3 de janeiro de 2014

Deslegitimação de Israel

Por Andrew Levine [*]

[CounterPunch] Agora, que o agitar de sabres de americanos e europeus amainou, a bomba atômica (aspiracional) iraniana já não parece ser a mesma “ameaça existencial” de antes. E muito temos a agradecer, por isso, à diplomacia russa e iraniana.

Claro que o agitar de sabres israelense continua a todo vapor. Ameaças existenciais mantêm os cidadãos judeus de Israel mais ou menos unidos, e mantêm sob ordem-unida os apoiadores internacionais. A bomba iraniana é especialmente útil, porque, sendo fantasia de bomba, é tão segura quanto efetiva.

Ameaças existenciais contra Israel operam verdadeira mágica na opinião pública, por todo o ocidente global. Facilitam, para governos ocidentais, especialmente para o governo dos EUA, garantir apoio diplomático, militar e econômico a Israel. EUA e muitos países ocidentais inclinam-se, é claro, a fazer isso, por razões políticas domésticas e geoestratégicas. Mas a ajuda é indispensável, e os israelenses não se arriscam.

Ameaças existenciais também mantêm constante o fluxo de doações "caritativas" enviadas a Israel por judeus e cristãos evangélicos privados.

De fato, o grande medo nas hostes sionistas é que, sem o espectro da bomba iraniana ou sem a bomba-bomba, judeus da “diáspora” ponham-se a pensar sem bússola, e protestantes gastadores mostrem-se menos dispostos que hoje, a gastar tempo e dinheiro para aceleram o Juízo Final – quando judeus que não aceitarem Cristo no coração serão lançados ao inferno por toda a eternidade.

A diminuição da ameaça iraniana não é o único tema a preocupar os atuais líderes israelenses. Há também o fato, cada dia mais difícil de negar, de que o Movimento Boicote, Desinvestimento, Sanções (BDS) está ganhando força nos EUA. Por mais que ainda falte andar, já andou o suficiente para causar preocupação.

Mas nem tudo está perdido. O Congresso ainda está no bolso de Israel, e o presidente continua sem espinha dorsal. O rabo continua a sacudir o cachorro.

Além do mais, o programa nuclear iraniano foi suspenso, não destruído. Sempre poderá voltar à vida e à utilidade de antes. Muitos dos capachos mais servis sobre os quais Netanyahu limpa os pés no Congresso dos EUA agitam-se diligentemente para obter que isso aconteça.

Mas a possibilidade é fraca, e Telavive não dá sinais de disposição para sentar e esperar. Sem desistir completamente do Irã, Telavive deslanchou um Plano B. Fácil de prever, já foi abraçado com paixão por todos que obedecem ao comando de Israel.

O Plano B é uma estratégia híbrida; soma duas coisas: inventar ameaça existencial e, golpe mais sujo e mais familiar, demonizar os que criticam Israel.

Chamar de antissemita quem visivelmente não é antissemita sempre funcionou no passado, e ainda funciona. Mas o truque já dá sinais de desgaste por excesso de uso.

No ginásio de ricos na Filadélfia onde estudou, Benyamin Netanyahu deve ter ouvido de seu professor de História que o maior presidente dos EUA sabia que você pode, sim, enganar alguns, por algum tempo. Mas o Abe “Honesto” Lincoln esqueceu de ensinar que, se você continua a fazer a mesma coisa uma e outra vez, o estoque de crédulos começa a declinar.

Netanyahu e seus pensadores aliados estão aprendendo agora, e às próprias custas.

O mesmo acontece com a conversa sobre “judeus auto-odiadores”. O que seria mais gasto, mais desgastado, que isso, ou, em quase todos os casos, o que poderia ser mais obviamente falso?

Hoje, ainda mais que antes, com o movimento BDS ganhando ímpeto nos EUA e em todo o mundo, judeus-amorosos-de-judeus, judeus-respeitadores-de-judeus estão em marcha, abrindo caminho.

E assim Israel descobriu que só demonizar, não basta. É preciso também converter os críticos de Israel em ameaças existenciais – equivalentes bombásticos da imaginária bomba iraniana.

Para que dê certo, é importante dizer com eficácia – em outras palavras, encontrar a linguagem certa.

Por isso a frase a ser repetida diz que alguns dos que criticam Israel, o pessoal do Movimento BDS, por exemplo, trabalham para “deslegitimar” Israel.

Alguns deles talvez até se vejam como amigos de Israel – mas “objetivamente”, como diziam os stalinistas, são inimigos mortais do estado judeu.

