8 de agosto de 2013

Egito e Síria: o grande dilema

Talvez vocês enfrentem o mesmo dilema moral que eu: Que pensar sobre a Síria? Que pensar sobre o Egito?

Por Uri Avnery

Vejamos primeiro a Síria.

Quando começou, a escolha para mim era clara. Havia este maligno ditador, cuja família maltratara o seu povo durante décadas. Era uma tirania de tons fascistas. Uma pequena minoria, baseada numa seita religiosa, oprimia a vasta maioria. As prisões estavam cheias de dissidentes políticos. Depois de tanto tempo, o tão sofrido povo levantou-se. Poderia haver alguma dúvida sobre a obrigação moral de lhes dar todo o apoio possível?

E no entanto aqui estou eu, mais de dois anos depois, cheio de dúvidas. Já não é uma escolha clara entre preto e branco, mas entre diferentes tonalidades de cinza, ou, se isso for possível, diferentes tonalidades de preto.

Está no auge uma guerra civil. A miséria da população é indescritível. O número de mortos é aterrorizante.

A quem dar apoio? Invejo aqueles que têm uma medida simples: a maldade dos americanos. Se os Estados Unidos apoiam um lado, esse lado certamente está errado. Ou a imagem espelhada: se a Rússia apoia um lado, esse lado deve ser maligno.

Grandes potências têm os seus interesses, e intervêm de acordo com isso. Mas as raízes do conflito são mais profundas.

O que vai acontecer se as forças governamentais perderem a batalha e os rebeldes vencerem?

Como os rebeldes estão divididos em várias forças antagônicas política e militarmente, é muito improvável que sejam capazes de estabelecer uma nova ordem verdadeiramente democrática e unificada.

Há várias probabilidades e possibilidades, nenhuma delas muito sedutora.

O Estado sírio pode dividir-se, com cada comunidade religiosa e nacional a criar o seu mini-estado próprio. Os sunitas, os alauítas, os curdos, os drusos.

A experiência mostra que divisões como estas são quase sempre acompanhadas de expulsões e massacres, porque cada comunidade tenta garantir que a sua conquista é etnicamente “limpa”. Índia-Paquistão, Israel-Palestina, Bósnia, Kosovo, para mencionar apenas alguns exemplos mais gritantes.

Outra possibilidade é alguma democracia formal, na qual os extremistas islamitas sunitas vencerão eleições honestas e justas, sob supervisão internacional, e depois lançar-se-ão a criar um regime opressivo, monolítico religiosamente.

Este regime provavelmente retiraria alguns dos poucos aspetos positivos do regime baathista, tais como a (relativa) igualdade das mulheres.

Se houver constante caos e insegurança, os remanescentes do exército, ou as forças rebeldes, serão tentados a estabelecer um regime militar aberto ou disfarçado.

Como é que tudo isto afeta as escolhas atuais? Tanto os americanos quanto os russos parecem vacilar. Obviamente, não sabem o que fazer.

Os americanos aferram-se à sua palavra mágica, democracia, escrita em letras grandes, mesmo se for apenas uma democracia formal, sem qualquer conteúdo democrático. Mas temem mortalmente que outro país possa cair “democraticamente” nas mãos de islamitas extremistas e anti-americanos.

Os russos enfrentam um dilema ainda mais severo. A Síria baathista tem sido a sua cliente durante gerações. A sua marinha tem uma base em Tartous. (Para mim, a própria ideia de uma base naval tem uma conotação estranha, um sabor a século XIX). Mas devem ter muito medo de que o fanatismo islâmico infecte as suas províncias muçulmanas nas proximidades.

E os israelenses? O nosso governo e os serviços de segurança estão ainda mais perplexos. Estão a bombardear arsenais de armas que podem cair nas mãos do Hezbollah. Preferem o demônio que conhecem aos muitos demônios que não conhecem. Globalmente, preferem que Bashar al-Assad permaneça no cargo, mas temem interferir de forma demasiado aberta.

Entretanto, apoiadores dos dois lados acorrem de todos os cantos do mundo muçulmano e além.

Em resumo: uma espécie de fatalismo paira sobre o país, todos esperam para ver o que acontece no campo de batalha.

O caso do Egito desperta ainda mais perplexidade.

Quem tem razão? Quem está errado? Quem merece o meu apoio moral?

De um lado, um presidente eleito democraticamente e o seu partido religioso, derrubado do poder por um golpe-militar (putsch em alemão).

Do outro lado, o povo jovem, progressista e secular das cidades, que começou a revolução e sente que esta lhe foi “roubada”.

Ainda de outro lado, o exército, que esteve mais ou menos no poder desde o golpe de 1952 contra o rei Faruk I e que não quer perder os seus imensos privilégios políticos e econômicos.

