6 de outubro de 2013

A moralização do excepcionalismo americano

Quando o cinismo é virtude e a sinceridade um defeito

Por Andrew Levine [*]

[CounterPunch] Os neoconservadores, cujas ideias levaram a tantos massacres sem sentido e destruição quando George W. Bush e Dick Cheney dirigiam o império americano, e seus equivalentes funcionais, os intervencionistas humanitários que assumiram com Barack Obama, sempre voltam, em momentos oportunos, com o disparate sobre o excepcionalismo norte-americano.

É uma daquelas expressões, como "o sonho americano", que não têm qualquer significado definido, apenas conotações vagas , mas que às vezes são úteis em contextos políticos.

Seguindo a liderança dúbia dos autores dos discursos de Ronald Reagan, expoentes contemporâneos daquela ideia moralizaram o conceito. Para eles, o excepcionalismo americano significa a superioridade moral americana.

Essa compreensão é ideologicamente perniciosa, filosoficamente incoerente e absurda já à primeira vista. Mas tem sua utilidade.

O presidente Obama, no discurso do dia 24 de setembro de 2013 à Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), mostrou as sujeiras que se ocultam no conceito e usou-o de modo perspicaz.

É uma pena que esse discurso, e o arrogante “agitar os sabres” contra a Síria, que o precedeu, já tenha desaparecido no buraco negro da memória dos americanos. Se seus 15 minutos de fama durassem um pouco mais, o ridículo dos argumentos de Obama ter-se-ia tornado tão visível, que não deixaria de ser percebido sequer pela nossa mídia servil.

Mas o Tea Party entrou logo em ação, para impedir que acontecesse. Em manifestação de extrema obstinação, mesmo para eles, decidiram “trancar” o governo, até que Obama desista de exigir que o Estado financie seu projeto de assistência pública à saúde ("Obamacare").

O foco do noticiário, assim, mudou. E ninguém mais deu qualquer atenção aos débeis esforços de Obama para justificar a belicosidade norte-americana, para divisões do Partido Republicano e os pobres de espírito e imbecis do Tea Party que comandam o show.

Este desenvolvimento não teria sido de todo ruim, se a mídia corporativa tivesse o cuidado de esclarecer que a reforma aos quais os Republicanos tão furiosamente se opõem hoje é, na essência, plano dos próprios Republicanos –- forjado no início dos anos 1990 na Heritage Foundation, como alternativa ao projeto de Hillary de reforma da Saúde (“Hillarycare”), e implementado, há apenas alguns anos, em Massachusetts, pelo governador Mitt Romney.

Mas já seria esperar demais. E aconteceu que, assim, o discurso no qual Obama proclamou a absoluta probidade da América passou sem críticas.

Com isso, uma compreensão moralista do excepcionalismo americano permanece aí, na arena pública, e ainda causando mal.

Assim, portanto, não há dúvida alguma de que da próxima vez que se tratar de alguma nova aventura militar no Oriente Médio ou onde for, o disparate sobre o intervencionismo neoconservador-humanitário voltará à tona.

Expô-lo e discordar dele, portanto, ainda é oportuno, mesmo sem a atenção da mídia, tão urgente hoje quanto há poucos dias.


O que Obama disse em defesa da ideia foi mais que simples deslize - em parte porque Obama misturou o excepcionalismo americano com um seu pessoal excepcionalismo.

O golpe de mão retórico já se tornou familiar, na Era de Obama.

Obama o usa, por exemplo, para enfrentar a crescente indignação popular contra o estado de vigilância que ele ativamente comanda.

As revelações de Edward Snowden trouxeram ao conhecimento dos cidadãos norte-americanos a intervenção e as interferências da guerra que Bush-Obama move contra proteções seculares dos direitos individuais ao conhecimento público. Mas não se preocupem! Obama cuidará para que a ação da Agência de Segurança Nacional (NSA) e demais seja boa. Como poderia ser de outra forma? Sua superioridade moral é irrepreensível , é excepcional.

Assim sendo, pois, mesmo que seu governo arrase os direitos à privacidade e as garantias ao devido processo legal, esse presidente, intelectual notável, especialista em Direito Constitucional, de braços dados com o Procurador Geral, Eric Holder e outros subalternos do estado de vigilância, merecem confiança implícita: eles são confiáveis em si.

Eles farão a coisa certa, não apenas porque são bons, mas porque são tão bons que nem precisam de leis que só servem para conter outros; eles são excepcionais demais, para precisarem de leis.