Não que a ideia seja impossível de vender – por mais que a ideia seja conceitualmente confusa e altamente distorcida. É. E foi concebida para ser exatamente assim.

*

Os sionistas têm razão para temer uma bomba iraniana, mas não é a razão que eles alegam. Se a bomba existisse, o que estaria por terra não seria a sobrevivência de Israel, mas a capacidade do estado israelense para continuar a oprimir e abusar e violentar como bem entenda.

As razões pelas quais Israel teme o BDS e outros movimentos de solidariedade são mais complexas.

Antes do acordo provisório firmado no dia 24 de novembro de 2013, que pôs o programa nuclear iraniano em modo – talvez permanente – de espera, o Irã poderia desenvolver um programa para armas nucleares num prazo de alguns vários anos. Depois, se o governo iraniano decidisse, o Irã teria afinal condições para construir uma bomba atômica.

A proliferação nuclear é sempre desenvolvimento preocupante, mas esse caso é menos preocupante que muitos – exceto para os sionistas linha-duríssima. Para o resto da humanidade, uma bomba atômica iraniana talvez não fosse o pior dos males.

Se não servisse para mais nada, impediria que Israel continuasse a fazer o que bem entendesse contra os vizinhos e contra os palestinos. Funcionaria mais ou menos como o poder nuclear dos soviéticos, que ajudou a impedir que os EUA continuassem a insistir no esforço de ocupar toda a Europa Oriental.

Dado que guerra nuclear entre Israel e Irã resultaria na aniquilação de ambos, a bomba iraniana jamais teria qualquer outra serventia mais preocupante ou mais nefanda.

Com certeza não ameaçaria a existência física de pessoas que vivem hoje em Israel. O Irã pode ser governado por teocratas, mas eles não são suicidas, nem são o povo iraniano.

Nesse quesito, muito mais motivos há para que o mundo se preocupe com Israel e sua “opção Sansão” – fazer chover morte e destruição sobre os dois lados, sobre a própria cabeça e sobre a cabeça dos inimigos, como narrado na Bíblia, sem deixar alternativa além da rendição.

O BDS, por outro lado, realmente pode levar a mudanças que ameaçam o estado israelense – não porque o deslegitime, mas porque pode forçar mudanças profundas na própria natureza do estado sionista.

Seja como for, seria prematuro dizer que no momento atual esse seria objetivo claro, seja de quem for. Os militantes do Movimento BDS, como em geral outros grupos que criticam Israel, são grupos misturados. Os seus objetivos estão longe de ser claros.

Alguns querem o fim das décadas de ocupação israelense, apenas na pequena área da Palestina do Mandato, que ainda é terra oficialmente palestina. Outros querem que Israel seja estado do povo israelense, não estado religioso ou étnico. Outros apoiam uma solução de dois estados; outros, um estado unitário binacional ou multinacional.

O denominador comum é moral: todos os envolvidos são motivados pela consciência de que os palestinos são vítimas de grave injustiça. O Movimento BDS é movimento de solidariedade, aliado da causa palestina.

Isso “deslegitimaria” Israel? De fato, poderia isso implicar qualquer tipo de “deslegitimação” de Israel? A resposta é fácil: NÃO. Movimentos de solidariedade jamais visam a deslegitimar coisa alguma.

O que fazem os movimentos de solidariedade é operar para manter alta a moral das vítimas e para influenciar a opinião pública mundial. Qualquer outro objetivo extrapola o núcleo significante de qualquer movimento de solidariedade. Passa-se o mesmo com o movimento BDS.

Movimentos de solidariedade, neles próprios, não visam a meter medo, nem são ameaçadores. Ainda quando seus objetivos sejam claros e a extensão do movimento supere tudo que o mundo conheça, a eficácia dos movimentos de solidariedade é limitada.

Por isso, se se chegar a algum novo acordo na Palestina, será por efeito dos esforços dos próprios palestinos. Aconteceu assim também com os negros e mulatos na África do Sul; e é sempre assim. Movimentos de solidariedade podem ajudar; de fato, só fazem oferecer apoio moral.

Mas o papel dos EUA para assegurar e preservar a dominação israelense e, portanto, a subordinação dos palestinos, é evento sem precedentes na história. Portanto, conseguir que a opinião pública norte-americana tenha oportunidade de ver as coisas de um ângulo menos obcecado, menos manipulado-dirigido, pode ser, sim, mais útil do que usualmente se poderia esperar de movimentos de solidariedade.

