24 de fevereiro de 2014

Coreia do Norte: "L’Humanité” não merece isso!

Jean-Pierre Page

Parlons Clair

Sob o título insinuante de "é um escândalo: a Coreia do Norte reino do horror e do sadismo", L’Humanité de 19 de fevereiro destaca-se de novo neste jornalismo de arrogância, fiel à ideologia dos dias de hoje!

O artigo junta à desonestidade, a ignorância que frequentemente caracteriza a rubrica internacional do que foi o diário de Jaurès, o jornal do anticolonialismo e do anti-imperialismo! O “direito do homismo” tipo ONG, que inspira doravante a política internacional do PCF, é tanto mais chocante quanto o partido ainda se diz partido dos comunistas.

Aqui, não é minha intenção fazer um julgamento sobre a política norte-coreana – é um outro debate e é em primeiro lugar aos norte-coreanos que compete fazê-lo, como tem expressado a escolha consciente do tipo de sociedade em que querem viver! A política francesa e a da Europa, com o que as caracteriza, deveria encorajar-nos a uma maior modéstia! Eu quero referir-me unicamente à maneira como se informam os leitores sobre os procedimentos adotados a nível internacional contra a Coreia do Norte.

Este artigo do l’Humanité apela, assim, a que faça três observações que tocam no conteúdo e na forma!

1 – Muitos países do mundo, como Cuba, a China, mas também os EUA, que não permitem que os seus cidadãos sejam julgados no exterior, recusam, em nome do respeito pela sua soberania e independência – e por que são contra todas as formas de ingerência – as pretendidas investigações internacionais, que são realizados por um organismo da ONU como o Office of the High Commissioner for Human Rights (OHCHR).
Este Comissariado – e isto não é um detalhe – tem 90% do seu pessoal dependente de fundos voluntários, sob contratos não permanentes e, muitas vezes, de curta duração. Estes fundos voluntários só existem com o financiamento e as boas graças dos países ocidentais, principalmente dos EUA, que os utilizam ao serviço dos seus interesses e dos seus objetivos geo-políticos.

Tudo isto diz muito sobre a independência do OHCHR, em Genebra. Não obstante, para que tal investigação possa ser realizada é necessário, de acordo com os princípios da Carta das Nações Unidas, ter esgotado todos os mecanismos internos de investigação, que os Estados podem e devem concretizar. Isto faz parte da sua prerrogativa e, no caso da Coreia do Norte, não se está lá.

Quando se decide ignorar, como, neste caso, foi decidido pelos ocidentais, estas investigações são realizadas no exterior do país, com todas as formas possíveis e imagináveis de testemunhos: entrevistas de refugiados nacionais, comunicações telefônicas, filmes, reportagens de televisão, imprensa escrita e mesmo através da utilização de conversas por Skype, etc. Pode-se imaginar como, nestas condições, é fácil orientar as coisas – e não invoco as pessoas que se podem contrabandear, os que vão aos locais com certas missões, ou os que se podem fazer viajar para recolher os seus testemunhos! Assim, trata-se na verdade e sempre de um relatório com acusações esmagadoras, a maioria das vezes com base em simples declarações (ou seja, uma ausência de provas que se assimila deliberadamente a provas). Por isso, não podem passar no silêncio estes métodos totalmente unilaterais. L’Humanité ignora-os; mas, pior, chega já à conclusão de que, segundo o autor, se deve pressupor a convocação dos dirigentes norte-coreanos perante o TPI2, cuja falta de independência não parece colocar qualquer problema ao autor do artigo! O Tribunal Penal Internacional (TPI) dedica-se exclusivamente aos líderes do terceiro mundo; "curiosamente", nunca se dedica aos dirigentes americanos ou europeus. É ainda mais bizarro que isso possa ter escapado à sagacidade desse jornalista, mas, no entanto, escapou!

