3 de fevereiro de 2014

O oportunismo e a chamada “Primavera Árabe”

O lucrativo negócio da “revolução” sob a ordem do imperialismo

Alper Birdal*

Em 29 de julho de 2012, o The New York Times publicou um artigo da autoria de Neil MacFarquhar, com o seguinte título: “À medida que se prolonga a guerra na Síria, os jihadistas assumem crescente importância” [1]. Como se pode supor pelo título, o artigo aludia ao crescente papel dos jihadistas, nas fileiras da chamada “oposição síria”. Num dos pontos e usando como referência o acadêmico Thomas Pierret, da Universidade de Edimburgo, o autor revela-nos um importante detalhe:

“Também, nem todos os combatentes estrangeiros são jihadistas. Um combatente líbio-irlandês, de nome Mahdi al-Harati, que ajudou a conduzir hostilidades na batalha de Trípoli, na Líbia, organizou um grupo de voluntários para a Síria, referiu Thomas Pierret, acadêmico especialista no Islã sírio contemporâneo. “Ele [Mahdi al-Harati] não é um jihadista, e vê-se como um revolucionário líbio que aí se encontra para ajudar a revolução síria”, afirmou ainda Pierret.

O nome, Mahdi al-Harati, referido como um exemplo de combatente não jihadista, na Síria, é bastante interessante. No mesmo artigo, é-nos revelado que ele dirige a brigada Liwa al-Ummah, nos arredores do Alepo, a mesma onde o seu cunhado Hussan al-Najar, também combate contra o exército de Assad.

A primeira vez que ouvimos os nomes destes cidadãos irlandeses, nascidos em Tripoli, foi há cerca de um ano e relativamente ao levantamento líbio. A 13 de agosto de 2011, líamos sobre o paradeiro destes num artigo do The Irish Times [2]. Os referidos cidadãos encontravam-se numa pequena povoação de nome Naluf, na fronteira da Líbia com a Tunísia, onde se encontrava a sede da denominada Brigada Revolucionária de Trípoli. “Aqui toda a gente, conhece al-Harati, o amável irlandês” refere o jornalista. Com certeza, toda a gente o conhecia por ser o comandante-chefe. Todavia, sobre ser “amável”? O que podemos afirmar sobre isso?

Em fevereiro de 2011, al-Harati abandonou Dublin, onde supostamente tinha uma vida tranquila com a sua mulher e os seus quatro filhos, para juntar-se aos rebeldes sob ordem da NATO. Ele e o seu cunhado, Hussan al-Najar, ex-contratista em Dublin, foram à Líbia para integrar-se no “negócio da revolução”. Criaram a Brigada Revolucionária de Trípoli, um estranho grupo de indivíduos altamente qualificados enquanto engenheiros, médicos, empresários, etc, com o objetivo de retirar Trípoli às forças de Gaddafi. Al-Harati refere “A nossa ideia era criar um grupo bem organizado para combater na parte ocidental do país. Não tínhamos qualquer ideologia, éramos apenas revolucionários” [3]. Imediatamente, foram recebidos pelo Conselho Nacional de Transição e, em poucos meses, o seu número aumentou de quinze para quase mil. Receberam treinamento militar por parte das forças especiais do Qatar e chegaram mesmo a participar na “Batalha de Trípoli”.

Mahdi al-Harati foi o comandante do assalto principal a Trípoli lançado a 21 de agosto de 2011. Depois de tomada a capital, assumiu o cargo de vice-presidente do Conselho Militar de Trípoli. Quer isto dizer que se transformou no segundo homem da organização que unificaria todos os militantes armados num exército nacional. O primeiro era Abdulhakim Behlaj. O mesmo Behlaj do Grupo de Combate Islâmico Líbio, a extensão, na Líbia, da Al Qaeda e no Magrebe Islâmico (AQMI). A história de Mahdi al-Harati e do seu cunhado Hussan al-Najar, chamados “revolucionários da Primavera Árabe”, não cessa aqui. De fato, cresce de interesse depois de al-Harati começar a ganhar importância e posições de carreira no “negócio da
revolução”.

No início de outubro de 2011, alguém entrou na casa da família Harati, em Dublin. Foi então furtado um considerável número de jóias elaboradas no Egito e na Líbia. Porém, o furto não se limitou a este aspecto. Foram, ainda, levados 200.000 euros em efetivo e em notas de 500 euros, que se encontravam dentro de dois envelopes. Mahdi al-Harati regressou, de imediato, a Dublin e deu testemunho à polícia que a elevada quantia era proveniente dos serviços secretos dos Estados Unidos da América e destinada a ajudar os esforços de guerra na Líbia [4]. Estes 200.000 euros furtados da sua casa, no sul de Dublin, eram a soma que ele havia guardado para si. Quer isto dizer que o tranquilo e amável professor árabe de origem líbia, que vivia na Irlanda, confessou que estava levando a cabo o “negócio da revolução” na Líbia, pago pelos serviços secretos dos Estado Unidos.

