28 de outubro de 2013

O pensamento econômico dominante está em estado de negação: o mundo mudou

Apesar do crash, os sumo-sacerdotes da economia recusam-se a olhar para a óbvia realidade que têm em frente dos olhos – e continuam a dar respaldo às elites mundiais.

Aditya Chakrabortty

The Guardian

Tradução / Não é suposto que as rebeliões sejam desencadeadas em auditórios escolares – mas vimos uma na última quinta-feira à noite. Era pequena e bem apresentada e com boas maneiras, e acho que a vou recordar por muito tempo.

Tínhamo-nos reunido no Downing College, em Cambridge, para discutir a crise econômica, embora a miséria quotidiana deste tópico parecesse a léguas dos doces dormitórios e da opulência aveludada deste lugar.

Igualmente incongruentes eram os oradores. A economista de Cambridge Victoria Bateman embora aparentando um ar inocente, veio, no entanto, arrasar os seus colegas. Estes tinham sido estupidamente arrogantes antes do crash – lembram-se da jactância do premiado Nobel Robert Lucas, em 2003, propalando que o “problema central da depressão-prevenção já estava resolvido”? – e, depois do crash, os mesmos economistas não aprenderam nada. Apesar disso, continuaram a ser os profetas preferidos de primeiros-ministros e presidentes. Victoria Bateman terminou a intervenção assim: “Se querem enforcar alguém pela crise, enforquem-me a mim... e também aos meus colegas economistas.”

O que se seguiu foi concordância mas a ranger os dentes. Na noite anterior aos números mais recentes sobre o crescimento, ninguém nesta sala monumental usou a palavra “recuperação”, a não ser com sarcasmo. Em vez disso, os participantes no auditório – de meia-idade, bem vestidos e certamente com generosas hipotecas – viraram-se a atacar os banqueiros, os políticos e, sim, os economistas. Os economistas tinham criado o caos pelo qual toda a gente estava a pagar, sem que, no entanto, tenham sido penalizados por isso.

Em uma das instituições de elite do mundo, as elites estavam a levar uma grande tareia – tanto os gestores financeiros, como os empresários e os acadêmicos. Também sabiam bem o que tinham feito. Chegada a sua vez de falar ao microfone, um biólogo disse: ” Só acreditarei que os economistas fizeram as devidas reformas quando os homens que estão por detrás dos modelos de Black e Scholes [a teoria que ajuda os traders na determinação do valor dos instrumentos financeiros derivados] tenham sido despojados dos seus prêmios Nobel.”

Um dos fatos centrais do pós-crash britânico é que as elites ainda detêm o poder, mas já não controlam a credibilidade necessária para o exercerem. Vê-se isso por exemplo quando Russell Brand fala nos noticiários da noite sobre o corrupto mundo liliputiano de Westminster, e também nos vários videoclips do YouTube que totalizam mais de 3 milhões de visualizações. E foi a isso que eu certamente assisti em Cambridge.

Tal como qualquer pessoa comum na Grã- Bretanha – quer os que ganham o salário mínimo, quer os que têm um salário de cinco dígitos– as pessoas naquele auditório acadêmico tinham sido convencidas durante décadas a confiar nos políticos, nos decisores governamentais e nos empregadores para lhes assegurarem os empregos, as casas e as pensões, assim como perspectivas de futuro para os seus filhos. Após a eclosão da maior e mais longa ruptura econômica desde os anos 30, já não estão, evidentemente, dispostas a renovar essa confiança.

Mas, ao mesmo tempo, as elites – quer em Whitehall, quer na City – mantêm-se na liderança. Olhando para os economistas da corrente dominante ficamos com uma muito boa ideia de como as reformas têm sido impedidas.

Como sublinhou Victoria Bateman, estes paladinos armados de diplomas de doutoramento em prol da “The Great Moderation” (A Grande Moderação) deveriam, por uma questão de justiça, ter sido completamente desacreditados após o crash. Afinal, a coisa mais significativa que emergiu a nível acadêmico da economia nos últimos cinco anos não foi nenhuma obra de pesquisa, mas sim o excelente documentário “Inside Job”, no qual o cineasta Charles Ferguson mostrou como algumas das melhores mentes das universidades americanas tinham sido pagas pela Alta Finança para produzirem trabalhos de investigação em prol da mesma Alta Finança.

Mais ainda, se olharmos em volta para os mais importantes cursos de economia, verificamos que a teoria econômica neoclássica – essa teoria que trata os seres humanos como calculadoras que andam, de maneira omnisciente, só a pensar nos seus próprios interesses, e que considera também que os mercados retornam sempre inevitavelmente à estabilidade – se mantém na liderança. Porquê? Numa palavra: negação. Os sumo-sacerdotes da economia recusam-se a reconhecer que o mundo mudou.

No seu novo livro “Never Let a Serious Crisis Go to Waste”, o economista americano Philip Mirowski narra como um colega na sua universidade foi instado pelos alunos, na primavera de 2009, a falar sobre a crise. Aparentemente, o mundo estava a desabar em torno deles e que melhor fórum haveria para discutir isso senão uma aula de macroeconomia. A resposta? “Os alunos foram informados abruptamente que não era matéria do programa do curso e não havia nada sobre isso no manual do curso e, por isso, o professor não queria desviar-se do plano estabelecido para as aulas. E não falou sobre a crise.”

Algo semelhante está a acontecer na Universidade de Manchester, onde, tal como o meu colega Phillip Inman afirmou na semana passada, os alunos da licenciatura em economia estão a solicitar aos seus professores um programa de estudos que reconheça que há outras maneiras de ver o mundo sem ser apenas uma série de problemas algébricos. Fiquei intrigado com isso: significava que Smith, Marx e Malthus não eram ensinados? Sim, disse-me o finalista da licenciatura de desenvolvimento econômico, Cahal Moran. E o que se ensina de Joseph Schumpeter e da sua teoria da destruição criativa? Ah, ele é mencionado, mas literalmente somente uma menção.

Isso não é tudo culpa dos professores: quando se tem de dar aulas para cerca de 400 alunos ao mesmo tempo, é difícil encontrar tempo e espaço para sair fora do programa. Mas o resultado é que os estudantes de economia saem das salas de exame e vão para os departamentos do governo ou para a City com exatamente o mesmo conjunto de ferramentas que há cinco anos levou ao enorme crash na economia.

A Economia deveria ser uma disciplina abrangente, abarcando filosofia, história e política. Mas as abordagens heterodoxas foram desde há muito tempo banidas da maioria das faculdades, afirma Tony Lawson. Na década de 1970, quando ele começou a ensinar na Universidade de Cambridge, a Faculdade de Economia ainda ostentava verdadeiras lendas como Nicky Kaldor e Joan Robinson. “Havia grandes debates, e os alunos estudavam política assim como história do pensamento econômico.” E agora? “Nada. Nem debates, nem política, nem história do pensamento econômico e os cursos são quase tudo apenas matemática.”

Como é que as elites se mantém na liderança? Se o conto de fadas dos economistas serve para o elucidar, as elites mantém-se na liderança por afastarem a oposição e depois taparem os ouvidos à realidade. O resultado é aquilo que todos nós estamos a pagar.

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