3 de setembro de 2013

Obama recua, um pouco

Por Andrew Levine

[CounterPunch] Sobre a proposta do presidente Obama, de intervenção de tipo bater-e-correr na Síria, há, como diria Donald Rumsfeld, “os sabidos já sabidos, as coisas que sabemos. Há os sabidos não sabidos, o que sabemos hoje que não sabemos. E há os não sabidos não sabidos, o que não sabemos que não sabemos”.

Para começar pelos “sabidos já sabidos”, é ou deveria ser claro, de um ponto de vista “pragmático”, que nada poderia ser mais alucinado do que o que Obama tem mente.

Ao argumentar a favor de ‘'ensinar modos'’ a Bashar Al-Assad, Obama chora copiosamente as crianças mortas no subúrbio de Damasco – vítimas supostas do gás venenoso lançado pelo “regime de Assad”. É sabido bem sabido, sem dúvida possível, que intervir lá com bombas e mísseis norte-americanos, na mistura inflamável em que se converteu a Síria, é fórmula garantida para matar mais crianças. Se há criança síria cuja sobrevivência preocupe realmente Obama, melhor faria ele se as mandasse brincar no quarto, enquanto os adultos se matam.

Sabemos, sabido, que o melhor que pode acontecer é que as bombas e mísseis de Obama matem só pouca gente a mais.

Sabemos também, sabido, que muito mais provável é que as bombas e mísseis de Obama forcem a guerra a espalhar-se por toda a região – arrastando Israel e, bem possivelmente, os Estados do Golfo, incluindo a Arábia Saudita, o que complicará muito mais as relações com o Irã.

A guerra na Síria começou como episódio da Primavera Árabe, que prossegue. Mas, por várias razões, pela resistência do regime de Assad e pela intromissão de Arábia Saudita, Turquia, Kuwait e Qatar, converteu-se em guerra por procuração entre estados árabes sunitas no Golfo Persa e o Irã. Sabemos, bem sabido, que as bombas e mísseis de Obama exacerbarão essa situação já perigosa.

Outro sabido sabido, que não é muito discutido na nossa imprensa-empresa, embora seja absolutamente claro, é que, de um ponto de vista moral, as intenções de Obama não são só obscenas por si mesmas: são obscenas também nos pressupostos.

Como se admitiria que o mais ativo distribuidor de violência – e terror – do planeta, se autoapresente como defensor da moralidade pública mundial? É hipocrisia além da humanamente suportável.

À vista desses sabidos sabidos – dos quais Obama sabe, como todos sabemos – por que, mesmo assim, Obama ameaça a Síria?

É pergunta cercada do mais denso mistério, sobretudo se se sabe que os militares norte-americanos claramente prefeririam nada ter a ver com isso. O general Martin Dempsey, Comandante do Estado-Maior das Forças Conjuntas dos EUA, já falou, e serviu-se dos argumentos mais claros e mais eloquentes que se poderiam desejar.

Obama também disse quase a mesma coisa – e repete, repete, repete, e continua a repetir mesmo agora, quando já ameaça “chocar e apavorar” o regime sírio até obrigá-lo a obedecer a lei internacional que regula o uso de armas químicas.

Ter-se-ia Obama convertido repentinamente aos neoconservadores? Pouco provável, sobretudo hoje, quando até neoconservadores começam a pensar duas vezes, por causa de eleições livres, justas e muito competitivas que terão de enfrentar.

Era mudança que sempre aparecia no topo da lista do que diziam que queriam, enquanto os EUA destruíam o Oriente Médio. Mas agora estão percebendo que, nos países cujos governos tanto queriam derrubar, os resultados não são muito satisfatórios; e não dão sinais de mudança para melhor, tão cedo. As ilusões que o Partido da Guerra divulgou e promoveu em 2002 e 2003 já não se sustentam em pé, dez anos depois.

Terá acontecido de intervencionistas humanitárias nefandas como Susan Rice e Samantha Powers terem posto sob coleira o laureado Prêmio Nobel da Paz? É possível. Talvez Obama não se tenha convertido ao neoconservadorismo, só à sua variante liberal. Mas Obama é líder fraco e indeciso, que não se exporia ao risco de ofender mentes mais brilhantes que as que ainda comandam o complexo militar/segurança nacional que governa o Estado nos EUA. E não o faria por razões tão frouxas como as que aquelas intervencionistas humanitárias obscenas têm apresentado.