Dias volvidos desta incidência, apresentou a demissão do seu lugar no “novo regime” da Líbia. Este fato pôde ser motivado por uma escalada violenta resultante das controvérsias entre o grupo de Abdulhakim Behlaj, no qual al-Harati estava envolvido, e a camarilha de Mahmoud Jibril. Ou pôde ainda dever-se à “perda” da quantia furtada? Se o homem é um “profissional”, porquê “lançar arrais”, enquanto tiver muitas mais “oportunidades” pela frente? Deste modo, agora, está em Alepo liderando a Brigada Liwa l-Ummah, de novo um particular grupo de combatentes de elite, composto por engenheiros, médicos, empresários, entre outros.

Porém, há ainda mais coisas a serem contadas sobre a história do “revolucionário profissional da Primavera Árabe”, chamado Mahdi al-Harati. De fato, antes da sua missão na Líbia, al-Harati, não esteve tão sossegado como se poderia depreender. Tinha estado a bordo do navio Mavi Marmara, no qual foram massacradas nove pessoas por soldados israelenses, em maio de 2010. Al-Harati foi desembarcado em maca, não por ter sido ferido durante o ataque brutal das forças israelenses, mas por um choque diabético que padeceu, justamente, antes do assalto ao navio. Teve um choque diabético, desceu com vida do barco e regressou a Dublin como um herói. E ainda recolheu, logo a seguir, os louros deste “feito”.

O Movimento Irlandês Contra a Guerra (IAWM), ajudou-o a subir a bordo da Frota de Gaza. Durante este período estabeleceu boas relações com o movimento anti-guerra de Dublin. Quando foi para a Líbia para lutar, debaixo da alçada da NATO e junto à Al Qaeda, o referido movimento anti-guerra IAWM fez apelos à “comunidade internacional” para armar o Conselho Nacional de Transição e reconhecer este como representante legítimo do povo líbio. O movimento “pacifista” irlandês exigia uma ajuda militar no valor de 1.300 milhões de US dólares, a serem canalizados para o Egito e para serem destinados aos “rebeldes líbios”, nos quais se incluía al-Harati [5]. E assim aconteceu.

O que é uma intervenção estrangeira?

Ao criticar o falso “internacionalismo” de Kautsky, onde se sustentava o desprezível e enganoso argumento menchevique, da I Guerra Mundial representar uma guerra defensiva e revolucionária, Lenin ilustrava:

"Uma guerra imperialista não deixa de ser imperialista, quando os charlatães, os fraseólogos ou os filisteus pequeno-burgueses apregoam “consignas” melífluas, mas apenas quando a classe que leva por diante a guerra e que se encontra ligada por milhões de fios (se não mesmo, “cabos”) econômicos, é de fato, derrubada e substituída no poder, pela classe verdadeiramente revolucionária: a do proletariado. Não existe outra forma de afastar a guerra imperialista ou a paz de rapina, igualmente imperialista" [6].

Quase cem anos depois desta argumentação de Lenin, existem novos fraseólogos e filisteus pequeno-burgueses lançando “consignas” melífluas sobre a guerra imperialista. Os filisteus pequeno-burgueses do nosso tempo, mais uma vez, criam falácias desprezíveis sobre a natureza e os agentes de uma nova guerra de agressão imperialista. Uma ferramenta habitual da falácia é a “oposição a toda a intervenção estrangeira”. Permitam-me continuar com o Movimento Irlandês “anti-guerra”. Os amigos de al-Harati e semelhantes emitiram um comunicado, em março de 2011, poucos dias volvidos após a divulgação de um nefasto comunicado do Conselho de Segurança da ONU, o da criação de uma “zona de exclusão aérea na Líbia”. Neste comunicado, era definido o que era considerado a “intervenção estrangeira”, por oposição ao que se considerava “um verdadeiro apoio à causa do povo”; e era assim, explicitado:

