16 de janeiro de 2014

O aumento das Operações Especiais

A guerra secreta da América em 134 países

Nick Turse

TomDispatch.com

They operate in the green glow of night vision in Southwest Asia and stalk through the jungles of South America. They snatch men from their homes in the Maghreb and shoot it out with heavily armed militants in the Horn of Africa. They feel the salty spray while skimming over the tops of waves from the turquoise Caribbean to the deep blue Pacific. They conduct missions in the oppressive heat of Middle Eastern deserts and the deep freezeof Scandinavia. All over the planet, the Obama administration is waging a secret war whose full extent has never been fully revealed -- until now.

Depois do 11 de Setembro de 2011 as Forças de Operações Especiais dos EUA cresceram de forma inimaginável, tanto em efetivos como em orçamento. No entanto, o mais revelador foi o aumento das ações de operações especiais a nível global. Essa presença – neste momento em quase 70% das nações do mundo – proporciona novas provas da dimensão e do alcance de uma guerra secreta que se desenrola desde a América Latina às terras mais remotas do Afeganistão, das missões de treino aos aliados africanos às operações de espionagem, lançadas a partir do ciberespaço.

Ao que consta, nos últimos dias da presidência de W. Bush as Forças de Operações Especiais estabeleceram-se em 60 países do mundo. Em 2010 esse número tinha aumentado para 75 países, de acordo com Karen DeYoung e Greg Jaffe do Washington Post. Em 2011, o porta-voz do Comando de Operações Especiais (Socom), o coronel Tim Nye disse a TomDispatch que o número total chegaria a 120. Presentemente esse número é mais elevado.

Em 2013, as forças de elite dos EUA espalhavam-se por 134 países do planeta, de acordo com o comandante Matthew Robert Bockholt, dos Assuntos Públicos do Socom. Este aumento de 123% durante a governação de Obama demonstra como, além das guerras convencionais e da campanha com aviões não tripulados [drones] da CIA, da diplomacia pública e da extensa espionagem eletrônica, os EUA se envolveram noutra importante e crescente forma de projeção do poder fora das suas fronteiras. Em grande medida levada a cabo pelas tropas de elite dos EUA, a imensa maioria destas ações têm lugar longe dos olhares indiscretos, do escrutínio dos meios de comunicação ou de qualquer tipo de supervisão externa, aumentando as possibilidades de represálias imprevistas e de consequências catastróficas.

Indústria em crescimento
Estabelecido formalmente em 1987, o Comando de Operações Especiais (Socom cresceu rapidamente depois do 11 de Setembro. Foi informado que este comando está a alcançar os 72.000 efectivos em 2014, quando em 2001 não passavam de 33.000. O financiamento também subiu de forma exponencial, à medida que o orçamento de referência para 2001, US$ 2,300 bilhões, galgou para US$ 6,9 bilhões em 2013 (US$ 10,4 bilhões se juntarmos o financiamento suplementar). O crescimento dos efectivos no estrangeiro disparou também de 4.900 em 2001 para 11.500 em 2013.

Uma investigação recente de TomDispatch através da consulta de documentos abertos do governo, de comunicados de imprensa e de informações na imprensa encontrou provas de que as forças de Operações Especiais dos EUA se tinham deslocado ou envolvido em colaborações com exércitos de 106 nações de todo o mundo em 2012-2013.

No entanto, ao longo de mais de um mês que durou a preparação deste artigo, o Socom não nos cedeu estatísticas exactas sobre o número total de países para onde se tinham deslocado efetivos especiais: Boinas Verdes e Rangers, SEAL da Marinha [N.T.: principal força especial da marinha norte-americana] e comandos da Força Delta. "Não as temos à mão", explicou Bockholt do Socom numa entrevista telefónica quando o artigo estava quase pronto. "As Forças de Operações Especiais distribuíram-se por 134 países" durante o ano fiscal de 2013, explicou Bockholt num e-mail.

Operações Especiais globalizadas
No ano passado, o chefe do Comando de Operações Especiais, Almirante William McRaven, explicava a sua visão da globalização das operações especiais. Numa declaração perante o Comitê de Serviços Armados do Congresso, disse:

"USSOCOM está a melhorar a sua rede global de forças de Operações Especiais a fim de apoiar as nossas relações interinstitucionais e parceiros internacionais para poder dispor de conhecimentos ampliados de situações de ameaça e oportunidades emergentes. A rede possibilita uma presença pequena e persistente em lugares cruciais e facilita as possibilidades de actuação onde seja necessário ou conveniente..."

Ainda que essa "presença" possa ser pequena, o alcance e influências dessas forças de Operações Especiais são uma questão muito diferente. O salto de 12% nas deslocações para outras nações – de 120 para 134 – durante o mandato de McRaven reflete o seu desejo de colocar as botas em todo o planeta.