Talvez Obama tenha, repentinamente, redescoberto a lei internacional. Assim se explicaria a insistência em fazer valer a proibição de armas químicas. Mas essa é a pior explicação dentre todas – não só porque Obama não faz outra coisa além de violar o espírito e a letra da lei internacional, mas, também, porque as ações militares que Obama quer autorizar sem mandado do Conselho de Segurança da ONU são, também, absolutamente ilegais.

Ou talvez, por inverossímil que pareça, é o contrário, e Obama virou realista; talvez o preocupe o fato de que o governo sírio vai-se saindo bem demais na sua guerra, e Obama queira devolver a vantagem, alistando suas tropas do outro lado.

Pouco provável. À parte a falência moral de uma política que vise a manter a matança, é sabido bem sabido que a guerra na Síria já é guerra difícil de conter. A guerra no Líbano começou em 1975 e prosseguiu, com níveis variados de intensidade – e sem interferência externa – por quase 15 anos. O Líbano foi devastado, mas quase nem se viram danos além das fronteiras libanesas. Nenhum observador bem informado supõe que possa acontecer coisa semelhante no caso da Síria.

Resta uma última explicação: que Obama tenha chegado à conclusão de que nada é mais importante que manter a “credibilidade”. É raciocínio frequente também entre gângsteres, e eufemismo para o que fazem

Se um presidente (ou um capo mafioso) é desafiado, os desafiantes tem de “levar uma lição” – e não importam as consequências. É tema familiar também na política exterior dos EUA. Explica o prolongamento dos assassinatos e massacres no Vietnã por mais quatro ou cinco, mesmo depois de já estar absolutamente claro também para as elites políticas nos EUA que não conseguiriam “vencer” aquela guerra.

Por ironia, John Kerry entendia perfeitamente esse ponto – como todos entendiam – quando, na melhor hora de sua vida, fez-se uma das vozes da nação americana, no evento “Winter Soldier Investigations” de 1971, e perguntou quantos mais teriam ainda de morrer em nome do que, na essência, era uma mentira. Hoje, o secretário de Estado Kerry é o mais empenhado porta-voz do governo dos EUA, para fazer exatamente o mesmo tipo de coisa contra a qual soube levantar-se naquele 1971.

Mas, então, o que teria levado Obama a recuar – pelo menos o tanto que recuou até agora? Por hora, só podemos especular. Com o tempo, surgirão memórias escritas, e talvez venhamos a saber. Até lá, só se pode especular sobre não-sabidos sabidos e divagar sobre quais não sabidos não sabidos haverá por aí.

Mas há algumas coisas que se pode dizer, mesmo já, com considerável certeza.

O que Obama planejava fazer era flagrante, absoluta violação da lei internacional – porque não há aprovação do Conselho de Segurança e, graças à Rússia e talvez a China, não há chance de que venha a haver. A única outra justificativa legal para iniciar guerra contra nação soberana é a autodefesa, e só se entende que a lei se aplique em caso de ameaça de ataque iminente.

Mas ninguém ainda disse que a Síria prepara-se para atacar os EUA com armas químicas ou outras quaisquer.

Quando, durante o esquartejamento da ex-Iugoslávia, o governo Clinton entendeu que seria oportuno bombardear populações sérvias no Kosovo e em outros locais, inclusive em Belgrado – ostensivamente por razões “humanitárias”, mas, de fato, para mostrar aos europeus, principalmente aos alemães, quem era o chefão – os russos também impediram que o Conselho de Segurança aprovasse o ataque.

Clinton então buscou a legitimação pela OTAN, onde os EUA mandam e desmandam. Mas até Clinton insistiu que esse movimento espantoso não deveria ser definido como “um precedente”.

A equipe campeã dos especialistas em lei do Professor Obama, de Direito Constitucional, que deu tratos à bola para encontrar justificação legal para atacar a Síria com bombas e mísseis, parece ter esquecido essa parte do, pode-se dizer, precedente Kosovo. Também nisso, como em outros aspectos, o governo Obama é pior, até, que o de Bill Clinton.

