25 de novembro de 2013

Reflexões sobre Jacoby e tudo isso

Reproduz-se a seguir a versão em português de um breve texto inédito de E.P. Thompson escrito no enquadramento do Programa História e Sociedade da Universidade de Minessota no ano acadêmico 1987-1988 com o título informal de "Reflexões sobre Jacoby e tudo isso". [1] O working paper circulou fotocopiado entre os estudantes do Programa e parece requisitado como comentário ao então recente bestseller de Russell Jacoby The Last Intellectuals: American Culture in the Age of Academe [Os últimos intelectuais: a cultura americana na idade da academia].

E. P. Thompson


Tradução / Tem-se-me convidado a dizer algo sobre as relações entre a escrita, a história e a política conforme a minha própria experiência. Em certo sentido, há pouco que dizer que não resulte óbvio. Ou assim me parece. Escreve-se história como historiador e embarca-se na polêmica política como cidadão, e uma coisa não exclui a outra. Efetivamente, os dois papéis podem sobrepor-se ou ainda se confundir às vezes, mas também não significa isso que se precise chegar a grandes compromissos. Os modos de sair airoso do assunto são menos um problema teórico que um problema prático. Eu estou determinadamente na contramão de misturar a docência com qualquer variante de proselitismo político, porque isso é aproveitar-se injustamente de uma posição de vantagem sobre os estudantes. A minha impressão, de todas, todas, é que esse abuso o costuma cometer de maneira flagrante, bem mais que a esquerda, uma direita incautamente habituada a supor que os seus pontos de vista constituem a única ortodoxia possível. Mas isso não deve ser desculpa para que a esquerda se ponha a emular abusos da direita.

Talvez parto deste simples ponto de vista porque o meu pai foi um escritor: um historiador e um polemista em assuntos que tinham que ver com a independência da Índia. De maneira que a forma "normal" de ir trabalhar que eu observei na minha infância consistia em baixar em pantufas ao estudo com uma fumegante xícara de café em mãos. [2] O ruído da máquina de escrever era "trabalho". O meu pai tinha também certo relacionamento contratual a tempo parcial com a Universidade de Oxford, como Leitor de bengali e, depois, como investigador sócio em História da Índia; mas as suas tarefas não eram demasiado exigentes, de maneira que passaria provavelmente pelo filtro da severa definição de "intelectual" de Russell Jacoby. Ele, no entanto, entendia-se a si próprio como "escritor": como poeta, novelista, historiador, jornalista e homem de letras. E quando abria o correio, repleto de intermináveis petições para escrever sobre isto, falar sobre isto outro, ler tal manuscrito ou assessorar sobre tal outro (quase sempre de graça), entendia-se também a si mesmo como servus servorum [servo dos servos].

Os anos que tenho vindo a desempenhar um papel de destaque no movimento pela paz ajudaram-me a entender demasiado bem essa forma de se entender a si próprio. O mundo está cheio de gente encantadora e meritória que, por alguma razão, supõe que um escritor é um servidor público sem remuneração. Às vezes, a metade ou mais da minha vida profissional destina-se a responder o correio, e a pilha de cartas ainda sem resposta gravita permanentemente sobre a minha mente. Uma parte dessa correspondência faz à manutenção de um bom relacionamento com um público, mas esse público também pode ser irreflexivamente exigente. A Catch-22 do assunto é que nunca se chega a conhecer os correspondentes delicados, precisamente porque têm demasiado tato como para te inundar com cartas.

