5 de fevereiro de 2014

Fascismo ou fracasso da "esquerda"?

O movimento anti-UE propaga-se por toda a Europa... exceto na Ucrânia


Por Takis Fotopoulos

Os acontecimentos na Ucrânia têm sido instrutivos, muito embora os meios de comunicação da Elite Transnacional (ET) tenham criado a falsa impressão de que ali houve uma "revolução" popular de cretinos a combaterem pelo seu direito a tornarem-se escravos da ET dentro da UE, de modo a que possam morrer de fome como o povo grego! Mas não insistirei aqui sobre a "revolução" laranja que acaba de ser encenada neste país pela burguesia e pequena-burguesia pró-ocidental de Kiev, com a assistência decisiva dos provocadores dos serviços de inteligência da ET que a organizaram [1], mas antes sobre as duas principais lições a serem aprendidas com isto, as quais são especialmente importantes para todos os povos europeus e, em particular, para o povo grego.

Primeiramente, a luta social na era da globalização neoliberal já não pode mais ser apenas uma luta pela libertação social, como marxistas obsoletos ainda hoje acreditam e alguns trotskistas sempre acreditaram mesmo durante a ocupação nazista quando apelavam a trabalhadores alemães no exército nazistas a que confraternizassem com trabalhadores ocupados, enquanto alguns "marxistas" e "anarquistas" ainda hoje apelam a uma confraternização semelhante entre ocupantes sionistas em Israel e os palestinos ocupados! A luta pela libertação social deve hoje, em primeiro lugar e acima de tudo, ser uma luta pela libertação nacional. Isto torna-se óbvio quando se considera o fato de que, quando um país (não pertencente à ET, isto é, principalmente o "G-7") é incorporado na globalização neoliberal perde todo traço de soberania econômica e, consequentemente, nacional. Eis porque a luta pela libertação social hoje é inconcebível a menos que já tenha passado pela libertação nacional. As tropas de ocupação que estão agora a destruir e a pilhar a Grécia (ou Portugal, Espanha e Itália) e os seus estratos sociais mais fracos (com a plena cooperação de uma pequena elite local privilegiada que controla os meios de comunicação, os partidos políticos, a intelligentsia de "esquerda", etc) não são um exército regular uniformizado em com armas letais de violência física à sua disposição, mas sim um exército econômico em ternos, possuindo igualmente instrumentos letais de violência econômica, bem como os meios para justificá-la.

Em segundo lugar, hoje o alvo da luta social só pode ser a globalização neoliberal, a qual é gerida por uma ET assegurando que só a suas falsas revoluções têm êxito (as "revoluções" laranja na Europa do Leste no passado [2] e hoje, ou os pseudo-levantamentos na Líbia [3], Síria, etc) enquanto mesmo as revoltas tentadas das vítimas da ET na Grécia e alhures são suprimidas do modo mais brutal tão logo elas ocorrem – e ainda assim a Baronesa Ashton não encontra nada de errado com isto, nem detecta qualquer violação de direitos humanos. Analogamente, os povos que resistem a serem integrados dentro da globalização neoliberal são condenados à carnificina implacável, como o foram os povos líbio e sírio. No entanto, o impudente Barroso não hesitou em declarar que foram violados direitos humanos na Ucrânia quando a polícia ousou bater em "protestantes" que atacavam edifícios governamentais com bulldozers, "esquecendo" que tal conduta em qualquer outros país "democrático" da UE teria remetido muitos para o cemitério!

Por outras palavras, ao contrário da propaganda enganosa da "esquerda" degenerada, a globalização não é uma quimera, ou apenas uma continuação da internacionalização da economia de mercado que principiou no século passado, mas, ao invés, um fenômeno sistêmico que só pode ser neoliberal dentro do sistema capitalista, como pode ser mostrado facilmente. Analogamente, o neoliberalismo não é nem uma doutrina (de "choque" e contos de fada semelhantes) [4] nem a má decisão política de certos políticos e economistas "maus". Ele é, simplesmente, a ideologia da globalização. A globalização neoliberal é, por outras palavras, a estrutura institucional necessária que assegura a abertura e liberalização dos mercados (de capital, bens e trabalho), a qual é exigida para a operação eficaz das corporações transnacionais que atualmente controlam a economia globalizada.

Na base desta estrutura analítica não é surpreendente que um movimento de massa sem precedentes "desde baixo" esteja atualmente a difundir-se através da Europa, desafiando diretamente a UE e também indiretamente a globalização neoliberal. Este movimento é constituído essencialmente pelas vítimas da globalização que são conduzidas ao desemprego em massa e à pobreza, bem como a perda de habitação, à fome ou mesmo ao suicídio. Estes estratos populares mais cedo ou mais tarde tornar-se-ão conscientes da fraude da "esquerda" degenerada, a qual conscientemente os enganou ao afirmar que o desastre atual podia ser ultrapassado mesmo dentro da UE, apesar da perda de soberania econômica e nacional. Então, estes estratos inevitavelmente voltam-se para movimentos nacionalistas de todas as espécies, desde que estes são os únicos que levantam a bandeira anti-UE: desde movimentos patrióticos até neo-nazistas – conforme as condições locais. Mas este nacionalismo, o qual tanto a elite transnacional como a sionista condenam com tal desgosto (no momento exato em que o mais forte estado nacionalista hoje é o sionista!), tem pouco a ver com o nacionalismo agressivo anterior à guerra que levou às duas Guerras Mundiais. É uma nova espécie de nacionalismo que é fundamentalmente defensivo e não tem como objetivo conquistar novo "espaço vital" como o nacionalismo anterior à II Guerra Mundial. Acima de tudo, ele tem como objetivo "proteger" a soberania nacional (cultura nacional, trabalho interno, etc) que está sob a ameaça da abertura e liberalização dos mercados imposta pela globalização.

