28 de novembro de 2013

Alain Badiou: Evento, Fidelidade, Sujeito

Razmig Keucheyan

The Left Hemisphere: Mapping Critical Thinking Today, Verso, 2013, trad. Gregory Elliott, pp. 176-182

Tradução / Badiou é um construtor de sistemas filosóficos. Ele é, sem dúvida, dentre os pensadores críticos contemporâneos, aquele que adotou essa tarefa filosófica de forma mais assumida. A doutrina elaborada por Badiou é uma teoria do "evento". Uma teoria de grande complexidade – e não resta dúvida que estamos sendo justos aqui – exposta em duas obras imponentes, L’Être et l’événement (1988) e Logiques des mondes (2006), às quais podemos adicionar Théorie du sujet. Ela também atravessa outros vários trabalhos temáticos, geralmente menos volumosos e mais acessíveis, como Saint Paul: La fondation de l’universalisme(1997), Abrégé de métapolitique (1998), L’Éthique. Essai sur La conscience du mal (1993), e Le Siècle(2005).

A teoria do evento de Badiou se assenta em quatro categorias principais: o ser, evento, sujeito e fidelidade. No início está o ser. No nível mais básico, ele é composto de puros "múltiplos" desorganizados. Estes não são "partículas elementares" do tipo estudado pela física moderna ou invocado pelo materialismo clássico. Eles estão situados "abaixo" da matéria, de forma que o que está envolvido não são entidades reais, mas propriedades formais do ser. Para Badiou, a ontologia fundamental não é outra senão a matemática, o que significa que no nível mais elementar, o ser tem um modo formal de existência.

"Multiplos" adquire um grau inicial de consistência ontológica quando estão estruturados, ou "contados para um", como Badiou coloca. Eles são, então, transformados em "situações", que são "apresentações" estruturadas dos múltiplos. A consistência da realidade é consequentemente dependente das operações de contagem. Tais operações são realizadas contra um plano de fundo de um "vácuo" original, uma vez que os múltiplos que serão contados não são entidades reais. Apenas adquirem tal realidade quando contados. Existem ilimitados exemplos de "situações" – a sociedade francesa é um, a arte moderna outro, o sistema solar um terceiro. O conjunto das situações correntes se referem a um "estado da situação". Badiou atua aqui no significado duplo da palavra "estado", que se refere tanto à "estrutura" quando ao "estado" em seu sentido político. Isso é recordado quando Rancière usa da mesma forma a palavra "police" [política/polícia] deliberativamente de modo ambíguo para se referir à "distribuição do sensível" e às forças da lei e da ordem que garantem sua manutenção. De certo ponto de vista, a doutrina de Badiou pode ser considerada como uma forma radical de nominalismo. A realidade só existe na medida em que é contada ou nomeada. O estado da situação é domesticado a ponto de se tornar objeto do conhecimento positivo. Este último está localizado ao longo do ser; ele participa da contagem das partes.

Pode acontecer de o ser sofrer uma interrupção súbita causada por um evento. O evento ‘divide a história do mundo em dois’, para adotar a formula nietzschiana usada por Badiou em conexão com o século XX, mas cujo escopo é mais geral. As causas dos eventos são diversas, de um encontro amoroso à descoberta da estrutura do DNA, do Branco sobre Branco de Malevitch à Revolução Russa. Mais precisamente, existem quatro domínios nos quais ‘procedimentos verdadeiros’ são passíveis de vir à tona: a política, as ciências, as artes, e o amor. Em cada um deles, o evento é absolutamente heterogêneo em relação ao ser; ele é imprevisível e suspende a contagem dos múltiplos que o constituem. O evento está no lado do não-ser, do que não é contado no estado da situação. Como Badiou diz, ‘está na essência do evento não ser precedido por nenhum sinal, e nos tomar de surpresa com sua graça, independentemente de nossa vigilância [18]; A Revolução Francesa é um exemplo típico de um evento. Conhecemos os detalhes do processo – econômicos, políticos, culturais – em atividade nos anos ou décadas que antecedem o evento. Podemos mobilizá-los para explicar as condições nas quais ele ocorreu. Ao mesmo tempo, esse evento permanece irredutível ao conhecimento que possuímos em relação a ele, mesmo retrospectivamente. O conhecimento está no lado da contagem da situação anterior, enquanto que o evento é, por definição, ‘supernumerário’; está em sua essência ser incontável. Neste sentido, um evento é sempre mais do que a soma dos processos que compreende.

