3 de outubro de 2013

O trabalho italiano

Como o Pentágono está usando dinheiro dos seus impostos para transformar a Itália em uma plataforma para as guerras de hoje e de amanhã.

David Vine


O Pentágono passou as últimas duas décadas a pagar centenas de milhões de dólares de impostos em bases militares em Itália, transformando o país num centro cada vez mais importante para o poder militar dos Estados Unidos. Especialmente desde o começo da “Guerra Global contra o Terror” em 2001, o exército deslocou o seu centro de gravidade da Alemanha, onde estava a grande maioria das forças norte-americanas na região desde o final da Segunda Guerra Mundial, para o sul da Europa. Nesse processo, o Pentágono transformou a península italiana numa plataforma de lançamento para futuras guerras em África, Médio Oriente e outras.

Com bases em Nápoles, Aviani, Sicília, Pisa e Vicenza, entre outras, os militares gastaram mais de 2000 milhões de dólares só desde a Guerra Fria e essa cifra não inclui outros milhares de milhões mais em projectos de construção, operações e gastos de pessoal. Enquanto o número de tropas na Alemanha se reduziu de 250 mil para cerca de 50 mil, há 13 mil soldados norte-americanos (e 16 mil familiares) nas bases da Itália em números que coincidem com os do apogeu máximo durante a Guerra Fria. Isso significa, por sua vez, que a percentagem de forças dos Estados Unidos na Europa, com sede na Itália, triplicou desde 1991, de 5% a 15% (de todas as estacionadas na Europa).

No mês passado, tive a oportunidade de visitar a nova base dos Estados Unidos na Itália, situada em Vicenza, perto de Veneza. Tem três meses de funcionamento e é o local de uma força de reacção rápida, a Equipa de Combate da 173.ª Brigada de Infantaria (Airborne), e o componente do exército do Comando África dos Estados Unidos (AFRICOM). A base estende-se por um quilómetro de norte a sul, e supera todo o resto na pequena cidade. De facto, em mais de 145 hectares, a base é quase exactamente do tamanho do National Mall em Washington ou o equivalente a uns 110 campos de futebol americano. O preço da base supera os 600 milhões de dólares desde o ano fiscal de 2007. Mas há mais bases, e portanto mais despesa militar dos Estados Unidos na Alemanha do que em qualquer outro país estrangeiro (excepto, até há pouco, o Afeganistão). No entanto, a Itália tornou-se cada vez mais importante no jogo do Pentágono para mudar a composição global das suas 800 bases, ou mais, no estrangeiro. O novo pólo é na direcção do sul e não tanto para leste da Europa. O especialista Alexander Cooley explica: «Os funcionários de defesa dos Estados Unidos reconhecem que o posicionamento estratégico da Itália no Mediterrâneo e perto da África do Norte, a doutrina antiterrorista do exército italiano, assim como a disposição política favorável do país para com as forças norte-americanas são factores importantes na decisão do Pentágono de manter uma base ampla e a presença de tropas ali. As únicas pessoas que foram prestando atenção a esta acumulação são os movimentos italianos da oposição local de Vicenza, que estão preocupados em que a sua cidade se converta numa plataforma para guerras futuras dos Estados Unidos.

A maioria dos turistas pensa na Itália como o país da arte do Renascimento, as antiguidades romanas, pizzas excelentes, massas e vinho. Poucos pensam nela como a terra das bases norte-americanas. Mas há em Itália 59 «sítios de base» identificados pelo Pentágono, algo que só é superado neste país pela Alemanha (179), Japão (103), Afeganistão (100 e em decrescendo) e Coreia do Sul (89).

Publicamente, os funcionários norte-americanos afirmam que não há bases militares dos Estados Unidos na Itália. Insistem que as nossas guarnições, com toda a sua infra-estrutura, equipamento e armamento, são apenas convidados no que oficialmente são bases italianas designadas para o uso da OTAN. Mas, todos sabem que isso é essencialmente uma subtileza legal.

Ninguém que visite a nova base em Vicenza pode duvidar de que seja uma instalação dos Estados Unidos do princípio ao fim. A guarnição está numa antiga base da força aérea italiana chamada Dal Molin. (Em finais de 2011, as autoridades italianas puseram-lhe o nome de «Caserna de Din», evidentemente, para afastar recordações da oposição maciça contra a base). Do exterior, poderia ser confundida com um complexo hospitalar gigante ou um campo universitário. 31 edifícios pêssego e creme com telhados vermelho claro dominam o horizonte apenas com os picos dos Alpes do Sul com pano de fundo. Uma vala de rede metálica coroada por um renque de puas rodeia o perímetro, com uma rede de malha verde que oculta certos pontos da base.