A principal razão porque esses estratos populares voltaram-se para movimentos nacionalista é, portanto, não por subitamente se terem tornado fascistas (como afirma a ET numa tentativa para difamá-los); é a bancarrota da "esquerda" degenerada a qual, ao invés de levantar a bandeira anti-UE no lugar dos nacionalistas para promover uma luta pela libertação social e nacional, está empenhada em lutas "anti-fascistas" junto com "esquerdistas" privilegiados. Não é surpreendente, então, que esta "esquerda" implicitamente consinta na aprovação de legislação "anti-fascista", tal como exigido pelas elites transnacional e sionista, de modo a que possa efetivamente proibir tais movimentos que ameaçam a sua hegemonia. Na Grécia, por exemplo, uma lei chamada "anti-racistas" está agora a tramitar no Parlamento, a qual efetivamente proíbe a liberdade de pensamento (não de ação!). Esta lei significa, por exemplo, que se alguém apoiou a luta de libertação nacional da liderança baathista síria contra a ET e os criminosos, pretendendo ser rebeldes, que destruíram este país, ele/a pode acabar na prisão por apoiar crimes de guerra contra a humanidade. Isto é baseado num relatório muito recente, absolutamente enviesado, do bem conhecido instrumento da ET, a Comissão de Direitos Humanos da ONU, o qual asseverou que quando Navi Pillay, o chefe de direitos humanos da ONU, diz que há "evidência maciça... [de] crimes muito graves, crimes de guerra, crimes contra a humanidade" e que "a evidência indica responsabilidade ao mais alto nível do governo, incluindo o chefe de estado". [5] Naturalmente, nem este comitê nem Navi Pillay, o qual certa vez disse que "o Comissário é a voz das vítimas de toda a parte" [6] nem seus irmãos de sangue entre as ONGs pelos direitos humanos (Amnistia Internacional, Human Right Watch, etc) alguma vez sonharam declarar os arqui-criminosos Bush, Blair et al. serem culpados de crimes de guerra, muito embora eles seja responsáveis pelas mortes de milhões de pessoas. Presumivelmente, os milhões de pessoas mortas ou mutiladas por criminosos de guerra como eles não são vítimas, segundo a definição de vítima da sra. Pillay!

Entretanto, a "esquerda" grega, isto é, o partido SYRIZA, ao invés de mobilizar o povo contra esta lei desavergonhadamente fascista, tranquilamente consentiu nela ao simplesmente abster-se de votar (só o Partido Comunista Grego e o partido ultra-nacionalista Aurora Dourada votaram contra ela). Deveria ser notado que o SYRIZA, juntamente com o seu líder Alexis Tsipras – ou qual foi fortemente promovido pelos meios de comunicação da ET – está destinado pelas mesmas elites a suceder à atual junta parlamentar na implementação das mesmas políticas mas sob uma cobertura "de esquerda". Mas os sórdidos políticos profissionais que votaram a favor desta lei abertamente fascista ousam falar em democracia e no combate contra o fascismo. Esta flagrante bancarrota da "esquerda" é mais uma razão importante porque uma Frente popular de massa é necessária na Grécia e em todos os outros países que caíram como vítimas da ET que administra a globalização neoliberal, como enfatizei no meu último artigo. [7]

Notas


[1] Ver e.g. Stephen Lendman, "Ukraine: Orange Revolution 2.0?," Global Research (6/12/2013).

[2] Takis Fotopoulos, "The Ukrainian Crisis and the Transnational Elite," The International Journal of INCLUSIVE DEMOCRACY, vol.1, no.4 (July 2005).

[3] Takis Fotopoulos, "The Pseudo-Revolution in Libya and the Degenerate Left," Part I & Part II, The International Journal of INCLUSIVE DEMOCRACY, Vol. 7, No. 1 (Winter-Spring 2011).

[4] Ver e.g. Naomi Klein, The Shock Doctrine (Penguin, 2007).

[5] Ian Black, "Assad implicated in Syrian war crimes, says UN," The Guardian (3/12/2013).

[6] Jonah Fisher, "Profile: New UN human rights chief," BBC News (28/7/2008).

[7] Takis Fotopoulos, "Globalization and the End of the Left-Right Divide" (Part I), The International Journal of INCLUSIVE DEMOCRACY, Vol. 8, Nos. 3/4 (Fall 2012-Winter 2013).

Versão ampliada de um artigo com o mesmo título publicado no diário de Atenas Eleftherotypia (8 de dezembro de 2013).

Copyright. The International Journal of INCLUSIVE DEMOCRACY. A theoretical journal published by the International Network for Inclusive Democracy.

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