As expetativas e as conclusões são assim conhecidas com antecedência, uma vez que são decididas pelos inspiradores da ocorrência e, como sempre, pelos ocidentais! Parece e é angustiante que, neste espírito, a secção internacional do l’Humanité não tenha ouvido falar da aplicação do R2P (responsability to protect). A R2P tornou-se para os ocidentais e os EUA, muito particularmente, a verdadeira Bíblia que deve refundar as relações internacionais. Esta nova arquitetura visa romper definitivamente com o multilateralismo, considerado obsoleto e que deve desaparecer em benefício do unilateralismo!

2 – Evidentemente que o artigo não toma em conta a composição da comissão de peritos sobre a Coreia do Norte, que não são funcionários internacionais, mas sim nomeados pela Comissão de Inquérito e o Conselho dos Direitos do Homem da ONU. Para compreender bem do que se trata e se se quisesse fazer prova de seriedade, deveria começar-se por escrutinar os membros deste grupo de peritos!

O Presidente é um australiano: Michael Kubryk, um magistrado muito conservador e repressivo, com reputação desastrosa e que ficou conhecido com o dossier do Camboja. Ele recebeu, entre todas as suas distinções por serviços prestados aos governos ocidentais, o título de "Vida honrosa" no protocolo australiano!

A seguir, vem Marzuki Darusman, outro magistrado, indonésio, que elaborou o relatório Darusman, esmagador contra o Sri Lanka, que, contudo, o L’Humanité considera um relatório oficial da ONU. Embora neste caso o relatório não tenha qualquer estatuto jurídico ONUSIANO, pois trata-se de um relatório solicitado a título pessoal pelo Secretário-Geral da ONU. Depois, a mídia procura impor internacionalmente a ideia oposta (tratar-se-ia assim "da posição oficial da ONU"). Darusman foi um confidente de Suharto desde o período da ditadura e da repressão sangrenta contra os comunistas na Indonésia, um verdadeiro genocídio político de cerca de 3 milhões de vítimas.

Foi um dos dirigentes do partido de Suharto e, como alto magistrado, podemos imaginar quantos pôde enviar para a prisão de Buru, como o grande poeta indonésio que foi muitas vezes candidato ao Nobel, o meu amigo Pramoedya Anter Toer.

Finalmente, também faz parte da comissão de peritos Sonja Biserko, magistrada sérvia, completamente vendida aos ocidentais e em particular aos americanos e às instituições da UE. Ela é membro, entre muitas outras coisas, do famoso Instituto da Paz dos EUA, em Washington, cujo nome é um eufemismo, e que, com o Instituto Brookings e o Instituto Memorial do Holocausto dos EUA patrocinaram o famoso relatório de Madeleine Albright e Richard Williamson sobre o R2P. Sem me estender sobre o Instituto Brookings, um dos mais famosos Think Tank4 americanos, pode observar-se na composição do seu "Conselho de Administradores", quase exclusivamente, dirigentes das maiores empresas norte-americanas, designadamente: a Goldman and Sachs, a Nike, e, sobretudo, o famoso "grupo Carlyle", liderado durante muito tempo por Frank Carlucci, um dos antigos patrões da CIA. "O grupo Carlyle", fortemente implicado no Iraque, está intimamente ligado, como sabemos, a Dick Cheney e às famílias Bush e Ben Laden. Podemos pois agora imaginar – e sem nos enganarmos – o que será o relatório deste grupo de especialistas que têm a simpatia do jornal l’Humanité.

3 – Isto dito, as coisas não são tão simples, o que mostra ainda mais uma vez a espantosa ignorância deste jornalista!

Se ele fizesse o esforço de ser mais convincente poderia ter usado usar como argumento o fato de, durante vários anos, a ação para sancionar a Coreia do Norte ter sofrido uma evolução da posição chinesa, russa e cubana. Estes últimos opuseram-se de imediato ao processo de investigação, depois de há dois anos se terem abstido; finalmente, este ano, não tomaram parte na votação em que a resolução foi aprovada, por consenso, pelo Conselho dos Direitos do Homem da ONU, o que, obviamente, significa na linguagem internacional: unanimidade!

Como l’Humanité ganharia em credibilidade se, no plano internacional, fizesse prova de um verdadeiro espírito crítico e não de um seguidismo angustiante do pensamento dominante, sobre o qual sabemos, desde Marx, que é o pensamento da classe dominante!

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