Ainda assim, o fato básico permanece: o Movimento BDS e outros assemelhados podem fazer pouco. Só os palestinos podem criar condições reais para uma vida mais justa.

Se forem bem-sucedidos, os seus esforços podem, sim, levar à mudança de regime em Israel. Mas nada do que façam ou possam fazer conseguiria “deslegitimar”, ou poderia “deslegitimar” o estado israelense.

Pode parecer distinção, sem diferença importante. Mas não é.

Neoconservadores e intervencionistas liberais fizeram da expressão “mudança de regime” um eufemismo para seu manobrismo imperialista. Eles, e os líderes políticos que os seguem, macularam, deslustraram, sujaram o conceito.

Mas quando, para que se faça justiça, é indispensável substituir arranjos institucionais, “mudança de regime” é a expressão perfeita e aplica-se corretamente ao que tem de ser feito. É mais que hora de os defensores da democracia resgatarmos para nós mesmos, de volta, a “mudança de regime”.

É preciso que haja mudança de regime, para que se faça justiça em toda a ex Palestina do Mandato? Ainda não há consenso sobre isso – sequer dentro de movimentos de solidariedade como o Movimento BDS.

Mas não se deve excluir a possibilidade – o status quo é terrível demais, para que se descartem soluções radicais.

E aí está um dos xis da questão: encobrir, esconder, fazer-não-ver essa ideia, ou, melhor, detoná-la no berço, é, precisamente, o objetivo de tanta conversa sobre “deslegitimação” (de Israel, ou qualquer outra).

A evidência de que a noção de “mudança de regime” não se aplica estrita e completamente sempre, não muda nada. O serviço de encobrir, esconder, fazer-não-ver pode ser sempre muito efetivo, seja para truncar um debate, seja para supressão completa e total de qualquer coisa.

Nesse caso, a sensibilidade, à flor da pele, das premissas, torna especialmente difícil discutir com honestidade e franqueza as questões morais e políticas envolvidas. E pouco importa que aquelas sensibilidades sejam as vezes extremamente ou excessivamente ou artificialmente excitadas ou agitadas. Na verdade, nesse tipo de circunstâncias, o encobrimento, o desencaminhamento, a distorção podem ser ainda mais incapacitantes.

Agora, quando movimentos de solidariedade à causa dos palestinos, como o Movimento Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS), tomam forma nos EUA e em outros países ocidentais, é, portanto, muito mais importante tratar de dissipar todos os encobrimentos, desencaminhamentos e distorções.

*

A legitimidade política tem sido tema exclusivo da filosofia. Ainda é problema filosófico básico. A maioria dos outros problemas filosóficos têm sido discutidos, desde tempos imemoriais – porque são inerentemente intrigantes e porque, pela discussão, evitam-se soluções simples, fáceis e erradas, que qualquer um pode aceitar. Esses problemas, assim, parecem ter um aspecto atemporal. O livre arbítrio é outro exemplo, ou a natureza de Deus, ou a natureza do bem.

Relações de autoridade também existem nas sociedades humanas desde tempos pré-históricos. Mas as formas e limites dessas relações variaram significativamente e mudaram radicalmente ao longo do tempo.

Quando as relações de autoridade estão em transição ou quando estão em algum outro tipo de fluxo, passa a interessar muito encontrar argumentos para justificar que algumas pessoas podem, de pleno direito, comandar outras. Em tempos menos turbulentos, de modo geral, esse interesse sai do centro das atenções.

Contudo, formas institucionais fundamentais raramente mudam radicalmente, mesmo por longos períodos de tempo. E as perplexidades hoje provocadas pelas relações de autoridade são as mesmas às quais os filósofos se dedicavam nos primeiros tempos da era moderna.

Emergiram como consequência de duas transformações históricas de época pelas quais passava a Europa Ocidental naquele momento: a dissolução das sociedades feudais baseadas nas relações de vassalagem e solidariedade social, e o nascimento da forma estatal de organização política.

Graças à primeira delas, os indivíduos e seus interesses, não Deus e os interesses Dele, tornaram-se pontos de partida para pensar sobre como justificar os arranjos institucionais básicos. Graças à segunda, as difusas relações de autoridade características das sociedades tradicionais deram lugar a formas políticas que concentram a autoridade num único nexo institucional: o Estado.

Há cerca de um século, Max Weber definiu o Estado como forma institucional que detém e exerce um monopólio mediante violência “legítima”. Como podem os Estados, assim definidos, se justificar? Disso precisamente se trata, quando se fala do problema filosófico da legitimidade política.

