24 de janeiro de 2014

Clichês ou verdades sobre a I Guerra Mundial? Resposta a Nicolas Offenstadt

Por Annie Lacroix-Riz [*]

Crédito: Autor desconhecido.

O Le Monde tem por hábito enunciar a “doxa” histórica (sobre a URSS e o seu “tirano vermelho”, sobre o patronato não “colaborador”, com Louis Renault à cabeça, sobre o democrático coronel de La Rocque, etc.). Anunciando, em 4 de novembro de 2013, o matraquear ideológico de um ano (no mínimo) que nos espera, o “jornal de referência” encarregou, pois, o medievalista Nicolas Offenstadt, de resto especialista em “memórias” da Grande Guerra, de “terminar com dez ideias recebidas sobre” ela. Porque, explica-nos este último, “o seu forte impacto sobre a sociedade francesa alimenta a circulação de imagens e clichês que não correspondem ao estado dos conhecimentos dos historiadores”. Na conferência do panteão mitológico figuraria a ideia de que “a guerra era desejada pelos industriais e financeiros”. Citemos: 

As interpretações marxistas das origens da guerra, assentes nas reflexões de Lenin sobre o imperialismo como estágio supremo do capitalismo, atribuem um papel central às rivalidades econômicas acentuadas pela baixa tendencial da taxa de lucro e ao caráter predatório dos meios industriais. Há algumas relações de forças comerciais entre os blocos na China ou no Império otomano, entre britânicos – inquietos com o “made in Germany” – e alemães. A corrida aos armamentos no período imediatamente anterior à guerra, em todos os países, reforça esta interpretação. Mas a historiografia mostrou que as interdependências eram de fato muito fortes entre as economias e que, para alguns setores (seguros, sociedades mineiras...), a paz era preferível à guerra. A City era pois empurrada para defender a paz. Além disso, em matéria de política externa, os meios industriais e financeiros não estavam unidos. [1] 

O “clichê” presumido não levanta qualquer espécie de objeção. Os marxistas contentam-se em analisar a economia capitalista antes de 1914 sem referência ao eventual “desejo” dos banqueiros e dos industriais: Lenin, tão hegeliano como Marx, observa as práticas dos “capitalistas fora da sua vontade e da sua consciência”. 

Respiga, no Imperialismo, fase suprema do capitalismo, na véspera da guerra, as práticas do “capital financeiro [,] resultado da fusão do capital de alguns grandes bancos monopolistas com o capital de grupos industriais monopolistas” na fase imperialista nascida da primeira crise sistêmica do capital (1873): fala, não dos banqueiros e industriais, mas de um “punhado de monopolistas”, “cartéis e trusts” que levaram então a cabo a “partilha do mundo”.

A “oligarquia financeira” – atualmente mais do que centenária – resistiu à baixa dos preços e da taxa de lucro cartelizando, baixando os salários e os lucros não monopolistas, em resumo, lançando o peso da crise “sobre o resto da população”. Mas não conseguiu abolir a sobreprodução, isto é, a insuficiência da taxa de lucro esperado em relação ao capital investido ou a investir, nem superar as rivalidades e contradições que a dilaceram. Criou ou reforçou cartéis e trustes (efetivamente ”interdependentes”, para citar Nicolas Offenstadt), mas estes frutos e aceleradores do desenvolvimento desigual do capital não “suprimem as crises”. Agravando a concorrência dos setores cartelizados, a crise obriga os monopólios a destruir maciçamente o capital e a repartilhar o globo: a sua “caça às colônias” ou zonas equiparadas (impérios otomano e russo) reforça-se “depois de 1880”; no início do século XX, desenvolvem-se “guerras periféricas” até ao coração do continente europeu e os planos visando “anexar, não apenas as regiões agrícolas, mas também as regiões industriais (a Bélgica é cobiçada pela Alemanha, a Lorena pela França.)”

