12 de janeiro de 2014

Ariel Sharon: Pacifista, herói... e carniceiro

Por Robert Fisk [*]

Crédito: Autor desconhecido.

Qualquer outro líder de Oriente Médio que sobrevivesse oito anos em coma ter-se-ia tornado um tema favorito para todos os cartonistas do mundo. Hafez el-Assad teria aparecido no seu leito de morte ordenando ao seu filho que cometesse massacres; Khomeini teria sido desenhado exigindo mais execuções enquanto a sua vida se prolongava infinitamente. Mas à volta de Ariel Sharon – o carniceiro de Sabra e Chatila para qualquer palestino – foi estendido um silêncio quase sagrado.

Maldito em vida como assassino por não poucos soldados israelensesitas, bem como pelo mundo árabe – que tem sido bastante eficaz em massacrar o seu próprio povo nos anos recentes –, Sharon foi respeitado nos seus oito anos de morte virtual: nenhum desenho sacrílego danou a sua reputação, e receberá sem dúvida o funeral de um herói e de um pacificador.

Assim reescrevemos a história. Com que rapidez os jornalistas aduladores de Washington e Nova Iorque retocaram a imagem deste homem brutal. Logo após ter enviado a milícia libanesa de estimação do seu exército aos campos de refugiados de Sabra e Chatila, em 1982, onde foram massacrados cerca de 1.700 palestinos, a própria investigação oficial realizada por Israel anunciou que a Sharon cabia responsabilidade “pessoal” por esse banho de sangue.

Fora ele quem dirigira a catastrófica invasão israelense do Líbano três meses antes, impingindo ao seu primeiro-ministro a mentira de que as suas forças só avançariam uns quilômetros para além da fronteira, e afinal sitiando Beirute, ao custo de umas 17 mil vidas. Mas, reascendendo lentamente a perigosa escadaria política israelense, ressurgiu como primeiro-ministro, autorizando os assentamentos judeus na faixa de Gaza e portanto, em palavras do seu próprio porta-voz, colocando em “formaldeído” qualquer esperança de um Estado palestino.

Ao tempo da sua morte política e mental em 2006, Sharon – com a ajuda dos crimes de lesa humanidade de 2001 nos Estados Unidos e da afirmação, falsa mas com sucesso, de que Arafat tinha apoiado Bin Laden – convertera-se nem mais nem menos que num pacificador, enquanto Arafat, que fez mais concessões às reivindicações israelenses que qualquer outro dirigente palestino, era retratado como um terrorista. O mundo esqueceu que Sharon se opôs ao tratado de paz de 1979 com o Egito, votou contra uma retirada do sul de Líbano em 1985, se opôs à participação israelense na conferência de paz de 1991 em Madrid e ao voto do plenário do Knesset a favor dos acordos de Oslo de 1993, se absteve numa votação pela paz com a Jordânia no ano seguinte e votou contra o acordo de Hebron em 1997. Condenou o método de retirada de Israel do Líbano em 2000 e em 2002 tinha construído 34 novos colonatos judeus ilegais em terra árabe.

Um verdadeiro pacificador! Quando um piloto israelense bombardeou um bloco de apartamentos em Gaza, matando nove crianças juntamente com o seu objetivo do Hamas, Sharon descreveu a operação como um “grande êxito”, e os estadunidenses calaram-se, porque ele arranjou forma de intrujar os seus aliados ocidentais com a delirante noção de que o conflito israelo-palestino era parte da monstruosa batalha de George W. Bush contra o “terror mundial”, de que Arafat era um Bin Laden e de que a última guerra colonial do planeta era parte do confronto cósmico do extremismo religioso.

A horrível – e noutras circunstâncias, hilariante – resposta política perante a sua conduta foi a afirmação de Bush de que Ariel Sharon era um “homem de paz”. Quando chegou a primeiro-ministro os perfis na mídia não destacavam a crueldade de Sharon, mas o seu “pragmatismo”, recordando insistentemente que era conhecido como A Escavadeira.

E, evidentemente, escavadeiras de verdade continuarão a limpar terreno árabe para colonatos judeus por muitos anos depois da morte de Sharon, garantindo dessa forma que nunca – por nunca ser - haverá um Estado palestino.

[*] Robert Fisk é um premiado jornalista inglês, correspondente no Oriente Médio do jornal britânico The Independent.

Robert Fisk, "Ariel Sharon: Peacemaker, hero... and butcher", The Independent, 12 de janeiro de 2014.

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