15 de dezembro de 2013

Sofrem as crianças

Ann Jones [*]

TruthDig

O Congresso queria sem dúvida atuar corretamente quando, no outono de 2008, aprovou a Lei de Prevenção de Crianças Soldados (CPSA, de acordo com a sigla em Inglês). A lei tinha o objetivo de proteger crianças em todo o mundo para não serem obrigadas a lutar na guerra dos grandes. A partir daí, imaginava-se que qualquer país que pressionasse crianças a tornarem-se soldados perderia toda a ajuda militar dos Estados Unidos.

No entanto, acontece que o Congresso — num raro momento de preocupação com a futura geração — se enganou rotundamente. Na sua grande sabedoria, a Casa Branca achou que países como o Chade e o Iêmen são tão vitais para o interesse nacional dos Estados Unidos que preferiu passar por alto o que acontecia aos meninos à sua volta.

Como a CSPA exige, este ano o Departamento de Estado voltou a enumerar dez países que utilizam crianças soldados: Birmânia (Myanmar), República Central Africana, Chade, República Democrática do Congo, Ruanda, Somália, Sudão do Sul, Sudão, Síria e Iêmen. Sete deles deveriam receber milhões de dólares em ajuda militar norte-americana assim como o chamado "Financiamento Militar Estrangeiro dos Estados Unidos". Trata-se de um ardil orientado para apoiar os fabricantes de armas norte-americanos entregando milhões de dólares públicos a "aliados" tão suspeitos, que devem dar uma volta e comprar "serviços" do Pentágono ou "material" dos habituais mercadores da morte. Já os conhecemos: Lockheed Martin, McDonnell Douglas, Northrop Grumman, etc.

Era uma oportunidade para Washington ensinar a um grupo de países a proteger as suas crianças, não a levá-los à matança. Mas em outubro, como sempre acontece desde que a CSPA foi promulgada, a Casa Branca tornou a conceder "dispensas totais ou parciais a cinco países na lista de 'não ajuda' do Departamento de Estado: Chade, Sudão do Sul, Iêmen, República Democrática do Congo, e Somália.

Má sorte para os jovens — e para o futuro — desses países. Mas há que pensar: porque deveria Washington ajudar as crianças do Sudão ou do Iêmen a escapar da guerra se não poupa gastos dentro do país para pressionar os nossos americanos, impressionáveis, idealistas, ambiciosos, a fazerem o "serviço militar"?

Não deveria ser segredo que os Estados Unidos têm o maior sistema, o mais eficiente do mundo para recrutar crianças soldados. Com uma modéstia pouco característica, no entanto, o Pentágono não utiliza essa descrição. Chama-lhe "programa de desenvolvimento da juventude".

Impulsionado por múltiplas firmas altamente remuneradas de relações públicas e publicidade de alta potência, contratadas pelo Departamento de Defesa, o programa é algo importante. O seu rosto principal é o Corpo de treinamento de reserva de oficiais menores (o JROTC em inglês).

O que torna este programa de recrutamento de crianças soldados tão impressionante é que o Pentágono realiza-o perante centenas e centenas de estabelecimentos de ensino médio privados, militares e públicos nos Estados Unidos.

Ao contrário dos senhores da guerra africanos ocidentais Foday Sankoh e Charles Taylor (levados ambos a tribunais internacionais por acusações de crimes de guerra), o Pentágono realmente não sequestra crianças nem as arrasta fisicamente para a batalha. Em vez disso trata de transformar os jovens "cadetes" no que John Stuart Mill chamou "escravos voluntários", tão enganados pelo controle do amo que aceitam os seus papéis com uma vontade que passa por ser escolha pessoal. Com esse fim o JROTC influencia as suas mentes ainda não totalmente desenvolvidas, inculcando-lhes o que os livros do programa chamam "patriotismo" e "liderança" assim como uma atenção por reflexo às ordens autoritárias.

A conjura é muito mais sofisticada — tanto mais "civilizada" — que qualquer outra imaginada na Libéria ou Serra Leoa, e funciona. O resultado é o mesmo: as crianças são levadas a servir como soldados, uma tarefa que não poderão abandonar, e durante a qual serão obrigadas a cometer atrocidades terríveis. Quando começam a queixar-se e a não suportar a pressão, nos Estados Unidos, como na África Ocidental, aparecem as drogas.

O programa JROTC, que existe em institutos de ensino médio em todo o país, custa aos contribuintes dos Estados Unidos, centenas de milhões de dólares por ano. Custou os filhos a uma quantidade inenarrável de contribuintes.