Da mesma forma, em assuntos estrangeiros, o presidente Drone quer ser livre para matar e mutilar o que lhe agrada. E então pede confiança irrestrita, total - sob o argumento de que a América é e sempre foi o melhor e mais consistente avalista da liberdade e da justiça no mundo.

Na ONU, disse ele, com efeito, que a América não é apenas um estado, entre outros, a sua bondade essencial coloca-a em uma categoria à parte.

Pouco importa que, no mundo real, os Estados Unidos, especialmente (mas não só) depois da II Guerra Mundial, tenham sido, de longe, o principal perpetrador de violência e morte pelo mundo, e o principal suporte para algumas das ditaduras mais cruéis que a humanidade conheceu.

O que importa é que, mesmo quando cometemos erros, somos essencialmente bons. Por isso, então, é que o mundo deve reconhecer que a Pax Americana é a última esperança para o planeta.

Obama disse aos líderes mundiais que ouviam seu discurso, que os povos do mundo já sabem disso, no fundo do coração. O problema é que alguns deles estão no encalço de ideologias que dizem outra coisa - e, por isso, não sabem que sabem.

Sempre há ideologias “antiamericanas” à mão. O comunismo se foi, e o nacionalismo secular está em declínio. Mas o islamismo surgiu para preencher o vazio. O Líder do Mundo Livre sabe disso muito bem. Desde o final dos anos 1970, governos norte-americanos só fazem atiçar as brasas.

Assim aconteceu que, nas palavras da falecida (e lamentável) Leona Helmsley, impostos são para “gente pequena”; e leis são para os “menos excepcionais”.

Porque são excepcionais, a América  podem fazer o que bem entendam da lei internacional - não porque possam, mas porque são bons. E é ainda mais verdade agora, porque agora a América é presidida por alguém obviamente confiável e sábio - nada menos que um laureado pelo Prêmio Nobel.

O mesmo vale , em grau reduzido , para os países que participam na bondade essencial da América - Israel, é claro, o Reino Unido e, às vezes, a Alemanha e a França, além de outros países obedientes da União Europeia (UE).

Por outro lado, estados e povo inferiores, os nada-excepcionais, têm de respeitar as leis - sem exceção. Quando não obedecem, ou quando Obama acha que não estão obedecendo adequadamente, então os estados e povos inferiores devem ser massacrados, espancados até que obedeçam, por todos os meios necessários, e adequados às exigências da política eleitoral dos Estados Unidos.

Em outras palavras, Obama, na ONU, fez mais do que jogar a carta “da liberdade”. Ele tentou justificar por que sempre usa a “carta da liberdade” como convêm.

Desnecessário dizer, poucos, naquele dia, sentiram-se incomodados pela violência do argumento de Obama. Ali, ninguém é bobo. Todos sabem que, na arena da política mundial, a força bruta, sempre que obrigada a justificar-se, recorre ao mesmo rol de nobres propósitos.

Mas Obama é diferente dos intervencionistas humanitários que hoje mandam no mundo, porque Obama é sincero ou - o que é praticamente a mesma coisa - excepcionalmente sincero em sua justificativa.

Será que Susan Rice e Samantha Power - ou, para o caso, John Kerry, Hillary Clinton e Barack Obama - acreditam no absurdo que eles anunciam? Por mais terrível que soe a ideia, este parece ser o caso.

Talvez a sinceridade torne esses fascistas menos detestáveis, no plano ético, que outros do seu grupo em outros tempos e lugares. Mas, por razões que Nicolau Maquiavel já decifrou há muito tempo, o cinismo, pode ser e muitas vezes é virtude, no reino da realpolitik; e a sinceridade, é vício. Não há nem sinal de que Obama compreenda isso.

Talvez o velho Obama, o outro, dos tempos em que ainda não entrara na política americana, compreendesse bem. Sabemos que, então, ele estava menos exposto às discussões públicas. É claro que anos de serviços prestados como office-boy do capitalismo mundial são sempre e necessariamente degradantes, no plano moral; mas os mesmos anos e os mesmos serviços também são degradantes no plano intelectual.

O problema de defender uma compreensão moralista do excepcionalismo americano não é só que ele seja, sempre e necessariamente, desmentido pelos fatos. Ainda mais grave, é que o excepcionalismo é sempre um conceito filosoficamente incoerente.

A razão pela disso, em síntese, é que a moralidade não admite exceções.

Digamos que a ética ofereça um modelo de como a pessoa deve agir; e que a moralidade designa uma espécie de ética - alguém afirma que, em dadas circunstâncias, deve-se agir (e decidir) a partir de um ponto de vista imparcial, como agente neutro.

