18 de outubro de 2013

Abenomics em 14 palavras

Ferraris para os ricos e nada para todos os outros

Por Mike Whitney

[CounterPunch] As vendas de Ferrari dispararam no Japão, mas as vendas de cerveja começaram a cair. Isso é realmente tudo o que é preciso saber acerca da Abenomics (a palavra vem do nome do primeiro-ministro do Japão (Shinzo Abe) + Economics).

Segundo a Bloomberg, "A Ferrari diz que as vendas no Japão subirão 30% este ano... (As vendas) aumentaram 28% nos primeiros seis meses". As vendas da Lamborghini também estão subindo. Segundo o "Responsável executivo chefe da Lamborghini SpA, Stephan Winkelmann... o fabricante de automóveis está muito feliz com o Japão. "Estão a voltar os grandes tempos". As vendas de Lamborghinis no Japão aumentaram 13%, para 142 unidades, nos primeiros nove meses, de acordo com a Japan Automobile Importers Association". ("Ferrari Says Sales in Japan to Rise 30% as Abe Revives Spending", Bloomberg)

Em contraste, a procura de cerveja caiu cerca de 3% em agosto, "o seu mais baixo nível mensal desde quando começaram a coligir estes dados em 1992, mostram os números das principais cervejeiras... A Asahi Breweries Ltd. e a Kirin Brewery Co. registam declínios, principalmente devido às vendas fracas". ("Beer, near-beer shipments fall 2.8%", Japan Times )

Como prefere?

Assim, a Abenomics funciona como Bernankenomics, Draghinomics (UE), Harpernomics (Canadá), Cameronomics (Reino Unido) e agora Abbottnomics (Austrália). Em todos os casos, políticas monetárias mais frouxas e políticas orçamentais mais duras geraram mais riqueza para os detentores do 1% enquanto cadáveres a trabalhar ficam para trás. Pode-se chamar a isso Quantitative Easing (QE) ou Abenomics ou Long-Term Refinancing Operation (LTRO) ou facilidade monetária ou absurdoquantitativo. Realmente não importa muito como se chame, porque tudo isso resume-se à mesma coisa: Ferraris para os ricos e absolutamente nada para todos os demais. Entendido? 

Nos EUA, o Federal Reserve proporcionou financiamento de baixo custo "ilimitado" para os grandes bancos da Wall Street enquanto inchou os mercados financeiros em mais de US$3 trilhão. Assim, naturalmente, as condições melhoraram dramaticamente para os especuladores ricos. E quanto aos outros 99%? Nem tanto. Eles ainda estão lutando com a alta taxa de desemprego, diminuição dos salários reduzidos, queda nos rendimentos, dívida familiar considerável, a diminuição da renda disponível e uma economia privada de estímulo que ainda cambaleia a meia velocidade. Exceto para estes 99%, as coisas estão simplesmente ótimas.

Cinco anos na chamada "recuperação" e a taxa dos fundos do Fed ainda está presa aos 0%, o que significa que a economia ainda está tão fraca que o Fed não pode elevar taxas nem mesmo um magro 1% sem temer que todo o castelo de cartas desmorone. Por qualquer padrão de medida, a QE foi um fracasso. Ela, contudo, carregou os preços das ações, pressionando lucros de bancos e corporações a alturas recorde, aumentou enormemente a desigualdade e tornou algumas pessoas muito ricas ainda mais ricas. Por outras palavras, a política está travalhando muito bem, obrigado. 

No Japão, os resultados são basicamente os mesmos embora não se possa saber isso lendo os jornais. A mídia caracteriza a Abenomics como um êxito esmagador o qual elevou o PIB, promoveu exportações, remeteu os preços das ações para as alturas e cortou o valor do yen. Isso também é verdade, em alguma medida. Tal como a QE de Bernanke, a Abenomics tornou algumas pessoas ricas ainda mais ricas. Infelizmente, o ponto de vista dos de baixo é bastante diferente. Aposentados, poupadores e trabalhadores viram as suas condições deterioram-se constantemente devido a salários estagnados ou em queda, inflação mais alta, ganhos de juros nulos nos seus investimentos e impostos mais altos. Leu corretamente, Abe realmente elevou os impostos sobre vendas para 8%, colocando a economia em risco de outro tombo só para aplacar o Fundo Monetário Internacional (FMI) e recompensar sua base corporativa de direita. Os principais ganhadores do Japão queriam provar que Abe estava comprometido em transferir mais da prodigiosa carga de dívida do país para os ombros dos trabalhadores, o que ele fez alegremente ao elevar o imposto sobre vendas. Eis a notícia da Bloomberg:
O primeiro-ministro japonês Shinzo Abe avança em abril com um aumento do imposto sobre vendas... O tributo aumentará dos atuais 5% para 8%, disse Abe, 59, em Tóquio, o primeiro aumento desde 1997. (...)
Com famílias já atingidas por uma elevação do custo de vida e declínios nos pagamentos, o avanço de um tributo mais alto decretado pelo governo anterior apresenta o mais alto risco para os esforços de Abe em por fim a duas décadas de estagnação japonesa. (...)  
A economia será contraída a uma porcentagem anualizada de 4,5% nos três meses seguintes após o aumento do imposto de vendas antes de retornar ao crescimento, segundo o cálculo mediano de economistas entrevistados pela Bloomberg News. Para o ano calendário de 2014, a expansão deverá reduzir-se dos 1,9% deste ano para 1,6%, mostra a média das estimativas". ("Abe Orders Japan's First Sales-Tax Increase Since '97: Economy", Bloomberg)
O que nos diz isto quando o principal político do país pretende aumentar impostos muito embora saiba que o custo de vida já está subindo, que os salários ainda estão baixos e que a economia está destinada a contrair (em 4,5%) assim que o imposto entrar em vigor? Será que isto lembra um líder que está genuinamente interessado em fazer a economia crescer e acabar com a deflação? Ou soará como outro ludibrio utilizando seu gabinete para desnatar maiores lucros para os seus amigos banqueiros?

Os salários estão em queda no Japão. EM QUEDA. Como é que se constrói uma recuperação com base em salários sórdidos que estão progressivamente ficando mais sórdidos? Não se pode, razão pela qual a Abenomics é apenas um jogo de espelhos. Dê uma olha nisto:
Os salários no Japão diminuíram para 407,34 JPY em julho de 2013 em relação aos 531,11 JPY em junho de 2013. Os salários no Japão são relatados pelo Ministério da Saúde, Trabalho e Bem-Estar. Os salários foram em média de 317,62 JPY de 1970 até 2013, alcançando uma altura histórica de 883,79 em dezembro de 1997 uma baixa recorde de 52,91 JPY em fevereiro de 1970". ("Japan Wages", Trading Economics)
Estes são os dados oficiais, não a mentira que se lê na mídia, onde a Abenomics é celebrada como a segunda vinda de Daruma. Quando salários derivam para baixo, o povo gasta menos, o consumo diminui e a economia contrai-se. Todo mundo sabe disto, razão pela qual o esperto Abe apresentou seu programa de recuperação econômica com US$100 bilhões do bom e velho estímulo orçamental, principalmente em gastos de infraestrutura. A ideia era dar à economia uma grande sacudida que a mídia atribuiu à insana impressão de dinheiro do Banco do Japão. Mas imprimir dinheiro não é a causa. A causa é o estímulo orçamental. E quando o estímulo se exaurir (no próximo ano), a economia afundará. Porque a QE não aumenta a produção, promove o Produto Interno Bruto (PIB), reduz o desemprego, aumenta a inflação ou cria uma recuperação forte e sustentável. Ela pressiona em alta preços de ações, incha bolhas de ativos e, acima de tudo, torna alguns muito ricos ainda mais ricos. É isso que esta fazendo por toda a parte onde tem sido implementada e é que se passa agora no Japão.

Mas pelos menos a confiança do consumidor está subindo? Não é o que os sabichões da mídia estão dizendo-nos?

Errado. A confiança está desgastando-se, porque as pessoas estão fabricando menos o que torna mais difícil esticar seus cheques de pagamento devido à inflação crescente. Verifique isto:
A confiança do consumidor japonês piorou desde há três meses atrás pela primeira vez em três trimestres quando mais pessoas informaram que o seu rendimento recuou em relação ao ano anterior, de acordo com os resultados do inquérito trimestral do Banco do Japão divulgados na quarta-feira. Os dados também mostraram que mais pessoas declararam que os preços haviam subido desde o ano anterior, indicando que encargos mais elevados com serviços públicos e preços alimentares podem estar a diminuir o rendimento disponível médio das famílias enquanto os salários base permanecem deprimidos (...)
Mais pessoas esperam que o seu rendimento caia nos próximos 12 meses (...)  
Os gastos da família média caíram 1,6% real em Agosto, assinalando a primeira queda anual em dois meses após um ganho de 0,1% em Julho. O rendimento médio real das famílias de trabalhadores assalariados caiu 0,9% ano real em Agosto, a primeira queda em seis meses ao passo que o seu rendimento disponível também registou a primeira queda em seis meses, menos 1,4%". ("BOJ Poll: Japan Consumer Confidence Slips on Lower Income", MNI Market News)
O insano (crackpot) governador  do Banco do Japão, Haruhiko Kuroda, está a caminho de duplicar a oferta monetária nos próximos dois anos num esforço para alcançar seu objectivo de inflação de 2 por cento. Infelizmente, inflação mais alta não garante mais atividade ou crescimento a menos que os salários também subam. O que não está a acontecer. O salários estão em queda no Japão, de modo que o plano é ridículo. Examine esta notícia do Financial News:
Não há prova de que a inflação ajudará o consumo. O crescimento exige rendimentos familiares mais elevados ou poupanças mais baixas. A inflação tende a pressionar em alta os preços mais rapidamente do que os salários e portanto deprime rendimentos reais das famílias. As taxas de poupança tem estado a cair constantemente quando a inflação se transformou em deflação. (...) 
Também se argumenta que a inflação reduzirá o fardo da dívida nacional, pelo aumento da taxa de crescimento do PIB nominal. Isto seria verdade se estivéssemos a ver uma hiper-inflação. Contudo, como mostra a resposta do mercado de títulos, a inflação moderada pode muito bem tornar as coisas piores, não melhores, ao pressionar em alta taxas de yields de títulos ainda mais rápido do que a inflação". ("Abenomics should take aim at structural reform", Financial News)
O presidente do Fed, Ben Bernanke, deparou-se com o mesmo problema nos EUA. Cinco anos de taxas zero e US$3 milhões de milhões de compras de ativos (QE) não fizeram com que se aproximasse do seu objectivo de inflação de 2 por cento. Portanto, seria razoável assumir que a QE não eleva a taxa de inflação e que rechear os bancos com excesso de reservas e preços de ações sumarentos realmente não alcança o objectivo pretendido. A menos, naturalmente, que o objectivo real seja fazer com que especuladores ricos fiquem ainda mais ricos, o que parece estar a fazer muito bem.

A Abenomics tem mostrado algum progresso em estimular o crescimento do crédito e do consumo pessoal. Mas, mais uma vez, estes sinais positivos são atribuíveis principalmente à rajada única de US$100 mil milhões de estímulo fiscal. Quando isso se esgotar em meados de 2014, veremos que aumentar a base monetária não leva a mais gastos, a uma expansão de crédito mais vasta, ou maiores investimentos dos negócios. Leva, ao invés, a recompras de ações, margens de dívida excessivas, bolhas de ativos e outras aplicações incorretas nas áreas totalmente improdutivas da especulação à procura de yields. Kuroda e o seu amigo Bernanke estão, com efeito, a bombar gasolina diretamente para o carburador do carro na expectativa de que o veículo ande suavemente. Depois de 5 ano de aplicação da mesma teoria enviesada, podemos supor que a sua confiança é inadequada.

Tal como a QE, a Abenomics é uma alcunha de relações públicas que oculta o modo como a política realmente funciona. "Cheque sem fundos" seria provavelmente uma designação mais precisa, uma vez que os dois bancos centrais estão de facto empenhados numa forma de fraude na qual são retirados fundos de uma conta a descoberto. Naturalmente, as perdas decorrentes deste exercício com papeis em suspenso finalmente serão transferidos para contribuintes involuntários na forma de inflação.

Mas a Abenomics não é simplesmente impostura monetária disfarçada como política econômica. É também um ataque dircto a proteções do trabalhador, instituições progressistas e programas vitais de rede proteção. Exemplo: Abe também está a pressionar por "zonas econômicas especiais" onde possa testar suas teorias sobre desregulamentação radical. Nas palavras da revista Economist, de extrema-direita, as zonas permitiriam às "Grandes companhias... terem mais liberdade para despedir trabalhadores a tempo inteiro, o que é quase impossível no Japão... (e) "criar uma zona especial agrícola gigante na ilha de Hokkaido, onde seria permitido a empresas possuírem terra agrícola".

Como é que "maior liberdade para despedir trabalhadores" é boa para a economia? O consumo pessoal já é fraco. Será que melhorará ao contratar mais trabalhadores de baixos salários?

Não, é claro que não. E quanto às "zonas agrícolas especiais"? Será que alguém realmente acredita que se possa fortalecer uma recuperação permitindo que multinacionais gigantescas do agronegócio tratem como queiram e com desprezo muitos dos pequenos agricultores que combatem pela sobrevivência?

Não, mais uma vez. A ideia é ridícula. Não é preciso dizer que nenhuma das "reformas" de Abe são destinadas às muitas super-inchadas e afundadas instituições financeiras "zumbi" que são responsáveis pela fatia do leão da enorme dívida nacional. A regulamentação não se aplica a estes sanguessugas que possuem o sistema e cujo dinheiro coloca lacaios como Abe no poder.

As outras "reformas" de Abe incluem reduzir impostos corporativos, maiores pagamentos médicos, uma elevação na idade de reforma e "o maior corte de sempre em benefícios do estado social". O ponto comum nas chamadas reformas de Abe não é difícil de discernir; isenções fiscais e subsídios para os ricos e austeridade para todos os demais.

Eis porque a venda de Ferraris está em alta mas a venda de cerveja está em queda.

Mike Whitney reside nos Estados Unidos. He is a contributor to Hopeless: Barack Obama and the Politics of Illusion (AK Press). Whitney’s story on declining wages for working class Americans appears in the june issue of CounterPunch magazine. He can be reached at fergiewhitney@msn.com.

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