“Se a OTAN e a ONU, na realidade, quisessem apoiar e proteger os rebeldes, teriam procedido de outra forma. Poderiam ter enviado armas, diretamente, aos rebeldes e armamento antiaéreo para Benghazi, Alzentan e Zintan, junto à fronteira com a Tunísia e poderiam ter lançado armas e mantimentos em Ajdabira e Misrata. Poderiam ter oferecido ajuda médica e seguido o exemplo de muitos médicos líbios no exílio, que se apressaram a regressar à pátria, para oferecer ajuda aos feridos. Poderiam ter-se unido, no reconhecimento do Conselho Nacional, com sede em Benghazi, enquanto legitimo governo líbio”. 
“Então, onde está a justificação para a intervenção? Com 39.100 barris de reservas de petróleo de alta qualidade e com o preço, por barril, subindo acima de 105 dólares, as companhias petrolíferas ocidentais, revelam-se entusiasmadas, com a manutenção de acesso aos campos petrolíferos, na Líbia. A BP detém aí grandes investimentos, mas a Espanha e a Itália são grandes compradores do petróleo líbio e as empresas europeias mais importantes operam na Líbia, caso da Repsol espanhola, da italiana Eni, da francesa Total, da alemã Wintershall ou da OMV austríaca. À semelhança do Iraque, não podemos ignorar a questão do petróleo, como central, nesta intervenção militar.” [7]

Então, o que consideram uma guerra anti-imperialista estes filisteus pequeno-burgueses contemporâneos? O que entendem eles por “intervenção estrangeira”? Evidentemente, não consideram o abastecimento de armas, a preparação militar e de inteligência informativa aos chamados “rebeldes”, como formas de intervenção. Quer então isto dizer, que o lançamento de mísseis Tomahawk feitos a partir de drones Predator é uma intervenção estrangeira, mas o abastecimento deste tipo de mísseis às milícias do Conselho de Transição, não o é!

Além disso, segundo os fraseólogos do nosso tempo, também não se aplica como apelos à intervenção estrangeira, as intervenções militares pedidas pelos rebeldes, fazendo recurso a ataques aéreos, como veio a ser solicitado desde o início do conflito. Terão tido vergonha estes filisteus pequeno-burgueses, quando leram os relatórios da queda de Trípoli? A história foi contada pela Reuters, ou seja, um dos principais meios de comunicação da propaganda belicista [8]. Foi escrito, ostensivamente, para alardear de como os chamados rebeldes trabalharam apoiados pelas capitais do Ocidente. Dá-se conta, de forma detalhada, das íntimas relações entre a milícia do CNT e estas capitais – por exemplo, quantas vezes se reuniram no Palácio do Eliseu e de como se deram informações militares para que as forças da OTAN conduzissem bombardeamentos sobre objetivos, antes de se passar à fase de operações por terra, entre outras. Sabem os fraseólogos que os países imperialistas que adotaram a Resolução 1973 do Conselho de Segurança da ONU foram os mesmos que afirmaram a legitimidade internacional do Conselho Nacional de Transição líbio e que treinaram a sua milícia, incluindo nela mercenários da Al Qaeda, nas ações conduzidas nas montanhas ocidentais e noutros lugares?

Opor-se à intervenção direta da NATO em nome da “paz”, enquanto se apoia a guerra subsidiária travada a favor dos interesses do imperialismo, é a forma de atuar dos oportunistas de hoje. Efetivamente, pode ser que se tenham ruborizado, a seguir à leitura de notícias sobre Tawergha após a “revolução”, inclusive divulgadas por meios ocidentais como a BBC. E escreveram o seguinte, desta vez sobre a Síria (mas fazendo alusão à Líbia):

“Qualquer intervenção militar ocidental, só piorará as coisas. A intervenção militar da NATO na Líbia, no ano passado, só veio piorar a violência, com estimativa de 30.000 mortos, até agora, e as horríveis histórias contadas pelas ONG´s independentes em trabalho no terreno, onde são referidos os continuados massacres de represália e as constantes torturas perpetradas. A cidade de Tawergha, a sul de Misrata, lar de 30.000 africanos negros, foi praticamente aniquilada. A invasão ocidental e ocupações do Iraque e Afeganistão acarretaram uma ignominiosa violência, com o correspondente sofrimento destes povos.” 
“Aconteça o que acontecer na Síria, o IAWM não pode apoiar qualquer intervenção militar, sob qualquer forma, por parte das potências ocidentais. Os povos do Egito e Tunísia, demonstraram ser possível derrubar ditadores respaldados pelo Ocidente, sem recurso a qualquer ajuda ocidental. Os líderes ocidentais devem deixar de imiscuir-se na primavera árabe e permitir aos povos da região determinar o seu futuro. A melhor forma de auxiliar o povo sírio seria o Ocidente retirar o seu apoio aos regimes despóticos do Bahrein e Arábia Saúdita.” [9]

Só agora descobriram que a violência na Líbia e a intervenção da NATO “fez piorar” as coisas?!? Não obstante, é a mesma organização que defendia que se proporcionassem armas, dinheiro e treinamento aos autores desta violência. E quando se debruçam sobre a Síria e depois da vergonha sucedida na Líbia, vêem uma vez mais e querem fazer os outros ver, violência pura. Mas violência de quem? De Bashar al-Assad? Dos alauitas? Ou a violência dos mercenários islâmicos apoiados pelo Ocidente? "Não à intervenção estrangeira, mas sim aos “revolucionários” para que derramem sangue ao serviço das potências e do capitalismo ocidentais!". E se alguém se atrever a afirmar que ambas são “faces da mesma moeda”, será condenado por assadista ou gaddafista.

