21 de outubro de 2013

Líbia: de Kadhafi à Al-Qaeda. Com agradecimentos à CIA...

Estão os Estados Unidos verdadeiramente em guerra contra o terrorismo em África, ou fomentam-no para servir os seus interesses? Estudo de Marc Vandepitte.

Marc Vandepitte[*]


Estado fracassado

Em 11 de outubro, o Primeiro-ministro líbio foi brutalmente derrubado antes de ser libertado algumas horas mais tarde. Este rapto é sintomático da situação no país. Em 12 de outubro, um automóvel armadilhado explodiu perto das embaixadas da Suécia e da Finlândia. Uma semana antes, a embaixada da Rússia foi evacuada, depois de ter sido invadida por homens armados. Há um ano, a mesma coisa aconteceu na embaixada americana. O embaixador e três colaboradores foram mortos. Outras embaixadas tinham sido anteriormente alvos de ataque.

A intervenção ocidental na Líbia, tal como no Iraque e no Afeganistão, instaurou um Estado fracassado. Depois do derrube e do assassinato de Kadhafi, a segurança no país está fora de controle. Atentados contra políticos, ativistas, juízes e serviços de segurança são o pão de cada dia. O governo central exerce apenas o controle do país. Milícias rivais impõem a sua ordem. Em fevereiro, o governo de transição foi forçado a reunir em tendas, depois de ter sido expulso por rebeldes encolerizados. O barco que naufragou perto de Lampedusa, afogando 300 refugiados, provinha da Líbia. Etc.

A Líbia detém as mais importantes reservas de petróleo de África. Mas, depois do caos que reina no país, a extração de petróleo praticamente paralisou. A partir daí, o país tem de importar petróleo para assegurar as necessidades de eletricidade. No início de setembro, as reservas de água para Tripoli foram sabotadas, ameaçando a capital de penúria.

Bases para os terroristas islâmicos

Mas o mais inquietante é a jihadização do país. Os islâmicos controlam territórios inteiros e colocam homens armados nos pontos de controle das cidades de Benghazi e Derna. O personagem Belhadj é disso uma perfeita ilustração. Este velho (por assim dizer) membro eminente da Al-Qaëda esteve implicado nos atentados de Madrid de 2004. Depois do derrube de Kadhafi, tornou-se governador de Trípoli e enviou centenas de jihadistas líbios para a Síria para também combater Assad. Trabalha agora na instauração de um partido conservador islâmico.

A influência da jihadização estende-se bem para lá das fronteiras do país. O ministro tunisino do interior descreve a Líbia como um «refúgio para todos os membros da Al-Qaëda do norte de África». A seguir ao colapso do poder central da Líbia, as armas pesadas caíram nas mãos de toda a espécie de milícias. Uma delas, o Libyan Islamic Fighting Group [Grupo islâmico líbio de combate (NT)], (LIFG), de que Belhadj era dirigente, concluiu uma aliança com os rebeldes islamitas do Mali. Estes últimos conseguiram, com os Tuaregues, tomar o norte do Mali durante alguns meses. A tomada de reféns em grande escala num local de extração de gás de Argélia, em janeiro, deu-se a partir da Líbia. Hoje, a rebelião síria é dirigida a partir da Líbia e a missão do petróleo jiadhista estende-se em direção ao Níger e à Mauritânia.

Com os agradecimentos à CIA

À primeira vista, os Estados Unidos e o Ocidente parece mostrarem-se preocupados com esta recrudescência da atividade jihadista no norte de África. Juntemos-lhe também a Nigéria, a Somália e, mais recentemente, o Quénia. Mas observando de mais perto, a situação é mais complicada. A queda de Kadhafi tornou-se possível através de uma aliança entre as forças especiais francesas, britânicas, jordanas e qataris, de um lado, e dos grupos rebeldes líbios, de outro. O mais importante deles era precisamente o Libyan Islamic Fighting Group (LIFG), que figurava na lista das organizações terroristas proibidas. O seu líder, o mencionado Belhadj, tinha dois a três mil homens debaixo das suas ordens. A sua milícia teve direito a treinos americanos, mesmo antes de ter começado a rebelião na Líbia.

Os Estados Unidos não eram principiantes nessa matéria. Nos anos 80, encarregaram-se da preparação e do enquadramento dos combatentes islamitas extremistas no Afeganistão. Nos anos 90, repetem a dose na Bósnia e, dez anos mais tarde, no Kosovo. Não é de excluir que os serviços de informações ocidentais estejam diretamente ou indiretamente implicados nas atividades terroristas dos Tchechenos na Rússia ou dos Uigures na China.

Os Estados Unidos e a França fingiram-se surpreendidos quando os Tuaregues e os islamitas ocuparam o norte do Mali. Mas não passava de uma fachada. Podemos mesmo perguntarmo-nos se não seriam eles a provocá-lo, como aconteceu em 1990 com o Iraque face ao Kuweit. Tendo em conta a atividade da Al-Qaëda na região, qualquer especialista em geoestratégia sabia que a eliminação de Kadhafi provocaria o recrudescimento da ameaça terrorista ao Magreb e ao Sahel. Como a queda de Kadhafi foi provocada em grande parte pelas milícias jihadistas, que os Estados Unidos treinaram e enquadraram, pode-se começar a fazer perguntas muito sérias. Para mais pormenores a este propósito remeto-vos para um artigo anterior.

Agenda geopolítica

Seja de que maneira for, a ameaça terrorista islamita na região e noutros locais do continente convém bastante aos Estados Unidos. Era a desculpa perfeita para estar militarmente presente e intervir no continente africano. Não escapou a Washington que a China e outros países emergentes estão cada vez mais ativos no continente e constituem assim uma ameaça à sua hegemonia. A China é hoje o mais importante parceiro comercial da África. Segundo o Finantial Times, "a militarização da política americana depois do 11 de setembro é controversa há muito tempo, uma vez que é considerada como uma tentativa de os Estados Unidos reforçarem o seu controlo sobre as matérias-primas e de contrariar o papel comercial exponencial da China".

Em novembro de 2006, a China organizou uma cimeira extraordinária sobre a cooperação económica, onde estiveram presentes, pelo menos, 45 chefes de Estado africanos. Precisamente um mês mais tarde, Bush aprovou o lançamento do Africom. Africom é o contingente militar americano (aviões, navios, tropas, etc.) destinado ao continente africano. Vimo-lo em ação pela primeira vez na Líbia e no Mali. O Africom está desde então em atividade em 49 dos 54 países africanos e os Estados Unidos têm bases ou instalações militares permanentes em pelo menos dez países. A militarização dos Estados Unidos no continente alarga-se permanentemente. A seguir encontra-se um mapa da sua presença no continente nestes dois últimos anos. É bastante eloquente.

Mapa

No terreno econômico, os países do norte perdem terreno face aos países emergentes do sul, e é certamente este o caso de África, um continente rico em matérias-primas. Parece cada vez mais evidente que os países do norte combaterão este reequilíbrio com meios militares. Isto promete para o continente negro.

[*] Filósofo e economista belga, nascido em Gante em 1959, formado nas Universidades de Gante e Lovaina, onde também estudou teologia, Marc Vandepitte é o autor de numerosos livros sobre as relações Norte-sul, América Latina, Cuba e China.

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