. Stanford: Stanford University Press, 2009; CASE, Theresa A. The Great Southwest Railroad Strike and free labor [A greve da ferrovia Great Southwest e o trabalho livre]. College Station: Texas A&M University Press, 2010.

5 HAHAMOVITCH, Cindy. The fruits of their labor: Atlantic coast farmworkers and the making of migrant poverty, 1870-1945 [Os frutos do seu trabalho: os trabalhadores rurais da Costa Atlântica e a criação da pobreza migrante, 1870-1945]. Chapel Hill: UNC Press, 1997; [ Links ] GARCÍA, Matt. A world of its own: race, labor, and citrus in the making of Greater Los Angeles, 1900-1970 [Um mundo deles mesmos: raça, trabalho e cítricos na criação da Grande Los Angeles, 1900-1970]. Chapel Hill: UNC Press, 2001; RODRIGUE, John C.Reconstruction in the cane fields: from slavery to free labor in Louisiana's sugar parishes, 1862-1880 [Reconstrução nos canaviais: da escravidão ao trabalho livre nas paróquias açucareiras de Louisiana, 1862-1880]. Baton Rouge: LSU Press, 2001; [ Links ] MAPES, Kathleen. Sweet tyranny: migrant labor, industrial agriculture, and imperial politics [Doce tirania: trabalho migrante, agricultura industrial e política imperial]. Urbana: University of Illinois Press, 2009; NORRIS, Jim. North for the Harvest: Mexican Workers, Growers, and the Sugar Beet Industry [Ao norte para a colheita: trabalhadores mexicanos, plantadores e a indústria do açúcar de beterraba]. St. Paul: Minnesota Historical Society Press, 2009; STRIFFLER, Steve.Chicken: the dangerous transformation of America's favorite food [Frango: a perigosa transformação da comida americana favorita]. New Haven: Yale University Press, 2005); JONES, William P. The tribe of black Ulysses: African American lumber workers in the Jim Crow south, [A tribo do Ulisses negro: os trabalhadores afro-americanos nas madeireiras no sul das leis Jim Crow]. Urbana: University of Illinois Press, 2005; ROLL, Jarod. Spirit of rebellion: labor and religion in the new cotton South [Espírito de rebelião: trabalho e religião no Sul do novo algodão]. Urbana: University of Illinois Press, 2010; e HIGBIE, Frank Tobias.Indispensable outcasts: hobo workers and community in the American Midwest, 1880-1930 [Excluídos indispensáveis: trabalhadores andarilhos e suas comunidades no Meio-Oeste americano, 1880-1930]. Urbana: University of Illinois Press, 2003.

6 GREEN, Laurie B. Battling the plantation mentality: Memphis and the Black Freedom Struggle [Guerreando contra a mentalidade de Plantation: Memphis e a luta pela liberdade negra]. Chapel Hill: UNC Press, 2007; BOEHM, Lisa Krissoff. Making a Way Out of No Way: African American Women and the Second Great Migration [Criando um caminho para sair de lugar nenhum: as mulheres afro-americanas e a segunda grande migração]. Jackson: University Press of Mississippi, 2009; LEVENSTEIN, Lisa. A Movement without Marches: African American Women and the Politics of Poverty in Post-war Philadelphia [Um movimento sem marchas: as mulheres afro-americanas e as políticas de pobreza no pós-guerra em Filadélfia]. Chapel Hill: UNC Press, 2009; BORIS, Eileen; KLEIN, Jennifer. Caring for America: Home Health Workers in the Shadow of the Welfare State [Cuidando da América: trabalhadores domiciliares de saúde nas sombras do Estado de Bem-Estar]. New York: Oxford, 2011.

7 HAVERTY-STACKE, Donna; WALKOWITZ, Daniel J., na Introdução de Rethinking U.S. Labor History: Essays on the Working-Class Experience, 1756-2009 [Repensando a história do trabalho norte-americana: ensaios sobre a experiência da classe trabalhadora, 1756-2009]. Continuum Companion to United States Labor History, 2011.

 8 As exceções aqui incluem KORSTAD, Robert Rodgers. Civil rights unionism: tobacco workers and the struggle for democracy in the mid-twentieth-century South, 2003; PAWEL, Miriam. The union of their dreams: power, hope, and struggle in Cesar Chavez's farm worker movement, 2009; e FINK, Leon; GREENBERG, Brian. Upheaval in the quiet zone: 1199 SEIU and the politics of health care unionism, 2009.

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