A pergunta sem resposta: De quem é esta guerra?

O chamado Movimento Anti-Guerra Irlandês é só um exemplo, entre tantos. A sua linha comum de pensamento baseia-se na falsidade e falácia da verdadeira natureza do desastre, em marcha, no Oriente Médio. Ou melhor, o principal problema reside na sua resposta a uma questão simples e que é “De quem é esta guerra?”.

Seja-me permitido citar outro exemplo de como a falsidade e a falácia são sustentadas por acadêmicos de “esquerda” bem conhecidos. Gilbert Achcar [10], em declarações ao jornal libanês Al Akhbar, refere à pergunta:

"O que pretendem os Estados Unidos das revoluções árabes? Encontram-se “atrás” do comboio, “nele” embarcado ou “vão à frente” do mesmo?" 
“Gilbert Achcar: Os Estados Unidos não vão à frente do comboio. Washington e o seu aliado, o Estado sionista, estavam e continuam muito preocupados com as mudanças no mundo árabe. Sabemos pela imprensa israelense que, inclusive, se preocupam com o regime sírio, já que garante um mínimo de estabilidade. Apesar disso, os Estados Unidos não se surpreenderam em absoluto com o que aconteceu.” [11]

Citando outro destes acadêmicos, Alex Calinnicos, do Partido Socialista dos Trabalhadores do Reino Unido [12], na sua critíca a Tariq Ali, sobre a visão de uma “recolonização” a partir da situação na Síria:

"A ideia que a Síria está sendo “recolonizada” implica que eliminar o regime de Assad é uma prioridade do Ocidente, desde há muito. Todavia não existe prova disso. Sob domínio do pai de Assad, Hafez, o Estado sírio estabeleceu-se como gestor de um capitalismo brutal, porém confiável." [13]

E continua afirmando a sua convicção, não obstante a evidência de que a explosão na Síria deu alento aos antagonistas regionais e ocidentais do regime sírio, pese o fato de a possibilidade de envio de tropas e de oferta de cobertura aérea aos “rebeldes” seja remota, concluindo que:

“A luta tem todas as características de um levantamento armado improvisado e desesperado. Poderíamos considerar se seria conveniente aos rebeldes militarizar a luta tão cedo. Podemos lamentar a ausência da classe trabalhadora, que foi tão importante na revolução egípcia.” 
“Mas pese a forma de como o processo homólogo sírio se precipitou para uma guerra civil, não é alterado o facto de que as suas raízes residem numa revolta popular.” [14]

Outro exemplo, vindo do outro lado do Atlântico, é expresso por Immanuel Wallerstein [15]:

“No entanto, não creio que, dentro de um ano ou dois, nos deparemos com o fato de que Assad tenha saído do poder ou que o regime tenha mudado a sua base. A razão está no fato de os que denunciam o regime de forma mais acesa serem os que não desejam, igualmente, o seu fim”. 
“De fato, os israelenses continuam obcecados com o Irã. E, efetivamente, a Síria baathista continua sendo uma potência aliada do Irã. Porém, ao fim e ao cabo, a Síria também tem sido um vizinho árabe relativamente tranquilo e uma ilha de estabilidade para os israelenses. De fato, os sírios apoiam o Hezbollah, mas o Hezbollah também se tem revelado calmo. Porque desejariam os israelenses arriscar uma turbulenta Síria pós-baathista? Quem exerceria o poder a posteriori? Não haveria uma tendência de afirmação, por via de uma agudização da jihad contra Israel? E a queda de Assad não conduziria à ruptura de uma relativa calma em que se tem mantido o Líbano? E, com isso, conduzir-se um renovado e fortalecido papel do Hezbollah nesse país? Israel tem muito a perder e não muito a ganhar, caso Assad caia.” 
(…) 
“Mas essa não é, justamente, a razão pela qual Obama e os seus assessores não vislumbram boas opções? Receberam pressões para envolver-se na situação da Líbia. Os Estados Unidos não perderam muitas vidas, mas obtiveram, realmente, alguma vantagem geopolítica do desenlace? O novo regime líbio, se se pode afirmar que existe um novo regime, é algo melhor? Ou resume-se ao início de uma longa instabilidade interna, como se regista no Iraque?” 
“Então, quando a Rússia vetou a resolução da ONU sobre a Síria, pode-se imaginar um longo suspiro de alívio, em Washington. E, assim, foi aliviada a pressão de subir a parada e iniciar uma intervenção como a que aconteceu na Líbia. Obama ficou protegido contra o assédio republicano sobre a situação síria, por força do veto da Rússia. E Susan Rice, a embaixadora dos Estados Unidos na ONU, pôde também atribuir a culpa aos russos. Foram “repugnantes”, como a mesma, tão diplomaticamente os classificou.” [16]

Depois de ler estas declarações, voltamos a mencionada questão “De quem é esta guerra?”

