20 de novembro de 2013

Orthodox economists have failed their own market test

Students are demanding alternatives to a free-market dogma with a disastrous record. That's something we all need

Seumas Milne


De um ponto de vista racional, a economia ortodoxa enfrenta graves dificuldades. Seus pregadores não só não anteviram o maior crash em 80 anos: também insistiram que as crises do presente seriam coisas do passado. Mais que isso, alguns daqueles faróis-guias tiveram papel chave no desenho dos derivativos financeiros que ajudaram a desencadear, para começar, a quebradeira.

A maioria deles eram propagandistas pagos por bancos e fundos que nos encheram de ‘'dicas’' para que saltássemos do despenhadeiro para o qual nos conduziram. Figuras aclamadas de uma disciplina que se diz científica falavam de volatilidade “muito moderada”, de um mercado cuja volatilidade já estava à beira de explodir, como em seguida explodiu, numa volatilidade de violência jamais vista antes. Outros, como Robert Lucas, “Prêmio Nobel”, insistia que a economia teria resolvido o “problema central da prevenção da depressão”.

Qualquer outra profissão e respectivos profissionais que se tivessem mostrado tão espetacularmente errados e que tivessem causado tão absoluta devastação, com certeza estariam hoje em desgraça. Seria de supor também que os economistas do “livre-mercado” que dominam nossas universidades e ganham a vida como assessores de governos e de bancos estariam repensando suas teorias e considerando alternativas.

De fato, a vasta maioria dos economistas que previram a crise já haviam, antes, rejeitado o pensamento neoclássico dominante: de Dean Baker e Steve Keen a Ann Pettifor, Paul Krugman e David Harvey. Sejam keynesianos, pós-keynesianos ou marxistas, nenhum jamais abraçou a ideologia neoliberal que correu solta por 30 anos; e todos compreenderam que, ao contrário da ortodoxia, mercados desregulados não tendem ao equilíbrio, mas aprofundam a tendência da economia à crise sistêmica.

Alan Greenspan, ex-presidente do Federal Reserve dos EUA e grão-sacerdote da desregulação, teve, pelo menos, a honestidade de admitir que sua visão do mundo fora provada “não correta”. O mesmo não se pode dizer de outros. Eugene Fama, arquiteto da “hipótese dos mercados eficientes” de apoio à desregulação financeira, concede que não tem ideia do que “cause as recessões” - mas insiste que sua teoria teria sido confirmada. A maioria dos economistas reinantes comportaram-se como se nada tivesse acontecido.

Mas para muitos de seus alunos, não, foi demais, cansaram-se daquilo. Uma revolta contra a ortodoxia vem fermentando há anos e agora parece ter atingido massa crítica. Fartos de teorias de universos paralelos que nada têm a dizer sobre o mundo que os interessa, os estudantes da Manchester University criaram uma Sociedade de Economia pós-crash, de 800 membros, que exigem o fim dos cursos neoclássicos monolíticos e novo currículo, pluralista.

Querem que lhes sejam ensinadas as ideias de outros pensamentos econômicos, do pensamento keynesiano a teorias mais radicais – que tenham currículo honroso a exibir no campo da previsão de terremotos e que sejam conectadas à economia do mundo real – e economia verde e feminista. A campanha está-se alastrando rapidamente: já chegou a Cambridge, Essex, à London School of Economics e a uma dúzia de outros campus, e ligados a grupos em universidades na França, Alemanha, Eslovênia e Chile.

Como explica um dos fundadores da Sociedade em Manchester, Zach Ward-Perkins, ele e um colega concluíram, depois de um ano de ininterrupta ortodoxia: “Tem de haver mais do que isso”. A economia neoclássica é, afinal, construída sobre uma concepção da economia como soma das ações atomizadas de milhões de indivíduos dedicados a maximizar a utilidade, onde os mercados são estáveis, a informação é perfeita, capital e trabalho são iguais – e o ciclo comercial é fixo como ideia fixa.

Mas ainda que muito se empenhem em tentar dizer coisa com coisa sobre crises, desigualdade ou a propriedade, os modelos matemáticos erigidos sobre aquelas fundações intelectuais mal enjambradas dão a tudo um verniz de rigor científico, valorizado por alunos que sonhem com empregos bem pagos na City. A economia neoclássica ofereceu os pressupostos para a dieta pró-mercados desregulados, pró-privatização, pró-baixos impostos sobre a riqueza e pró-livre comércio, exatamente o quê, por 30 anos, nos contaram que seria a única via para a prosperidade.

Seus pregadores têm “mentalidade quase religiosa”, como diz Ha-Joon Chang – um dos últimos economistas independentes sobreviventes na Cambridge de Keynes. Embora sempre a clamar a favor da concorrência, os neoclássicos não toleram nem a mínima concorrência. Há 40 anos, todos os departamentos de economia eram keynesianos, e a economia neoclássica era desprezada. Tudo mudou, com a ascensãode Thatcher e Reagan.

Em instituições onde, se acreditava, estimulava-se o debate, os economistas não neoclássicos foram sistematicamente expurgados das faculdades de economia. Alguns encontraram refúgio nas escolas de comércio, estudos do desenvolvimento e departamentos de geografia. Nos EUA, a chave foi a privatização do ensino superior. Na Grã-Bretanha, a “busca da excelência” e os elogios intra-clusters de especialistas – critério para a alocação de fundos públicos para pesquisa – foi o principal mecanismo para o “saneamento” da economia, expurgada de “ideologias”.

Paradoxalmente, o aumento vertiginoso dos custos para os alunos e a “marketização” da educação superior estão empurrando os alunos na direção de inverter a ganga dessa monocultura intelectual.

Os “livre-mercadistas” estão, agora, sendo testados no mercado, pelo mercado: e os fregueses não querem o produto que eles têm para vender. Alguns acadêmicos empresários já viram que terão de fazer concessões e estão cevando um projeto pago por Soros, para fazer “uma funilaria” nos currículos, na esperança de conseguir conter a escala das novidades, da mudança.

Mas a coisa tem de mudar. A ortodoxia do livre-mercado das últimas três décadas ajudou a criar a crise em que estamos, mas, simultaneamente, também deu credibilidade a políticas que levaram a crescimento mais lento, menor desigualdade, menos insegurança e menor degradação ambientalem todo o mundo. A continuada dominância daquela ortodoxia, mesmo depois do crash, tanto quanto o modelo neoliberal à qual aquela ortodoxia dá apoio, é questão de poder, não de credibilidade.

Se quisermos escapar da atual crise, a ortodoxia e o modelo neoliberal terão de ser, os dois, descartados.

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