2 de janeiro de 2014

A mídia é apenas outra palavra para controle?

Por John Pilger

Crédito: Christian Werner.

Um inquérito recente perguntou ao povo britânico quantos iraquianos foram mortos devido à invasão do país em 2003. As respostas dadas foram chocantes. A maioria disse que menos de dez mil haviam sido mortos. Estudos científicos informam que mais de um milhão de homens, mulheres e crianças iraquianos morreram num inferno desencadeado pelo governo britânico e seu aliado em Washington. Isso é o equivalente ao genocídio em Ruanda. E a carnificina prossegue. Implacavelmente.

O que isto revela é como nós na Grã-Bretanha temos sido enganados por aqueles cujo trabalho é manter a informação correta. O escritor e acadêmico americano Edward Herman chama a isto "normalizar o impensável". Ele descreve dois tipos de vítimas no mundo das notícias: "vítimas valiosas" e "vítimas não valiosas". "Vítimas valiosas" são aquelas que sofrem nas mãos dos nossos inimigos: os tipos de Assad, Qadafi, Saddam Hussein. "Vítimas valiosas" qualificam para o que chamamos "intervenção humanitária". "Vítimas não valiosas" são aquelas que estorvam o caminho do nosso poder punitivo e aquelas dos "bons ditadores" que empregamos. Saddam Hussein foi outrora um "bom ditador" mas ficou arrogante e desobediente, tendo então sido despromovido a "mau ditador".

Na Indonésia, o general Suharto era um "bom ditador", pouco importando a sua carnificina de cerca de um milhão de pessoas, ajudada pelos governos da Grã-Bretanha e América. Ele também liquidou um terço da população de Timor Leste com a ajuda de caças britânicos e metralhadoras britânicas. Suharto foi mesmo saudado em Londres pela rainha e quando morreu pacificamente na sua cama, foi louvado como alguém esclarecido, um modernizador, um de nós. Ao contrário de Saddam Hussein, ele nunca se tornou arrogante.

Quando viajei para o Iraque na década de 1990, os dois principais grupos muçulmanos, os xiitas e os sunitas, tinham suas diferenças mas viviam lado a lado, casavam-se entre si mesmos e consideravam-se com orgulho como iraquianos. Não havia Al Qaida, não havia jihadistas. Nós arrebentamos tudo aquilo em 2003 com "pavor e choque". E hoje sunitas e xiitas estão a combater-se por todo o Oriente Médio. Este assassínio em massa está a ser financiado pelo regime na Arábia Saudita que decapita pessoas e discrimina mulheres. A maior parte dos sequestradores do 11 de setembro de 2001 vieram da Arábia Saudita. Em 2010, a Wikileaks divulgou um telegrama enviado a embaixadas dos Estados Unidos pela secretária de Estado Hilary Clinton. Ela escreveu isto: "A Arábia Saudita permanece um apoio financeiro crítico para a Al Qaeda, os Talibans, al Nusra e outros grupos terroristas... no mundo inteiro". E ainda assim os sauditas são nossos valiosos aliados. Eles são bons ditadores. Os membros da casa real britânica visitam-nos frequentemente. Nós lhes vendemos todas as armas que eles querem.

Utilizo a primeira pessoa do plural, "nós" e "nosso" de acordo com locutores e comentadores que frequentemente utilizam o "nós", preferindo não distinguir entre o poder criminoso dos nossos governos e nós, o público. Todos nós somos assumidos como partes de um consenso: Conservadores e Trabalhistas, a Casa Branca de Obama também. Quando Nelson Mandela morreu, a BBC foi a correr a David Cameron, depois a Obama. Cameron, que foi à África do Sul no 25º ano do aprisionamento numa viagem que equivalia ao apoio ao regime do apartheid, e Obama que recentemente derramou uma lágrima na cela de Mandela em Robben Island – ele que preside as grades de Guantánamo.

O que lamentavam eles quanto a Mandela? Evidentemente, não a sua extraordinária vontade de resistir a um regime opressivo cuja perversão os governos dos Estados Unidos e Grã-Bretanha apoiaram anos a fio. Ao invés disso, estavam gratos pelo papel crucial que Mandela desempenhou na supressão de um levantamento dos negros na África do Sul contra a injustiça da política branca e do poder económico. Isto foi certamente a única razão porque foi libertado. Hoje o mesmo poder econômico implacável é apartheid de uma outra forma, fazendo da África do Sul a sociedade mais desigual da terra. Alguns chamam a isto "reconciliação".

Todos nós vivemos numa era de informação – ou assim nos dizemos um ao outro quando tocamos nossos Smartfones como contas de um rosário, com as cabeças inclinadas, verificando, monitorando, tuitando. Estamos ligados; enviamos mensagens; e o tema dominante das mensagens é nós mesmos. A identidade é o espírito da época. Há muito tempo, em "Admirável mundo novo", Aldous Huxley previu isto como o meio final de controle social porque era voluntário, viciante e amortalhado em ilusões de liberdade pessoal. Talvez a verdade seja que vivemos não numa era de informação mas numa era da mídia. Tal como a memória de Mandela, a maravilhosa tecnologia dos meios de comunicação foi sequestrada. Desde a BBC até a CNN, a câmara de eco é vasta.

Ao aceitar o Prêmio Nobel da Literatura em 2005, Harold Pinter falou acerca de uma "manipulação do poder à escala mundial, se bem que mascarando-o como uma força para o bem universal, um brilhante, mesmo esperto, ato de hipnose com grande êxito". Mas, disse Pinter, "isto nunca aconteceu. Nada alguma vez aconteceu. Mesmo enquanto estava a acontecer não estava a acontecer. Não importava. Não era de interesse".

Pinter referia-se aos crimes sistemáticos dos Estados Unidos e a uma censura não declarada – por omissão – isto é, excluir informação crucial que possa ajudar-nos a dar sentido ao mundo.

Hoje a democracia liberal está a ser substituída por um sistema no qual o povo responde a um estado corporativo – não o inverso como deveria ser. Na Grã-Bretanha, os partidos parlamentares são devotados à mesma doutrina de cuidar dos ricos e combater os pobres. Esta negação da democracia real é uma mudança histórica. Eis porque a coragem de Edward Snowden, Chelsea Manning e Julian Assange é tamanha ameaça para os poderosos e inimputáveis. E é uma lição para aqueles de nós que pretendem manter as coisas claras. O grande repórter Claud Cockburn disse isto bem: "Nunca acredite em qualquer coisa até que seja oficialmente negada".

Imagine se as mentiras dos governos houvessem sido adequadamente desafiadas e reveladas quando eles secretamente preparavam-se para invadir o Iraque – talvez um milhão de pessoas estivesse viva hoje.

Transcrição da participação de John Pilger na edição especial do programa "Today", da BBC Radio 4, em 2 de janeiro de 2014, editada pela artista e musicista P.J. Harvey.

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