Segundo estes acadêmicos “esquerdistas”, definitivamente, esta não é uma guerra do imperialismo. Segundo Achcar, a melhor descrição dos eventos que estão a acontecer, é a de um “processo revolucionário”. Segundo o seu colega Callinicos, é uma “revolução” alicerçada num levantamento popular. E segundo os três (e, de resto, muitos mais acadêmicos do mundo ocidental), as possibilidades estão abertas num futuro próximo; existindo possibilidades muito diversas e o imperialismo, simplesmente, trata de manter o processo sob controle.

Portanto, a fórmula destes senhores é a seguinte: que não seja dado crédito à “retórica anti-imperialista” da esquerda; que não seja dado crédito aos “orientalistas” e aos “islamófobos” que se queixem dos extremistas islâmicos, dos salafitas, da Al Qaeda, entre outros; que seja apoiada a “revolução” já que esta tem a sua origem em causas populares, não obstante, não estar dirigida por uma genuína força de classe.

Examinemos então a formulação, com a pergunta:

1. É, simplesmente, uma retórica anti-imperialista superficial?

Que fatores devem procurar-se para avaliar se o processo em curso se ajusta aos interesses do imperialismo e, como tal, se manipula e orienta pelos centros imperialistas? Possivelmente, em primeiro lugar, devem analisar-se as reações à luz de uma clara base classista, contra o imperialismo e contra a dominação capitalista, e se evidenciam uma intensificação ou não. De seguida, deve aquilatar-se a situação das forças antagônicas aos interesses do capitalismo, nos fundamentos e política atual. E, junto com isto, deveria haver uma avaliação de como se estão formar as alianças e estruturas de cooperação do imperialismo.

Em acordo a estes três critérios, o que revela a análise à luz dos acontecimentos que se sucedem no Médio Oriente, desde há quase de dois anos?

Podemos afirmar que os trabalhadores da região estão levando a cabo uma guerra mais consciente, massiva e forte contra o imperialismo e as potências capitalistas? Mais concretamente, podemos dizer que os trabalhadores do Egito, Tunísia, Líbia ou Síria, entre outros, estão agora mais próximos de afirmar a sua classe, por força dos acontecimentos que se registam? Ainda que se possa exaltar algumas conquistas parciais na Tunísia e Egito, ninguém pode dar uma resposta satisfatória à pergunta sobre se houve consequências positivas para as classes trabalhadores e para a luta, resultantes do derrubamento dos regimes ditatoriais em qualquer destes países. Pelo contrário, o que se observa é que, nestes países, as regras burguesas foram “restauradas” conservando-se a coluna vertebral dos antigos regimes. Na região existem, agora, novas ordens capitalistas com maiores vantagens. E agora existem essas maiores vantagens, já que os principais meios de comunicação ocidentais, grupos de reflexão, entre outros, com a participação de intelectuais “esquerdistas”, lhes concedem a etiqueta de “revolucionários”. Como afirmamos num folheto recentemente publicado, [17] qualquer força política que toma o poder com uma revolução social, é legitima. Assim, é-lhes outorgado grande legitimidade, por meio de todos os instrumentos das potências ocidentais. Por consequência, agora temos poderes políticos burgueses respaldados pelas bases populares das organizações islâmicas e equipadas com as vantagens ideológicas do islamismo, de forma a dominar as classes trabalhadoras, bem como as suas propostas para os povos da região.

Então, quais as implicações destes restaurados poderes burgueses, do ponto de vista das alianças e de estruturas de colaboração do imperialismo na região? Os intelectuais “esquerdistas” que afirmam que Israel não se sente confortável com a situação em curso na região não conseguem entender o facto de que Israel se encontre em processo acelerado de manobras militares, na península do Sinai – volvidos trinta anos – como sinal do seu “desconforto”? Ou resume-se ao reflexo do vazio aberto ante Israel e que neste, agora, se manobra? É tão difícil de entender que, após estes acontecimentos, Israel aproveitou a oportunidade de fazer em cacos a estrutura de alianças do Irão, o que não era sequer equacionado, até há dois anos? Por outro lado, nada significa que os funcionários do Estado sionista façam declarações sobre o chamado armamento químico do regime sírio e admitam utilizá-las como pretexto para uma hipotética intervenção? Nada significa que ameacem a Síria, o Líbano e o Irão com uma intervenção militar e não existam reações em contra, em qualquer parte do mundo?