Badiou é às vezes criticado pelo caráter ‘milagroso’ de sua teoria do evento [19]. Zizek chegou inclusive a argumentar que a revelação religiosa é seu ‘paradigma velado’ – isto é, o modelo que secretamente governa o mundo. As recorrentes referências de Badiou a São Paulo e à estrada para Damasco dão peso a essa hipótese. O evento de Badiou é um criador de causalidade, mas não é em si mesmo precedido por qualquer outra causalidade reconhecida. Uma principal inconveniência dessa tese é de que ele torna impossível qualquer reflexão estratégica. Ainda que incerta, a estratégia pressupõe optar por um curso de ação na base dos processos que se encadeiam. À medida que o evento é supernumerário, qualquer escolha desse tipo é, em princípio, sem fundamento. A teoria do evento de Badiou é mais um exemplo da característica do pensamento crítico contemporâneo ao que temos nos referido como, a saber, a fraqueza ou ausência de pensamento estratégico. Contudo, é importante indicar que enquanto o evento badiousiano surge ex nihilo, o ‘nada’ em questão não está situado em algum ‘além’. Ele é interno à situação que precede o evento, que é sempre inconsistente ou instável, pois repousa em um vácuo original. Assim, embora não seja previsível, o evento da Revolução Francesa revelou a ‘verdade’ do ancien regime, no sentido de que nas profundas desigualdades características deste [antigo regime] estavam suas sementes [do evento].

O ‘sujeito’ advém do evento. É uma consequência possível dele, o que não quer dizer que seja um desdobramento mecânico dele. Peter Hallward, autor de uma obra de referência sobre o pensamento do filósofo francês, define o sujeito de Badiou como ‘um indivíduo transfigurado pela verdade que ele proclama’ [20]. O indivíduo exposto a um evento é transformado em sujeito – isto é, passa por um processo de ‘subjetivação’ sob a condição do evento. Para Badiou, a subjetivação tem (pelo menos) duas características. A primeira é que ela é coletiva. Mais precisamente, Badiou argumenta que a subjetivação deriva de um evento político que é sempre coletivo. Em outros domínios onde ocorrem os ‘procedimentos verdadeiros’, como artes ou ciências, ele pode não ser [21]. Além do mais, a subjetivação não pressupõe nenhuma essência humana pré-estabelecida. Ela é subsequente ao evento e envolve uma decisão por parte do indivíduo de permanecer crédulo ao evento. Isso é o que Badiou chama da definição do homem como ‘programa’ – isto é, como sempre aberto e por vir. Aqui, Badiou re-une as posições de seus dois mestres, Sartre e Althusser. A antiga assertiva de que ‘a existência precede a essência’ consiste em acreditar que os seres humanos constroem suas próprias essências quando eles já estão no mundo. Para Badiou, essa construção é posta em prática nas sombras de um evento fundador. A concepção do homem como programa também se refere ao ‘anti-humanismo teórico’ de Althusser, que representa uma critica radical do essencialismo humanista (que Badiou chama de ‘humanismo animal’). Desta forma, argumenta Badiou, ‘o Homem é encarado não como um uma realização ou um resultado, mas como a ausência de si mesmo, arrancado do que ele é, e é esse descolamento que é a base de toda grandeza aventurosa’ [23].