Essa ideia é básica, na compreensão moderna sobre o Direito e a Justiça; mas mesmo no alvorecer da idade moderna, essa já não era ideia nova. A mesma ideia já aparece antecipada nas teorias éticas de muitas tradições religiosas, em todo o mundo.

A Regra de Ouro é um exemplo. Fazer ao outro o que queremos que o outro faça a nós implica que, do ponto de vista em questão - o ponto de vista moral -, o que nos diferencia uns dos outros não conta; que, para determinar o que nós temos de fazer, como seres morais, só conta o que haja de igual, de comum, entre todas as pessoas.

O ponto de vista moral é assumido em praticamente todos os ramos da teoria ética. No entanto, também tem sido objeto de incisivas críticas.

Karl Marx foi um critico, embora suas preocupações só tivessem a ver com aplicações do ponto de vista moral ao mundo real das sociedades divididas em classes, e não com a validade da própria ideia.

Marx pensava que uma sociedade ideal - o comunismo, rumo ao qual a história estava se movendo - seria capaz de institucionalizar genuinamente a igualdade moral de todas as pessoas. Mas o comunismo que o mundo conhecia, no qual a luta de classes ainda imperava, a moralidade institucionalizada muitas vezes funcionaria como ficção, como uma ilusão, que reforçaria o sistema ainda existente, de dominação de classes.

Friedrich Nietzsche foi um crítico mais radical , ele contestou a própria noção de igualdade que o ponto de vista moral supõe e, portanto, a própria ideia de moralidade.

Para defender sua ideia, ele fez uso de noções de virtude e de diferenças inerentes entre os seres humanos que têm raízes nas tradições éticas da antiguidade grega e romana e no pensamento de outras civilizações "heroicas".

Os defensores do excepcionalismo americano , como Barack Obama, são, sempre, indiscutivelmente, defensores da divisão de classes que Marx abominava; e de modo algum podem ser acusados de nutrir qualquer simpatia pelo tipo de pensamento ético que Nietzsche inaugurou.

Se convocados a explicar a posição deles, com certeza rejeitariam a ideia de que haja uma gradação de bondade inerente entre pessoas - ou nações.

É por isso que , na ONU , Obama teve o cuidado de basear sua afirmação de superioridade moral americana em boas ações dos Estados Unidos no cenário mundial e em seus muitos sacrifícios de “sangue e dinheiro”.

Não importa , mais uma vez , que a suposta bondade dessas obras é uma simples  confabulação. Não importa, sequer, que os Estados Unidos tenham saído muito bem da II Guerra Mundial, em contraste com o estado em que ficaram outros beligerantes, nem que o peso que a maioria dos americanos tenham tido que suportar por causa da dominação americana seja muito leve, se comparado ao peso que os Estados Unidps impuseram e continuam a impor às nações e povos que dominam.

É como se os mais pobres, condenados econômicos que nossos governantes liberais insistem em manter sob risco de vida, tivessem sofrido  pouco. Muitos americanos foram levados ao desespero, muitos se suicidaram - não em guerras para defender sua nação, mas em guerras para implementar o intervencionismo neoconservador humanitário e ensandecido. Mas o sacrifício deles passa despercebido para a vasta maioria dos americanos que não fazem sacrifício algum.

Em resumo, há imensa quantidade de fato contra, não a favor, do argumento de Obama. Mas mesmo que fosse não importa, porque não existe tal coisa como a capital moral - exceto nas máquinas de propaganda que servem aos que tenham interesse em justificar o próprio privilégio e a opressão de outros e, para isso, apelam a eventos históricos do passado próximo ou distante.

Acontece sempre. Quando Israel se autoproclama “o Estado do povo judeu”, Israel reivindica o direito de fazer o que quiser contra os palestinos, ou contra quem for, por causa do que os nazistas fizeram aos judeus europeus há mais de meio século. Às vezes, Israel chega a sugerir que a condição de vítima é parte da condição dos judeus, o que, de algum modo, liberaria Israel das normas usuais da conduta internacional.

Os israelenses, pelo menos, conseguem ainda montar um caso, espúrio, mas um caso, em defesa desta afirmação. Se Obama tentasse explorar algo semelhante para os Estados Unidos não seria crível. 

Mas, mesmo se houvesse algo a ser explorado, seria irrelevante.

Não é possível defender exceções às exigências da moral, apelando para a moralidade excepcional daqueles para os quais são requeridas as exceções. A própria ideia é auto-contraditória.


