18 de março de 2014

O recuo de Obama na Crimeia

Mike Whitney

CounterPunch: Tells the Facts and Names the Names

Eu nunca pensei que viveria para ver o dia em que o Departamento de Estado dos Estados Unidos se aliou a pontos de vista neonazistas e de uma gangue de bandidos que tomaram o poder em um violento golpe de Estado. No Iraque, Líbia e Síria, os formuladores de políticas dos EUA acabaram fortalecendo grupos islâmicos radicais. Isso já foi ruim o suficiente. Agora, na Ucrânia eles estão fortalecendo herdeiros de Adolf Hitler. Como isso não é um escândalo? 
Justin Raimondo, From Iraq to Ukraine: A Pattern of Disaster

Tradução / A política externa da administração Obama sofreu sua pior derrota em cinco anos no último domingo, quando o povo de Crimeia votou esmagadoramente para rejeitar o governo repleto de neonazistas que tomou o poder em Kiev, com o apoio de Washington, e para fazer parte da Federação Russa. A votação, cujo percentual de eleitores chegou a 93%, "aprovando a separação da Crimeia em relação a Ucrânia e sua união com a Rússia", reflete os fortes laços étnicos, culturais e históricos do povo da região com Moscou, bem como o medo compreensível que ser "libertado" pelos EUA poderia significa pobreza de terceiro mundo e caos generalizado do tipo que ocorre no Iraque, Afeganistão , Líbia e Síria.

O governo Obama rejeitou o resultado quase unânime do referendo, e anunciou que iria pressionar por sanções econômicas contra a Rússia, já na segunda-feira. Em resposta, o presidente russo, Vladimir Putin, afirmou que o referendo foi realizado "conforme o direito internacional " e que ele iria respeitar a vontade do povo. Putin, que estava assistindo aos jogos Paraolímpicos em Sochi, sabiamente ficou acima da batalha durante a crise, em meio às acusações histéricas e ameaças emitidas quase diariamente pelo presidente Obama ou seu ajudante John Kerry, o palhaço mais incompetente que já serviu como Secretário de Estado dos EUA.

Entre Obama, Kerry e o irascível John McCain, que ficou jorrando na mídia suas diatribes da Guerra Fria, como um velho rabugento espantando crianças do gramado da casa, os EUA fizeram uma série de coisas que deixaram sua política externa em frangalhos. O fiasco da Crimeia mostra que a equipe de Obama pode estar repleta de sonhadores e futuristas da globalização, mas, infelizmente, não conta com pessoas pragmáticas com visão geopolítica e com uma sólida compreensão do modo como o mundo funciona hoje. Obama não foi páreo para Putin que venceu no primeiro e no segundo tempo. Aqui está um resumo de um artigo da Associated Press:

Moscou... faz proposta para a Ucrânia se tornar um Estado federal como uma forma de resolver a polarização entre as regiões ocidentais da Ucrânia - que defendem a aproximação com as 28 nações da UE - e suas áreas orientais, que têm longos laços com a Rússia. 
Em um comunicado segunda-feira, o Ministério das Relações Exteriores da Rússia pediu ao parlamento da Ucrânia para convocar uma assembléia constituinte que poderia redigir uma nova Constituição para tornar o país uma federação, outorgando assim mais poder para as suas regiões. A Chancelaria russa também disse que o país deve adotar um "estatuto político e militar neutro", refletindo uma preocupação de Moscou sobre a perspectiva de a Ucrânia ingressar na OTAN". (Crimeia declara independência e apreende bens, AP)

Então, é assim que Putin pretende jogar o jogo, usando instituições democráticas básicas para bloquear o plano de Washington para implantar bases de mísseis da OTAN e dos EUA na Ucrânia? Parece uma jogada inteligente para mim.

Mais uma vez, Putin fez todos os esforços para minimizar o seu papel na tomada destas decisões, para não constranger a equipe de Obama que parece determinada a parecer um grupo de tolos impotentes a cada oportunidade. Veja como analista Michael Scheuer resumiu o comportamento de Putin, em um artigo no site de Ron Paul:

A diferença na intervenção na Ucrânia em relação a outras que o Ocidente promoveu é que os líderes políticos adolescentes que dirigem o Ocidente encontraram um adulto decidido, realista e nacionalista, na pessoa de Vladimir Putin, e eles não sabem o que fazer. Eles estão aprendendo que a Ucrânia não é a Líbia ou Egito, e que Putin não vai deixar que o Ocidente faça na Ucrânia - ou pelo menos da Crimeia - a mesma bagunça de suas intervenções anteriores indevidas feitas no Egito e na Líbia, por exemplo. Putin tem uma visão muito clara dos interesses nacionais genuínos da Rússia, e o acesso seguro à base da frota do Mar Negro, na Crimeia, é um deles, tem sido ao longo dos séculos, e vai continuar assim no futuro... 
Os líderes dos EUA e da Europa deveriam se perfilar para agradecer Vladimir Putin por uma lição dolorosa, mas profunda, sobre a forma como o líder adulto de uma nação protege interesses nacionais genuínos de seu país. " (A anexação da Crimeia pela Rússia é o custo da intervenção dos EUA/UE na Ucrânia, Michael Scheuer, Ron Paul Institute)