Baste isso como prólogo. Ficam por acrescentar tão só alguns breves detalhes biográficos. Quando era jovem, eu supunha que poderia chegar a ser um Escritor (com maiúscula). O meu primeiro emprego foi de tutor extramuros, cargo que desempenhei 17 anos em West Yorkshire para a Universidade de Leeds: tratava-se de tutorias externas na educação de adultos. Voltarei sobre isso. Eu me fiz historiador nessa época escrevendo os meus livros sobre William Morris e sobre A formação da classe operária na Inglaterra. [3] Dorothy (a minha mulher) e eu andávamos muito metidos no ativismo político: o momento culminante foi o feroz conflito dentro (e, depois, fora) do Partido Comunista (1956) e a formação e o trabalho editorial para The New Reasoner e a New Left Review. O meu seguinte posto de trabalho foi já dentro de uma universidade, a recentemente fundada Universidade de Warwick: só me durou seis anos, mas uma das suas recompensas foi a formação de um excelente centro de graduados, especialmente forte no estudo da história social inglesa do século XVIII. Depois demiti (1971) para poder escrever, oportunidade que me brindava Dorothy, quem (com os garotos já um pouco crescidos) conseguiu tardiamente entrar no ensino universitário, o que significava o rendimento de um salário acadêmico regular na família. A minha liberdade para ser um intelectual dependia disso, e talvez Jacoby presta pouca atenção a este tipo de assuntos materiais garbanceiros. Escrever seriamente por conta própria não proporciona um sustento. De vez em quando, nas duas últimas décadas, recarregamos a nossa conta bancária e também os nossos recursos intelectuais aceitando a amável hospitalidade de universidades norte-americanas, canadenses e outras para ensinar ocasionalmente ou durante cursos inteiros. De maneira que eu sou meio intelectual e meio acadêmico. A minha vida de escritor acadêmico viu-se interferida -e repetidamente adiada- pelas exigências da publicística controvérsia política: primeiro, em defesa de liberdades civis como a integridade do sistema de júris populares e em oposição ao autoritarismo crescente em Grã-Bretanha; e depois, em representação do movimento pela paz. Se há que distinguir entre o escritor de história e o escritor político, então o historiador que há em mim lamenta muito nos anos desperdiçados em política: e nunca mais que agora, quando me acho rodeado de obra inacabada e demasiado pouco tempo por diante. Mas, como cidadão, não tenho por que desculpar com o historiador.

Voltemos a Russell Jacoby, embora suponho que já vos fizeram uma ideia suficiente da sua posição durante o seminário. A mim, em geral, gosto do seu livro. Com uma prosa viva e abundância de exemplos, apresenta à cultura acadêmica, não como uma solução, senão como um problema. Talvez gosto do livro porque eu mesmo vim sustentando teses parecidas durante anos. Em uma discussão sobre o papel da universidade na educação de adultos, escrevi (em 1968) o que segue:

A cultura educada superior não está já isolada da cultura popular conforme às velhas fronteiras de classe: mas segue estando isolada dentro dos seus próprios muros de autoestima intelectual e soberba espiritual. Há, escusado será dizer,, mais pessoas que nunca que atravessam os muros e entram. Mas é um gravíssimo erro -em que apenas podem cair quem olha a universidade desde fora- supor que, dentro dos muros, se acham ardentes protagonistas (...) de valores intelectuais e culturais. Na boa classe de adultos, a crítica da vida leva-se ao trabalho ou ao objeto de estudo. É natural que isto resulte menos comum entre os estudantes universitários correntes; e boa parte do trabalho do professor universitário é do tipo de um carniceiro intelectual: pesar e medir programas de estudo, listas de leituras ou temas de ensaio em pós do treinamento profissional que se pretende. O perigo é que esse tipo de necessária tecnologia profissional se confunda com a autoridade intelectual: e que as universidades -apresentando-se a si mesmas como sindicato de todos os "experientes" em todos os ramos do conhecimento- expropriem ao povo a sua identidade intelectual. E nisso se vêem secundadas pelos grandes meios centralizados de comunicação -assinaladamente, pela televisão-, que costumam apresentar ao acadêmico (ou talvez deveria falar de certos acadêmicos fotogênicos?), não como um profissional especializado, senão, precisamente nesse sentido, como um verdadeiro "experiente" na Vida. ("Education and Experience", págs. 21-22)

Esta não é exatamente a mesma queixa que a de Jacoby, porque o que a ele lhe preocupa é a incapacidade dos acadêmicos para se projetar como intelectuais públicos, enquanto o que a mim me preocupava era a expropriação da vida intelectual da nação por parte das universidades. Mas ambos estamos radicalmente interessados no intercâmbio, no diálogo entre a academia e o público. No entanto, Jacoby apresenta o problema de maneira demasiado fácil. Apesar das ressalvas, o seu livro parece apresentar um auto-isolamento voluntário em que os intelectuais comprometidos terminaram optando pelo progresso profissional no quadro dos mefíticos vocabulários das carreiras acadêmicas. É verdade que isso se dá agora, como se deu no passado. Em momentos materialistas e vazios de heroísmo isso deu-se já antes. Mas seguramente não é senão a metade do processo. Jacoby não se molesta em inquirir para além, em indagar nas razões "estruturais" do auto-isolamento de uma categoria de intelectuais: não se pergunta se esse isolamento e esse auto-encarceramento com gíria auto-promocional é consequência não menos que causa. Não será que os relacionamentos políticos e intelectuais entre os intelectuais e o grande público se viram interrompidas por mudanças nas tecnologias da comunicação, ou talvez que, como consequência de ulteriores mudanças políticas e ideológicos, os intelectuais se ficaram falando consigo mesmos ou sem ter muito que dizer que seja de interesse geral?

