20 de outubro de 2013

Vamos entrar nessa luta de classes

Por Chris Hedges

“Os ricos são diferentes de nós”, F. Scott Fitzgerald teria dito a Ernest Hemingway, ao que Hemingway teria respondido, “São, eles têm mais dinheiro”.

O diálogo, embora não tenha acontecido, resume uma sabedoria que Fitzgerald tinha, mas que escapava a Hemingway. Os ricos são diferentes. O casulo de riqueza e privilégio permite que os ricos convertam todos que há à volta deles em trabalhadores dóceis, serviçais, serventes, aduladores e parasitas. A riqueza alimenta, como Fitzgerald ilustrou em O Grande Gatsby e no conto O moço rico, uma classe de gente para quem os serem humanos são mercadoria descartável. Colegas, sócios, empregados, pessoal da cozinha, criados, jardineiros, tutores, personal trainers, até amigos e família, curvem-se aos desígnios dos ricos, ou sumam. Tão logo os oligarcas alcançam riqueza não fiscalizada e poder econômico, como alcançaram nos EUA, os cidadãos também se tornam descartáveis.

A face pública da classe oligárquica tem pouca semelhança com a face privada. Eu, como Fitzgerald, fui lançado nos braços da crosta superior quando jovem. Embarcaram-me, aos dez anos, como aluno bolsista, para um exclusivíssimo internato na Nova Inglaterra. Tive colegas cujos pais – que os filhos viam raramente – chegavam à escola em limusines, acompanhados de fotógrafos pessoais (e, às vezes, suas amantes), para que a imprensa fosse alimentada de imagens de ricos e famosos desempenhando o papel de bons pais. Passei dias em casas de ultra ricos e poderosos, assistindo aos meus colegas, também crianças, a dar ordens em tom de desprezo a homens e mulheres que trabalhavam para eles, choferes, cozinheiros, babás e criados em geral. Quando os filhos e filhas dos ricos metiam-se em confusões, havia sempre advogados, relações públicas e políticos conhecidos a protegê-los – a vida de George W. Bush é caso a ser estudado - da viciosa ação afirmativa para os ricos. Os ricos têm o mais snob desdém pelos pobres – apesar da muita filantropia sempre fotografada e publicada – e pela classe média. Essas classes baixas são vistas como vagabundos e parasitas, incômodo que tem de ser suportado, às vezes aplacado, às vezes controlado na busca para acumular mais poder e mais dinheiro. O ódio que a autoridade me inspira, além da ira que me inspiram as pretensões, a maldade, o nenhum afeto positivo, o senso de “é meu direito” dos ricos, nasceram de ter vivido cercado por privilegiados. Foi experiência profundamente desagradável. Mas ali fui exposto ao insaciável egoísmo, ao infinito hedonismo daquela gente. Já de menino, aprendi quem são os meus inimigos.

A incapacidade de compreender a patologia dos nossos governantes oligarcas é uma das nossas falhas mais graves. Fomos blindados à depravação da elite governante pela incansável propaganda das empresas de relações públicas que trabalham para as corporações e para os ricos. Políticos covardes, “celebridades” ocas e nossa vã, viciosa, rasa cultura popular financiada por empresas, que ensina que os ricos devem liderar para nos convencer de que com dedicação e trabalho duro chegaremos “lá”, nos impedem de ver a verdade.

"Eles eram pessoas descuidadas, Tom e Daisy", Fitzgerald escreveu sobre o casal rico no centro da vida de Gatsby. "Eles quebraram coisas e criaturas e voltaram ao dinheiro deles, ou à sua vasta indiferença, ou a seja lá o que os mantém juntos, e os outros que limpem a bagunça que fizeram."