O modo usual de enfrentar esse problema tem sido argumentar a favor, ou pressupor, algum padrão que, se satisfeito, justifica o exercício legal da força coerciva, por agentes do Estado, e por nenhum outro agente.

Esse padrão pode ser difícil de satisfazer. Por exemplo, a ideia de legitimidade política de Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) afirma que o Estado só obriga a obedecer se, e somente se, os indivíduos, ao serem comandados, de algum modo continuam a obedecer exclusivamente a eles mesmos.

Ou pode ser facilmente satisfeito. Thomas Hobbes (1588-1679) entendia que, para ser poder legítimo bastava o Estado ser capaz de garantir a ordem civil.

Pelo primeiro padrão, nenhum estado existente satisfaz o ideal; pelo segundo, todos os estados o satisfazem.

Filósofos políticos liberais, de John Locke (1632-1704) a John Rawls (1921-2002), defenderam posições menos extremas. No conjunto, porém, tenderam a concordar mais com Hobbes que com Rousseau. Segundo suas luzes, os estados existentes deixam a desejar em muitos aspectos, mas sua legitimidade fundamental jamais é seriamente contestada.

Os argumentos desses e de outros filósofos, sobre a legitimidade política, são complexos, sutis e, em muitas dimensões incompatíveis entre eles. Mas, pelas avaliações de todos eles, é evidente que a ideia de que os críticos de Israel estariam procurando “deslegitimar” Israel não se sustenta – não, pelo menos, se a legitimidade política é entendida como tem sido entendida tradicionalmente.

Mas já vai longe o tempo em que os filósofos monopolizavam as discussões sobre legitimidade política. No século passado, um pouco mais, um pouco menos, as abordagens filosóficas coexistiram com ideias que focam causas, não razões; e que se baseiam mais na ciência e na psicologia sociais, não na filosofia moral.

A existência de Deus é outro venerando problema filosófico que também pode ser abordado pela ‘via’ nova: pode-se perguntar se há razões racionalmente necessárias e suficientes para crer em Deus; ou se pode investigar por que (algumas) pessoas realmente creem (ou não creem).

É claro que razões podem ser também causas; alguém que pense que há razões para crer em Deus pode crer por causa daquelas razões. Mas é caso raro, talvez nem haja tal caso, e não só porque razões racionalmente convincentes para crer em Deus não são, para dizer com gentileza, abundantes.

Causas não racionais ou extra-racionais para crer na legitimidade das relações de autoridade são evidentemente mais difíceis de superar que causas com as quais as pessoas contem para crer em Deus.

Independente do que as pessoas pensem das reflexões filosóficas sobre legitimidade política, algumas pessoas todo o tempo, e provavelmente todas as pessoas uma ou outra vez, creem – ou agem como se cressem – que as relações existentes de autoridade são justificadas.

À parte os verdadeiros anarquistas (se existirem), todos nós tendemos mais a obedecer ordens dadas pela polícia, que por civis; e não só porque tememos o poder repressivo do Estado. Mas esse é problema – como, em geral, todo o comportamento político no mundo real – para cientistas sociais, não para filósofos.

Os que falam hoje da legitimidade das nações, de modos que se aproximam da política internacional ou mundial, como que ultrapassam essa barreira. Mas a abordagem deles anda mais de acordo com o espírito da ciência social, que da filosofia.

Poderia ser diferente. Quando pela primeira vez surgiram instituições do estado, a política tratava, mais, de coordenar comportamentos individuais dentro de territórios geograficamente definidos. Daí se geraram as perplexidades às quais as teorias da legitimidade política responderam.

Mesmo que essas perplexidades permanecessem ainda sem resolver, a forma estatal de organização política foi efetivamente assumida, quando começaram a formar-se estados nas regiões mais desenvolvidas da Europa, das Américas, Austrália e Nova Zelândia.

E a coisa foi ainda mais fortemente dada por resolvida e certa, no século 20: com novos estados nascendo dos velhos impérios baseados na terra da Eurásia, depois da 1ª Guerra Mundial; e nos que foram depois esculpidos nos impérios coloniais de além-mar da Europa Colonial, depois da 2ª Guerra Mundial.

As velhas questões continuam a ser filosoficamente frutíferas, mas a influência delas na política do mundo real é hoje, no melhor dos casos, mínima.

Entrementes, novas rodadas de formação de estados levantaram novos problemas e novas perplexidades que tocam mais diretamente em temas de interesse político atual.