Quem são os verdadeiros democratas? A eleita Irmandade Muçulmana, cujo caráter é, em essência, antidemocrático? Os revolucionários, que ficam felizes por usar um golpe militar para ter a democracia que querem? O exército, que abriu fogo contra os manifestantes?

Bem, depende do que cada um quer dizer com democracia.

Na minha infância, fui testemunha da ascensão democrática ao poder do partido Nazista, que abertamente proclamava que aboliria a democracia depois da sua eleição. Hitler estava tão obcecado pela ideia de conquistar o poder por meios democráticos que os seus opositores no próprio partido chamavam-no de “Adolf Légalité”.

É quase banal dizer que democracia significa muito mais que eleições e o governo da maioria. Baseia-se em todo um conjunto de valores – coisas práticas, como um sentido de pertencimento comum, igualdade cívica, liberalismo, tolerância, fair play, a possibilidade de uma minoria vir a ser a próxima maioria, e muito mais.

Num certo sentido, a democracia é um ideal platônico – nenhum país do mundo é uma democracia perfeita (certamente não a minha). Uma Constituição democrática pode não querer dizer nada – já se disse que a Constituição soviética de 1936 promulgada por Josef Stalin era a mais democrática do mundo. Por exemplo, assegurava o direito de secessão de qualquer das repúblicas da União Soviética (mas, sabe-se lá porquê, ninguém nunca tentou).

Quando Mohammad Morsi foi democraticamente eleito presidente do Egito, fiquei contente. Gostava do sujeito. Esperava que ele fosse provar que um islamismo moderado, moderno, pudesse tornar-se uma força democrática. Parece que estava enganado.

Nenhuma religião – e certamente nenhuma religião monoteísta – pode ser verdadeiramente democrática. Ela sustenta uma verdade absoluta e nega todas as outras. Na religião ocidental, isto é temperado pela divisão de trabalho entre Deus e César, e nos tempos modernos pela redução do cristianismo a um mero culto político. Os evangélicos americanos tentam fazer o relógio andar para trás.

Nas religiões semitas, não pode haver divisão entre religião e estado. Tanto o judaísmo quanto o Islã baseiam o Estado na lei religiosa (Halacha e Sharia, respetivamente).

A maioria secular em Israel tem, até agora, conseguido manter uma democracia a funcionar razoavelmente (em Israel propriamente dito, não, evidentemente, nos territórios palestinos, onde prevalece o oposto da democracia). O Sionismo foi, pelo menos parcialmente, uma reforma religiosa. Mas as leis de estatuto pessoal em Israel são puramente religiosas, e muitas outras leis também. A direita está atualmente a promover a judaização do Estado.

No Islã, não houve reforma. Os muçulmanos piedosos e os seus partidos querem que a lei tenha como base a Sharia (de fato, Sharia quer dizer lei). O exemplo de Morsi pode mostrar que até um líder islâmico moderado não pode suportar a pressão para criar um regime baseado na Sharia.

Os revolucionários parecem ser mais democráticos, mas muito menos eficazes. A democracia exige a formação de partidos políticos que possam chegar ao poder através de eleições. Os jovens idealistas laicos no Egito – e em quase todos os outros países – foram incapazes de o fazer. Esperaram que o exército lhes desse democracia.

Isto é, evidentemente, um paradoxo. O exército, qualquer exército, é o próprio oposto da democracia. Um exército é, por necessidade, uma organização hierárquica e autoritária. Um soldado, do cabo ao comandante em chefe, é treinado a obedecer e a mandar. É dificilmente um bom terreno para criar virtudes democráticas.

Um exército pode obedecer a um governo democrático. Mas um exército não pode governar. Quase todas as ditaduras militares foram grosseiramente incompetentes. A verdade é que um militar é um especialista de uma única profissão (matar pessoas, diria um cínico). Não é um especialista em qualquer outra coisa.

Ao contrário da Síria, o Egito tem um forte sentido de coesão e unidade, uma lealdade à ideia comum do Egito forjada em milhares de anos. Até à semana passada, quando o exército abriu fogo sobre os islâmicos. Isto pode ser uma mudança histórica. Espero que não.

Espero que o choque deste acontecimento faça que todos os egípcios, exceto, evidentemente, os excêntricos de todos os lados, ganhem juízo. O exemplo da Síria e do Líbano deveria fazê-los afastarem-se do abismo.

Daqui a uma centena de anos – quando alguns de nós podem não mais aqui estar – os historiadores podem considerar estes eventos como as dores de parto de um novo mundo árabe, como as guerras religiosas no século XVII na Europa ou a Guerra Civil Americana há 150 anos.

Como os próprios árabes diriam: Inshallah! Deus queira!

Uri Avnery, escritor israelense, jornalista, fundador do movimento de defesa da paz Gush Shalom. Artigo publicado em Counterpunch. (Tradução: Luis Leiria)

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