Olhemos para o caso da Turquia. Efetivamente, o governo do AKP (Partido da Justiça e Desenvolvimento [kemalista – NT] tem sido tão fervorosamente belicista, que inclusive colocou os nervos em franja à administração americana, antes das eleições presidenciais. É um facto que também foi assumido risco sem qualquer conta, como se constata pela evolução da situação que se vive na região kurda da Síria e pelas crescentes tensões no seio da população alauita da Turquia. Todavia, qualquer pessoa que tenha uma mínima ideia sobre a Turquia, pode constatar que este governo está empenhado nos seus delírios neo-otomanos – nos quais investiu bastante na última década, pelo menos – e que, finalmente, tem condições de os concretizar, pela realidade resultante da chamada “primavera árabe”. O governo do AKP não está preocupado com os acontecimentos na região, mas apenas com o surgimento de obstáculos no papel que se propõe desempenhar. Os que aclamaram Erdogan, há dois anos, pelas suas posições contra Israel, deviam pensar no mesmo Erdogan como figura política que contribui para um “plano de operações” junto com os seus aliados da NATO, na agressão à Síria.

2. Quem é um orientalista?

Na Tunísia e no Egito, a Irmandade Muçulmana fez-se com os governos. Na Líbia, uma coligação mais complexa e mais ampla de islamitas tomou o poder. Na Síria, a força que se perfila mais próxima de poder tomar o poder, é também islamita. É um fato que nalguns destes países as organizações islâmicas detêm uma grande base popular, que em grande medida é de cariz, justamente, popular, pobre e plebeia. Não obstante, os “nossos” intelectuais “esquerdistas”, que celebram a vitória dos islamitas, parecem esquecer-se que o movimento islamita, enquanto ator político nesses países, é uma parte do antigo status quo dos regimes depostos. Portanto, a lógica é a mesma lógica aplicada no orientalismo: não obstante, os islamitas sem nunca terem tomado o poder na Tunísia, no Egito, na Líbia ou na Síria, têm o apoio das massas, em virtude de terem interpretado o papel de representatividade dos oprimidos. É, pois, uma análise orientalista, já que retrata o Médio Oriente do ponto de vista estrangeiro, assente nas suas presunções e preconceitos. Trata-se de uma imagem, de uma construção mental da geografia política da região, já que o movimento islamita foi um componente da estrutura de poder e da ideologia oficial da região, em muitos momentos, sem contudo terem chegado ao poder, até há dois anos.

É assim tão difícil compreender que, depois destes acontecimentos, Israel tenha aproveitado a oportunidade de estilhaçar a estrutura de alianças do Irão, algo que há dois anos não se podia imaginar?

Outra implicação do orientalismo genuíno é a codificação de toda a herança de Ilustração do Médio Oriente enquanto algo exterior, alheio, algo imposto pelos regimes despóticos. Porém, toda a região tem uma tradição de movimento de classe e um patrimônio de luta anti-imperialista, anti-colonialista e anti-sionista. A convicção de que, no Oriente Médio, os poderes populares só se podem construir através das forças islâmicas é puramente orientalista.

Com tal a assumir-se bastante normal, nesta geografia, a derrota do movimento operário – inclusive, antes que se possa gerar uma genuína representatividade e organização para a defesa dos interesses próprios –, é outra faceta de abordagem orientalista. Esta abordagem assume, implicitamente, que as forças da classe operária do Médio Oriente só podem transformar-se enquanto componente da “luta popular democrática” contra as ditaduras, o neoliberalismo, etc. Considera-se, pois, que é suficiente a participação das massas trabalhadoras para rotular processos destes, como “movimentos operários” ou mudanças de regime como “revoluções”. Não obstante, nem sequer os movimentos puramente burgueses poderiam alcançar uma restauração a tão grande escala, sem assegurar a participação e apoio das massas trabalhadoras, até certo ponto.

3. Pode existir revolução operária sem organização operária?

Para todos os fins práticos, o seguinte é um caso complicado de poder ser defendido; certos intelectuais ocidentais de “esquerda” (do estilo de Achcar, Wallerstein e [12] Callenicos) falam sobre a “revolução”, o “processo revolucionário” ou o “levantamento popular”. Todavia, não existem sólidos indícios que mostrem que a organização da classe operária se tenha desenvolvido em países nos quais ocorreu a mudança de regime. Então qual a base para classificar estes acontecimentos como “revolução”, atendendo a que a classe operária não possa sequer avançar no seu nível de organização econômica e política e, muito menos, tomar o poder político?

