29 de novembro de 2013

A guerra contra Gaza reforçou a posição do Irã

por Kaveh L. Afrasiabi


Agora que a poeira de sete dias de guerra contra Gaza já baixou, vê-se que a roda da fortuna geoestratégica da guerra girou, sem dúvida alguma, a favor do apoio militar que o Irã dá ao Hamás. Os líderes israelenses podem falar o quanto queiram do pesado dano que teriam infligido à capacidade de ataque do Hamás, fato é que Israel não alcançou seu principal, quase único objetivo: comprometer a capacidade dos foguetes do Hamás. É fato, sim, também, que o dano que tenha havido será rapidamente reparado pelo Hamás, o qual, nos meses vindouros, poderá reabastecer e fortalecer seus arsenais.

A impressionante capacidade dos foguetes do Hamás, que resistiu à fúria de cerca de 1.500 incursões dos jatos israelenses que bombardearam sem cessar área densamente povoada, e o fracasso do “Domo de Ferro” de Israel, que não impediu que cerca de 420 foguetes atingissem Israel, reflete o que está sendo chamado no ocidente de novo “equilíbrio do terror”, denominação que já se afasta consideravelmente da versão tradicional da supremacia militar de Telavive e aponta para novas áreas de vulnerabilidade dos israelenses, as quais, por sua vez, incidem de forma dramática sobre a posição anti-Irã, de Israel.

É o que já se depreende da declaração de Ali Baqeri, subsecretário do Conselho Superior de Segurança Nacional do Irã:

Se o regime sionista já não tem condições para derrotar a Resistência na Faixa de Gaza sitiada, é claro que, definitivamente, já não tem o que dizer, tampouco, sobre a força e a potência da República Islâmica.

Sentimentos semelhantes foram manifestados também pelos comandantes militares iranianos, entre os quais o comandante dos Guardas Revolucionários, General Mohammad Ali Jafari, que já admitiu publicamente que o Irã forneceu ao Hamás a tecnologia para montar os foguetes Fajr-5, e que “os foguetes foram produzidos rapidamente”.

“Se a intenção de Israel ao provocar essa guerra foi usá-la como prelúdio para um ataque contra o Irã, foi fracasso completo, principalmente porque a guerra terminou com vitória do Hamás, do Irã e do Hezbollah [libanês], triunvirato de poder que impõe hoje desafio formidável, em qualquer cenário de guerra contra o Irã” – disse um professor de ciência política da Universidade de Teerã, que pediu para não ser identificado.

A impressão generalizada de que qualquer ataque de Israel contra o Irã é hoje ainda menos provável do que no passado, como resultado direto da guerra de Gaza, deve, com certeza, influenciar o clima de negociações entre o Irã e as nações do grupo “5+1” – os membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU plus Alemanha – marcadas para breve. A “opção militar” que Israel usou para coagir o Irã na mesa de negociações perdeu agora, embora pouco se fale sobre isso, grande parte da serventia prevista, o que faz pesar a balança geral, consideravelmente, na direção de solução diplomática.

“No mínimo, o resultado favorável ao Irã, da Guerra de Gaza, implicou abertura mais ampla da janela diplomática, o que se traduz em maior flexibilidade e maior disposição, entre os governos ocidentais, para negociar e para ceder” – disse o professor de Teerã.

Negociações, a estrada à frente

Antes da próxima rodada de conversações multilaterais, reuniões bilaterais entre o Irã e a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), marcadas para a segunda semana de dezembro em Teerã, podem preparar o caminho para uma modalidade de “cooperação estruturada” que vise a resolver as questões invocadas no mais recente relatório da AIEA, de novembro desse ano.

O diretor-geral da AIEA, Yukiya Amano, já admitiu tacitamente que parte do relatório de inteligência citado no “Anexo” do relatório que a Agência divulgou em novembro de 2011 pode ser considerado ‘questionável’, posto que, como disse o diretor-geral, “todo” aquele anexo é pouco confiável; em outras palavras, a AIEA já sabe que nem todas as informações de inteligência que lhe foram encaminhadas merecem ser tomadas como material confiável.

