28 de outubro de 2013

Nossa revolução invisível

Por Chris Hedges

"Você algum dia perguntou-se como é possível que os governos e o capitalismo continuem a existir, apesar de todo o mal e as dificuldades que causam no mundo?" – escreveu o anarquista Alexander Berkman no ensaio A Ideia é a Coisa. – "e se perguntou, deve ter-se respondido que é porque as pessoas apoiam essas instituições, o povo as apóia, e as apoiam porque acreditam nelas."

Berkman estava certo. Enquanto a maioria dos cidadãos acreditarem nas ideias que justificam o capitalismo global, as instituições privadas e do Estado corporativo que servem aos nossos patrões nas empresas e corporações são inabaláveis. Quando essas ideias são destroçadas, as instituições que mantêm a classe dominante desinflam e entram em colapso. A luta de ideias prossegue sob a superfície. E é batalha que o Estado está visivelmente perdendo. Número crescente de norte-americanos já veem isso. Já sabem que foram roubados de todo o poder político. Já reconhecem que nos foram tiradas as nossas mais amadas liberdades civis, e que vivemos sob as vistas do mais intrusivo aparelho de vigilância e controle que jamais existiu na história da humanidade. Metade do país vive na miséria. Muitos do resto de nós, se o Estado corporativo não for derrubado, logo estaremos também, como eles, na miséria. Essas verdades já estão à vista de todos, já é impossível mantê-las ocultas.

Pode parecer que o fermento político está adormecido nos Estados Unidos. Não, não está. As ideias que mantêm o estado-empresa vão aos poucos perdendo eficácia por todo o espectro político. As ideias que nascem para assumir o lugar das outras, contudo, ainda são rudimentares, incipientes. A direita recuou para o fascismo cristão e a celebração da cultura das armas. A esquerda, desequilibrada por décadas de furiosa repressão pelo estado em nome do anticomunismo, luta para reconstruir-se e redefinir-se. Mas a repugnância que o povo sente contra a elite dominante, essa, está em todos, em todos os lugares. A questão é saber que ideias capturarão a imaginação das grandes maiorias.

A revolução quase sempre irrompe de eventos que, em circunstâncias normais, seria considerados sem sentidos ou, no máximo, como atos pequenos de injustiça pelo estado. Mas desde que a revolta inche, como está inchando nos Estados Unidos, qualquer faísca insignificante facilmente incendeia a rebelião popular. Ninguém, nem pessoa nem movimento, pode, sozinho, provocar o grande incêndio. Ninguém sabe onde ou quando acontecerá a irrupção. Ninguém sabe que forma terá. Mas é certo, já, que há uma revolta popular à caminho, nos Estados Unidos. A recusa, pelo estado corporativo, de dar atenção sequer aos pequenos padecimentos dos cidadãos, além do fracasso abjeto de não conseguir conter a galopante repressão pelo estado policial, o desemprego e o subemprego crônicos, o endividamento individual e familiar massivo que atormenta mais da metade da população dos Estados Unidos, o fim da esperança, o desespero que se alastra, tudo isso indica que o revide já é inevitável.

"Porque a revolução é uma evolução que chega ao seu ponto de ebulição, ninguém pode 'fazer' uma verdadeira revolução, assim como ninguém pode ‘fazer’ ferver, sem mais nem menos, a água para o chá" – Berkman escreveu. – "O que faz ferver a água é o fogo que haja por baixo da chaleira: a rapidez com que a água alcança o ponto de ebulição depende da força da chama, do fogo".

As revoluções quando irrompem parecem, para as elites e para o establishment, eventos repentinos e inesperados. É assim, porque o trabalho do verdadeiro fermento revolucionário e de consciência é invisível para a classe dominante, que só o vê quando já está feito, em vasta medida. Ao longo da história, todos os que buscaram mudança radical sempre, antes, tiveram de desacreditar as ideias das elites governantes e construir ideias alternativas para a sociedade, ideias quase sempre incorporadas num mito revolucionário utópico. Articular um socialismo viável, como alternativa à tirania corporativa – como tentam fazer o livro Imagine: Living in a Socialist USA e o site Popular Resistance – é, na minha opinião, tarefa obrigatória. Depois que mudam as ideias de uma vasta porção da população, depois que a visão de uma nova sociedade toma conta da imaginação popular, acabou-se o velho regime.

Levante popular sem ideias e visão de futuro jamais ameaçou as elites governantes. Levante social sem definição de rumo, sem qualquer ideia que lhe dê sentido, rapidamente cai no niilismo, na violência sem propósito e no caos. E se autoconsome. Por isso, essencialmente, discordo de alguns elementos dos anarquistas dos “Black Blocs”. Sou dos que acredita em estratégia. Como tantos outros anarquistas, entre os quais Berkman, Emma Goldman, Pyotr Kropotkin e Mikhail Bakunin.

No momento em que as elites governantes são abertamente desafiadas, já é preciso que uma expressiva maioria tenha perdido a fé nas ideias que sustentam aquelas elites governantes – no nosso caso, as ideias do capitalismo de livre mercado e globalização. E uma vez que muita gente já sinta assim, processo que pode levar anos, “então a evolução social lenta, silenciosa e pacífica torna-se rápida, militante e violenta”, como Berkman escreveu. “A evolução torna-se revolução.”