Putin sabe que derrotar a estratégia de Washington para controlar a Crimeia terá graves consequências. Ele deve se preparar agora para a ladainha típica de ataques assimétricos incluindo operações secretas, operações especiais, armando jihadistas tártaros para incitar a violência na Crimeia, ONGs apoiadas pelos EUA fomentando agitação em Moscou, etc, etc, bem como a intensificação do apoio militar e logístico dos EUA para os grupos fascistas que já se transformaram em aparato de segurança do governo impostor, um remake assustador da Gestapo de Hitler. Aqui está o resumo do World Socialist Web Site:

Na quinta-feira, o Parlamento ucraniano votou para estabelecer uma Guarda Nacional de 60 mil homens, recrutando efetivos entre os "ativistas" dos protestos anti-Rússia e em academias militares. A força será supervisionado pelo novo chefe de segurança, Andriy Parubiy, um dos fundadores, no início da década de 1990, do neonazista Partido Social - Nacional da Ucrânia. Seu vice, Dmytro Yarosh, é o líder dos paramilitares do Setor Direito. É o equivalente ucraniano das tropas de assalto de Hitler. 
Além de ajudar o Ocidente em suas provocações contra Moscou, a principal responsabilidade desses elementos será realizar um ataque social contra a classe trabalhadora ucraniana a mando do capital internacional... (O que o regime apoiado pelo Ocidente está planejando para os trabalhadores ucranianos, World Socialist Web site)

E aqui está um pouco mais do mesmo artigo sobre o programa de austeridade radical que o FMI planeja impor sobre a Ucrânia, a fim de diminuir o governo, reduzir as pensões, cortar os serviços sociais e deixar o país em um estado permanente de depressão:

Por trás de incessante invocações retóricas de uma revolução democrática, o governo recém-instalado na Ucrânia, formado por ex-banqueiros, fascistas e oligarcas, está preparando medidas de austeridade draconianas. 
Os planos que estão sendo elaborados são abertamente descritos como o "modelo grego ", ou seja, o programa de cortes drásticos imposto à Grécia pelo Fundo Monetário Internacional e pela União Europeia que fez a economia da Grécia entrar em colapso em cinco anos e produziu um enorme crescimento do desemprego e da pobreza ... ("O que o regime apoiado pelo Ocidente está planejando para os trabalhadores ucranianos , World Socialist Web site)

Então, Putin definitivamente tem seu trabalho poupado acerca da caracterização dos novos dirigentes da Ucrânia. Felizmente, ele parece estar recebendo bons conselhos de seus assessores políticos e militares que têm evitado a arrogância inútil ou a retórica incendiária do tipo da que vem saindo diariamente da Casa Branca e do Departamento de Estado.

Apesar do fato de o Kremlin não querer que Washington seja humilhada no episódio, às vezes certos eventos tornam isso impossível, como os analistas políticos astutos do Moon of Alabama (MOA) apontaram no domingo. Aqui está uma sinopse de um post no MOA que mostra como Washington tem, essencialmente, capitulado a Moscou e aceitado a sua proposta básica para resolver a crise, enquanto tenta enganar o público fazendo parecer que essa política foi ideia dos EUA. Eis o trecho:

Houve um telefonema hoje entre o secretário de Estado Kerry e o ministro das Relações Exteriores russo Lavrov. O convite veio depois de uma reunião de estratégia sobre a Ucrânia na Casa Branca. Durante a chamada, Kerry concordou com as exigências russas para a federalização da Ucrânia, em que os estados federados terão uma forte autonomia em relação ao governo central, configurando uma Ucrânia “finlandizada”. Putin tinha oferecido esta saída como alternativa para evitar a escalada do conflito e Obama aceitou. O anúncio russo foi o seguinte: 
(Reuters) - Lavrov e Kerry concordam em trabalhar sobre a reforma constitucional na Ucrânia: ministério russo... 
O ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, e o secretário de Estado dos EUA, John Kerry, concordaram no domingo em buscar uma solução para a crise na Ucrânia, apostando no caminho das reformas constitucionais, disse o Ministério das Relações Exteriores russo. Ele não entrou em detalhes sobre o tipo de reformas necessárias, exceto para dizer que deve ser "aceitável, de uma forma geral, levando em conta os interesses de todas as regiões da Ucrânia". 
"Sergei Viktorovich Lavrov e John Kerry concordaram em continuar trabalhando para encontrar uma resolução sobre a Ucrânia por meio do encaminhamento rápido da reforma constitucional com o apoio da comunidade internacional", disse o ministério em um comunicado (Ucrânia: EUA Takes Off-Ramp, Agrees To Russian Demands, Moon of Alabama)

Dá pra acreditar? A equipe pateta de Obama quer que o público acredite que toda a proposta da reforma constitucional foi ideia sua, para que as pessoas não percebam que a administração calhambeque e o presidente peso pena correram para pegar a bandeira branca e se dirigiram para as colinas. Este é um clássico de Barack Obama: tentar fazer com que um recuo ou retirada pareça uma vitória.

É patético!

Mike Whitney reside em Washington. Ele contribuiu para Sem esperança: Barack Obama e a política da ilusão (AK Press, 2012). Ele pode ser contactado pelo e-mail: fergiewhitney@msn.com.

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