28 de março de 2014

A crise na Ucrânia e a reestruturação do mundo

Pierre Charasse

A crise na Ucrânia pôs em evidência a magnitude de manipulação da opinião pública ocidental pela grande mídia, canais de TV como CNN, Foxnews, Euronews e muitos outros, bem como toda a imprensa alimentada por agências de notícias ocidentais. A maneira com que o público ocidental é mal informado é impressionante; mas, ainda é fácil de ter acesso a uma riqueza de informações por todos os lados. É preocupante ver quantos cidadãos do mundo estão sendo atraídos para uma russofobia, nunca vista mesmo nos piores momentos da Guerra Fria. A imagem que entra o inconsciente coletivo através da máquina de poderosos meios de comunicação ocidentais é que os russos são "bárbaros e atrasados" em relação ao mundo ocidental "civilizado". O discurso muito importante que Vladimir Putin fez em 18 de março, após o referendo na Crimeia, literalmente foi boicotado pelos meios de comunicação ocidentais, pois estes abriram um grande espaço para as reações ocidentais, todas negativas, é claro. No entanto, em seu discurso, Putin explicou que a crise na Ucrânia não foi desencadeada pela Rússia e apresentou, com grande racionalidade, a posição da Rússia e os legítimos interesses estratégicos de seu país no conflito pós-ideológico.

Humilhada por seu tratamento pelo Ocidente desde 1989, a Rússia acordou com Putin e começou a reconectar-se com uma política de grande poder, tentando reconstruir as linhas da força histórica tradicional da Rússia czarista e da União Soviética. A geografia muitas vezes controla a estratégia. Tendo perdido grande parte de seus territórios"históricos", nas palavras de Putin, e população russa e de nacionalidade russa, a Rússia estabeleceu um grande projeto nacional e patriótico para recuperar o seu estatuto de superpotência com ação "global", garantindo a segurança de suas fronteiras terrestres e marítimas. Isso é exatamente o que o Ocidente quer evitar em sua visão de mundo unipolar. Bom jogador de xadrez que é, Putin está vários passos à frente graças a um profundo conhecimento da história, do mundo real e das aspirações de grande parte da população dos territórios anteriormente controlados pela União Soviética. Ele conhece a União Europeia perfeitamente, suas divisões e fraquezas, a capacidade militar da OTAN e o estado da opinião pública ocidental relutante em ver um aumento nos gastos militares em tempos de recessão econômica. Ao contrário da Comissão Europeia, cujo projeto coincide com o dos Estados Unidos para fortalecer o bloco político-econômico-militar Euro-Atlântico, os cidadãos europeus em sua maioria não procuram maior expansão da UE para o leste, nem com a Ucrânia ou com a Geórgia, e nem com qualquer outro país da União Soviética.

Com sua postura e suas ameaças de sanções, a UE, servilmente alinhada com Washington, mostra que é impotente para "punir" a Rússia a sério. Seu peso real não é igual às suas ambições sempre proclamadas de moldar o mundo à sua imagem. O governo russo muito responsivo e malicioso tem apresentado "reações graduais", ridicularizando as medidas ocidentais punitivas. Putin, altivo, permite-se mesmo ao luxo de anunciar que vai abrir uma conta no banco Rossyia de Nova York para depositar seu salário! Ele não mencionou ainda a limitação do fornecimento de gás à Ucrânia e à Europa Ocidental; mas, todos sabem que ele tem esta carta na mão, o que já obrigou os europeus a pensar sobre a reorganização completa do seu abastecimento de energia, que vai levar anos para se materializar.

Os erros e as divisões ocidentais colocam a Rússia em posição de força. Putin goza de popularidade excepcional no seu país e nas comunidades russas em países vizinhos, e podemos ter certeza de que seus serviços de inteligência já penetraram profundamente os países anteriormente controladas pela União Soviética, fornecendo informações abundantes de primeira mão sobre o equilíbrio do poder interno. Seu aparato diplomático dá argumentos fortes para remover o monopólio da interpretação do direito internacional do "Ocidente", particularmente sobre a espinhosa questão da autodeterminação. Como seria de esperar, Putin não hesita em citar o precedente de Kosovo para difamar a duplicidade do Ocidente, sua inconsistência, e o papel desestabilizador que desempenhou nos Bálcãs.