As brigadas de acne e aparelhos dentais

Encontrei alguns rapazes do JROTC há alguns anos num desfile do Dia dos Veteranos em Bóston. Antes de começar, passei por grupos uniformizados que se instalavam ao longo de Boston Common. Havia alguns velhos empunhando bandeiras dos seus grupos da Legião Americana, algumas bandas escolares de ensino médio e alguns jovens em elegantes uniformes de gala, recrutadores militares da grande Bóston.

E depois vinham os rapazes. As brigadas de acne e aparelhos dentais, de 14 e 15 anos de uniformes militares, com espingardas ao ombro. Algumas dos grupos de meninas tinham elegantes luvas brancas.

Demasiados grupos semelhantes, com demasiadas crianças impúberes, estavam ao longo de Bóston Common. Representavam todos os ramos das forças armadas e muitas comunidades locais diferentes, embora quase todos fossem morenos ou negros afro-americanos, latinos, filhos de imigrantes do Vietname e de outros pontos do Sul. No mês passado em Nova Iorque vi esquadrões semelhantes do JROTC codificados por cores, marchando pela Quinta Avenida no dia dos Veteranos. O JROTC não é uma coligação arco-íris.

Em Boston perguntei a um rapaz de 14 anos porque tinha ido para o JROTC. Tinha um uniforme do Exército para jovens e levava uma espingarda quase do seu tamanho. Afirmou: «O meu pai abandonou-nos e a minha mãe tem dois trabalhos, e quando chega a casa, bom, não está em muito boas condições. Mas na escola disseram-nos que temos de ter boas condições para chegarmos a algum lado. Por isso aqui estou».

Um grupo de meninas, todas pertencendo ao JRTOC, disseram-me que iam às aulas com os rapazes mas que tinham a sua própria equipa de treino (tudo negro) que competia com outras de tão longe como Nova Jersey. Mostraram-me as medalhas e convidaram-me a ir à escola para ver os seus troféus. Também elas tinham 14 ou 15 anos. Pulavam como entusiastas adolescentes que eram enquanto falávamos. Uma afirmou: Antes nunca tive prémios.

A sua alegria surpreendeu-me. Quando tinha a sua idade, crescendo no Oriente Médio, levantava-me antes do amanhecer para ir a um campo de futebol e praticar manobras em formação cerrada às escuras antes de iniciar o dia escolar. Nada me teria afastado dessa «condição», desse «exercício», «dessa equipe» mas estava numa banda marcial e a arma que empunhava era um clarinete. O JROTC aproveita essa ansiedade juvenil de fazer parte de algo maior e mais importante, que o próprio ser lamentável, solitário, cheio de acne. O JROTC captura o idealismo e a ambição juvenil, retorce-a, arma-a e coloca-a no caminho da guerra.

Um pouco de história

O Corpo de Treinamento de Reserva de Oficiais Menores do Exército dos Estados Unidos foi concebido como parte da Lei de Defesa nacional de 1916 no meio da Primeira Guerra Mundial. Depois dessa guerra, no entanto, apenas seis institutos de ensino médio aceitaram a oferta dos militares de equipamento e instrutores. Uma versão mais adulta do Corpo de Treino para Oficiais da Reserva (ROTC), foi tornada obrigatória em muitos colégios e universidades estatais, apesar da questão controversa da época se o governo podia obrigar os estudantes a ter treino militar.

Em 1961, o ROTC tornara-se um programa optativo, popular nalgumas escolas, mal recebido noutras. Desapareceu imediatamente em muitos colégios de elite e universidades estatais progressistas, excluído por protestos contra a guerra do Vietname e descontinuado pelo Pentágono, que insistia em manter políticas de descriminação (especialmente a respeito da preferência sexual e género) ilegalizadas nos códigos de conduta das universidades. Quando renunciou a «Não perguntes, não o digas» em 2011 e ofereceu um menu de subvenções substanciais para instituições semelhantes, universidades de elite como Harvard e Yale voltaram a aceitar os militares com uma deferência indecorosa.

Durante o exílio do ROTC dessas instituições, este arraigou-se em campus universitários em Estados que não expressavam inconformidade com a discriminação, enquanto o Pentágono expandia o seu programa de recrutamento em escolas de ensino médio. Quase meio século depois do estabelecimento do JROTC do Exército, a Lei de Vitalização do Corpo de Treino de Oficiais de Reserva de 1964 abriu o mesmo treino para jovens a todos os ramos das Forças Armadas. Mais ainda, a quantidade de unidades do JROTC em todo o país, limitada anteriormente a 1.290, aumentou rapidamente até 2001, quando desapareceu a ideia de impor limites ao programa.