Estamos caminhando para isso. Não o digo porque seja, eu, militante apoiador da revolução. De fato, nem sou. Prefiro o processo gradual de reformas, de uma democracia funcional. Prefiro um sistema no qual nossas instituições sociais permitam aos cidadãos afastar do poder, por meios não violentos, os que hoje mandam nos Estados Unidos. Prefiro um sistema cujas instituições sejam independentes, não cativas, do poder das empresas. Mas nos Estados Unidos não conhecemos esse sistema e não vivemos nesse tipo de democracia. A revolta, assim, é a única opção possível. As elites governantes, depois de mortas as ideias que justificam sua existência, já recorrem à força. É como seu último esgar, ainda tentando manter o poder nas suas garras. Se um movimento popular não violento é capaz de desarmar ideologicamente os burocratas, os funcionários civis e a polícia – se, numa palavra, é capaz de derrotá-los – então a revolução não violenta é possível. Mas se o Estado consegue ainda organizar violência efetiva e prolongada contra a opinião divergente, é ele quem dissemina a violência revolucionária reativa, o que o Estado chama de “terrorismo”. Revoluções violentas quase sempre fazem nascer revolucionários tão cruéis quanto seus adversários. “Quem combate contra monstros tem de evitar converter-se em monstro, no processo” – Friedrich Nietzsche escreveu. – “Se você encara por tempo bastante o abismo, vê o abismo que o encara de volta.”

Revoluções violentas são sempre trágicas. Eu, e muitos outros ativistas, tentamos manter nosso levante não violento. Queremos poupar o país da violência doméstica, seja a violência do estado-empresa seja a violência dos que se opõem a ele. Nada garante que consigamos, sobretudo porque o estado-empresa comanda vastíssimo aparelho interno de segurança e tem polícia militarizada. Mas temos de tentar.

As empresas, soltas e indiferentes a todas as leis, limitações que o governo tente impor-lhes e limites internos, roubam hoje o máximo que podem, o mais depressa que podem, a caminho da bancarrota. Os gerentes e administradores já nem temem os efeitos da pilhagem. Muitos já esperam o fim dos próprios sistemas que eles saqueiam. São blindados pela húbris e pela ganância pessoal. Acreditam que sua riqueza obscena possa comprar-lhes segurança e proteção. Deviam ter gasto menos tempo em escolas de administração e comércio, e mais tempo em estudos sobre a natureza humana e a história dos homens. Estão cavando a própria cova.

A deriva em que estamos, na direção do totalitarismo-empresa, como qualquer deriva na direção de qualquer totalitarismo é gradual. A maré dos sistemas totalitários vai e vem, muitas vezes dando um passo atrás, para dar dois adiante, e assim vai erodindo o liberalismo democrático. Esse processo está hoje completo, nos EUA. O “consentimento dos governados” já não passa de piada macabra.

Barack Obama não tem poder para desafiar o poder corporativo, como tampouco o tinha Bush, que é portador de necessidades especiais no plano intelectual e provavelmente também no plano emocional, e nunca compreendeu o processo totalitário que a presidência abraçou. Porque Clinton e Obama e o Partido Democrata deles, esses, sim compreendem bem claramente o papel destrutivo que tiveram e continuam a ter, devem ser vistos como ainda mais cínicos, ainda mais gravemente cúmplices da ruína dos EUA. Políticos Democratas falam a língua conhecida do “sinto-a-dor-de-vocês” dos liberais, ao mesmo tempo em que permitem que seu governo-empresa nos roube todo nosso poder pessoal e nossas riquezas pessoais. Não passam de máscaras efetivas e funcionais, para o poder das empresas.

O Estado corporativo quer manter a ficção de que somos pessoalmente ativos no processo político e econômico. Enquanto continuamos a acreditar na ficção da participação, mentira massiva sustentada por massivas campanhas de propaganda, ciclos eleitorais sem fim e sempre absurdos, e na encenação do teatro político vazio, os oligarcas corporativos descansarão em seus jatos privados, salas de reunião, coberturas e mansões. Agora, que a falência do capitalismo corporativo e da globalização está exposta, essa elite governante já dá sinais de nervosismo crescente. Eles sabem que, se morrerem as ideias que justificam o poder deles, eles estão acabados. Por isso as vozes discordantes – e levantes espontâneos como o movimento Occupy – são tão brutalmente agredidos pelo Estado corporativo.

"... [M]any ideas, once held to be true, have come to be regarded as wrong and evil,” Berkman wrote in his essay. “Thus the ideas of the divine right of kings, of slavery and serfdom. There was a time when the whole world believed those institutions to be right, just, and unchangeable. In the measure that those superstitions and false beliefs were fought by advanced thinkers, they became discredited and lost their hold upon the people, and finally the institutions that incorporated those ideas were abolished. Highbrows will tell you that they had ‘outlived’ their ‘usefulness’ and therefore they ‘died.’ But how did they ‘outlive’ their ‘usefulness’? To whom were they useful, and how did they ‘die’? We know already that they were useful only to the master class, and they were done away with by popular uprisings and revolutions."

Chris Hedges mantêm uma coluna regular no site Truthdig. Formou-se na Harvard Divinity School e foi durante quase duas décadas correspondente no exterior do The New York Times. É autor de muitos livros, incluindo: War Is A Force That Gives Us Meaning, What Every Person Should Know About War, e American Fascists: The Christian Right and the War on America. Seu livro mais recente é Empire of Illusion: The End of Literacy and the Triumph of Spectacle.

Chris Hedges, "Our Invisible Revolution", Truthdig, 28 de outubro de 2013.

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