Enquanto a propaganda da mídia ocidental estava em pleno andamento após o referendo de 16 de março na Crimeia, gritos ocidentais caíram subitamente um tom e o G7, no seu Encontro de Haia às margens da conferência sobre segurança nuclear, não ameaçou excluir a Rússia do G8, como tinha alardeado alguns dias antes, mas simplesmente anunciou que "não participaria do Encontro de Sochi." Isto lhe deu a oportunidade de reativar a qualquer momento esse fórum privilegiado de diálogo com a Rússia, criado em 1994 a seu pedido expresso. Primeiro recuo do G7. Obama, por sua vez, apressou-se a anunciar que não haveria nenhuma intervenção militar da OTAN para ajudar a Ucrânia, mas apenas uma promessa de cooperação para reconstruir o potencial militar desse país, composto em grande parte de equipamentos soviéticos obsoletos. Segundo recuo. Vai levar anos para colocar um exército ucraniano digno desse nome a seus pés e, perguntamo-nos, quem vai pagar tendo em conta a situação das finanças do país. Além disso, não sabemos exatamente qual é a situação das forças armadas da Ucrânia depois de Moscou ter convidado, com algum sucesso ao que parece, os ucranianos militares, herdeiros do exército vermelho, a se alistarem no exército russo, mantendo sua patente individual.

A frota ucraniana já está totalmente sob controle russo. Finalmente, em outra espetacular reversão por parte dos Estados Unidos: teria havido conversações secretas muito avançadas entre Moscou e Washington para adotar uma nova Constituição na Ucrânia, para instalar um governo de coalizão cujos extremistas neonazistas seriam excluídos em Kiev por ocasião das eleições de 25 de maio e, especialmente, para impor um status neutro na Ucrânia, sua "Finlandização" (recomendado por Henry Kissinger e Zbigniew Brzezinski), que proíbe sua entrada na OTAN, mas permite acordos econômicos com a UE e com a União Aduaneira da Eurásia (Rússia, Bielorrússia, Cazaquistão). Se tal acordo for alcançado, a UE será confrontada com um fato consumado e terá que conformar-se a pagar a conta dessa decisão russo-americana. Com essas garantias, Moscou poderia considerar que seus requisitos de segurança foram atendidos. Teria recuperado o pé em sua antiga esfera de influência com o acordo de Washington, e abster-se-ia de fomentar o separatismo em outras províncias ucranianas ou na Transnístria (província Moldávia povoada pelos russos) enquanto reafirmando seu forte respeito para com as fronteiras europeias. O Kremlin ao mesmo tempo teria oferecido uma saída honrosa para Obama. Um golpe de mestre para Putin.

Conseqüências geopolíticas da crise na Ucrânia

O G7 não havia calculado que, tomando medidas para isolar a Rússia, além do fato de estar aplicando a si mesmo um "castigo sado-masoquista", nas palavras de Hubert Vedrine, antigo ministro francês dos negócios estrangeiros, estaria, apesar disso, precipitando um processo, já em curso, de reestruturação profunda do mundo em benefício de um grupo não-ocidental, liderado por China e Rússia, sob a égide dos BRICS. Em resposta ao comunicado do G7, de 24 de março, os chanceleres dos BRICS manifestaram sua rejeição a quaisquer medidas para isolar a Rússia e imediatamente aproveitaram a oportunidade para denunciar as práticas de espionagem dos Estados Unidos contra seus líderes e, como boa medida, exigiram que os Estados Unidos ratificassem a nova distribuição do direito de voto no FMI e no Banco Mundial como um primeiro passo para uma "ordem mundial mais justa". O G7 não esperava uma resposta tão rápida e virulenta dos BRICS. Esse episódio pode sugerir que o G20, do qual o G7 e os BRICS são os dois principais pilares, poderia atravessar uma grave crise antes do próximo encontro em Brisbane (Austrália), em 15 e 16 de novembro, especialmente se o G7 continuar a marginalizar e punir a Rússia. É quase certo que haverá uma maioria no G20 a condenar as sanções contra a Rússia, o que na verdade terá o efeito de isolar o G7. Em sua declaração à imprensa, os ministros dos BRICS sentiram que, decidir quem é membro do grupo e qual é seu propósito, cabe a todos os seus membros "em igualdade de condições", e nenhum dos seus membros "pode unilateralmente determinar sua natureza e seu caráter." Os ministros clamam que a crise atual se resolva no contexto das Nações Unidas, "com calma, visão ampla, renunciando à linguagem hostil, às penas e às sanções". Uma afronta para os países do G7 e da União Europeia! O G7, que colocou-se sozinho num beco sem saída, está avisado de que será necessário fazer concessões significativas, se quiser continuar a ter alguma influência no G20.

Além disso, dois importantes eventos estão a ocorrer nas próximas semanas.

Primeiro, Vladimir Putin vai pagar uma visita oficial à China em maio. Os dois gigantes estão prestes a assinar um grande acordo de energia que afetará substancialmente o mercado global de energia, tanto estrategicamente quanto financeiramente. As transações deixarão de ser em dólares, mas passarão a ser nas moedas nacionais dos dois países. Voltando-se para a China, a Rússia não terá nenhum problema para vender sua produção de gás no caso de a Europa Ocidental decidir mudar de fornecedor. E, com a mesma aproximação, China e Rússia poderiam assinar um acordo de parceria industrial para a produção do caça Sukhoi 25, um desenvolvimento altamente simbólico.