Chegados a este ponto, eu convidar-lhes-ia a vocês a darem uma olhada em dois artigos meus que abordam esse problema a partir de diferentes ângulos. O primeiro, "The Segregation of Dissent" [A segregação do dissenso], foi escrito para a BBC e finalmente recusado por ela em 1961; terminou publicando-se em um pequeno jornal estudantil publicado em Oxford, The New University. [6] O destino final da sua publicação parecia a ilustração do seu argumento. O segundo, "The Heavy Dancers" [Os bailarinos grávidos] vinha a ser, em verdadeiro modo, uma reelaboração do argumento do primeiro, mas no contexto farto mais autoritário que se dava vinte anos depois. [7] Foi um encarrego de uma unidade de produção algo ousada de uma TV comercial que trabalhava para o ocasionalmente intelectual Chanel Four. Mas a iniciativa não era tão ousada, nem muito menos, porque o nervo sensível da minha conversa -que tinha que ver com a Guerra das Malvinas- já era largamente enervado pela vitória da Senhora Thatcher. Durante essa guerra, ainda que todas as sondagens de opinião arrojavam entre um 20% e um 25% da população contrária à guerra, a apresentação televisiva ou radiofônica de argumentação anti-bélica resultaria impossível. Limito-me a sublinhar ante vocês a obviedade de que há razões estruturais e políticas para o isolamento dos intelectuais (se são dissidentes). O que resulta especialmente óbvio na Grã-Bretanha das passadas décadas, com o constantemente crescente autoritarismo, a absurda obsessão governamental com a pseudoseguridade, a cumplicidade do poder judicial e a imprensa popular decadente. Há, desde depois, e digo-o comprazido, verdadeiro movimento de resistência entre os próprios profissionais dos meios de comunicação -assinaladamente, na televisão-, mas a Senhora Thatcher já se está a ocupar disso.

A mim parece-me que algo similar veio ocorrendo nos Estados Unidos desde o final da II Guerra Mundial. Na revista Tri-Quaterly (nº 70) esbocei uma espécie de biografia intelectual do vosso distinto compatriota de Mineápolis, o poeta Thomas MGrath, comparando com um movimento de resistência desenvolvido através de "samizdat" compostos com pequenas resenhas. [8] Agora mesmo, este distinto intelectual encontra-se marginalizado da vida acadêmica norte-americana: a sua obra não figura nos programas de estudo, nem se discute na New York Review of Books. Não será que os argumentos de Jacoby são circulares e auto-confirmatórios? Não menciona a McGrath, provavelmente porque não ouviu falar dele. E quantos intelectuais terá que resultem invisíveis pelas mesmas razões? Enviei um manuscrito do meu estudo sobre McGrath a esse fino historiador literário que foi o último Warren Susman. A sua resposta resultou-me estimulante. Mas em uma questão dissentia vigorosamente. A cultura de resistência dos pequenos periódicos samizdat por todos os Estados Unidos deveria considerar-se tão "típica" das décadas recentes como a cultura "oficial" da academia e a New York Review of Books. "Para o historiador cultural", sustentava Susman, "os fatos culturais importantes são tanto a tipicidade como a especificidade única de McGrath".