Um aspecto crucial da doutrina badiousiana é que a identificação de um evento pode ser feita apenas subjetivamente, de dentro dele. Isso implica que a existência de um evento como evento, e não simplesmente uma série de fatos de causalidades inteligíveis, é sempre incerta. Ela precisa ser completada por um ato de nomenclatura necessariamente subjetivo. Esse ato de nomenclatura é o que Badiou chama de ‘intervenção interpretativa’, que a define como ‘qualquer procedimento pelo qual um múltiplo é reconhecido como um evento’ [24]. Aqui é onde surge a quarta categoria básica do sistema badiousiano – a fidelidade:

“Um evento nunca é compartilhado porque, ainda que a verdade obtida a partir dele seja universal, seu reconhecimento enquanto evento ocorre, simplesmente, em unidade com a decisão política. A política é uma perigosa, militante, e parcialmente indivisa fidelidade a uma singularidade eventual auto-prescrita… A perspectiva a partir da qual a política pode ser pensada – que permite, mesmo após o evento, a captura de sua verdade – é aquela a partir do ator, e não do espectador.” [25]

A noção de fidelidade é onipresente em Badiou. Ela o situa numa tradição teológica de pensamento, às vezes chamada de ‘fideísmo’, que encara o ato de fé como constitutivo na relação de transcendência. O ‘Credo quia absurdum’ de Tertuliano é a expressão mais radical, afirmando que a fé em Deus é mais autentica que a razão que a ela se opõe. Dentre os pensadores que pertencem a essa tradição estão Pascal, Kierkegaard e Paul Claudel, três autores frequentemente citados por Badiou. Uma vez que a fidelidade é considerada como central, também o é seu oposto – a apostasia ou renúncia. Durante a conferencia sobre a obra Logiques des mondes, Badiou declarou que a negação do Maio de 68 por parte de seus protagonistas foi o que de fato provocou sua reflexão sobre o evento [26].

Para Badiou, um sujeito genuíno existe apenas em fidelidade a um evento. Isso implica no fato de que muitos indivíduos nunca se tornarão sujeitos autênticos, seja porque eles não terão a oportunidade de ficarem expostos a um evento, ou porque, tendo sido expostos a um, não demonstraram fidelidade perante ele. Esta é a dimensão mais aristocrática, ou nietzschiana, do pensamento badiousiano, que reserva o status de sujeito apenas a um número reduzido de indivíduos. Não faltam comentadores de sua obra, sejam de direita ou de esquerda, que o criticam por tal aristocracismo [27]. Entretanto, devemos notar que para Badiou toda pessoa, qualquer que seja sua origem, é capaz de ser capturada por um evento e se submeter ao processo de subjetivação. Lembrando que o evento badiousiano, assim como os sujeitos que dele emergem, é caracterizado por sua raridade. Eles são sempre excepcionais.

Badiou é um pensador do universal, mas de um universal paradoxal. São Paulo, a quem ele se refere como o fundador do universalismo, proclama em suas Epístolas aos Gálatas a famosa fórmula: ‘Não há judeu nem grego, não há servo nem livre, não há macho nem fêmea’ (Gálatas, 3:28). O evento-Cristo suspende as diferenças e coloca uma ‘multiplicidade puramente genérica’ que equaliza as condições. Isso não evita que Paulo seja pragmático e evidencie um desprezo tolerante às diferenças entre as comunidades cristãs, cuja unidade se esforça em preservar. Contudo, a chave é que o evento-Cristo abole as identidades e dá vazão a um universalismo endereçado a todos. Por outro lado, o acesso ao universalismo badiousiano necessariamente ocorre via uma rota subjetiva. De acordo com o filósofo, a verdade é sempre militante. Não aquela verdade que é valida em si mesmo e subsequentemente adotada e propagada por apóstolos convictos. Para Badiou, a verdade existe apenas na medida em que é militante. O filósofo rejeita o relativismo prevalente na maioria das correntes ‘pós-modernas’ contemporâneas. Segundo estas, conceitos como ‘verdade’ ou ‘universal’ são no mínimo falaciosos e, na pior das hipóteses, cúmplices do imperialismo ocidental. Para Badiou, não existe nada disso. Para tanto, o universalismo desenvolvido pelo autor de Logiques des mondes imputa à subjetividade um papel chave. Longe de ser um grilhão à emergência do universal, ela é uma condição para sua possibilidade.

