26 de janeiro de 2014

Retificação de nomes II: Vamos chamar um golpe um golpe

Peter Lee


Como parte da campanha deste autor para retificar nomes, que já retificou o nome da política externa do Japão – a qual deve ser referida a partir de agora como “Restauração Militar do Japão” – tenho a honra de decretar que os eventos que ocorrem no Egito, Tailândia e Ucrânia não são revoluções, são golpes.
Uma revolução, como a palavra diz, implica o fim de um sistema de governo existente, quase sempre autoritário, em favor de um sistema de governo novo, usualmente mais democrático.

Um golpe, por outro lado, envolve grupos ruidosos usando ação de rua para derrubar um governo eleito que consideram desagradável.

Egito-2013 foi um golpe contra um governo eleito, por uma massa critica de pessoas nas ruas e quarteis que não queriam esperar um ano ou dois para disputar o poder através das eleições.

Esse estado de coisas feias tem provocado dano em pessoas encantadas pela visão de heroicas massas liberais, amantes da democracia, que derrubam governos autoritários.

Juan Cole insiste em vender a derrubada do governo de Mursi no Egito como uma “revocouption”, metendo à força uma certa dose de legitimidade no golpe dos militares; declarando que o golpe seria continuação da revolução original, graças às manifestações de rua contra Mursi e à redação de uma nova constituição (e, assim, excluindo da história revolucionária oficial o papel da Fraternidade Muçulmana na derrubada do governo Mubarak). Não venda, oh poderoso promotor da intervenção na Líbia, que suponho poder ser rebatizada “fuckupalotaboomboom”, com a descida daquele país ao caos.

Atualmente, o mandato popular para o golpe contra Mursi repousa sobre um precário cálculo, segundo o qual cerca de 5% de egípcios a mais votaram no referendo constitucional de 2014 boicotado pela FM (que passou por um Saddam Hussein-digno 98,1%), que no referendo de 2012 boicotado pelos anti-FM.

Uma situação semelhante ocorre na Ucrânia, onde a oposição decidiu que um golpe é preferível a esperar por outra eleição, sobretudo quando o ocidente trabalha tão empenhadamente em defesa das forças antigoverno. O empenho da Europa e dos Estados Unidos em promover seus interesses geoestratégicos à custa de eleições seria cômico, se não fosse o fato de que grupos neonacionalistas estão sendo usados como tropas de choque para abalar o governo da Ucrânia. Vai ser interessante ver até que ponto irão os “analistas” distantes ao elogiar a paisagem de coquetéis Molotov e “ativistas” contra “o governo”. Como Belle Waring escreveu e depois apagou no blog Crooked Timber – quando percebem que tais cenas podem ser encenadas em seus países.

Quanto à Tailândia, os Camisa Amarela pretendem especificamente: a) derrubar o governo; b) impedir a possibilidade de uma nova eleição que eles possam perder; e c) convencer o exército a intervir do lado deles. Nada pode ser mais golpe do que isso.

Quando eu fui para a escola em um período reconhecidamente ingênuo e otimista da história, ensinaram-me a respeitar eleições, aprendi que respeito ao processo eleitoral por ambos os vencedores e perdedores era primordial, porque senão o país iria para o inferno... como está acontecendo no Egito, na Ucrânia e na Tailândia (e nos Estados Unidos em 1860).

Embora eu tenha considerado corrompido todo o processo da recontagem de votos nas eleições presidenciais, do primeiro momento até a decisão da Suprema Corte no processo Bush vs. Gore, depois que a Suprema Corte se manifestou dei o caso por encerrado. Felizmente Al Gore não exigiu que eu fosse para a praça, com meu capacete, taco de beisebol, e garrafa de gasolina misturada com detergente, para derrubar o governo Bush (embora seja compreensível que milhões de pessoas atacadas, feridas e mortas pelo governo terrorista de Bush, a começar pelo povo do Iraque, pensem diferente.) Alguns anos depois, os Democratas afinal chegaram à presidência. Assim, os Democratas tiveram oportunidade legal e legítima para fuder tudo & todos à sua própria maneira especial, e a agitação para um golpe de Estado contra o governo ainda parece ser algo com poucos adeptos nos Estados Unidos.

No exterior, a história é diferente. O atual trio de golpes que está em andamento no mundo não suscitou  o apaixonado “temos que respeitar o processo eleitoral”: silêncio total nessa direção, tanto do governo, quanto dos “especialistas” da mídia. Na Ucrânia, a avidez dos Estados Unidos em defesa do movimento antigoverno é notável; no Egito, não queremos irritar o exército e colocar em perigo o acordo de paz com Israel; e na Tailândia, não entendo nada. Talvez estejamos apenas interessados em ficar do lado do exército.

No fundo, suponho, está a ideia de que não importa se é uma “revolução colorida” ou um golpe de Estado; agitação local é apenas mais um meio para promover e proteger os interesses dos Estados Unidos. Mas sempre dão alguma munição extra à República Popular da China, que pode argumentar que os Estados Unidos não têm interesse algum em democracia (eu poderia apontar que os Estados Unidos são uma república e não uma democracia, uma distinção que 200 anos de proteção da riqueza e da propriedade, e limites de jure e de fato contra a soberania popular, já comprovaram que não é distinção trivial) – nem em eleição alguma; os Estados Unidos só têm interesses no próprio caminho.

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