Eu não sei como lidar com este problema. Dou todo o meu apoio ao labor das revistas minoritárias, e não saberia nem contar as horas, dias, semanas, meses e anos da minha vida dedicados à edição de, à colaboração com e ao financiamento desse tipo de publicações, desde Our Time até o New Reasoner, desde a New Left Review até, hoje mesmo, o END Journal. Mas por importantes que sejam estas publicações, não resolvem por si próprias o problema da comunicação com um público mais amplo. Precisam-se certos mecanismos de transmissão ou de mediação. Quando conheci a Wright Mills nos primeiros dias da New Left Review, ele andava muito preocupado com este problema. Achava poder encontrar uma solução com o pequeno livro de bolso, e construiu uma uma aliança particularmente amigável com Ian Ballantine, de Ballantine Books, quem planejou pôr essa ideia por obra servindo-se de máquinas expendedoras de livros de bolsos nas grandes superfícies comerciais ao longo dos Estados Unidos: poderia chegar a vender até 20.000 exemplares de cada livro, ainda se se limitasse a oferecer uma coberta sobre um caderno de páginas em branco. (Eu suspeito que se chegasse a pôr isso em prática com demasiada frequência, as suas máquinas seria sabotadas.) [O livro de Wright Mills] Escuta Yanky foi escrito para esse tipo de audiência de Ballantine, e (a primeira versão de) A imaginação sociológica, bem como As causas da III Guerra Mundial, pensavam em uma audiência similar. [9] Lembro-me claramente ter discutido tudo isso com Mills e Ballantine em uma propriedade rural de uma montanha galesa, e eu, desde depois, via a edição do livro de bolso como um méio "de massas", como uma resposta à TV e à imprensa popular. O problema não é só que os produtos intelectuais ou políticos competem pobremente quando compartilham saída comercial com o sensacionalismo, a pornografia ligeira, a novelinha de ocasião ou ainda os scripts para computadores, senão que, na tentativa dos converter em competidores efetivos, podem diluir-se as suas qualidades intelectuais. Admirei muito -e sigo admirando- o exemplo de Wright Mills. Mas pensava que Escuta Yanky resultaria mais eficaz, se não fosse escrito em telegrafes; que A imaginação sociológica apresentava um argumento demasiado fácil; e que As causas da III Guerra Mundial -que tenho relido recentemente- arruinava os efeitos de algumas visões de notável penetração (que resistiram ao teste do tempo) ao envolver em um formato argumentativo pobremente servido por uma prosa assertiva e exclamatória. A popularização é um tipo especializado de escrita para o que poucos estão dotados, e se um pensador populariza as suas próprias ideias, pode terminar sem outro resultado que o da sua desvalorização.

O que possa fornecer um meio de transmissão de pontos de vista dissidentes talvez não seja uma solução técnica -um jornal popular ou uma máquina expendedora de livros de bolso-, senão um movimento político, religioso, nacionalista ou do tipo que seja. Sim, será galinha ou será ovo, mas com frequência galinha e ovo aparecem juntos: as ideias se popularizam e difundem-se rapidamente, porque: a) a opinião pública já está preparada para as receber; e b) certa excitação pública junta as pessoas em associações, clubes, exércitos ou entusiasmos religiosos, nos que as ideias se debatem rapidamente. As ideias radicais podem manter-se dormentes por décadas, derrotadas pela aniquiladora propaganda do statu quo; mas podem-se mudar as circunstâncias de maneira que apontem a uma nova oportunidade, se aparecem razões para a esperança, então as ideias radicais podem florescer imediatamente e por toda a parte. (Ainda que os primeiros 18 meses de reformas do Sr. Gorbachov viram-se com suspeita e cautela, eu acho que na União Soviética pode se apreciar agora em ação essa esperança que é sempre uma potente força histórica.)

[Esta linha falta na cópia mimeografiada do manuscrito de Thompson que se está a usar para a tradução] ... durante o New Deal, as preocupações comuns e o discurso do comum difundiram-se por todos os Estados Unidos; em Grã-Bretanha, uma parte do público chegou a organizar clubes de empréstimo de livros. No final dos anos 50, fenômenos similares levaram à fundação da New Left Review (NLR). Durante um breve período (talvez entre 1961 e 1963) tivemos 20 ou mais clubes da NLR nos grandes centros urbanos: serviam como correios primeiramente e saída da revista e como locais de irradiação para iniciativas políticas locais. Tratava-se tanto de uma correia de transmissão como de uma audiência com uma identidade conhecida: a seção final do livro de Raymond Williams The Long Revolution [10] dirigia-se talvez a essa audiência, o mesmo que (certas partes de) o meu livro A formação da classe operária na Inglaterra. Mas prestar serviço a esses clubes representava uma pesada carga para o nosso desbordado comitê editorial, que funcionava em parte como assessor e em parte como organizador de um novo movimento de esquerda. Alguns membros do comitê sentiam que a sua intervenção no movimento resultava incompatível com uma atividade intelectualmente congruente da revista, e vários jovens e brilhantes colegas terminaram (como resultado de outras dificuldades) por fazer com o controle da revista e cortaram de todo os vínculos com os (deteriorados) clubes, deixando inclusive de mencionar nos créditos da revista e purgando ao comitê editorial de todos os membros conectados com o movimento (incluído o mineiro que depois terminaria sendo secretário geral da União Nacional de Trabalhadores Mineiros!).