Essas perplexidades parecem suficientemente incomodativas para motivar reflexões filosóficas tão originais e de tão longo alcance quanto as que acompanharam o surgimento do estado-nação, há séculos. Mas, ou não são perplexidades suscetíveis de tratamento filosófico, ou, então, nunca se materializaram pensadores à altura da tarefa.

Por seja qual for a razão, fato é que as investigações filosóficas sobre a legitimidade política permanecem focadas nos mesmos problemas que preocupavam os filósofos dos séculos 17 e 18; e os problemas dos novos estados e as questões inter-estados que brotam dos novos problemas foram entregues a cientistas políticos e a advogados especialistas em Direito Internacional.

A visão consensual, portanto, é que os estados são legítimos quando a comunidade internacional, ou parte significativa dela, declare que são.

É como dizer que Deus existe quando (enquanto?!) há gente que crê em Deus. Não é resposta satisfatória, de modo algum, de um ponto de vista filosófico. Mas as coisas, hoje, estão nesse pé.

Assim aconteceu que Israel tornou-se estado tão legítimo como qualquer outro, no instante em que os EUA e a União Soviética (foram os primeiros), reconheceram Israel como estado. Na sequência, outros estados também deram ao estado de Israel o reconhecimento diplomático, e Israel foi recebida como estado da Organização das Nações Unidas, ONU.

Ainda há estados, sobretudo no mundo muçulmano, que não reconhecem, até hoje, o estado de Israel. Diplomaticamente, embora só por essa via, estão em estado de negação, como os EUA estiveram, quando se recusavam a reconhecer a República Popular Democrática da China, quase 30 anos depois da Revolução Chinesa.

Porque a Grã-Bretanha governava a Palestina por um Mandato herdado da Liga das Nações, a Assembleia Geral da ONU teve de aceitar a divisão do país. O acordo real foi logo atropelado pelos fatos, quanto Israel entrou em guerra contra estados árabes vizinhos, mas a aprovação pela ONU e a subsequente aceitação, pela ONU, de novas ‘fronteiras’, quando cessaram as hostilidades, garantiram a Israel tanta legitimidade internacional quanto a de qualquer outro estado no mundo.

Na verdade os mais de 45 anos de ocupação, por Israel, da porção da Palestina do Mandato que Israel não controla depois de 1948 levantam os mais graves problemas legais e políticos. As colônias em terras palestinas e as anexações de terra palestina são itens especialmente problemáticos.

Mas, por mais que haja oposição mundial contra essa ocupação continuada, ninguém até agora propôs que se revogue, por causa disso, a legitimidade de Israel. Não se sabe ainda com clareza, sequer, se em termos legais ou praticamente, em termos políticos, seria possível revogar a legitimidade de um estado, ou como seria feita essa revogação, se possível.

É claro que se Israel for literalmente “varrida do mapa” – por arma nuclear ou por guerra convencional – o estado deixará de existir. Nesse caso, a legitimidade deixará de existir. Mas nem assim seria possível dizer que Israel teria sido “deslegitimada” – senão indiretamente, ou só como força de expressão.

Mas nada disso acontece no mundo real, e é inconcebível que Israel, estado nuclear armado até os dentes, venha a ser o primeiro caso de “deslegitimação de Estado”, em todo o mundo, em todos os tempos.

A legitimação, sim, acontece; a deslegitimação, não, não existe.

Novos estados surgem, tipicamente, por secessão de estados anteriores. O Sudão do Sul é exemplo recente: antes, era parte do Sudão. Quando o Sudão foi dividido, o estado sudanês não foi “deslegitimado”, por mais que se force o significado da palavra. Foi reduzido, porque parte de seu território deixou de pertencer-lhe, e essa parte foi reconhecida internacionalmente como novo estado.

Coisa semelhante aconteceu com os estados que foram repúblicas soviéticas, antes de a União Soviética deixar de existir. As partes que a compunham passaram a ser independentes e ‘o todo’ deixou de existir. Mas a União Soviética absolutamente não foi “deslegitimada”. Foi dissolvida, autodissolvida.

Há modos muito piores de um estado morrer. Na teoria, pelo menos, os estados podem degenerar internamente, de tal modo que já não sejam capazes de manter a ordem em territórios que nominalmente estão sob seu poder. Esses, viram “estados fracassados” [orig. failed states].

Estados genuinamente fracassados não satisfazem o critério de Hobbes, da legitimidade política. São estados que, se poderia dizer, se autodeslegitimaram.