Mas, se conseguir entrar, vai encontrar dois quartéis com capacidade para 600 soldados cada. (Fora da base, o Exército está a alugar cerca de 240 casas de construção nova nas comunidades circundantes). Verá também duas garagens de seis pisos que podem albergar 850 veículos, e uma espécie de complexos de grandes oficinas e algumas áreas pequenas de treino, incluindo um campo de tiro interno ainda em construção, assim como um ginásio com uma piscina climatizada, uma «zona de entretenimento para o soldado» uma cafeteria de estilo italiano e uma cantina grande. Esses serviços são na realidade bastante modestos para uma base grande dos Estados Unidos. A maioria das casas de construção nova ou reabilitada, escolas, centros médicos, lojas e outros serviços para os soldados e suas famílias estão na cidade Viale della Pace, na base Caserna dele e perto em Villagio della Pace.

Mais longe de Vicenza, o exército está a trabalhar em força para actualizar as suas bases italianas. Até princípios de 1990, a base aérea dos Estados Unidos em Aviano, a noroeste de Vicenza, era um sítio pequeno conhecido como «Sleepy Hollow». A partir da transferência dos F-16 para Espanha em 1992, a Força Aérea transformou-se numa zona de estacionamento importante para todas as operações em tempo de guerra importante desde a Primeira Guerra do Golfo. No processo, gastou-se pelo menos 610 milhões de dólares em mais de 300 projectos de construção (Washington convenceu a OTAN que proporcionasse mais da metade desses fundos, e a Itália cedeu 210 hectares de terreno gratuitamente).

Para não ficar atrás a Marinha colocou mais de 300 milhões a partir de 1996 para a construção de uma nova base de operações no aeroporto de Nápoles. Perto dali, tem um contrato de arrendamento de 30 anos num «local de apoio» estimado em 400 milhões de dólares ou seja, um grande centro comercial rodeado por amplos jardins, bem cuidados. (A base encontra-se no coração da máfia napolitana e foi construída por uma empresa que se ligou à Camorra). Em 2005, a Marinha mudou a sua sede europeia de Londres para Nápoles, já que desviou a sua atenção do Atlântico Norte para África, e Médio Oriente e o Mar Negro. Com a criação do AFRICOM, cuja sede central permanecerá na Alemanha, Nápoles é agora local de uma mescla das Forças Navais da Europa e das Forças Navais dos Estados Unidos da África. É revelador que o seu «site» na Web mostre com destaque a hora em Nápoles, Djibouti, Libéria e Bulgária.

Entretanto, a Sicília tornou-se cada vez mais importante para os Estados Unidos para a “Era da Guerra Global contra o Terror”, uma vez que o Pentágono está a transformar a ilha num nó importante das operações militares dos Estados Unidos para a África já que se encontra a menos de 100 quilómetros de distância através do Mediterrâneo. Desde o ano fiscal de 2001, o Pentágono gastou mais 300 milhões de dólares na construção da Estação Naval Aérea de Signonelle. É agora a segunda estação naval dos Estados Unidos na Europa e foi utilizada pela primeira vez em 2002 para a utilização de aviões de vigilância não tripulados, Global Hawk. Em 2008 os Estados Unidos e a Itália assinaram um acordo secreto que permite oficialmente o estabelecimento ali de bases de drones. Desde então, o Pentágono gastou 31 milhões de dólares nessa base. A base de drones, oficialmente da OTAN, tem uma capacidade de vigilância até 10 mil milhas.