Menciono tudo isto, não por jogar garrulamente a língua a pascer, senão porque guarda relacionamento com a questão das audiências e as mudanças registadas nas últimas décadas. Porque se nas vossas estantes conservais a coleção da New Left Review (NLR), podem examinar todos os números. O estilo da revista mudou depois de dois ou três números. Em vez de se dirigir a uma audiência ativista, com a sua retórica correspondente e, às vezes, senstimentalismo, a NLR começou a afetar um tom e um formato de rigor, claramente dirigido à academia. A sua circulação provavelmente caiu, mas converteu-se em uma publicação internacional e as bibliotecas universitárias chegaram a considerá-la de tão obrigatória presença como Past&Present ou a Economic History Review. Conseguiu evitar o colapso e consolidar-se com uma notável consistência durante vinte e cinco anos, desenvolvendo e definindo uma teoria socialista da academia. A sua audiência -e o seu sentido dos relacionamentos com a audiência- é de todo ponto diferente da vossa New Masses e da nossa Left Review de fins dos 30. A sua trajetória pareceria confirmar e ilustrar, em certos aspectos, a tese de Jacoby. Mas deveríamos acrescentar também que a história ainda contínua. Se a NLR foi um laboratório acadêmico, ainda é possível que as suas inovações e a sua influência cheguem a ser potentes na década vindoura. Eu não estou seguro de que isso termine de me gostar. Como tantas outras coisas que nos circundam por todas partes, a NLR é o produto de uma era excessivamente cerebral e pouco criativa. [11]

O movimento feminista e o movimento pela paz também proporcionaram as suas próprias correias de transmissão para livros e ideias. O primeiro parece ter conseguido uma audiência substantiva e permanente. O segundo foi mais volátil e vai-se visto submetido aos ventos da moda. Muito notavelmente nos Estados Unidos, com as subitâneas alças e baixas da audiência do Freeze, que se podem ilustrar com o sensacional sucesso do livro de Schell Fate of the Earth. [12] (Diga-se de passagem: por que não conta Jonathan Schell entre os "intelectuais" de Jacoby?) Eu observei oscilações parecidas em Grã-Bretanha. A formação do nosso movimento constituiu um exemplo notável do uso de instrumentos e meios de comunicação pré-modernos para irromper em um "consenso" manipulado ou indiferente ou hostil. Servimo-nos do panfleto, da folha volante semanal, da reunião na freguesia ou na escola, da manifestação de rua ou do piquete, e com efeitos tais, que, para 1981, as nossas manifestações chegaram a ser o bastante numerosas e coloridas como para que os meios de comunicação maioritários não pudessem segui-las ignorando como se não existissem. Os esforços e as horas de trabalho voluntário foram um prodígio dificilmente sustentável durante mais de dois ou três anos com esse grau de intensidade. Chegamos a irromper na TV e (com feias distorções) na pior imprensa sensacionalista popular. Escusado será dizer que ao preço de perder o controle direto na forma de apresentar os nossos argumentos quando parecia que estes triunfavam: as nossas vozes passaram a outros (comentaristas políticos, animadores midiáticos, locutores) que propunham as suas questões, não as nossas. Como é característico na Grã-Bretanha, toda a complexidade das nossas propostas ficava reduzida a só duas questões: a favor ou na contramão do "unilateralismo", e "unilateralismo" ao modo em que eles, não nós, o definiam; e -prescindindo diretamente da nossa política de não alinhamento e dos nossos múltiplos contatos com os "dissidentes" do outro lado- a favor ou na contramão das políticas soviéticas. Dada a capacidade dos meios de comunicação maioritários para falsificar e manipular, um se pergunta se não faríamos melhor seguindo ignorados.