Aristóteles, Maquiavel, Alexis de Tocqueville, Adam Smith e Karl Marx todos começaram da premissa segundo a qual há um antagonismo natural entre os ricos e as multidões. "Aqueles que têm muito dos bens da fortuna, força, riqueza, amigos, e assim por diante, não são nem dispostos nem capazes de submeter à autoridade", escreveu Aristóteles em Política. "O mal começa em casa , pois quando eles são meninos, em razão do luxo em que são criados, eles nunca aprendem , mesmo na escola, o hábito de obediência". Os oligarcas, como esses filósofos sabiam, são educados nos mecanismos da manipulação, da repressão sutil e acintosa e na exploração para proteger a riqueza e o poder deles, à nossa custa. O principal, dentre seus mecanismos para controlar, é o controle das ideias. As elites governantes asseguram-se de que a classe intelectual estabelecida seja subserviente a uma ideologia – nesse caso, o capitalismo de livre mercado e globalização –, que justifica a ganância e a cobiça. "As ideias dominantes nada são além da expressão ideal das relações materiais dominantes", escreveu Marx, "as relações materiais dominantes objetivadas como ideias."

A ampla, insistente disseminação da ideologia do capitalismo de livre mercado pela imprensa, e o expurgo, especialmente nas universidades, de vozes críticas, permitiram que nossos oligarcas orquestrassem aqui a maior desigualdade social, em todo o mundo industrializado. O 1% mais rico nos Estados Unidos é proprietário de 40% da riqueza da nação; e os 80% abaixo possuem apenas 7%, como Joseph E. Stiglitz escreveu em O Preço da Desigualdade. Para cada dólar que o 1% mais rico acumulou em 1980 receberam outros três dólares em renda anual em 2008, como David Cay Johnston explicou no artigo "9 Coisas que os Ricos não Querem que Você Saiba Sobre Impostos". Os 90% de baixo, disse Johnson, no mesmo período, só acrescentaram 1 centavo aos próprios ganhos. Metade da população dos Estados Unidos está hoje na faixa dos pobres, ou de baixa renda. O valor real do salário mínimo caiu $2,77 desde 1968. Os oligarcas não acreditam em autossacrifício pelo bem comum. Não se sacrificam. Jamais se sacrificarão. Os oligarcas são o câncer da democracia.

"Nós, americanos, não somos vistos como povo submisso, mas é claro que nós somos", escreve Wendell Berry. "Por que outra razão aceitaríamos que nosso país seja destruído? Por que outra razão nós todos – por procuração que demos a políticos corruptos e empresas gananciosas – estaríamos colaborando para essa destruição? Muitos de nós ainda nos mantemos suficientemente sãos para não mijar na própria caixa d’água, mas deixamos que outros mijem e ainda os recompensamos. Recompensamos tão bem, de fato, que os que mijam na nossa caixa d’água são muito mais ricos do que o resto de nós. Como nos submetemos? Por não sermos radical o suficiente. Ou por não sermos suficientemente profundo, o que é a mesma coisa."

A ascensão de um estado oligárquico oferece à nação duas vias, segundo Aristóteles. Ou as multidões empobrecidas revoltam-se para corrigir o desequilíbrio de riqueza e poder, ou os oligarcas estabelecem uma tirania brutal para manter as multidões escravizadas à força. Escolhemos a segunda das opções de Aristóteles. Os lentos avanços que conseguimos no início do século XX, mediante os sindicatos, as regulações sobre atos do governo, o New Deal, os tribunais, uma imprensa alternativa e movimentos de multidões, todos esses avanços foram revertidos. Os oligarcas estão nos convertendo – como já fizeram uma vez, nas fábricas de aço e tecidos no século XIX – em seres humanos descartáveis. Estão construindo o mais invasivo aparato de segurança e de vigilância de toda a história da humanidade, para nos manter submissos.