The neoconservative-humanitarian interventionist purchase on American exceptionalism also comes with a lineage that conflicts with the drift of the political line its proponents nowadays advance.

For them, American exceptionalism is a tool in global capitalism’s arsenal. It was not always so.

As remarked, the turning point came during the Reagan presidency. It was a by-product of an ideological blitz that drew substantially on Anglo-Protestant, especially Puritan, theology, and on related political currents that had lain dormant for two centuries or more.

Reagan’s reference to “the shining city on the hill,” at the 1984 Republican Convention, is a well-known example.

The more or less intended effect of this way of presenting America’s role in the world is to move the discussion onto a quasi-theological plane — depicting America’s essential goodness as a transcendent property of the state.

Needless to say, this is not the way the effort is usually described. If it were, its ludicrousness would be too apparent to bear even casual scrutiny.

The effect is similar to what has been achieved by calling the Nazi led effort to exterminate European Jewry a “Holocaust.” The biblical reference suggests that ordinary causal explanations cannot explain what happened; that the evil lies outside the scope of ordinary human understanding.

This is nonsense, of course, but at least, in that case, there was a genuine and profound evil to explain. In declarations of America’s essential goodness in world affairs, there is nothing to account for – naturalistically, theologically or in any other way. There is no there there.

This is not to say that talk of American exceptionalism is necessarily pernicious. Before the Reaganite turn, before the expression and the concept it articulates were construed in a moralized way, “American exceptionalism” was a benign and sometimes useful notion.

The idea goes back at least to Alexis de Tocqueville’s account of American democracy in the late 1830s. Tocqueville deemed America qualitatively different from the countries of the Old World; in this way, it was “exceptional.”

The differences, he thought, were striking enough to call for a fresh understanding of historical trajectories and democratic forms. The absence of a feudal past figured importantly in Tocqueville’s discussion, as did other ostensibly unique features of the American situation.

Decades later, a number of historians — Charles Beard and Frederick Jackson Turner, among others – were struck by the feebleness of the socialist movement in the United States. In this respect, the United States seemed qualitatively different from contemporaneous industrialized societies. This exception to the rule likewise called for an explanation.

To account for this American exceptionalism, they made much of the fact that, up to their time, there had always been a frontier ready to absorb people whose discontents might otherwise have taken a less exceptional turn. Other pertinent factors included levels of immigration that gave rise to animosities that blocked the formation of social solidarities; and, of course, there was the race question, as there always is.

On the whole, these pre-Reagan invocations of the term, and more often of the concept associated with it, came from the Left. In the late 1920s, there was even a Communist version of American exceptionalism, associated with Jay Lovestone, a leader of the American Communist Party.

Lovestone thought that America’s industrial power and seemingly unlimited resources exempted it from the usual “laws of development” of capitalist societies. Stalin promptly quashed that heresy; and, by the 1930s, the idea was heard no more in Communist circles.

Thus it has only been in the past several decades that “American exceptionalism” has changed sides; that the idea has been invoked to justify according carte blanche to American governments to do as they please.

The appropriation of the idea within liberal-imperialist ranks is newer still. Its roots go back barely two decades – to ill-informed reactions to events in Bosnia and Rwanda. The prominence this way of thinking now enjoys is, for the most part, a creature of Obama’s presidency.


The questions that first raised the idea of American exceptionalism remain pertinent and, to some extent, unresolved. But in view of what has happened to the term in the current period, it is perhaps best that it be retired.

In its moralized sense, American exceptionalism is a noxious doctrine. Reduced to its core, it amounts to nothing more than an expression of raw power – one that puts the United States beyond legal or customary constraints, that gives it license to do what it wants because it can.

This was probably not what Obama had in mind by the slogan “yes, we can.” It is certainly not what his supporters thought he meant. But it is what his foreign and military policies amount to. Notwithstanding all the blather “American exceptionalism” has elicited of late, there is nothing more to it than that.

Andrew Levine é um Senior Scholar do Institute for Policy Studies e, mais recentemente, autor dos livros The American Ideology: A Critique (Routledge) e Political Key Words (Blackwell), bem como de muitos outros livros e artigos em filosofia política. Seu livro mais recente é In Bad Faith: What’s Wrong With the Opium of the People. Foi professor (filosofia) da University of Wisconsin-Madison e professor pesquisador (filosofia) da University of Maryland, College Park. É co-autor do livro Hopeless: Barack Obama and the Politics of Illusion (AK Press).

Nenhum comentário:

Postar um comentário