A tudo isso, disse mais bem pouco sobre a minha própria prática como escritor político e historiador. Como mencionei ao começo, tenho pouco que dizer que não resulte evidente; e se passei por alto questões significativas, perguntem-me. Uma coisa foi importante para mim e para alguns dos meus colegas. O meu primeiro emprego -que durou 17 anos- foi na educação para adultos. Eram tempos -imediatamente após a Guerra- nos que o movimento era vigoroso e contava com um amplo apoio popular. As classes estavam organizadas pela Associação de Trabalhadores da Educação, mas os cursos mais longos e formais conduziam-nos tutores extramuros da universidade ou extensões dos departamentos universitários. Essas classes duravam normalmente três invernos de 14 sessões cada uma, complementadas com escolas de verão; os estudantes embarcavam-se nesta considerável tarefa (e a maioria, a plena satisfação) com o único propósito da instrução própria: não tinha grau ou diploma ao final, e raramente um incentivo vocacional direto. O grosso dos cursos versava sobre humanidades ou ciências sociais (teoria econômica, assuntos internacionais, história, literatura, música). Em uma boa classe tutorial de educação para adultos tinha um diálogo real entre o tutor e os estudantes, e um jovem tutor como eu mesmo tinha que enfrentar essa classe com humildade antes de adquirir experiência. (Na minha primeira classe em uma aldeia mineira do Yorkshire meridional resultou-me evidente desde as primeiras semanas que não poderia ganhar o respeito da classe até que não baixasse com eles ao poço local da mina.)

Isso era muito diferente do ensino universitário externo. Por um lado, os estudantes tinham pouco tempo para ler o suficiente, e o que atingiam a ler eram livros, mais que artigos acadêmicos especializados. (A era da fotocópia barata ainda não chegara, e não dispúnhamos de revistas acadêmicas encadernadas em volumes nas nossas estantes.) Poucos eram capazes de escrever ensaios sérios. Mas, por outro lado, o tutor esforçava-se para expor ante a classe, tão clara e equânimemente como lhe fosse possível, o estado dos conhecimentos, exposição a que costumava seguir um tempo de discussão de outra hora na que os membros da classe interrogavam ao tutor, introduziam a sua própria experiência -com frequência, pertinentemente-, e sob essa luz, avançavam os seus próprios julgamentos. Às vezes, em uma classe de história, esses julgamentos estavam insuficientemente informados, mas na classe de literatura -eu ensinava ambas coisas por igual: outra vantagem da educação para adultos- a experiência do estudante resultava superior à do tutor, o que resultava francamente gratificante.

Esta experiência da educação para adultos influiu desde depois em uma tradição da história social na Inglaterra. R.H. Tawney foi um pioneiro das classes de educação tutorial. Não sei se os Hammond participaram nisso também, mas os seus livros soam como se o tivessem feito. [13] A coisa não oferece dúvida: essa experiência influiu no meu sentido da audiência ao escrever história. O meu William Morris e A formação da classe operária na Inglaterra escreveram-se com uma audiência na cabeça composta por uma classe para adultos ou por ativistas políticos. Pouco que ver com uma audiência universitária interna. Daí a minha negligência do protocolo acadêmico ( que eu mal conhecia o rótulo). Cheguei a apreciar a diferença depois. A boa recepção da formação converteu-me em alvo da crítica acadêmica, de maneira que na minha atividade literária das duas ultimas décadas tive em mente também a essa audiência crítica. Isso fez a minha obra mais lenta e mais auto-consciente; mais cautelosa no julgamento; mais meticulosa com relação ao aparelho acadêmico. Talvez a obra ganhou em perícia profissional, mas também perdeu em outros aspectos.