É então que Kautsky, o mais prestigiado marxista vivo depois da morte de Engels, alia o reformismo, ideologia na altura triunfante dos “agentes da burguesia dentro do movimento operário”: forja a “teoria do ultra-imperialismo” [ou super-imperialismo] pacífico, segundo o qual os capitais concentrados-cartelizados “preferem” o compromisso ao conflito. Este sonho desmobilizador valeu-lhe os ataques de Lenin, antes da guerra generalizada eclodir. “Os cartéis internacionais, nos quais Kautsky vê o embrião do ultra-imperialismo (do mesmo modo que a fabricação de comprimidos de laboratório “pode” ser proclamado embrião da ultra-agricultura) não nos dão o exemplo de uma partilha e repartilha do mundo, da transição da partilha pacífica para a partilha não pacífica e inversamente? […] O capitalismo transformou-se num sistema de opressão colonial e de estrangulamento financeiro da imensa maioria da população do globo por um punhado de países “avançados”. E a partilha deste saque tem lugar entre duas ou três aves de rapina universalmente poderosas, armadas da cabeça aos pés (América, Inglaterra, Japão) [sem esquecer a Alemanha e a França], que arrastam toda a terra para a partilha do seu saque.”

Em cada país, uma historiografia documentada, nem sempre marxista, corroborou, tanto para 1914 como para 1939, “as interpretações marxistas das origens da guerra”. A tese do conservador Fritz Fischer, Dozent (assistente universitário) no tempo de Hitler, Os Objetivos da Guerra da Alemanha Imperial 1914-1918, demonstra a unanimidade a favor da guerra de saque do “punhado” de decisores alemães, apoiados pela quase totalidade das forças políticas (SPD “maioritário” inclusive). Essa obra com mais de 50 anos (1961, traduzida em 1970) não tem uma única ruga. Por certo, a historiografia dominante exclui-o das bibliografias oficiais dos concursos de admissão em história desde os anos 2000: essa não menciona senão Georges-Henri Soutou, O Ouro e o Sangue, Os Objetivos Econômicos de Guerra da I Guerra Mundial (1989), que contesta o consenso dos decisores alemães na matéria e refuta Fischer em tudo ou quase tudo. Que importância tem o fato de as fontes originais confirmarem o consenso sobre a guerra e sobre os seus objetivos econômicos (após hesitações sobre os compromissos possíveis) do bloco Banco da França, Comitê siderúrgico e hulheiro, mentor do Estado francês. “A City […] está mais virada para defender a paz”? Não, antes de 1914 procurou estabelecer um compromisso colonial com o Reich em detrimento dos seus rivais comuns, franceses, portugueses, belgas e recomeçou antes de 1939. Em 1937, o embaixador da França em Londres, Charles Corbin, demonstrou, através dos arquivos, que o objetivo do Pacto de não agressão do tandem Chamberlain-Halifax (então centrado na expansão para a Áustria e a Checoslováquia) tinha traços do de 1912 aplicado ao terreno colonial: Londres tinha então entregado de bandeja a Berlim a possibilidade de suplantar todos os impérios coloniais europeus salvo o britânico [2]. Estas duas tentativas tão duradouras e acrisoladas, falharam finalmente porque a crise sistêmica do capitalismo condenava momentaneamente o compromisso. O que é válido para a Inglaterra também o é para as relações dos Estados Unidos com o Reich e com o Japão.

Nicolas Offenstadt não se refere à “historiografia”, mas apenas “à historiografia dominante” antimarxista, ministrada hoje em dia pela Universidade aos futuros professores e exclui toda a outra: a dos Sonâmbulos de Christopher Clark que, em qualquer coisa como 670 páginas, pretende demonstrar, suscitando a admiração geral, que os dirigentes de todos os países “caminharam para a guerra” manipulados por este ou aquele (ah, o tema de Helena e a Guerra de Tróia proclamado “novo”!), vítimas de maldições (mas Clark não se esquece de desculpar a Alemanha arrastada pela Áustria pela eclosão do conflito para oprimir os sérvios, os russos, etc.). Este ruído alimenta a propaganda sobre “a União Europeia” como penhor da paz eterna – como os cartéis dos séculos XVIII e XIX? – enterra os arquivos diplomáticos, econômicos e militares que anunciaram sem descanso a guerra geral no decurso das crises que precederam 1914 e 1939 [3].

A historiografia americana, tão rica a respeito da “partilha do mundo”, demonstra desde os trabalhos de William Applemen Williams (A Tragédia da Diplomacia Americana, 1ª edição, 1959) a pertinência do juízo de Lenin sobre as relações germano-americanas de 1916: “O capital financeiro da América e dos outros países, que partilham pacificamente o mundo com a participação da Alemanha, por exemplo no sindicato internacional das ferrovias e o truste internacional da marinha mercante, não estão a proceder a uma repartilha na base de novas relações de forças que mudam de uma maneira absolutamente não pacífica?”

