24 de fevereiro de 2014

Solução do FMI para a crise: mais do mesmo

Michael Roberts

The Next Recession

Os ministros de Economia e Finanças do G20 se reuniram em Sydney, na Austrália, no último fim de semana e anunciaram que o objetivo do G20 era aumentar a taxa de crescimento mundial em 0,5% ao ano, de modo que a produção mundial aumente 2% ou 2,25 bilhões de dólares para o ano de 2018. Em novembro, o G20 se reunirá novamente em Brisbane, Austrália, para delinear as medidas reais que acreditam ser necessárias para alcançar esse ritmo de crescimento mais rápido.

Como isso será feito? Um documento de apoio elaborado pelo FMI descreve a estratégia do documento do FMI para a reunião do G20 em Sydney. Basicamente, tudo se reduz à adoção de mais medidas neoliberais de desregulação dos mercados, particularmente em serviços como financiamento, seguros e consultorias empresariais, à “reforma” do mercado de trabalho para a redução do gasto com aposentadorias, ao aumento de poder dos empresários para contratar e demitir, e à redução dos direitos trabalhistas – assim como mais investimentos em infraestrutura, isto é, que os governos proporcionem trabalho às empresas de construção civil do setor privado com o dinheiro dos cortes nos gastos sociais.

Em outras palavras, será mais das mesmas políticas aplicadas antes, e que não evitaram o colapso financeiro mundial e a grande recessão. O FMI estima que a economia mundial cresceu apenas 3% no ano passado, e espera que cresça 3,75% este ano e 5% em 2015. Mas, como o documento do FMI ressalta: “No entanto, cinco anos depois da Grande Recessão, a produção se mantém muito abaixo do nível da tendência a longo prazo, especialmente nas economias avançadas. Em 2013 (per capta), as perdas de produção em relação à tendência chegaram a 8% para o G-20 em seu conjunto, com uma perda maior nas economias avançadas com déficit (11%). Os volumes de comércio (exportações e importações reais) também estão muito abaixo das tendências. Cabe destacar que a recuperação também foi muito mais lenta do que o previsto na esteira da crise: em 2013, o nível do PIB real do G-20 foi 2% abaixo da projeção do cenário preparado para o Processo de Avaliação Mútua de 2010”.


Pior ainda: o FMI calculou que a economia mundial se manterá em uma recuperação muito frágil e nunca recuperará as perdas da Grande Recessão, a menos que os governos adotem medidas específicas. “É importante destacar que, no futuro, as projeções de referência do WEO a médio prazo sugerem uma crise permanente relacionada às perdas de produção conjunta para o G-20, impulsionada por grandes perdas para as economias avançadas, nais quais se prevê que o crescimento potencial continuará sendo, em geral, fraco”. De fato, o gráfico mostra que a perda de produção conjunta do G-20 é cada vez maior, e não menor.

O FMI também confirmou a opinião manifestada muitas vezes neste blog: de que o fator chave na crise mundial foi o colapso dos investimentos, e não o ponto de vista do keynesiano simplório, de que foi a falta de poder aquisitivo dos consumidores. “Uma descomposição da demanda das perdas de produção mostra que os investimentos nos países do G-20 se mantiveram muito abaixo da tendência a longo prazo, em 18%. as perdas são especialmente grandes nas economias com um déficit importante, mas também nas economias com um superávit significativo ou um déficit emergente. Para o G-20 em seu conjunto, o consumo é apenas ligeiramente inferior à tendência. No entanto, isso mascara variações regionais, com um consumo baixo nas economias com déficit significativo e superior à tendência nas economias emergentes”.