Desde esta base e desde 2003, utilizam-se aviões F-3 de vigilância para monitorizar grupos insurgentes no norte e oeste de Africa. E desde 2011, o AFRICOM espalhou uma equipe de trabalho de cerca de 180 homens na Marinha e na Força Aérea para proporcionar capacidade antiterrorista aos militares africanos no Botswana, Libéria, Djibuti, Burundi, Uganda, Tanzânia, Quénia, Túnis e Senegal. Sigonella alberga também um dos três serviços globais de emissão de comunicações por satélite e logo será a sede da base conjunta de informações e análise de dados, assim como centro de formação, da OTAN. Em Junho, o subcomité do Senado dos Estados Unidos recomendou mover as forças e operações especiais CV-22 Osprey da Grã-Bretanha para a Sicília, já que «Sigonella se transformou na plataforma de lançamento chave para missões relacionadas com a Líbia, e dada a turbulência actual nessa nação, assim como o aparecimento das actividades de treino de terroristas no norte de África». Em Niscemi, muito perto, a Marinha espera construir uma instalação para um satélite de comunicações de ultra-alta frequência, apesar da oposição crescente dos sicilianos e outros italianos afectados pelos efeitos da estação e da sua radiação electromagnética sobre os seres humanos e os arredores, onde existe uma reserva natural. No meio desta acumulação, é verdade que o Pentágono encerrou realmente algumas bases na Itália como Comiso, Brindisi e Madalena. Embora o Exército tenha cortado parte do pessoal em Camp Darby, uma instalação subterrânea de armas e armazenagem de equipamento ao longo da costa da Toscana, a base continua a ser uma logística importante e com um pré-posicionamento central que permite o deslocamento mundial de tropas, armas e equipamento de Itália por mar. Desde 2005, investiram quase 60 milhões de dólares em novas construções.

E que fazem todas estas bases na Itália? Foi assim que um funcionário militar dos Estados Unidos em Itália (que pediu para não ser identificado) me explicou o assunto: «Sinto muito, mas isto não é a Guerra Fria. Não estão aqui para defender um ataque (soviético) a Vicenza. Estão aqui porque concordámos que precisam de estar aqui para fazer outras coisas, quer no Médio Oriente ou nos Balcãs ou em África». Um papel cada vez mais importante na estratégia global da guarnição do Pentágono, em grande parte devido à posição do país no mapa. Durante a Guerra Fria, a Alemanha Ocidental foi o coração dos Estados Unidos e da OTAN na Europa devido à sua posição nas rotas mais prováveis de qualquer ataque soviético na Europa ocidental. Acabada a Guerra Fria, a importância geográfica da Alemanha reduziu-se muito. Na realidade, as bases e tropas norte-americanas no centro da Europa estavam cada vez mais cercadas pela sua geografia, já que a Força Aérea necessita sempre de obter direitos de voo dos vizinhos. Pelo contrário, as tropas com sede em Itália têm acesso directo a águas internacionais e ao espaço aéreo do Mediterrâneo. Isso permite-lhes deslocarem-se rapidamente por mar ou por ar. Como declarou o Subsecretário do Exército, Keith Eastin, ao Congresso em 2006, colocando a Brigada Aerotransportada 173 em Dal Molin «posiciona-se estrategicamente a unidade ao sul dos Alpes, com acesso fácil ao espaço aéreo internacional para deslocação rápida e operações de alerta.”

Já afirmámos que o Pentágono se aproveitou da situação da Itália desde a década de 1990, quando a base aérea de Aviano desempenhou um papel importante na primeira Guerra do Golfo e nas intervenções dos Estados Unidos e da OTAN nos Balcãs (um salto curto através do Mar Adriático a partir de Itália). A administração Bush, por sua vez, fez das bases na Itália alguns dos seus postos «permanentes» de avanço na Europa. Nos anos de Obama, uma participação militar crescente na África tornou a Itália uma opção ainda mais atractiva.

Para além da sua situação, os funcionários norte americanos gostam da Itália, porque como me declarou o mesmo funcionário militar, «é um país que oferece uma flexibilidade operativa boa. Por outras palavras, proporciona a liberdade para fazer o que se quiser com restrições mínimas e sem problemas.”

Além de oferecer custos menores de operação, o mais sensível à pressão política e económica de Washington, é mais permissiva no que diz respeito às normas ambientais e laborais e dá ao Pentágono mais liberdade para iniciar uma acção militar unilateral com um mínimo de consulta aos países de acolhimento.

A Itália é o segundo país mais endividado da Europa e o seu poder económico e político é fraco em comparação com o da Alemanha. Portanto não é de estranhar, como me sugeriu o funcionário do Pentágono em Itália, que a situação das forças segundo o acordo com a Alemanha seja longo e detalhado enquanto o acordo com a Itália continua a ser o de 1954 (e até secreto). “Os alemães são mais exigentes com as regras, enquanto os italianos são mais interpretativos».