A descoberta chave do mais recente relatório, divulgado no início desse mês de novembro, é que os inspetores não encontraram qualquer tipo de prova de que o material nuclear declarado esteja sendo utilizado para fins não declarados pelo Irã – considerados os dados obtidos por todos os mecanismos de verificação, inclusive inspeções anunciadas em prazo curtíssimo, amostras de material recolhido no meio ambiente em períodos regulares de tempo e o emprego de câmeras de vigilância em todas as praças de enriquecimento de urânio no Irã.

Outra constatação chave é que o Irã já converteu alta porcentagem de seu urânio enriquecido a 20% em bastonetes e placas de combustível, e mantém hoje limitada em cerca de 110 kg a quantidade de material enriquecido – provável sinal de boa-vontade, uma vez que o país não reabasteceu metade das centrífugas instaladas na usina superprotegida conhecida como Fordo.

No caso de as conversações Irã-AIEA mostrarem progresso real, como preveem funcionários do governo do Irã, com certeza criar-se-ão condições de melhorar-se o tom da conversa iraniana com os representantes dos “5+1” liderados pela secretária de Relações Externas da União Europeia, Catherine Ashton, a qual, em recente reunião em Bruxelas, destacou a importância de negociações diplomáticas sustentadas.

A questão, evidentemente, é de se os negociadores ocidentais estarão dispostos a levar em consideração o fortalecimento da posição do Irã, resultado da Guerra de Gaza, desenvolvimento que deve ter reduzido o ímpeto de ataque militar contra o Irã. Se raciocinarem nesses termos e nessa direção, é preciso saber ainda como a ideia traduzir-se-á em maior disposição a reduzir as sanções contra o Irã, em comparação ao que se viu em rodadas anteriores, quando os governos ocidentais recusaram-se a considerar qualquer abrandamento nas sanções, mesmo no caso de o Irã concordar com suspender completamente o enriquecimento do urânio a 20%.

Hoje, depois de três rodadas inconclusivas de negociações, no início de 2012, o cenário parece preparado para que se cultive otimismo moderado em relação em relação à próxima rodada. Outro desenvolvimento importante que afeta aquelas conversações, também a favor do Irã, foi a decisão dos EUA de forçar o adiamento da muito esperada conferência sobre um Oriente Médio livre de armas de destruição em massa, prevista para acontecer na Finlândia.

A decisão dos EUA, interpretada por muitos como concessão a Israel – principal agente de proliferação de armas de destruição em massa em todo o Oriente Médio –, foi fortemente condenada pelo Irã e por vários países árabes, que denunciaram o papel dúbio que os EUA desempenham, atentos, sempre, a excluir Israel de qualquer tratado ou decisão anti-proliferação de armas de destruição em massa. O enviado do Irã à AIEA, Ali Asghar Soltanieh, criticou duramente os EUA sobre esse tema; e Irã e Rússia uniram-se a favor de antecipar-se a data da conferência do próximo ano, na Finlândia.¹

Certamente, na próxima rodada, o Irã e as nações do “5+1” muito terão a conversar sobre o estimulante objetivo de implantar-se uma zona sem armas nucleares no Oriente Médio – circunstância que muito favorece aos interesses do Irã, interessado em destacar as intenções exclusivamente pacíficas de seu programa. A possibilidade de que o representante do Irã encontre, como parece afinal possível, público mais receptivo na mesa de negociações, como acima se discute, parece ser efeito, em não pequena medida, da guerra de Israel contra Gaza, que, bem claramente, não levou a bons resultados para Israel.

Nota:

¹ Ver entrevista com o embaixador Ali Asghar Soltanieh (Kaveh Afrasiabi, “Iran prepares for Moscow”, Asia Times Online, 9 de junho de 2012 (em inglês). 

Nenhum comentário:

Postar um comentário