A preocupação, nos dias de Clinton, era que o bombardeio de Kosovo, se viesse a constituir precedente legal, poria em risco o conceito de soberania nacional; e desfaria acordos construídos e vigentes na Europa desde a Paz de Westphalia em 1648, e que haviam sido subsequentemente adotados, desde então, em todo em todo o planeta – até por países colhidos no auge das lutas anticoloniais e de libertação nacional.

As fronteiras de muitos daqueles países, especialmente na África e no Oriente Médio eram decisões coloniais arbitrárias. A Síria agora, além de Iraque e muitos outros estados na região, ainda enfrentam as infortunadas consequências do sistema de estado que as potências coloniais impuseram. Mas ATÉ CLINTON ainda entendia que, em quase todos os casos, o melhor é não brincar com isso; porque os perigos que se criam ultrapassam sempre qualquer vantagem possível.

Não há dúvidas de que Obama sabe bem disso e é capaz de avaliar a importância do tema e dos feitos. Mas, em sua mentalidade de gângster, a “credibilidade” é mais importante que tudo; e para justificar o que quer fazer porque-sim, está disposto a ir a qualquer extremo.

Ainda assim, o precedente Kosovo pouco significa porque, hoje, nem a OTAN está interessada em apoiar o gesto de lançar um fósforo aceso na mistura altamente combustível. No máximo, talvez a França deixe-se arrastar, mas, se se considera a opinião pública francesa, é cada dia mais improvável.

Só resta, portanto, um princípio recentemente “descoberto” (inventado) – a responsabilidade (e o direito) de proteger (R2P) – ideal admirável, mas política muito perigosa, se adotada por império em declínio, que age sem ter conseguido, sequer, algum arremedo de legitimidade internacional.

Talvez Obama tenha outras ideias, lá com seus botões, sobre converter-se em completo, perfeito, indesculpável fora-da-lei, e sobre pôr abaixo o próprio cerne da ordem internacional.

Ou talvez tenha outras ideias sobre violar tão descaradamente a Constituição dos EUA, usando força militar não apenas sem declaração de guerra, mas também sem qualquer tipo de autorização do Congresso.

De fato, desde o governo Nixon, se não antes, o Executivo trabalha para usurpar a autoridade que a Constituição só dá ao Legislativo nos EUA, para decidir sobre guerra e paz.

Uma eventual possível derrota de Obama no Congresso, [antes da semana passada, e antes que os lobbies árabe e sionista e dos grandes bancos tivessem podido operar dentro do Congresso] teria atrapalhado o teatro encenado em torno do 50º aniversário da Marcha para Washington, que Obama comemorou (ao lado de dois outros presidentes Democratas), com discurso que fez, falando do mesmo ponto, em frente ao Lincoln Memorial, onde King fez seu famoso discurso “Eu tenho um sonho”.

Alguém como King, que teve espinha dorsal para atacar Johnson, na questão do Vietnã, exatamente quando Johnson dava aos pobres e aos negros mais benefícios do que qualquer outro presidente dos EUA em toda a história, ficaria horrorizado com a indefensável, vergonhosa, escandalosa belicosidade de Obama.

Em certo sentido, Obama – que fez menos que nada pelos negros e pobres (além de “ter chegado lá”) – teria gostado de ver a indignação adversária no rosto de King. Nem Obama conseguiria inventar uma guerra sem qualquer sentido, se algo nele ainda se sentisse aliado de Martin Luther King.

Talvez Obama não queira cancelar o único traço de suas políticas externa e militar que ainda é, apesar de tudo, visto como melhor que as políticas de Bush.

Diferente do antecessor, Obama sempre se esforçou para agir multilateralmente – ao ponto de, como na Líbia, unir-se e decisivamente, mas “liderando pela retaguarda”, às depredações iniciadas por aliados chaves. Agora, quando os britânicos pularam fora da canoa, até a falsidade do multilateralismo evaporou-se. Isso, sim, deve ter levado Obama a concentrar-se ainda mais, lá com seus botões.

É possível também que Obama e seus conselheiros tenham começado a achar que alistar-se ao lado dos próprios terroristas islamistas que eles mesmos combatem por todo o mundo não seria movimento inteligente.