Perdeu, sobretudo, o sentido do diálogo com um público. E pode ser que isso seja inevitável, devido ao isolamento estrutural e ao auto-isolamento da academia. Fez-se mais difícil conjugar academia e público general não especializado. E nisso todas as partes perdem: os escritores, a audiência do público e a academia. Porque a educação de adultos oferecia não só uma saída à universidade, senão também um rendimento de experiência e de crítica. Nesse diálogo, apareciam novas disciplinas e ensaiavam-se experimentos: por exemplo, determinada história econômica e social local, determinados temas sociológicos e culturais. E os professores viam-se obrigados a evitar o jargão profissional introvertida e a dar prioridade à difícil tarefa da comunicação. Este diálogo e este "rendimento" de experiência é profundamente necessário para a saúde intelectual da própria academia. Na sua ausência, proliferam os escolasticismos e a vida intelectual do público vê-se confiscada por quem têm uma disposição profissional a teorizar que os membros da elite intelectual (isto é, eles mesmos) são os únicos agentes livres da história, sendo todos os demais meros prisioneiros de estruturas ou de determinações (conceituais, ou de outro tipo) que lhes reduzem a não ser outra coisa que inimigos da intelectualidade ou cúmplices dos seus algozes. Não é só que isso seja falso; é que é um erro carregado de consequências. Aceita-se, em nome de uma teoria supostamente elevada, nossa fraturada vida intelectual; e reproduz-se as alienações. Mas essa é já outra história.

Notas:

[1] Manteve-se a ortografia original do manuscrito. As palavras e os cabeçalho sublinhados converteram-se em itálico. Todas as notas a rodapé são de Carlos Aguirre.

[2] Sobre Edward John Thompson (1886-1946), veja-se E.P. Thompson, Alien Homage. Edward Thompson and Rabindranath Tagore (Delhi: Oxford University Press, 1993) e Mary Lago, “India’s Prisoner.” A Biography of Edward John Thompson, 1886-1946 (Columbia: University of Missouri Press, 2001), assim como Scott Hamilton, The Crisis of Theory. E.P. Thompson, the new left and postwar British politics (Manchester: Manchester University Press, 2012), págs. 11-21

[3] William Morris: Romantic to Revolutionary (London: Lawrence & Wishart, 1955) [Tradução castelhana em Editorial Destino de Barcelona]; The Making of the English Working Class (London: Victor Gollancz, 1963) [Nova edição castelhana recente, comemorativa do cinquentenário, na editorial madrilena Capitán Swing, com prólogo de Antoni Domènech.]

[4] Dorothy Thompson (1923-2011), a mulher de Edward, foi uma historiadora social, autora, entre outras obras, de: The Chartists: Popular Politics in the Industrial Revolution (New York: Pantheon Books, 1984). Sobre a relação de Thompson (e outros historiadores) com o Partido Comunista da Grã-Bretanha, veja-se: Harvey J. Kaye, The British Marxist Historians. An Introductory Analysis (New York: Polity Press, 1984).

[5] E.P. Thompson, “Education and Experience: Fifth Mansbridge Memorial Lecture” (Leeds 1968), págs. 21-22. Este textinho incluiu-se num livro póstumo The Romantics: England in a Revolutionary Age (New York: The New Press, 1997), 4-32.

[6] New University, 6, 1961, 13-16, reproduzido em Writing by Candlelight (London: The Merlin Press, 1980), 1-10

[7] “The Heavy Dancers of the Air”, New Society, 11, Novembro 1982, 243-7, reproduzido em The Heavy Dancers (London: The Merlin Press, 1985), 1-11

[8] E.P. Thompson, “Homage to Thomas McGrath,” TriQuarterly, 70 (Primavera 1987), 116-17.

[9] C. Wright Mills, Listen Yankee: The Revolution in Cuba (New York: Ballantine Books, 1960); The Sociological Imagination (New York: Oxford University Press, 1959); The Causes of World War Three (London: Secker & Warburg, 1958).

[10] Raymond Williams, The Long Revolution (London: Chato and Windus, 1961).

[11] A história da New Left Review foi estudada por Duncan Thompson em: Pessimism of the Intellect?: A History of the New Left Review (London: Merlin Press, 2006).

[12] Jonathan Schell, The Fate of the Earth (New York: Knopf, 1982). EPT faz referência aqui ao movimento “Freeze” contra as armas nucleares. Veja-se ao respeito: Alexander Cockburn e James Ridgeway, “The Freeze Movement versus Reagan,” New Left Review, 137, Enero-Febrero 1983.

[13] Thompson refere-se a John Lawrence e Barbara Hammond, autores de numerosos e muito influentes livros de história social durante as três primeiras décadas do século XX. Veja-se ao respeito: Stewart Angas Weaver, The Hammonds: A Marriage in History (Stanford: Stanford University Press, 1998).

Nenhum comentário:

Postar um comentário