Mas jamais aconteceu, no mundo real, completamente ou irremediavelmente – nem na Somália, nem nas chamadas áreas tribais do Afeganistão, nem em lugar algum. É zero a chance de Israel – uma super funcional democracia “Herrenvolk” – vir a ser o primeiro caso de estado deslegitimado da história do mundo.

O de sempre, e talvez a única, forma de estados verdadeiramente desaparecerem "do mapa" é se as suas partes componentes declararem independência e reconstituírem-se em estados independentes como legítimos em seu próprio direito. Isso, novamente, é o que aconteceu com a União Soviética e Iugoslávia.

A legitimidade desses estados fracassados nunca foi revogada. O que aconteceu foi apenas que os novos estados ganharam o reconhecimento internacional que a legitimidade implica.

Da mesma forma, a Revolução Americana conduziu à legitimação dos Estados Unidos da América, mas não para a deslegitimação dos regimes coloniais que a precederam. Eles sofreram uma profunda transformação, uma reorganização estrutural, mas em nenhum momento foi qualquer coisa como deslegitimação, em qualquer sentido plausível do termo.

Da mesma forma, a Revolução Francesa e as revoluções que se seguiram não deslegitimaram as nações em que ocorreram; elas substituíram regimes antigos por novos, o que é algo completamente diferente.

Negar essa obviedade serve, exclusivamente, para obscurecer, para fazer não-ver a diferença entre mudar fundamentalmente as coisas para melhor, de um lado; e, de outro lado, o mais desprezível, irracional, niilismo.

E Israel quer que o mundo creia que o Irã estaria dedicado a “deslegitimar” Israel com sua bomba inexistente!

E Israel quer que o mundo creia que esse seria “o golpe” das campanhas de solidariedade aos palestinos, como o Movimento Boicote, Desinvestimento, Sanções preparam, para ‘'deslegitimar'’ Israel!

Muito frequentemente, movimentos de solidariedade alistam-se lado a lado com forças que promovem a mudança de regime. Foi exatamente o que se viu, nos movimentos que se alistaram a favor das lutas anticoloniais, depois da II Guerra Mundial, ou que se alistaram ao lado de forças populares para derrubar ditaduras autoritárias quase-fascistas, na Espanha, Grécia, Chile, Portugal, Argentina e em vários pontos do mundo.

A luta anti-apartheid na África do Sul, foi, sim, luta para mudança de regime.

Porque as forças que lutaram contra o Apartheid tinham objetivos claramente definidos, os movimentos de solidariedade que a apoiavam seguiram o exemplo.

Não é hoje o objetivo do Movimento Boicote, Desinvestimento, Sanções; muitos dos apoiadores do Movimento BDS estão mais interessados em mudança de políticas, que em mudança de regime em Israel.

Mas há alguns, dentro do Movimento BDS, que sonham com um futuro estado, nas atuais fronteiras de Israel, ou de volta às fronteiras da Palestina do Mandato, que será muito diferente da Israel de hoje.

Pode continuar a ser um país hebraico; com certeza manterá as tradições culturais que se estabeleceram sob os atuais arranjos políticos. Mas será estado de seus cidadãos. Não será estado confessional. Não será estado étnico.

Isso, sim, será mudança de regime; aquela democracia Herrenvolk, transformada em democracia tout court.

Será, afinal, pequena mudança, de muito menor alcance que a mudança de regime que os sul-africanos promoveram em seu país. Para os judeus israelenses, de fato, é preciso mudar bem pouco.

Mas o estado dos cidadãos israelenses terá de deixar de ser estado religioso, com privilégios para os judeus e discriminação contra os não judeus.

Que ameaça existencial haveria nisso? E, se houver, será ameaça benigna.

A coisa, afinal, é bem simples: a ideia de mudança de regime em Israel ameaça existencialmente, sim, a ideia sionista. Absolutamente não ameaça as realizações culturais positivas. E com certeza não ameaça a existência física dos povos que vivem hoje em Israel.

[*] Andrew Levine é professor sênior do Institute for Policy Studies, e autor de The American Ideology (Routledge) e Political Key Words (Blackwell), bem como de muitos outros livros e artigos em filosofia política. Seu livro mais recente é In Bad Faith: What’s Wrong With the Opium of the People. Foi professor de Filosofia na University of Wisconsin-Madison e professor pesquisador (filosofia) na University of Maryland-College Park. Foi também co-autor de Hopeless: Barack Obama and the Politics of Illusion (AK Press).

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