O FMI chegou a afirmar que o motivo da frágil recuperação também está relacionado ao que parece ser uma desaceleração permanente na acumulação de capital. Aparentemente, o “efeito de limpeza” das quebras e da liquidação dos capitais mais frágeis da Grande Recessão não foi suficiente para reestabelecer os níveis de investimento: “o efeito amedrontador da crise (por exemplo, a má alocação do capital, difícil de corrigir, antes das fases anteriores à crise, os cortes nos gastos em pesquisa e desenvolvimento) pode ter atuado contra o 'efeito de limpeza' (o fato de que as empresas menos produtivas sejam as primeiras a quebrar). A desaceleração da acumulação de capital também afetará negativamente o crescimento potencial”.

Evidentemente, o documento do FMI não explica por que o “efeito de limpeza” não foi suficiente. Este blog argumentou que é porque a rentabilidade das principais economias não se recuperou o suficiente e o peso morto do capital fictício continua sendo um fardo para os novos investimentos. Provavelmente, será necessária uma nova recessão para deixar isso mais claro. Por sua vez, o FMI defende o mais do mesmo na política econômica. Em primeiro lugar, as injeções monetárias dos bancos centrais devem continuar: “A política monetária deveria continuar apoiando a demanda nas economias avançadas, em vista das ainda grandes brechas de produção e da consolidação fiscal em curso”.

O FMI reconhece que a consolidação fiscal (uma frase bonita para as políticas de austeridade de reduzir o gasto público e os serviços sociais) contribuiu para lenta recuperação, mas ainda assim continuará apoiando a austeridade: “a consolidação fiscal gradual deve prosseguir a médio prazo”.

Mas a principal forma por meio da qual o FMI considera que a economia mundial pode recuperar de novo a tendência ao crescimento é com as “reformas estruturais”, ou reformas da oferta, que foram aplicadas no período neoliberal anterior à Grande Recessão. Segundo o FMI, é necessário fazer mais do mesmo.

Em primeiro lugar, “as reformas do mercado de produtos podem melhorar a produtividade mediante o aumento da competência e/ou melhorar o meio empresarial”. O que essas “reformas” implicam? Segundo o FMI, a reforma do mercado de produtos significa uma “redução de 20% na regulação das indústrias de serviços”, ao passo que a reforma do mercado de trabalho significa uma “redução de 20% na rigidez da legislação de proteção ao emprego”. Significa flexibilizar “uma legislação excessivamente restritiva de proteção ao emprego”; promover o aumento da taxa de atividade trabalhista mediante o aumento no gasto para o cuidado das crianças; promover a reforma das aposentadorias (isto é, cortes) e “em alguns casos, a redução das taxas de reposição dos subsídios por desemprego”.

Quanto ao investimento em infraestrutura, o FMI reconhece que há enormes necessidades sociais em todo o mundo. Mas acredita que esse tipo de investimento deve ser realizado pelo setor privado utilizando o dinheiro dos contribuintes: “Os países também poderiam fomentar uma maior participação do setor privado na provisão de serviços de infraestrutura, inclusive mediante iniciativas público-privadas”, a fim de aumentar esse investimento em apenas 0,5% em dois anos. E como isso será pago? Bem, mediante “uma redução dos repasses gerais”, o que significa cortes em gasto social e em outros subsídios sociais.

É isso o que temos. O FMI ressalta que as economias do G-20 não se recuperaram das enormes perdas sofridas na produção durante a Grande Recessão, e que o crescimento econômico continua sendo muito inferior à tendência anterior de crescimento. O motivo principal é que o setor capitalista não investe o suficiente para conseguir que as economias voltem a crescer. A resposta que os líderes do G-20 adotaram para superar esse fracasso é aumentar a desregulamentação, reduzir os direitos dos trabalhadores e aumentar o gasto público em infraestrutura – mas por meio de empresas privadas de construção, e com novos cortes nos gastos sociais.

Trata-se de uma continuação das políticas que já fracassaram. Por outro lado, é pouco provável que sejam adotadas de modo coordenado pelos governo do mundo. Para a mão de obra, temos o mesmo. Enquanto isso, a miséria continuará.

Michael Roberts é um reconhecido economista marxista britânico que trabalhou por 30 anos em Londres como analista econômico.

Nenhum comentário:

Postar um comentário