A liberdade com que os militares dos Estados Unidos utilizaram as suas bases italianas na guerra do Iraque é disso um exemplo. Para começar, o governo italiano permitiu às forças norte-americanas a sua utilização para uma guerra que estava fora do contexto da OTAN e que violava os termos do acordo de 1954. Um telegrama publicado por Wikileaks, de 2003, enviado pelo embaixador em Itália Melvin Sembler, revelava que o governo do primeiro-ministro Sílvio Berlusconi deu ao Pentágono «praticamente tudo o que este queria». «Conseguimos o que pedimos» escreveu Sembler, «no acesso, base, transito e voos, assegurando que as forças poderiam fluir com facilidade através de Itália para chegar ao combate».

Por seu lado, a Itália parece ter-se beneficiado directamente desta cooperação. (Alguns dizem que a mudança das bases da Alemanha para a Itália estava destinado a ser uma forma de castigo pela sua falta de apoio à guerra do Iraque). Segundo uma informação de 2010 do semanário de segurança Jane, o papel da Itália na guerra do Iraque, ao proporcionar 3 mil tropas ao esforço aliado, abriu contratos de reconstrução do Iraque a empresas italianas, assim como o reforço de relações entre os dois aliados. O seu papel na guerra do Afeganistão oferece sem dúvida vantagens semelhantes. Essas oportunidades surgiram no meio do aprofundamento dos problemas económicos, e num momento em que o governo italiano estava a transformar a produção de armas numa faceta importante para reactivar a sua economia. Segundo Jane, os fabricantes de armas italianos como a Finmeccanica avançaram de forma agressiva para entrar nos Estados Unidos e outros mercados. Em 2009, as exportações de armas italianas aumentaram mais de 60%.

Em Outubro de 2008 os dois países renovaram um Memorando de Aquisições de Defesa Mútua (um acordo de nação mais favorecida» para as vendas militares. Sugeriu-se que o Governo italiano possa ter cedido Dal Molin aos Estados Unidos de modo gratuito em parte para assegurar um papel destacado na produção «da arma mais cara já construída», o avião de combate F-35, entre outros acordos militares. Outro telegrama brilhante de 2009 da encarregada de negócios da embaixada de Roma, Elizabeth Dibble, classifica a cooperação militar dos países «uma associação permanente». Mencionava como a Finmeccanica (que é 30% propriedade estatal) «vendeu equipamento de defesa dos Estados Unidos em 2008 no valor de 2.300 milhões de dólares [e] tem uma participação forte na solidez da relação entre os Estados Unidos e a Itália».

Há em tudo isto ainda outro factor relevante. Pelas mesmas razões que os turistas americanos acorrem ao país, as tropas norte americanas desfrutam ali da dolce vita. Além da vida cómoda à volta das bases, cerca de 40 mil visitantes militares por ano de toda a Europa, e ainda mais chegam ao complexo militar de Camp Darby e à praia americana da Riviera italiana.

A Itália não vai tomar o lugar da Alemanha como base do poder militar dos Estados Unidos na Europa. A Alemanha está há muito tempo integrada no sistema militar dos Estados Unidos e os estrategas militares tudo fizeram para que assim permanecesse. O Pentágono justificou a mudança de tropas para Vicenza como uma forma de consolidar a 173 Brigada num único lugar e que, e que apesar de tudo, uma terceira parte da Brigada permanecesse na Alemanha.

Mas a Itália está a transformar-se rapidamente num dos principais postos em que os Estados Unidos se apoiam para fazer a guerra a nível mundial. Enquanto se chama a atenção para o pivô da Ásia de que fala Obama, o Pentágono concentra as suas forças numa série de bases como Djibouti no Corno de África e Diego Garcia no Oceano Índico, Bahrein e Qatar no Golfo Pérsico, Bulgária e Roménia na Europa de Leste, Austrália, Guam e Hawai no Pacífico, e Honduras na América Central. Também na Itália as bases tornam mais fácil intervir militarmente em conflitos de que pouco sabemos, desde a África até ao Médio Oriente. Em vez de perguntarmos porque temos bases na Itália e dezenas de outros países pelo mundo inteiro, um número crescente de políticos, jornalistas e outros continuam a afirmar que as bases nos ajudam a preservar a «segurança» dos Estados Unidos, um caminho de violência perpétua numa insegurança perpétua.

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