De acordo com Badiou, a ‘forma partido’ têm sido suplantada. No século XX, a política revolucionária tomou a forma de partidos, que almejavam confrontar o estado em seu próprio terreno, tomar o controle dele, e iniciar seu desmonte. Esse esquema estratégico se refere, no limite, à centralidade no século XX do que Badiou chama de ‘paradigma da guerra’ [29]. ‘O século XX executou a promessa do XIX. O que o século XIX concebeu, o século XX realizou’, argumenta o filósofo [30]. O problema é que a realização no ‘aqui e agora’ do que anteriormente foi um sonho levou a uma brutalização da realidade. Foram cometidas atrocidades sem precedentes antes que os partidos revolucionários tivessem se ‘rotinizado’ e se tornado ‘partidos-estado’. Hoje, a questão crucial é se é possível uma política revolucionária sem um partido [31]. Badiou não é um libertário; ele não clama por um florescimento irrestrito da espontaneidade revolucionária. Uma política sem um partido não indica uma política sem organização. Ela significa uma política sem nenhuma relação com o estado. Dessa forma Badiou recusa tomar parte em eleições e abandonou o paradigma leninista que predomina sobre a esquerda revolucionária, cuja característica principal é a tomada do poder estatal por meio da luta armada.

Dentre os novos agentes da transformação social, Badiou acredita que os travailleurs sans-papiers [NT: ‘trabalhadores sem papéis’, no caso, documentos; referência à questão dos trabalhadores imigrantes ilegais na França] desempenharão um papel crucial no futuro – e não apenas os sans-papiers nos países desenvolvidos, mas também, por exemplo, os trabalhadores rurais chineses que migraram ilegalmente para as cidades. Os sans-papiers concentram em si mesmos todas as contradições do capitalismo contemporâneo e, nesse sentido, para Badiou, são ‘irreconciliáveis’. Os países ricos não tem outra escolha senão empregá-los clandestinamente de forma a reduzir os custos trabalhistas e disciplinar a força de trabalho. Ao mesmo tempo, eles estão constantemente fortalecendo o controle sobre as fronteiras e organizando voos fretados para enviá-los a sua terra natal, com pouco impacto (e isso é verdade) na escala e direção dos fluxos migratórios. Apoiar as lutas dos sans-papiers consequentemente contribui para o aprofundamento dessa contradição, que é inerente ao capitalismo, aumentando assim sua desestabilização.

Notas

[18] Alain Badiou, Saint Paul: The Foundation of Universalism, trad. Ray Brassier, Stanford: Stanford University Press, 2003, p. 111.

[19] Ver Daniel Bensaïd, ‘Alain Badiou and the Miracle of the Event’: em Think Again, Alain Badiou and the Future of Philosophy, Peter Hallward, ed., Londres e Nova Iorque: Continuum, 2004.

[20] Peter Hallward, Badiou: A Subject to Truth, Minneapolis: University of Minnesota Press, 2003, p. 122.

[21] Badiou, Metapolitics, p. 142.

[22] Alain Badiou, The Century, trad. Alberto Toscano, Cambridge: Polity, 2007, capítulo 13.

[23] Ibid., p. 92.

[24] Alain Badiou, Being and Event, trad. Oliver Feltham, Londres e Nova Iorque: Continuum, 2006, p. 202.

[25] Badiou, Metapolitics, p. 23.

[26] “Autour de Logiques des mondes”, organizado por David Rabouin e Frédéric Worms, 24 de Novembro de 2006, École normale supérieure, Paris.

[27] Alex Callinicos e Philippe Raynaud, ambos, da esquerda e da direita, criticam Badiou por seu aristocracismo. Ver Callinicos, Resources of Critique, Cambridge: Polity, 2006, p. 101, e Philippe Raynaud, L’Extréme gauche plurielle, Paris: Perrin, 2009, p. i53.

[28] Badiou, Saint Paul, p. 98.

[29] Badiou, The Century, p. 34.

[30] Ibid., p. 19.

[31] Badiou, Metapolitics, pp. 126-7.

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