O motivo foi bastante evidente. Em 1973, o governo de Nixon descartou o serviço militar obrigatório a favor de um exército profissional permanente «apenas de voluntários». Mas onde estavam esses profissionais? E como iam ser «persuadidos» a tornarem-se voluntários? Desde a II Guerra Mundial, os programas do ROTC em instituições de ensino superior tinham administrado 60% dos oficiais comissionados. Mas o exército precisava de soldados de infantaria.

Oficialmente, o Pentágono afirma que o JROTC não é um programa de recrutamento. Em privado, nunca considerou que seja algo diferente. O JROTC descreve-se agora como «desenvolvido de alguma fonte de recrutas alistados e candidatos a oficiais a um programa de cidadania dedicado à elevação moral, física e educacional da juventude norte-americana. Mas, o ex Secretário de Defesa William Cohen, testemunhando perante o Comité de Serviços Armados da Câmara em 2000, qualificou o JROTC como «um dos melhores instrumentos de recrutamento que podemos ter».

Com essa missão não acreditada em mãos o Pentágono pressionou por um objectivo planeado primeiro em 1991 por Colin Powell, então chefe do Estado Maior Conjunto: o estabelecimento de 3.500 unidades do JROTC para «elevar» os estudantes nas escolas de ensino médio em todo o país. O plano era expandir para «áreas educacional e economicamente marginalizadas». As escolas de má qualidade dos centros urbanos, os cinturões industriais, o Sul profundo e o Texas tornaram-se ricos campos de caça. No início de 2013, só o Exército reciclava 4 mil oficias na reserva que dirigiram os seus programas em 1.731 escolas de ensino médio. No total, unidades do JROTC do Exército, a Força Aérea, a Armada e os Marines surgiram em 3.402 escolas em todo o país — 65% delas no Sul — com um total de 557.129 rapazes.

Com funciona o programa

O programa funciona assim: o Departamento de Defesa gasta várias centenas de milhões de dólares — 365 milhões em 2013 — para fornecer uniformes, textos aprovados pelo Pentágono e equipamento para o JROTC, assim como parte dos salários dos instrutores. Esses instrutores, designados pelos militares (não pelas escolas) são oficiais na reserva. Continuam a receber a pensão federal, apesar de se exigir que as escolas cubram os seus salários ao nível que receberiam no serviço activo. Os militares reembolsam à escola cerca da metade da considerável remuneração, mas apesar disso custam muito dinheiro à escola.

Há dez anos o Comité de Serviço de Amigos (CSA em espanhol e AFSC em inglês) estabeleceu que o verdadeiro custo dos programas do JROTC para os distritos escolares locais era «a miúdo muito mais elevado — em muitos casos mais do dobro — do custo mencionado pelo Departamento de Defesa». Em 2004, os distritos escolares locais estavam a gastar mais de 222 milhões de dólares só em custos de pessoal».

Vários directores escolares que me falaram do problema elogiaram o Pentágono por subvencionar o pressuposto da escola, mas evidentemente não compreendiam as finanças das próprias escolas. O facto de as escolas públicas que oferecem programas do JROTC subvencionarem actualmente a campanha de recrutamento do Pentágono. De facto, uma classe de JROTC custa às escolas (e aos contribuintes) significativamente mais do que custaria um curso regular de educação física ou de história dos Estados Unidos — embora seja frequentemente considerada um substituto adequado para ambos.

As escolas locais não têm qualquer controlo sobre os planos de estudo do JROTC prescritos pelo Pentágono, que são inerentemente orientados para o militarismo. Muitos sistemas escolares simplesmente adoptam programas do JROTC sem mesmo ver o que se ensina aos estudantes. O Comité de Serviços de Amigos dos Estados Unidos, Veteranos pela Paz, e outros grupos civis compilaram provas de que essas aulas não só são mais dispendiosas que as aulas regulares, mas também inferiores em qualidade.

Que outra coisa para além de qualidade inferior poderia esperar-se de livros de texto interessados escritos por ramos em competência das forças armadas e utilizados por militares na reserva, sem qualificações ou experiência pedagógica? Em primeiro lugar, nem os textos nem os instrutores ensinam o tipo de pensamento crítico central actualmente nos melhores planos de estudo escolares. Em seu lugar, inculcam obediência à autoridade, medo a inimigos, e postulam a primazia da força militar na política exterior norte-americana.

