21 de fevereiro de 2014

A conexão Clinton-Pintchuk, uma oligarquia ucraniano-americana

Manlio Dinucci


Na mesa em Kiev onde o acordo formal entre o governo, a oposição, a União Europeia e a Rússia foi negociada, não sentou oficialmente nenhum representante da oligarquia internacional poderosa que – com laços mais estreitos com Washington e a OTAN do que Bruxelas e a UE – está empurrando a Ucrânia em direção ao oeste. Um caso emblemático é Viktor Pinchuk, magnata do aço, 54, classificado pela revista Forbes entre os homens mais ricos do mundo.

Pinchuk começou a acumular sua fortuna em 2002, quando casou com Elena, a filha de Leonid Kuchma, o segundo presidente da Ucrânia (1994-2005). Em 2004, seu sogro ilustre privatizou Kryvorizhstal, a maior usina de aço na Ucrânia, ao vendê-lo ao Grupo Interpipe, co-propriedade do seu genro, por USD 800 milhões, cerca de um sexto do seu valor real. Interpipe assim ganhou o poder de monopólio sobre a produção de tubos de aço. Em 2007, Pinchuk fundou EastOne Group Ltd., uma empresa internacional de consultoria de investimento, que fornece às multinacionais todas as ferramentas para penetrar as economias do leste. Ao mesmo tempo, tornou-se o proprietário de quatro canais de TV além de um tablóide popular (Fatos e Comentários) com uma tiragem acima de 1 milhão de cópias. Sem no entanto descuidar da caridade, ele criou o Viktor Pinchuk Foundation, dita ser a maior «organização filantrópica» privada ucraniana.

É através desta fundação que Pinchuk se liga com os Clintons, apoiando a Iniciativa Global de Clinton, criada em 2005 por Bill e Hillary, cuja missão é "convocar os líderes mundiais para criar e implementar soluções inovadoras para os desafios mais prementes do mundo." Atrás este slogan cintilante, encontra-se o real objetivo: criar uma rede de apoio internacional forte para Hillary Clinton, a ex-primeira dama que, depois de servir como senador de Nova Iorque em 2001-2009 e Secretária de Estado no período 2009-2013, está tentando a presidência pela segunda vez.

Sua colaboração frutífera começou em 2007, quando Bill Clinton agradeceu "Viktor e Elena Pinchuk por sua atividade social vigorosa e o apoio prestado ao nosso programa internacional." Esse apoio de Pinchuk traduz-se em uma primeira contribuição de 5 milhões de dólares, seguida por outras, à Iniciativa Global de Clinton. Isso abriu as portas para Pinchuk em Washington: por 40.000 dólares por mês, ele contratou o lobista Daniel E. Schoen, que organizou uma série de contatos com figuras influentes, incluindo uma dúzia de reuniões em um ano, entre 2011 e 2012, com funcionários do Departamento de Estado. Isto provou ser excelente para os negócios, permitindo Pinchuk aumentar suas exportações para os Estados Unidos, embora metalúrgicos na Pensilvânia e Ohio agora o acusem de subcotação de preços de tubo de aço dos EUA.

Para reforçar seus laços com os Estados Unidos e o Ocidente, Pinchuk lançou a Estratégia Europeia de Yalta (EEY), "a maior instituição social de diplomacia pública da Europa Oriental", cujo objetivo oficial é "ajudar a Ucrânia a se transformar em um país moderno, democrático e economicamente eficiente". Graças à capacidade financeira de Pinchuk (ele acaba de reservar mais de US$ 5 milhões para seu 55º aniversário em uma estação de esqui francesa chique), a EEY estava em posição de estabelecer uma ampla rede de contatos internacionais, que veio à tona na reunião anual realizada em Yalta. Ele reuniu "mais de 200 políticos, diplomatas, estadistas, jornalistas, analistas e líderes empresariais de mais de 20 países." Entre estes, os nomes que mais se destacam são Hillary e Bill Clinton, Condoleezza Rice, Tony Blair, George Soros, José Manuel Barroso e Mario Monti (que participou da reunião em setembro passado), ao lado de outros personagens conhecidos, mas não menos influentes, incluindo líderes do Fundo Monetário Internacional.

Como Condoleezza Rice disse na reunião da YES em 2012, "transformações democráticas exigem tempo, requerem paciência, necessitam de apoio. A partir de fora, bem como de dentro. " Um excelente sumário da estratégia adoptada pelo Ocidente sob o manto de "apoio externo" para promover "mudança democrática". Uma estratégia amplamente consolidada da Jugoslávia à Líbia, da Síria à Ucrânia, que consiste em inserir uma cunha entre as rachaduras existentes em qualquer Estado e abalar seus alicerces apoiando ou fomentando rebeliões contra o governo (como aquelas em Kiev, muito pontual e organizada para ser considerada como meramente espontânea), apoiada por uma campanha de mídia-febril contra o governo marcado para eliminação. Com relação à Ucrânia, o objetivo é derrubar o Estado ou quebrá-lo em dois: uma parte se juntaria à OTAN e à UE; a outra permaneceria em grande parte ligada à Rússia. A Iniciativa Global de Clinton, dos amigos oligarcas, se encaixa neste contexto.

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