Outra questão problemática é a de que não ocorre uma distinção qualitativa entre o que sucedeu na Tunísia e Egito e o que sucedeu após estes. Grandes massas participaram nos êxitos da Tunísia e Egito. Porém, na Líbia não se pode falar de “movimento popular”, nem no início, nem no final do processo. Apenas tivemos uma operação bem planeada que foi executada pelas potências imperialistas e seus cúmplices.

Na Síria, é complexo dizer de que lado está o “apoio popular”. Basta ver os chamados representantes da “oposição síria” para registar uma ambiguidade óbvia: ex-oficiais do exército de Assad, jihadistas que combateram no Iraque, Afeganistão, Líbia, entre outros; a Irmandade Muçulmana cuja base popular é muito mais reduzida do que na sua homologa egípcia; ex-diplomatas, acadêmicos, políticos, etc., que na sua maioria residem em países ocidentais…Estes são os que representam a “oposição síria” em geral. Por outro lado, desde Março de 2011, assistimos a muitos comícios populares em apoio do regime baathista, massividade esta que não pode sequer ser escamoteada pelos meios de comunicação ocidentais. É quase de conhecimento geral, que alauitas, cristãos, kurdos e até a maioria de sunitas pobres dos arredores de Alepo e Damasco não apoiam os chamados “rebeldes”.

Por outro lado ainda, os factos também não “demonstram” que os referidos sectores da população síria apoiem indiscutivelmente Bashar al-Assad. Este é outro sinal de como o chamado “levantamento popular” susteve a possibilidade de desenvolvimento de um verdadeiro movimento de massas contra o regime baathista. Isso sim, a maioria do povo sírio sente-se agora impelido a ter que tomar partido por ele, em virtude da guerra suja promovida pelos poderes ocidentais contra o seu país e o seu futuro. Então, surge a questão, que tipo de “levantamento popular” é este?

O oportunismo agora e o oportunismo há cem anos

Por estranho que pareça, o mundo está a passar por um processo semelhante ao registado há quase cem anos. Os oportunistas agrupados na II Internacional apoiaram a guerra imperialista visando a partição e a repartição do mundo. Foram gerados pretextos em nome da sua própria burguesia, foram proferidas consignas de falsos “patriotismo” e internacionalismo para defender interesses dos próprios imperialistas. Dentro do movimento operário, houve atuações enquanto representantes diplomáticos dos seus estados imperais.

Volvidos cem anos, em condições estranhamente similares, com uma profunda crise do capitalismo e proliferação das suas guerras de agressão, vemos o oportunismo nos nossos dias, repetindo procedimentos. Contemplamos Achcares em vez dos Kautskys, atuando enquanto mentores dos “rebeldes sírios” na sua estratégia político-militar. Hoje somos confrontados com os Biskys e Mélénchones, subscrevendo as resoluções do imperialismo europeu, alinhavadas para uma intervenção militar na Síria.

Gritam eles, como grita o Partido da Esquerda Europeia “Não à intervenção estrangeira, não às zonas de exclusão aérea, não a NATO!” De facto tudo isso está bastante certo. Declaram que intensificarão os seus esforços para ajudar as forças sociais e políticas democráticas, progressistas e de esquerda na Síria, para alcançar justos e pacíficos resultados, no presente conflito social e político, e que irão tomar uma posição em todos os âmbitos internacionais (Parlamento Europeu, parlamentarismos nacionais, movimentos sociais, etc.) a fim de evitar as estratégias militaristas que estão a ser desenvolvidas pelas forças imperialistas. Certo, de novo!

No entanto, surge-nos a pergunta “onde estavam os seus princípios e os seus esforços para impedir todas as estratégias militaristas quando os seus líderes diziam “Sim” à resolução de 10 de Março de 2011 sobre a Líbia, que contemplava que “nenhuma das medidas previstas nas determinações da Carta das Nações Unidas pode ser ignorada” e pediam aos representantes da diplomacia externa da UE que “iniciassem movimentações para uma possível tomada de decisões, no Conselho de Segurança da ONU, para a adoção de novas medidas como o estabelecimento de uma zona de exclusão aérea”? Mais uma pergunta: O que consideram vocês, “estratégias militaristas”? O que consideram vocês, “intervenção estrangeira”? É meramente, a imposição de zonas de exclusão aéreas, ou inclui dar abrigo, capacitar e apoiar milícias armadas, que lutam com todos os meios contra um país?

