16 de março de 2014

A guerra de Israel nas universidades americanas

Chris Hedges

Truthdig

Créditos: Carolyn Kaster/AP.

Tradução / A proibição feita aos Students for Justice in Palestine (SJP) na Universidade Northeastern de Boston a 7 de março de 2014, juntamente com ameaça de medidas disciplinares da universidade contra alguns dos seus membros, replica as sanções impostas contra numerosos grupos de estudantes pelos direitos palestinos em todo o país. Os ataques e a perturbadora semelhança nas formas de castigo aparentam ser parte de um esforço coordenado do governo de Israel e do lobby israelense por colocar na lista negra todos os grupos de estudantes que desafiam a narrativa oficial de Israel.

A Northeastern baniu a seção local da SJP depois de esta ter postado no campus as cópias dos avisos de despejo que rotineiramente são afixadas nos lares palestinos destinados a demolição por Israel. O aviso de suspensão da universidade diz que se a SJP requerer para a reintegração no próximo ano, "nenhum membro da atual comissão executiva dos Estudantes pela Students for Justice in Palestine (SJP) pode prestar serviço na comissão inaugural da nova organização" e que os representantes da organização têm de frequentar a "formação" prescrita pela universidade como sanção.

Em 2011, na Califórnia, dez estudantes que interromperam um discurso de Michael Oren na UC Irvine, o então embaixador israelense nos Estados Unidos, foram considerados culpados, colocados em liberdade condicional informal e condenados a prestar serviço comunitário. Oren, um cidadão israelense contratado desde então pela CNN como contribuinte, apelou a que o Congresso pusesse na lista negra os apoiadores da campanha Boicotes, Desinvestimento e Sanções (BDS) contra Israel e a que processasse quem protesta quando funcionários israelenses aparecem. A alguns ativistas na Universidade Florida Atlantic foram retiradas posições de liderança estudantil depois de abandonarem em protesto uma conversa com um oficial do exército israelense e foi-lhes ordenado por administradores escolares que participassem em seminários de reeducação projetados pela liga anti-difamação. Os Columbia Students for Justice in Palestine (CSJP) foram abruptamente suspensos na primavera de 2011 e impedidos de reservar quartos e de serem organizadores de eventos no campus. A administração da Universidade, antes da proibição, tinha a prática de notificar com antecedência o campus de Hillel sobre qualquer evento da CSJP. A suspensão foi por fim levantada após protesto liderado por advogados da CSJP.

Max Geller, um estudante de direito e membro da SJP na Northeastern que contactei por telefone em Boston, acusou a universidade de estar a responder a "pressões externas", incluindo a do ex-aluno Robert Shillman, que é o diretor executivo da Cognex Corp., e de Seth Klarman, bilionário dos fundos de cobertura, ambos partidários da direita israelense.

"Proibir alunos de terem cargos de liderança e grupos de estudantes, simplesmente porque eles se comprometeram com um protesto político pacífico é contra a ética da missão da universidade de educar os alunos", disse. "Isso retira todo o valor pedagógico que o processo disciplinar pudesse procurar".

"No ano passado", prosseguiu Geller, "recebi ameaças de morte, fui publica e injustamente caluniado e tenho sido ameaçado com medidas disciplinares. Isto tem tornado o compromisso com um discurso sobre um assunto com o qual eu me preocupo profundamente, sendo tanto judeu como americano, numa expectativa geradora de medo e ansiedade".

A reação de mão pesada de Israel para com estas organizações do campus é sintomática do seu crescente isolamento e preocupação com um apoio americano decrescente. A ocupação e apropriação desde há décadas de terras palestinianas e os ataques militares maciços contra a população indefesa de Gaza que deixaram centenas de mortos, juntamente com o aumento da desnutrição entre as crianças palestinianas e a pobreza forçada, têm afastado os tradicionais apoiantes de Israel, incluindo muitos jovens judeus americanos. Israel, ao mesmo tempo, transformou-se num pária na comunidade global. Ficasse Israel desprovido do apoio americano, em grande parte comprado pelas contribuições para a campanha política canalizadas através de grupos como o Comissão de Assuntos Públicos Estados Unidos-Israel (AIPAC), e ficaria à deriva. Há um número crescente de bancos e outras empresas, especialmente na União Europeia, a juntar-se ao movimento de boicote que se recusa a fazer negócio com interesses israelitas nos territórios ocupados. O primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu, falando perante a AIPAC a 4 de março, dedicou surpreendentemente grande parte de sua palestra a atacar o nascente movimento BDS, que disse defender o "Fanatismo, Desonestidade e a Vergonha" [Bigotry, Dishonesty and Shame]. Apelou a que os apoiantes do BDS "sejam tratados exatamente como tratamos qualquer anti-semita ou fanático." