19 de outubro de 2013

Uma competência letal: Império do sem-sentido

Por Jeffrey St. Clair

Apenas como argumento, vamos supor que o seguinte seja verdade: Barack Obama não é um idiota, um nada, um terno vazio ou um fantoche. Que não é incompetente, indeciso ou insensato. Que, de fato, é inteligente, objetivo e racional. Vamos supor, ainda, que Obama é sincero em suas ações, se não sempre na retórica, e que suas ações, da perseguição aos “vazadores” ao assassinato de cidadãos norte-americanos, são premeditadas, planejadas, intencionais e empreendidas sem ambivalência.

O que significa tudo isso? Claramente significa que Obama é tão culpado quanto é capaz e competente. Aquela certeza gelada sempre foi seu traço mais nítido, o que o distingue e separa dos demais. E não há ninguém que o acuse de seus crimes contra a Constituição, altos e baixos, sequer os visigodos da Câmara de Representantes. Apesar da histeria diária das páginas de editorial do Wall Street Journal, Obama é a escolha das elites, o homem que eles querem no comando, nesse momento preocupante para o capitalismo global. É a sua competência que o torna tão perigoso.

Obama é o gerente executivo do que a banda britânica The Mekons chamou de “Empire of the Senseless”. Com isso, não quero dizer um império incoerente, mas um governo que não faz sentido, que nada sente, que é imune às condições e desejos dos governados. Os EUA degeneraram num estado-fraude, numa república dos vigiados e monitorados, no qual as operações “oficiais” são opacas e ameaçadoras. Um temor generalizado parece envolver toda a nação.

Então, diante dessa realidade, enfrentamos uma vez mais a pungente pergunta de Lênin: o que fazer? Não é mais exercício metafísico, mas pergunta existencial e prática, que tem de ser respondida com extrema urgência. Como podemos responder a um estado ossificado que serve a interesses abstratos, tanto quanto se mantém assustadoramente indiferente ao sofrimento humano? Mais que isso, para quem nos voltarmos quando as instituições que uma vez operaram como as forças da mudança social, estão, praticamente todas, em colapso?

A política de redução de danos continua como ideia fixa de quase toda a Esquerda, apesar da carnificina que se vê por todos os lados, pelos políticos que a própria Esquerda norte-americana ajudou a eleger nos últimos 20 anos: dos Clintons a John Kerry e Obama. O próprio Partido Democrata virou paródia de empresa política, um navio-fantasma financiado pelo big business para enganar os ingênuos, os iludidos e os parasitários. Para todos os efeitos práticos, o partido foi substituído, como entidade funcional, por grupos de pseudo interesses, como o movimento MoveOn e seu veículo oficial, a rede MSNBC, que oferece diariamente temas “de discussão” cujo único objetivo e desviar a atenção e apresentar a razão cada um dos crimes de Obama.

Em grande medida, a responsabilidade pela facilidade fatal com que Obama tem conseguido implementar suas políticas draconianas, da espionagem doméstica aos ataques de drones, tem de ser atribuída à resposta tímida da esquerda política, negadora serial do que sempre souberam que seria, que foi e que é a verdadeira agenda de Obama, uma agenda de austeridade neoliberal, em casa; e de agressão imperial contra o resto do mundo - uma agenda que já estava em incubação, desde o momento em que, jovem senador, Obama escolheu Joseph Lieberman para ser seu mentor ideológico no Senado dos EUA.

Como seria de prever, quanto mais amolecem com Obama, mais Obama tende a ignorar a esquerda, se não a detestá-la psicologicamente. Para praticamente todos nós, a economia continua a desmoronar. Uma análise recente feita por Emmanuel Saez e Thomas Piketty, da Paris School of Economics da Universidade de Berkeley, mostrou que 95% dos ganhos da economia desde o início da recessão, já foram capturados pelo 1%. Não aconteceu por acaso. O plano econômico de Obama operou para gerar precisamente esse resultado. Mas ninguém, na Esquerda, quer falar sobre isso.

Vejam, por exemplo, o que aconteceu num raro encontro de Obama com a Bancada Negra no Congresso. Com a pobreza e o desemprego entre os negros atingindo picos jamais vistos nos EUA, Obama descartou rapidamente as perguntas sobre o pesado ônus que suas políticas infligiram às populações norte-americanas urbanas, e só fez insistir na exigência de que aqueles deputados e senadores votassem a favor de seu projeto para fazer chover uma tempestade de mísseis sobre a Síria. E os representantes da Bancada Negra, ficaram lá, calados, humilhados pela conversa de Obama, enquanto os negros norte-americanos mal sobrevivem, em estado de sítio econômico.

Esse ato de arrogância foi imediatamente seguido pelo anúncio, por Obama, de que acabava de nomear Jeffrey Zients para presidir o Conselho Econômico Nacional. Quem é Zients? - perguntarão vocês. Ora! Foi presidente da Bain Capital, empresa de Mitt Romney, que vive de planejar fusões, demissões em massa, ataques a aposentadorias e pensões e des-sindicalização de fábricas. E fez tão bem o serviço, que seu grupo vale hoje mais de $100 milhões. Pode-se interpretar essa nomeação como sadismo, ato de esfregar sal nas feridas dos progressistas. Mas a Esquerda norte-americana está tão moribunda, tão profundamente mergulhada num coma político, que o insulto não gerou qualquer protesto, nem uma manifestação vestigial, que fosse, em nome dos velhos tempos.

Os liberais parecem ter finalmente chegado a um acordo com a própria vacuidade.

E o resto de nós? O que fazemos? Aqui devemos nos voltar para as revelações heroicas de Edward Snowden, que desnudam a ambição do governo Obama de construir vigilância total, invadindo,e registrando até as mais íntimas crenças e intenções dos cidadãos. Tão logo se dilua o temor inicial, temos de ser capazes de ver isso como uma condição perversamente libertadora. Que alívio! Já não teremos de ocultar nossa insatisfação, nossos esforços para dar sentido ao sem-sentido. Estamos livres para nos tornar soberanos de nossas próprias ações, sem medo da vigilância.

E assim continuamos, quase todos, para a esquerda e a direita, agarrados com obsessão às mínimas liberdades que nos restam. Apenas a objetar, denunciar e resistir, até que apareça uma força de oposição de verdade. Ou até que a Equipe 6 dos SEALs entre pela porta dos fundos.

Nota:

On October 7th, CounterPunch published an article by gonzo journalist Ruth Fowler titled Regressive Feminism: Of Sinead, Miley and Amanda. Some of the language in the essay was crude and found to be offensive by many readers. Even CounterPunch staffers recoiled at the use of the word “cunt” and the phrase “should probably be kicked in the vagina.” Ms. O’Connor contacted me to express her genuine outrage at the essay and the fact she felt the language was an incitement to sexual violence. Of course, we find sexual violence of any kind abhorrent. These kinds of phrases are often especially traumatic to those who have experienced sexual abuse. At her request, I have removed the offensive sentences. We apologize to Sinead O’Connor, a musician we have long admired and a known victim of sexual violence and to other victims of sexual violence. We hereby pledge to refrain from publishing any future articles containing such offensive and distressing language.

Jeffrrey St. Clair é autor de Been Brown So Long It Looked Like Green to Me: the Politics of Nature, Grand Theft Pentagon e Born Under a Bad Sky. Seu livro mais recente é Hopeless: Barack Obama and the Politics of Illusion. Ele pode ser contactado pelo E-mail: sitka@comcast.net.

Jeffrey St. Clair, "Empire of the Senseless", CounterPunch, october 18-20, 2013.

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