24 de outubro de 2013

A guerra sectária: redesenhando o Oriente Médio

Por Ramzy Baroud [*]

Doha – As águas quentes do Golfo parecem tranquilas de onde estou sentado, mas tal tranquilidade dificilmente reflete os conflitos que esta região continua a gerar. A euforia da chamada Primavera Árabe já passou faz tempo, mas o que restou foi uma região que é rica em recursos oprimida com uma história facilmente manipulada que está em um estado de transição imprudente. Ninguém sabe como será o futuro, mas as possibilidades são amplas e, possivelmente, trágicas.

Em minhas muitas visitas à região, eu nunca encontrei tal falta de clareza quanto ao futuro, apesar do fato de que linhas de batalha foram traçadas como nunca antes. Governos, intelectuais, seitas e comunidades estão se alinhando em ambos os lados de várias divisões. Isto está acontecendo em diversos graus em todo o Oriente Médio, dependendo da localização do conflito.

Alguns países são diretamente engolidos em conflitos sangrentos e definidores – revoluções desencaminhadas, como no Egito, ou revoltas que se transformaram em guerras civis das mais destrutivas como na Síria. Inversamente, aqueles que foram poupados até agora da agonia da guerra, estão bastante envolvidos no financiamento de várias partes em conflito, transportando armas, treinando combatentes e liderando campanhas midiáticas em apoio de uma facção contra outra. Já não existe um conceito como objetividade midiática, nem mesmo em termos relativos.

No entanto, em alguns casos, as linhas também não são traçadas com nenhum grau de certeza. Dentro das fileiras da oposição síria ao regime Baath em Damasco, os grupos são muito numerosos para serem contados, e suas próprias alianças mudam em direções que poucos na mídia parecem notar ou se importam em noticiar. Nós arbitrariamente escrevemos sobre uma ‘'oposição'’, mas na realidade não há plataformas políticas ou militares verdadeiramente unificadoras, seja o Conselho Militar Supremo, Conselho Nacional Sírio ou a Coalizão Nacional Síria. Em um mapa interativo, formulado pela Al Jazeera provavelmente a partir do que parecem ser conclusões por atacado, o conselho militar “alega comandar em torno de 900 grupos e um total de 300.000 combatentes”. A alegação de controle real sobre esses grupos pode ser facilmente contestada, e há diversos outros grupos que operam baseados nas suas próprias agendas, ou unificados sob plataformas militares diferentes com nenhuma obediência a qualquer estrutura política, não àquelas em Istambul ou qualquer outro lugar.

É fácil, contudo, associar conflito perpétuo com o Oriente Médio supostamente inerentemente violento. Por quase duas décadas, muitos avisaram que a intervenção norte-americana no Iraque eventualmente ‘'desestabilizaria'’ toda a região. O termo ‘'desestabilizar'’ foi certamente relevante, já que Israel fez mais que sua parte para desestabilizar diversos países, ocupar alguns e destruir outros. Mas os prospectos de desestabilização política eram muito mais ameaçadores quando o país mais poderoso do mundo investiu muito de seu poder e recursos financeiros para fazer o trabalho.

Em 1990-1991, depois novamente em 2003, e mais uma vez em 2006, o Iraque foi usado como um campo gigante de experimentações de guerra, “construção de estado” e guerra civil provocada pelos EUA. A região nunca havia passado por tal divisão para acomodar linhas sectárias como então.

O discurso que unificou a guerra americana foi descaradamente sectário da maioria xiita oprimida pela minoria sunita. Eles reorganizam uma das paisagens políticas mais complexas do mundo dentro de algumas semanas, com base em um modelo imaginado por “especialistas” em Washington, com pouca experiência de vida real. Não só o Iraque foi feito em pedaços, mas foi refeito várias vezes para acomodar a compreensão inepta da história pelos EUA.

O Iraque continua a sofrer, mesmo depois que os EUA supostamente retiraram suas forças armadas. Milhares de pessoas morreram no Iraque nos últimos meses, com as vítimas identificadas como membros de uma seita ou de outra. Mas a doença do Iraque tornou-se uma doença regional. E como os EUA quando invadem países soberanos e reorganizam as fronteiras políticas, grupos como o Estado Islâmico do Iraque e al-Sham (ISIS) operam onde quer que encontrem sua vocação, sem respeito pelas fronteiras geográficas.

Formado no Iraque, em 2006, como uma plataforma para vários grupos jihadistas como a al-Qaeda no Iraque, ISIS tem sido um componente poderoso da selvagem guerra em curso na Síria. Apesar de sua má reputação, parece ter poucos problemas em encontrar o acesso e recursos. Pior ainda, em algumas partes da Síria, ele opera uma economia pouco estável, que lhe dá maior privilégio do que os grupos sírios caseiros.

Esses grupos nunca teriam existido no Iraque, ou passariam com relativa facilidade para outros países, se não fosse pela invasão dos EUA. Eles funcionam como exércitos particulares, divididos em bandos menores de combatentes aguerridos que são capazes de se orientarem através das fronteiras e tomar o controle de comunidades inteiras. Al-Qaeda, um grupo pouco conhecido há 12 anos, tornou-se uma das partes interessadas no futuro de todos os países do Oriente Médio.

Para os países que não estão submetidos ao tipo de agitação que está sendo experimentado na Síria e no Iraque, eles, no entanto, entendem que é tarde demais para desempenhar o papel de espectador. É uma guerra total se desenvolvendo, e não há tempo para a neutralidade. Preocupantes previsões da mudança da paisagem física da região estão em andamento e poucos países parecem ser poupados.

O recente artigo de Robin Wright no The New York Times, “Imagining a Remapped Middle East”, é uma especulação típica feita pelas elites políticas e meios de comunicação americanos sobre o Oriente Médio. Eles aplicaram a sério antes e depois da invasão dos EUA no Iraque, onde eles retalharam o país árabe de qualquer modo que fosse de acordo com os interesses dos Estados Unidos, na típica fórmula dividir para governar. Desta vez, porém, as perspectivas são assustadoramente sérias e reais. Todos os grandes jogadores, mesmo que aparentemente opostos uns aos outros, estão de fato contribuindo para a divisão plausível. De acordo com Wright, não só os países poderiam se tornar menores, alguns dos territórios retalhados poderiam fazer parte de países vizinhos.

Mesmo cidades-estados - oásis de múltiplas identidades, como Bagdá, enclaves bem armados como Misrata, a terceira maior cidade da Líbia, ou zonas homogêneas como Jabal al-Druze no sul da Síria - podem ter um ressurgimento, mesmo que tecnicamente dentro de países, escreveu Wright. O infográfico que acompanha foi intitulado: “Como 5 países poderiam se tornar 14”.

Se tais eventos nunca vão se realizar, a previsão mesma fala da inegável natureza mutante do conflito no Oriente Médio, onde os países estão agora envolvidos em guerra. As novas linhas de batalha são agora sectárias, carregando os sintomas de uma guerra civil implacável do Iraque. Na verdade, os jogadores são mais ou menos os mesmos, exceto que agora o “jogo” se espalhou para ultrapassar fronteiras porosas do Iraque até espaços muito mais amplos onde os militantes têm o domínio.

Daqui, as águas quentes do Golfo parecem calmas, mas só aparentemente.


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