Esse desequilíbrio não teria perturbado a maioria dos Pais Fundadores. Os fundadores, senhores de escravos, em grande parte ricos, temiam a democracia direta. Ele distorceram o processo político para esvaziar a possibilidade de governos populares e proteger os direitos de propriedade da aristocracia nativa. As multidões tinham de ser mantidas à margem. O Colégio Eleitoral, poder original dos estados para indicar senadores, o enfraquecimento eleitoral das mulheres, dos nativos norte-americanos, dos afro-americanos e dos homens não proprietários prenderam a maioria do lado de fora do processo democrático já desde o início da república. Tivemos de lutar muito para ganharmos alguma voz. Centenas de operários foram mortos e milhares foram feridos em nossas guerras de trabalho. A violência agrediu mais o trabalho que em qualquer outra nação industrializada. As aberturas democráticas que alcançamos foram conquistadas e pagas com o sangue dos abolicionistas, dos afro-americanos, das sufragistas, dos operários e de todos nos movimentos antiguerra e pelos direitos civis. Nossos movimentos radicais, reprimidos e violentamente desmantelados em nome do anticomunismo, foram os verdadeiros motores da igualdade e da justiça social. A dor e o sofrimento infligidos aos trabalhadores pela classe dos oligarcas no século XIX só se comparam ao que sofremos hoje, agora que já nos tiraram todas as proteções sociais. Divergir é, outra vez, ato criminoso. Os Mellons, Rockefellers e Carnegies na virada do século passado tentaram criar uma nação de senhores e escravos. A moderna encarnação empresarial dessa elite oligárquica do século XIX criou um neofeudalismo mundial, no qual os trabalhadores por todo o planeta vivem em miséria, enquanto os empresários oligarcas acumulam centenas de milhões de dólares em riqueza pessoal.

A luta de classes define quase toda a história da humanidade. Marx estava certo sobre isso. Quanto antes nos dermos conta de que estamos presos em uma guerra mortal contra os que nos governam, a elite corporativa, mais depressa nos daremos conta de que essas elites têm de ser derrubadas. A elite corporativa já tomou conta de todos os sistemas de poder nos Estados Unidos. A política eleitoral, a segurança nacional, o judiciário, nossas universidades, as artes, as finanças, além de todas as formas de comunicação, já está, tudo isso, nas mãos das empresas. A democracia nos EUA, com falsos debates entre dois partidos de empresários, é teatro sem sentido. Não há meio, dentro do sistema, para recusar as demandas de Wall Street, da indústria dos combustíveis fósseis ou dos que lucram com as guerras. O único caminho que nos resta, como Aristóteles sabia, é revolta.

Não é uma história desconhecida. Os ricos, ao longo da história, sempre encontraram meios para dominar e voltar a dominar as multidões. E as multidões, ao longo da história, sempre despertaram, ciclicamente, para livrar-se de suas cadeias. Essa luta incessante nas sociedades humanas entre o poder despótico dos ricos e o clamor por justiça e igualdade está no âmago do romance de Fitzgerald, que usa a história de Gatsby para construir uma dura denúncia contra o capitalismo. Enquanto escrevia O Grande Gatsby, Fitzgerald estava lendo O declínio do ocidente, de Oswald Spengler. Spengler previu que, conforme as democracias ocidentais se fossem calcificando e morressem, uma classe de “bandidos endinheirados” substituiria as elites políticas tradicionais. Spengler estava certo sobre isso.

"Existem duas ou três histórias humanas", escreveu Willa Cather, "e eles vão repetir-se tão ferozmente como se nunca tivessem acontecido antes".

A gangorra da história empurrou os oligarcas mais uma vez para o alto. Estamos quebrados e humilhados, sentados no chão. É uma luta que retorna na história. Foi travada uma e outra na história humana, Mas parece que nunca aprendemos. É hora de pegar nosso forcado.

Chris Hedges escreve regularmente coluna no blog Truthdig. Formou-se na Harvard Divinity School e foi durante quase duas décadas correspondente no exterior do The New York Times. É autor de muitos livros, incluindo: War Is A Force That Gives Us Meaning, What Every Person Should Know About War, e American Fascists: The Christian Right and the War on America. Seu livro mais recente é Empire of Illusion: The End of Literacy and the Triumph of Spectacle.

Chris Hedges, "Let’s Get This Class War Started", Truthdig, 20 de outubro de 2013.

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