Grupos civis apresentaram uma série de outras objecções ao JROTC, que vão desde práticas discriminatórias — por exemplo, contra gays, imigrantes e muçulmanos — a outras perigosas, como levar armas às escolas (precisamente). Algumas unidades incluso estabeleceram polígonos de tiro onde se usam espingardas automáticas e munição de guerra. JROTC tem a mística perigosa de tais armas, transformando-as em objectos pelos quais se deve ansiar, aceitar, e apressar-se a encontrar a possibilidade de utilizá-las.

Em sua própria defesa o programa publicita uma vantagem principal amplamente aceite nos Estados Unidos que administra «condição», que evita que os rapazes abandonem a escola, e transforma meninos (e agora meninas) com antecedentes «problemáticos» em «homens» que, sem o JROTC para os salvar (e ao resto de nós contra eles), se tornariam drogados ou criminosos ou algo pior. Colin Powell, o primeiro graduado da ROTC que chegou ao posto máximo nas forças armadas, pregou precisamente essa linha nas suas memórias My American Journey. «Meninos dos centros urbanos pobres» escreveu, muitos de lares desfeitos, [encontram estabilidade e modelos a imitar no JROTC.

Não há provas para essas afirmações, no entanto, aparte testemunhos de estudantes como o que apresentou o de 14 anos que me disse ter participado em busca de «condição». Aquilo de que esses meninos (e os pais) se deixam convencer por esse argumento de vendas é uma medida das suas próprias condições limitadas. A grande maioria dos estudantes encontra melhor «condição», mais positiva para a vida, na própria escola através de cursos académicos, desportos, coros, bandas, clubes de ciência ou língua, períodos de capacitação — em escolas onde existam essas oportunidades. É precisamente em escolas com programas semelhantes, onde administradores, mestres, pais e filhos, trabalhando em conjunto, teriam mais êxito em manter fora o JROTC. Aos sistemas escolares «económica e socialmente deficitários» que são o objectivo do Pentágono fica-lhes a possibilidade de eliminar «detalhes» semelhantes e gastar o seu dinheiro num coronel ou dois que podem oferecer aos estudantes necessitados de «estabilidade e modelos» um futuro promissor, embora talvez muito curto, como soldados.

Dias na escola

Numa dessas escolas do bairro marginal do centro de Bóston predominantemente negra, estive em classes do JROTC onde rapazes viam filmes intermináveis de soldados a desfilar, e depois tiveram de fazê-lo também no ginásio da escola, de espingarda na mão. (Tenho que admitir que podiam marchar muito melhor do que esquadrões do Exército Nacional Afegão, que também observei, mas é isso motivo de orgulho? Já que essas classes pareciam consistir frequentemente em passar um bocado, os estudantes tinham muito tempo para conversar como o recrutador do Exército cujo escritório estava convenientemente instalado na sala de aulas do JROTC.

Também conversaram comigo. Uma menina afro-americana de 16 anos, que era a primeira da sua aula e se tinha alistado no Exército, disse-me que passaria para as Forças Armadas. O seu instrutor — um coronel branco que considerava como o pai que nunca tivera — tinha levado a classe a crer que a «nossa guerra» continuaria durante muito tempo, como declarou, «até termos matado o último muçulmano na Terra». Ela queria ajudar a salvar os Estados Unidos, dedicando a sua vida a essa «grande tarefa que nos aguarda».

"Oh, não senhora, afirmei, "'Malcolm X era norte americano'".

Um rapaz mais velho, que também se havia alistado com o recrutador, queria escapar à violência das ruas da cidade. Alistou-se pouco depois de um dos seus melhores amigos, apanhado no fogo cruzado de outros, ser morto num minimercado muito perto da escola. Afirmou-me: Aqui não tenho qualquer futuro. Era o mesmo que estar no Afeganistão. Pensava que as suas probabilidades de sobrevivência seriam ali melhores, mas estava preocupado pelo facto de ter de acabar a escola secundária antes da incorporação para cumprir o seu «dever». Afirmou: «Só espero poder chegar à guerra”.

Que espécie de sistema escolar oferece aos alunos e alunas tais «alternativas»? Que espécie de país?

Que se passa nas escolas da tua cidade? Não é hora de o descobrir?

[*] Ann Jones, colaboradora regular de Tom Dispatch, é autora do livro: Eles eram soldados: Como voltam os feridos das guerras da América — A história não contada. Um projeto de Dispatch Books em cooperação com Haymarket Books. (Jeremy Scahill acaba de o escolher como favorito de 2013. Jones, que informou do Afeganistão desde 2002, é também autora dos livros sobre o impacto da guerra em civis: Kabul no Inverno e A Guerra não acaba quando acabar.

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