15 de novembro de 2013

Violência: o modo de vida americano

Por John Kozy [*]

Global Research | Carry Amelia Moore Nation nasceu em 25 de novembro de 1846. Tornou-se um membro radical do movimento de temperança, que se opunha ao consumo de álcool. Descrevia-se como “um buldogue correndo aos pés de Jesus, latindo para o que Ele não gosta”, e alegou uma ordenação divina para promover a temperança ao destruir bares. Ela começou seu trabalho de temperança em Medicine Lodge, Kansas ao formar um ramo local da Woman’s Christian Temperance Union e fazer campanha para a proibição da venda de bebidas alcoólicas no Kansas. Ficou famosa por vandalizar tavernas. Frequentemente acompanhada de mulheres cantando e músicos, ela marchava até um bar, cantando e rezando enquanto quebrava a mobília e o estoque do bar com um machado. Entre 1900 e 1910 ela foi presa por volta de 30 vezes pelas “machadadas,” como ela as chamava. Morreu em 9 de junho de 1911 e foi enterrada em um túmulo não marcado em Belton, Missouri. A Woman’s Christian Temperance Union depois colocou uma pedra com a inscrição “Fiel à Causa da Proibição, Ela Fez o Que Pode”. Se ela tivesse vivido mais oito anos, teria visto a proibição tornar-se lei.

Mas, claro, isso não durou. A Lei Seca foi invalidada em 5 de dezembro de 1933. Durou apenas 14 anos. Não teve nenhum efeito benéfico na sociedade. De fato, ajudou a estabelecer o crime organizado nos Estados Unidos.

Mas os americanos não desistem tão fácil. Nessa sociedade anti-intelectual onde dizem que as pessoas precisam de mais cientistas, prevalecem as práticas não científicas. Aquilo que não funciona é repetido diversas vezes. Então, em 1971, a administração Nixon declarou guerra às drogas. Agora, quase 50 anos depois, as trincheiras estão começando a desmoronar. Este longo esforço pela proibição também não funcionou, e também não teve nenhum efeito benéfico na sociedade. De fato, resultou na morte de milhares nos EUA e em outros países, arruinou inúmeras vidas de jovens, e desperdiçou grande quantidade de dinheiro. Assim como a Lei Seca, alimentou a criação de cartéis criminosos internacionais. Aquilo que as pessoas com inclinação científica abandonariam como ineficaz, os americanos colocaram em prática com vigor cada vez maior. Poderíamos pensar que alguém reconheceria a loucura. Mas não, o povo está clamando novamente. Agora, quanto às armas.

Não me entendam mal. Eu não tenho armas; eu não posso pensar em alguma razão pela qual pessoas vivendo em um estado civilizado precisam de armas. As armas têm apenas um objetivo – matar! As pessoas em um estado civilizado não deveriam ter uma razão para fazer isso. Se as armas são necessárias para proteção pessoal, o estado fracassou em sua função primária de garantir a tranquilidade doméstica. (Leia a Constituição!) Uma nação que não pode garantir nem isso falhou completamente. E o fato de que há aqueles que insistem em possuir armas nos Estados Unidos fala mais sobre eles e o fracasso da nação do que sobre as armas.

Mas mais uma tentativa de proibição é nada mais que uma tentativa emocional de se fazer alguma coisa, mesmo que seja algo que não terá qualquer efeito no nível de violência nos Estados Unidos. Alguns se referiram às leis de controle de armas como atos “para se sentir bem”. Talvez, mas atos para se sentir bem são melhores que atos para se sentir mal, e não conheço alguma boa razão para se opor ao controle de armas. O que eu sou contra é a crença Poliana de que o controle de armas vai reduzir a violência na sociedade americana. As armas não são a causa dessa violência; a natureza violenta da sociedade norte-americana é a causa do namoro dos americanos com as armas.

Os Estados Unidos foram concebidos e criados pela violência. Os europeus que colonizaram os Estados Unidos não eram nem tolerantes nem esclarecidos; eles eram a escória da sociedade, e eles se desprezavam entre si. Os puritanos totalmente impuros de Massachusetts desprezavam os quakers da Pensilvânia e os católicos de Maryland. Na Guerra de Pequot, colonos ingleses comandados por John Mason lançaram um ataque noturno a uma grande aldeiaPequot no rio Mystic e queimaram os habitantes nas suas casas e mataram todos os sobreviventes. Por estimativas conservadoras, a população dos EUA antes da colonização europeia era maior que 12 milhões. Quatro séculos depois, esse número foi reduzido para 237.000. Quatro séculos de violência contínua contra os americanos nativos; e a violência continua.