O Socom não refere as nações implicadas, alegando as sensibilidades da nação anfitriã e a segurança dos efectivos estadunidenses, mas as deslocações que conhecemos lançam alguma luz sobre o alcance total das missões que o exército secreto dos EUA está a levar a cabo.

Por exemplo, nos meses de Abril e Maio do ano passado, o pessoal das Operações Especiais participou em exercícios de treino no Djibuti, Malawi e nas Ilhas Seychelles no Oceano Índico.

Em junho, os SEAL da Marinha estadunidense uniram-se às forças iraquianas, jordanas, libanesas e outras aliadas do Oriente Médio para procederem a simulacros bélicos irregulares em Aqaba, na Jordânia.

No mês seguinte, os Boinas Verdes viajaram para Trinidad e Tobago para prepararem pequenas unidades de exercícios tácticos com forças locais. Em agosto, os Boinas Verdes treinaram marinheiros hondurenhos em técnicas de explosivos.

Em setembro, segundo notícias da imprensa, as Forças de Operações Especiais dos EUA, juntamente com as tropas de elite dos dez países membros da Associação de Nações do Sudeste Asiático – Indonésia, Malásia, Filipinas, Singapura, Tailândia, Brunei, Vietnã, Laos, Myanmar (Birmânia) e Camboja –, bem como com os seus homólogos da Áustria, Nova Zelândia, Japão, Coreia do Sul, China, Índia e Rússia participaram, com financiamento conjunto, num centro de treino em Sentul, a oeste de Java em exercícios contra o terrorismo.

Em outubro passado, as tropas de elite dos EUA fizeram incursões com comandos na Líbia e na Somália, sequestrando um suspeito de terrorismo na primeira nação, enquanto os SEAL matavam pelo menos um militante no segundo país, antes da resposta armada os expulsar do país. Em novembro, as tropas de Operações Especiais fizeram acções humanitárias nas Filipinas para ajudar os sobreviventes do tufão Hayan.

No mês seguinte, membros do 352º Grupo de Operações Especiais fizeram um exercício de treino em que participaram 130 pilotos e seis aviões numa base aérea inglesa, e vários SEAL da Marinha ficaram feridos quando participavam numa missão de evacuação no Sudão do Sul. Os Boinas Verdes entraram a 1º de janeiro deste ano numa missão de combate, juntamente com tropas de elite afegãs, na povoação de Bahlozi, província de Kandahar.

No entanto, estas deslocações para 134 países não parecem ser suficientes para o Socom. Em novembro de 2013, o comando anunciou que estava a tratar de identificar parceiros industriais que pudessem, dentro da Iniciativa Transregional do Socom, "desenvolver potencialmente novas páginas na internet à medida das audiências estrangeiras".

Estas páginas ligar-se-iam numa rede global já existente de dez páginas na internet dedicadas à propaganda, dirigidas por vários comandos combatentes e concebidas para parecerem legítimas cadeias noticiosas, incluindo aí a CentralÁsiaOnline.com, para esta região asiática, a Sabahi dirigida para o Corno de África, outra dirigida para o Oriente Médio conhecida como Al-Shorfa-com e uma outra dirigida para a América Latina que recebeu o nome de Infosurhoy.com.

O impulso do Socom no ciberespaço reflete-se no enraizado esforço do comando de controlar tudo. "Tenho companheiros em todas as agências de Washington, desde a CIA ao FBI, à Agência de Segurança Nacional, à Agência Geo-espacial Nacional, à Agência de Inteligência da Defesa", disse o Comandante do Socom, Almirante McGaven, durante um painel de discussão no Centro Wilson de Washington no ano passado.

Quando falou na Biblioteca Ronald Reagan, em novembro, disse que o número de departamentos e agências onde o Socom se tinha entrincheirado era então de 38.

134 possibilidades de represálias
Apesar de eleito por muitos que o consideravam um candidato anti-belicista, o presidente Obama demonstrou ser um comandante verdadeiramente militarista, cujas políticas deram já notáveis exemplos daquilo que no jargão da CIA se chama, há já bastante tempo, represálias.

Ainda que a administração Obama tivesse supervisionado a retirada dos EUA do Iraque (negociada pelo seu antecessor), assim como uma redução de tropas estadunidenses no Afeganistão (depois de um importante incremento militar naquele país), o presidente decidiu um aumento da presença militar estadunidense na África, uma revitalização dos esforços na América Latina e um discurso duro sobre um reequilíbrio ou "pivô na Ásia" (ainda que até ao momento pouco se tenha feito).