Não importa. Nada que os botões de Obama lhe sugiram bastou para a decisão de atacar, até – precisamente, o último minuto (na 6ª-feira à noite, 30/8, conforme os noticiários), quando Obama recuou. O que mudou naquele instante?


Aqui é necessário entrar ainda mais na especulação, mas é justo sugerir que três considerações, pelo menos em parte, pesaram na reflexão de Obama.

Primeiro, dúvidas sobre a qualidade da inteligência na qual os EUA estão confiando tanto podem afinal ter penetrado a bolha dentro da qual se movimenta o Líder do Mundo Livre.

Afinal de contas, verdade seja dita: há dez anos, quando Bush e Cheney preparavam-se para lançar a guerra deles contra o Iraque, todo mundo dizia que as provas disponíveis eram “uma enterrada”. [3] Hoje, não.

Há alguns indícios que apontam para o governo sírio. Mas há também outra consideração circunstancial, mas que aponta na direção dos “rebeldes”: o governo Assad teria tudo a perder se usasse gás venenoso; e os rebeldes teriam tudo a ganhar se conseguissem convencer o mundo (ou, pelo menos, o governo Obama) de que Assad usara as tais armas.

Além do mais, já há fortes evidências de ataques com armas químicas feitos por forças do lado “rebelde”. E há quem diga também que, se os ataques vieram do lado do governo Assad, vieram de maus elementos ativos dentro do governo, contra Assad.

Se se pode dar crédito ao que a imprensa-empresa publica, muitos “sinais” de inteligência, nesse caso, partiram de Israel e Turquia – países que têm suas próprias agendas, como Obama e seus conselheiros compreendem muito bem, é claro.


Por tudo isso, é possível que Obama tenha recuado, porque não quis correr o risco de descobrir-se na posição em que George Bush descobriu-se, depois que a fraude das armas de destruição em massa explodiu-lhe na cara.

É verdade, e talvez seja relevante, que Bush e Cheney providenciaram para que a CIA preparasse as coisas de modo a que os dois provassem o que queriam provar. Obama não fez nem isso! O que não significa que não esteja sendo manipulado – se não por Israel ou Turquia, então por elementos bandidos ativos dentro de seu próprio establishment nacional-militar-de-segurança & grandes bancos

Há outra diferença entre a fábula das armas de destruição em massa de Bush, só raramente mencionada, mas que, nem por isso, deve permanecer esquecida; e não ajuda Obama. O governo Bush forjou informações de segurança para justificar que haveria ameaça grave aos EUA e seus aliados; uma ameaça que poderia surgir de repente aos olhos do mundo, nas palavras de Condoleezza Rice, como uma nuvem em forma de cogumelo.

Os esforços de Obama para usar o mesmo raciocínio – por exemplo, na entrevista que deu à rede PBS, dia 28/8 – são tão ridículos, que é difícil crer que um homem inteligente como Obama, tenha realmente pronunciado aquelas palavras.

Fato é que Obama não tem imaginação suficiente para inventar uma fábula na qual alguém consiga ver alguma ameaça aos EUA, a partir de armas químicas usadas na Síria; nem Obama, nem ninguém. Daí que tantos tenham concluído que o que Obama e os que colaboram com ele dizem nada tem a ver com perigos iminentes que ameacem os EUA ou seus interesses. E por isso, afinal, tantos já concluíram que se trate de “dar uma lição” ao governo sírio.

Um segundo fato que pode ter pesado para o recuo de Obama foi o resultado da votação no Parlamento britânico, que tirou a Grã-Bretanha dos planos de guerra de Obama. E não foi golpe contra, apenas, o seu “multilateralismo”: foi golpe também contra o “relacionamento especial” que se tornou tão crucialmente importante para os planos imperiais dos EUA depois do Vietnã.

Poderia o Parlamento Britânico ter lançado sua própria Declaração de Independência, ao decidir não ir junto? Talvez Obama tenha medo de descobrir.

Finalmente, alguma influência pode ter tido, também, o fato de que a mais augusta catedral de estudos muçulmanos sunitas avançados de todo o planeta, a mesquita Al-Azhar no Cairo, a mais alta autoridade do Islã sunita, TAMBÉM condenou categoricamente os planos de Obama para atacar a Síria

A condenação não caiu bem, para alguém que parece tanto esperar das animosidades entre sunitas e xiitas, para obter ainda algum apoio, qualquer, apoio, pelo menos dos muçulmanos religiosos sunitas – para somar-se, é claro, ao apoio que já recebe do governo sunita da Arábia Saudita e de outros ditadores anti-Irã na Península Arábica e da (só oficialmente) secular Turquia.