Notas

1. Artigo intitulado “As Syrian war drags on, jihadists take bigger role”. Disponível em inglês no portal do The New York Times em: http://www.nytimes.com/2012/07/30/world/middleeast/as-syrian-wardrags-on-jihad-gains-foothold.html?_r=0. Consultado em 15 de Dezembro de 2013. – [NT]

2. Artigo “Irish Lybians join rebels trying to oust Gadafy”, publicado a 8 de Agosto de 2011 no The Irish Times. A informação do autor deste artigo sobre a data desta fonte contraria a data de publicação do mesmo no jornal irlandês, artigo este que foi da autoria do correspondente português do Expresso – Paulo Nunes dos Santos –, que acompanhou in loco o processo de deposição de Gaddafi. – [NT]

3. In The Irish Times ; “Irish Lybians join rebels trying to oust Gadafy”. 8 de Agosto de 2011.

4. Testemunho publicado na edição online do SundayWorld.Com, em 7 de Novembro de 2011 e no artigo intitulado “TINKER RAIDERS, SOLDIER, SPY”. Disponível em: http://www.sundayworld.com/topstories/ news/tinker-raiders-soldier-spy.

5. A 28 de março de 2011, num comunicado de imprensa do IAWM, disponível em: http://irishantiwar.org/node/7, consta que: “Se os vizinhos da Líbia, Egipto e Tunísia, prestassem o seu apoio militar, logístico e prático, aos bastiões dos rebeldes na Líbia, esta questão auxiliaria de imediato os povos árabes a assumir o controlo das suas revoluções. O melhor uso que o Egipto poderia fazer dos 1.300 milhões de dólares da ajuda militar que recebe dos Estados Unidos, seria armar os rebeldes líbios. Estas medidas poderiam ajudar a um resultado que, ao que parece, irá favorecer o Ocidente – com a partição do país, com a zona Leste controlada pelos rebeldes e o restante território nas mãos de Gaddafi”.

6. LENIN, V.I; “A Revolução Proletária e o Renegado Kautsky”; Obras Escolhidas de V.I.Lenine, Tomo III, Ed. Avante, 1977.

7. Tradução do original em inglês intitulado Irish Anti-War Movement protest: NATO bombing and the no-fly zone, disponível em: http://irishantiwar.org/node/1209.

8. NAKHOUL, Samia “ Special Report: The secret paln to take Tripoli”, Reuters, 6 de Setembro de 2011, disponível em: http://www.reuters.com/article/2011/09/06/us-lybia-endgameidUSTRE7853C520110906.

9. Tradução do original em inglês Irish Anti-War Movement; Statement on Syria, 19 de fevereiro de 2012, disponível em : http://irishantiwar.org/node/1618.

10. Gilber Achcar – académico socialista libanês e activista anti-guerra.

11. CHARIF, Dima; “Gilbert Achcar: The Revolution has just begun”; Al Akhbar, 24 de agosto de 2012.

12. Filósofo politico trotskista, membro do CC do Socialist Workers Party.

13. CALLINICOS, Alex; “The Revolution in Syria is rooted in popular uprising” in Socialist Worker, nº. 2313, 28 de julho de 2012.

14. Idem, ibidem.

15. Immanuel Wallerstein – sociólogo e cientista social americano.

16. WALLERSTEIN, Imannuel; “The Syrian Impasse”, 15 de Fevereiro de 2012, disponível em: http://www.iwallerstein.com/syrian-impasse/.

17. Folheto publicado pelo Partido Comunista da Turquia em dezembro de 2011, intitulado “Posição Política do Partido Comunista da Turquia sobre os acontecimentos no mundo árabe e no Oriente Médio” e com o seguinte conteúdo: “Porque é que o imperialismo quer utilizar o conceito de “revolução”? Não representa risco acrescido, de acordo com a atual crise, a maior da história do capitalismo? Acreditamos que há uma resposta simples a estas perguntas: porque qualquer poder politico que “vem com uma revolução” é legítimo... Concretizando a ideia, a conquista do poder politico com uma revolução implica necessariamente o consentimento das grandes massas, o que, por sua vez, afirma a legitimidade. Portanto, o imperialismo viu a oportunidade que tinha de criar associados com maior legitimidade na região, se para isso manipulasse com sucesso o conceito de revolução. Deste ponto de vista, os imperialistas arriscaram jogar o “trunfo” da revolução, já que é muito mais credível na situação atual do imperialismo-capitalista. Uma vez mais, abafam as exigências essenciais, legítimas e justas das massas trabalhadoras no seu próprio interesse. Porém, desta vez, criando a ilusão de que estão ao lado das massas trabalhadoras.

* Membro do Comitê Central do Partido Comunista da Turquia e redator-Chefe do portal de
notícias da esquerda “SoL Haber PortaLi”.

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