A Casa Branca supervisionou também uma expansão exponencial da guerra nos EUA com os aviões não tripulados. Enquanto o presidente George W. Bush lançou 51 ataques desse tipo, o presidente Obama ordenou já cerca de 330, de acordo com uma investigação realizada pelo Bureau de Jornalismo de Investigação, com sede em Londres. Só no ano passado, os EUA participaram também em operações de combate no Afeganistão, na Líbia, Paquistão, Somália e Iêmen.

As recentes revelações de Edward Snowden sobre a Agência de Segurança Nacional demonstraram uma enorme amplitude e o alcance global da espionagem electrónica durante as administrações de Obama. E no mais profundo silêncio, as forças de Operações Especiais estão a ser anualmente deslocadas para mais do dobro do número de nações do que no final do mandato de George W. Bush.

No entanto, nos últimos anos, as consequências não desejadas das operações militares dos EUA ajudaram a semear indignação e descontentamento, incendiando regiões inteiras. Mais de dez anos depois do momento "missão cumprida" dos EUA, sete anos depois do seu tão alardeado incremento, o Iraque que os EUA deixaram está em chamas.

Um país onde não havia qualquer presença da Al-Qaida antes da invasão estadunidense e um governo que se opunha aos inimigos dos EUA de Teerã, tem agora um governo central alinhado com o Irã e duas cidades onde flutuam as bandeiras da Al-Qaida.

Uma mais recente intervenção dos EUA para obter a derrubada de Muhamad el-Kadafi ajudou a empurrar o vizinho Mali, um baluarte apoiado pelos EUA contra o terrorismo regional, para uma espiral descendente, onde um oficial treinado pelos EUA deu um golpe de Estado que, por fim, resultou num sangrento ataque terrorista contra uma fábrica de gás argelina, desencadeando uma espécie de diáspora do terror na região.

Atualmente, o Sudão do Sul – uma nação cujo nascimento os EUA pastorearam e apoiaram econômica e militarmente (apesar de depender dos meninos-soldados) – que os EUA utilizaram como base secreta das forças de Operações Especiais está e ver-se dilacerada pela violência e desliza para a guerra civil.

Na presidência de Obama viu-se como as forças tácticas de elite do exército estadunidenses se empenham cada vez mais na tentativa de ganhar objetivos estratégicos. Mas com as missões das forças de Operações Especiais mantidas sob rigoroso silêncio, os estadunidenses têm um conhecimento muito escasso de para onde estão a ser deslocadas as suas tropas, o que é que exactamente estão a fazer ou quais as consequências que daí poderão advir.

Como disse o coronel reformado do exército, Andrew Bacevish, professor de história e relações internacionais na Universidade de Boston: a utilização de forças de Operações Especiais durante os anos Obama fez diminuir a responsabilidade militar mas fortaleceu uma "presidência imperial". "Resumindo", escreveu TomDispatch, "pôr a guerra nas mãos de efectivos especiais corta o ténue fio existente entre a guerra e a política; converte-se na guerra pela guerra".

As operações encobertas das forças secretas têm uma desagradável tendência para desencadear consequências indesejáveis, imprevistas, e completamente desastrosas. Os nova-iorquinos sabem bem o resultado final do apoio clandestino dos EUA aos militantes islâmicos contra a União Soviética na década de oitenta do século passado: o 11 de Setembro.

Mas por estranho que pareça, os que nesse dia estavam no lugar do principal ataque, o Pentágono, parecem não ter aprendido as óbvias lições dessa represália letal. Inclusive hoje, no Afeganistão e no Paquistão, mais de doze anos depois de os EUA terem invadido o primeiro país e quase dez anos depois de terem empreendido ataques encobertos ao segundo, os EUA continuam a lidar com os efeitos colaterais da Guerra Fria: por exemplo, com os aviões teledirigidos da CIA lançando ataques com misseis contra uma organização (a rede Haqqani), a quem na década de oitenta do século passado aquela Agência fornecia misseis.

Sem uma ideia clara onde estão a actuar as forças clandestinas do exército e o que é que estão a fazer, os estadunidenses nem sequer podem reconhecer as consequências de tudo isso e o que são as represálias pelas nossas guerras secretas que estão a invadir o mundo. Se a História serve para alguma coisa, as consequências de toda a acção dos EUA vão sentir-se do sudoeste asiático ao Magrebe, do Oriente Médio à África Central e, no final, provavelmente também se sentirão nos Estados Unidos.

No seu plano de acção futura para o Socom 2020, o almirante McGaven preparou a venda da ideia que a globalização das operações especiais são um meio de "projetar poder, promover a estabilidade e impedir os conflitos". É muito provável que no ano passado o Socom se tenha dedicado a fazer precisamente o contrário em 134 lugares do mundo.

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