Abraham Lincoln, consagrado como o grande emancipador, libertou os escravos incitando uma guerra que matou algo em torno de 750 mil americanos. A emancipação veio aos escravos por violência inédita. Em contraste e, aproximadamente, na mesma época, o autocrático czar Alexandre II da Rússia emancipou mais de 23 milhões de servos sem matar uma única pessoa. Oh, esses horríveis czares russos!

Após a Guerra Civil, os americanos levaram as fronteiras da América até o Oceano Pacífico. Fizeram isso com armas. O rifle de repetição Winchester modelo 1873 e o revólver Colt Peacemaker são coloquialmente conhecidos como “as armas que conquistaram o Oeste”, por seus papéis predominantes nas mãos dos colonizadores ocidentais. Os americanos abriram o caminho à bala do Mississippi ao Pacífico.

A política externa americana durante décadas consistia principalmente de desventuras militares – política externa pelas armas! Hoje, a arma tornou-se o drone e a bala, o míssil Hellfire. O general Smedley Butler (1881-1940), um dos dois únicos americanos a ganhar a medalha de honra em duas ocasiões distintas, escreveu:

Passei a maior parte do meu tempo sendo um capanga de alta classe para os grandes negócios, para Wall Street e os banqueiros. Em suma, eu era um escroque, um gângster para o capitalismo... Ajudei a tornar o México, especialmente Tampico, seguro para os interesses petrolíferos americanos em 1914. Ajudei a fazer do Haiti e Cuba um lugar decente para os rapazes do National City Bank para coletarem os lucros. Ajudei no estupro de uma meia dúzia de repúblicas da América Central para o benefício de Wall Street. Ajudei a purificar a Nicarágua para a casa bancária internacional Brown Brothers em 1909-1912. Eu trouxe luz para a República Dominicana para os interesses açucareiros americanos em 1916. Na China, eu ajudei a fazer com que a Standard Oil seguisse seu caminho sem ser molestada. Agora, é claro, estamos usando as armas para tornar o Oriente Médio e o Sudeste Asiático “seguros para a democracia”.

Mas essa tentativa não está dando certo.

A violência permeia essa cultura. Os americanos não só participam da violência. Eles se divertem com ela. Assassinatos ocorrem nos Estados Unidos em média 87 vezes por dia. Ir à guerra no Afeganistão é menos perigoso do que viver em Chicago. Os romanos iam ao Coliseu para assistir pessoas morrerem. Nas grandes cidades, os americanos só precisam olhar pela janela. O beisebol, que já foi o esporte nacional americano, um esporte benigno e soporífero, foi substituído pelo futebol americano que é tão violento que destrói o cérebro dos jogadores. Filmes violentos, eufemizados como filmes de ação, dominam nossos cinemas e aparelhos de televisão. As nossas crianças brincar de matar jogos de videogame. Você acha mesmo que o controle de armas vai fazer dos EUA uma nação mais tranquila? Você acha mesmo que proibir produtos e práticas vai tornar os americanos mais pacíficos?

Uma cultura não pode ser mudada por leis; a única função da lei é justificar a vingança. Nenhuma lei em toda a história mundial eliminou as práticas que ela deveria reduzir. A profissão mais antiga era ilegal desde o começo da história registrada. Ela ainda continua. A verdade é que uma sociedade baseada na lei é uma sociedade sem lei.

A sociedade americana é violenta não por causa das armas, mas por causa das atitudes dos americanos. Quando os primeiros europeus vieram às Américas, eles achavam que tinham descoberto um novo mundo. Ao invés disso, eles encontraram uma terra já habitada por pessoas com seus próprios modos de vida. A intolerância cristã precisava do uso da violência. Assim como os romanos tomaram partes da Europa que eles queriam, esses europeus tomaram as Américas. A violência estava em suas almas. Os americanos atuais herdaram isso.

Wayne LaPierre, um porta voz da National Rifle Association, disse, "A única coisa que para um cara mau com uma arma é um homem de bem com uma arma". Alguém deveria dizer a ele que muitos o consideram um cara mau com uma arma.

Então, claro, façam leis para controlar a proliferação de armas, mas não fiquem otimistas quanto ao resultado. Tais leis podem ajudar, mas não contem com isso. A menos que você possa mudar o caráter americano, nossa natureza violenta vai continuar até exterminarmos a nós mesmos. Viver pela... Oh, você sabe como isso termina. As culturas são difíceis de se mudar; mudá-las necessita de esforço contínuo por várias gerações. Duvido que os americanos sejam capazes disso.

[*] John Kozy é professor aposentado de filosofia e lógica, e escreve sobre temas sociais, políticos e econômicos. Serviu no exército dos EUA na Guerra da Coreia e, depois, trabalhou durante 20 anos como professor universitário e outros 20 anos, como escritor. É autor de um manual de divulgação sobre Lógica Formal, colabora em jornais acadêmicos e em algumas publicações comerciais. É autor de vários editoriais, como autor convidado. Seus artigos encontram-se em seu site.

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