O Pacto de não agressão, antes de 1914 (como antes de 1939), visava impedir a guerra? Não, apenas negociar as condições do ocorrido e depois as consequências nas melhores condições para os rivais-aliados. Existem boas amizades entre banqueiros “inimigos”, não se “faz votos” de se extirparem, ainda se visitam mutuamente em tempos de guerra. Mas, porque é necessário, mesmo pelas armas – objeto de super lucros gigantescos – desembaraçarem-se do capital “excedentário”, incluindo forças produtivas humanas, e abrir os mercados aferrolhados, manda-se para o inferno os povos que não souberam dizer não (outro objeto de “cliché” que mereceria ser posto no seu lugar). Recusar examinar, pela teoria e pelas fontes históricas, a natureza bélica do capital leva a dar crédito à mitologia “psicológica” do desencadeamento fatal mas evitável (!) dos acontecimentos. É mais sedutor, certamente, do que a lembrança de Lenine acerca das “dezenas de milhões de cadáveres e de mutilados deixados pela guerra feita para determinar qual dos dois grupos de salteadores financeiros – inglês ou alemão [americano, etc.] deve receber a maior parte do saque.”.

Na conjuntura atual, triunfam de novo confrontos inter-imperialistas sobre a ”repartilha” dos recursos mundiais tão impiedosos como os que desembocaram nas duas guerras mundiais, sobre um fundo de “união sagrada” europeia e nacional, “apequena história sentimental de Kautsky sobre o “ultra-imperialismo “pacífico”“. O que é atribuído “à historiografia” é da responsabilidade da cortina de chumbo antimarxista que cai sobre a sociedade e a Universidade. A Primeira Guerra mundial foi mesmo, tal como a segunda, uma guerra de rapina e de “repartilha do mundo” entre gigantes imperialistas. Sobre a natureza do capital, as suas crises e as suas guerras, não se cinjam ao Le Monde nem à “historiografia” antimarxista. Vão a correr ler Marx e Lenine (O imperialismo, fase suprema do capitalismo esclarece as coisas sobre o “capitalismo financeiro” pretensamente recente e permite, mais geralmente, não morrer idiota), e informem-se acerca da “historiografia” crítica.

Notas:

Entre as “dez ideias recebidas” que Nicolas Offenstadt combate aparece, em nº. 3, uma grande mentira pregada aos estudantes da França há cerca de cem anos, que “os táxis desempenharam um papel decisivo na batalha do Marne”. Mas porque é que o historiador, que argumenta normalmente contra os alegados “clichês”, renuncia aqui a estabelecer a verdade? Será porque seria necessário lembrar que, segundo a fórmula de março de 1939 do Subsecretário de Estado permanente do Foreign Office, Robert Vansittart, “a França não teria tido a mínima hipótese de sobreviver em 1914, se não tivesse havido a frente oriental? [4]

[1] Itálico da minha autoria. As citações seguintes, extraídas de O Imperialismo fase suprema do capitalismo, em itálico no texto.

[2] Despachos 918 e 924, Londres, 15 e 16 de novembro de 1937 (em duas colunas escolher comparativo de textos intitulado “as viagens a Berlim de Lord Haldane e de Lord Halifax, 1912-1937”), Grã-Bretanha 19181940, 287-287 bis, MAE, Comparação, Annie Lacroix-Riz, Le Choix de la défaite: les élites françaises dans les années 1930 [A escolha da derrota: as elites francesas nos anos 30 (NT)], Paris, Armand Colin, p. 418-419.

[3] Ver designadamente a riquíssima Nouvelle, série 1897-1918, arquivos do ministério dos Negócios estrangeiros (La Courneuve). Questões da formação de professores, Lacroix-Riz, L'histoire contemporaine toujours sous influence, Paris, Le temp des cerises, 2012, cap 1 e passim.

[4] Michael Carley, 1939, The alliance that never was and the coming of World War II, Ivan R. Dee, 1999, p.4, sublinhado no texto (tradução francesa, PU de Montreal, 2001).

[*] Professora emérita de História contemporânea, Universidade de Paris VII.

Annie Lacroix-Riz, "Clichés ou vérités sur la première guerre mondiale? Résponse à Nicalas Offenstadt", Initiative Communiste, n°. 140, janeiro, 2014, p. 14-15.

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