Embora pouca preocupação lhe causasse a oposição católica, Stálin ganhou fama por descartar declaradamente a importância da Igreja, ao perguntar, desdenhosamente, quantos esquadrões o Papa comandava. Depois da condenação que receberam de Al-Azhar, Obama e seus conselheiros bem podem ter começado a preocupar-se: a opinião dos clérigos muçulmanos pode vir a comprovar-se muito mais importante e decisiva que a de Stálin.


O Congresso dos EUA só volta das férias de verão na segunda semana de setembro. Assim, a menos que Obama mude de opinião sobre esperar pela aprovação do Congresso, o mundo terá alívio de uma semana e meia [aconteceu, só em parte: Obama encaminhou proposta de autorização para guerra total, à Comissão de Relações Exteriores do Senado; recebeu, como resposta, uma contraproposta, para autorização “limitada”; essa contraproposta é que será votada dia 9/9 próximo].

Talvez Obama mude de ideia. Na opinião do próprio Obama, segundo relato de gente que fala com ele, Obama tem autoridade para fazer o que lhe dê na telha; não está pedindo nada; está só “consultando” o Congresso. O que o Congresso diga ou deixe de dizer não teria qualquer importância perante a lei.

Desnecessário dizer: Obama erra. Erra o suficiente para que se desconfie do que teria aprendido em Harvard e ensinou em Chicago. Mas tem razão ao preocupar-se com a derrota política, uma vez que, pior, nisso, até que David Cameron, Obama ignora o que pensem ou decidam os representantes (eleitos) do povo.

A sabedoria convencional, no pé em que está hoje, acha que o presidente conseguirá. Mas isso a sabedoria convencional achava também na Grã-Bretanha.

Já há notícias de que o governo Obama jogará a carta “Israel” para puxar votos para o seu lado. Faz sentido: no Congresso dos EUA, os desejos de Israel atropelam tudo. Mas talvez, dessa vez, não atropelem.

Dessa vez, a opinião da elite israelense também está dividida. Automaticamente, a opinião pró-Israel nos EUA também está dividida. Depois de muito hesitar, o governo Netanyahu afinal decidiu que quer que os EUA intervenham como aliados dos ‘'rebeldes". Mas, do ponto de vista de Israel, não está ainda claro se uma vitória dos ‘'rebeldes'’ ou, mesmo, uma guerra prolongada, mais ajudam, ou mais atrapalham.

Os “rebeldes”, afinal, englobam elementos islamistas que nunca deram sinal de interesse em entender-se com Israel e nunca houve acordo sobre o que Israel algum dia teria feito a favor deles; e o governo Assad, esse sim, muito ajudou Israel, mantendo a paz na fronteira norte – até no Golan ocupado.

Claro que a principal preocupação de Israel nos últimos tempos, depois do Irã, é o Hezbollah – em boa parte porque Israel vê o Hezbollah como principal aliado do Irã na vizinhança, mas também porque o Hezbollah já várias vezes combateu Israel de igual para igual, não poucas vezes, inclusive, com impressionante sucesso, no passado recente. A intervenção norte-americana pode enfraquecer o Hezbollah; ou é o que Netanyahu espera. Por outro lado, pode fortalecer muito a imagem e o apelo popular do Hezbollah. Rapidamente, isso pode vir a ser um pesadelo para o estado israelense.

A carta “Israel” é fria. E rapidamente será exposta como tal. Outras frias surgirão. Mas não importa o que Obama e seus puxa-sacos inventem, o mais provável é que os esforços para um assalto à Síria encontrem enorme resistência e podem bem fracassar. A razão disso já começa a aparecer, e a ironia é impressionante.

Obama pode afinal estar às vésperas do obter o que mais procura desde que chegou à Casa Branca: um consenso “bipartidário”. Mas não será o consenso que esperava: será consenso contra ele.

Não há qualquer dúvida de que, se Mitt Romney tivesse sido eleito, os Democratas se levantariam na oposição, se Romney se atrevesse a propor qualquer coisa semelhante ao que Obama está propondo hoje.