Durante o encontro dos BRICS no Brasil em julho, o Banco de Desenvolvimento do grupo, cuja criação foi anunciada em 2012, pode tomar forma e oferecer uma alternativa aos financiamentos pelo FMI e pelo Banco Mundial, sempre relutantes em mudar o funcionamento das suas regras de financiamento para dar mais peso às economias emergentes e suas moedas, além do dólar.

Finalmente, há um aspecto importante da relação entre a Rússia e a OTAN que escassamente é comentado na mídia mas que é muito revelador do estado de dependência em que o "Ocidente" se encontra enquanto retira as suas tropas do Afeganistão. Desde 2002, a Rússia concordou em cooperar com os países ocidentais para facilitar a logística das tropas no teatro afegão. A pedido da OTAN, Moscou autorizou o trânsito de equipamentos não-letais para a ISAF (Força de Assistência à Segurança Internacional), por via aérea ou terrestre entre Dushanbe (Tajiquistão), Uzbequistão e Estônia, através de uma plataforma multimodal em Oulianovk, na Sibéria. Isso não é nada menos do que transportar todos os suprimentos para milhares de homens que operam no Afeganistão, entre os quais estão toneladas de cerveja, vinho, tortas, hambúrgueres, alface fresca, todos transportados por aeronaves civis russas, desde que as forças ocidentais não têm ativos de ar suficiente para suportar uma implantação militar dessa magnitude. O acordo OTAN-Rússia de outubro 2012 amplia a cooperação para a instalação de uma base russa no Afeganistão com 40 helicópteros onde pessoal afegão é treinado na luta antidroga que o Ocidente abandonou. A Rússia continua a recusar-se a permitir o trânsito, através do seu território, de equipamentos pesados, o que tem-se constituído em grave problema para a OTAN no momento da retirada de suas tropas. Na verdade, eles não podem viajar por terra via Kabul-Karachi por causa de ataques a comboios pelos talibãs. Sendo impossível o caminho pelo norte (Rússia), o equipamento pesado voa de Cabul para os Emirados Árabes, sendo então enviado para portos europeus, o que quadruplica o custo da retirada. Para o governo russo, a intervenção da OTAN no Afeganistão tem sido um fracasso; mas, sua retirada precipitada, antes do final de 2014, vai aumentar o caos e afetar a segurança da Rússia, podendo causar um ressurgimento do terrorismo.

A Rússia também tem importantes acordos com o Ocidente no campo dos armamentos. O mais importante é provavelmente o assinado com a França para a fabricação de duas operadoras de helicóptero para seus arsenais por US $ 1,3 bilhões euros. Se o contrato for cancelado com as sanções, a França deve reembolsar quantias já pagas, bem como pagar penas contratuais, e perderá milhares de empregos. O pior é, provavelmente, a perda de confiança, do mercado, na indústria de armamento francêsa, como observado pelo Ministério da Defesa russo.

Não nos esqueçamos de que, sem a intervenção da Rússia, os países ocidentais nunca seriam capazes de chegar a um acordo com o Irã sobre não-proliferação nuclear, ou com a Síria sobre o desarmamento químico. Esses são fatos sobre os quais os meios de comunicação ocidentais estão silenciosos. A realidade é que, por causa de sua arrogância, sua falta de conhecimento da história, sua falta de jeito, o bloco ocidental precipitou a desconstrução sistemática da ordem mundial unipolar e oferece, numa bandeja, para a Rússia e para a China, apoiadas pela Índia, pelo Brasil, pela África do Sul e por muitos outros países, uma "janela de oportunidades" para reforçar a unidade de um bloco alternativo. A evolução estava-se movendo para a frente, mas lenta e gradualmente (ninguém quer dar um pontapé no formigueiro e. de repente, desestabilizar o sistema global); mas, de repente, tudo está andando mais rápido e a interdependência está mudando as regras do jogo.

Sobre o encontro do G20 em Brisbane, será interessante ver como o México posiciona-se, após os encontros do G7 em Bruxelas em junho, e o dos BRICS no Brasil em julho. A situação é muito fluida e irá evoluir rapidamente, o que exigirá grande flexibilidade diplomática. Se o G7 persistir em sua intenção de marginalizar ou excluir a Rússia, o G20 pode desintegrar-se. O México, apanhado nas redes do TLCAN [Tratado de Livre Comércio de América do Norte - nt] e do futuro TPP [Trans-Pacific Partnership - nt], deve escolher entre afundar com o Titanic do Ocidente ou adotar uma linha independente, mais em harmonia com os seus interesses como uma potência regional com ambições globais, aproximando-se dos BRICS.

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