Mas o mal (supostamente) menor venceu as eleições, e a vasta maioria dos Democratas continuaram obamistas. Vários deles o seguirão como lêmures. Mesmo assim, ainda há uns poucos deputados progressistas nas fileiras Democráticas, e alguns poucos centristas que podem ser seduzidos a ouvir seus eleitores, mais que o chefão. Pode-se assim esperar que pelo menos alguns Democratas “liberais” verão o caminho para separar-se do rebanho.

Por décadas, os Republicanos foram o cerne do Partido da Guerra dos EUA. Para tristeza de muitos líderes democratas, são eles, não Hillary Clinton, que são considerados fortes na “defesa”. Mas nesse caso, é provável que haja mais “pombas” entre os Republicanos, que entre os Democratas.

Alguns daqueles Republicanos – John McCain e Lindsey Graham são lamentáveis exemplos – já disseram, bem razoavelmente, que a tal de intervenção “cirúrgica” que Obama e Kerry estão propondo não faz sentido algum; que ou os EUA atacam e intervêm com decisão, ou não atacam. Como inabaláveis amantes das guerras, preferem que a ação militar dos EUA seja mais decisiva. Mas não farão concessões: votarão contra medidas parciais que não ajudam a promover nenhum interesse imperial consistente.

Há também os Republicanos, como Rand Paul, que sempre se opõem a envolvimentos imperialistas, embora não por motivos anti-imperialistas. Para esses, onde há império, há governo “grande”, e isso atrapalha o livre mercado e a propriedade privada exclusiva da vida econômica, que muito pregam. Com certeza votarão contra a proposta de Obama para a Síria.

E, por fim, há os Republicanos portadores de necessidades especiais no campo moral (moral zero) e intelectual (idem), os do Tea Party e seus companheiros de jornada política, que odeiam Obama, embora por todas as razões erradas, e cujo ódio não conhece limite. Votarão contra o pedido de autorização de Obama para atacar a Síria pela exclusiva razão de que quem pede é Obama.

Sim, sim, semana que vem tudo poderá acontecer. Mas já é sabido bem sabido que Obama, até aqui, tirou nota zero na prova de ‘'lobbear'’ o Congresso. Assim sendo, há motivo para cauteloso otimismo nesse caso that what now seems likely will indeed come to pass.

Cameron perdeu. Obama pode perder. Cameron cedeu. E vai que Obama cede?


Por tudo isso, agora é hora de os norte-americanos pressionarmos o Congresso. Não só o punhado de Democratas que são suscetíveis a argumento racional, mas também as hordas de Republicanos aos quais não chega nenhum argumento racional.

Because, in this instance, Obama is not acting in behalf of his or their paymasters, but is only trying to save face, public opinion matters.

Most Americans are already against this proposed war of choice, and not just, as some pundits lament, because of war weariness.

There is also, at some level, a growing awareness of how important the rule of law is and how wrong-headed the humanitarian intervention doctrine can be when it operates in its stead.

It should therefore be possible to press home the point that America must not operate as a global gendarme, enforcing political morality worldwide; that doing so is both dangerous and, from a moral point of view, absurd.

Most Americans already know this. The task for now is therefore to make enough of us sufficiently vocal about what we understand to force enough of our representatives in Congress to defeat our President’s plan.

É possível que já nada detenha Obama, mas a tentativa de conter Obama já será um passo na direção de restaurar a ordem mundial e a lei civilizada. No mundo de hoje, esse objetivo, eminentemente conservador, talvez tenha de ser um muito genuíno objetivo progressista básico: derrotar princípios de gangsterismo e impor, pelo menos, os princípios da Carta das Nações Unidas.

Andrew Levine é um Senior Scholar do Institute for Policy Studies e, mais recentemente, autor dos livros The American Ideology (Ed. Routledge) e Political Key Words (Ed. Blackwell), bem como de muitos outros livros e artigos em filosofia política. Seu livro mais recente é In Bad Faith: What’s Wrong With the Opium of the People. Foi professor (filosofia) da University of Wisconsin-Madison e professor pesquisador (filosofia) da University of Maryland, College Park. É co-autor do livro Hopeless: Barack Obama and the Politics of Illusion (AK Press).

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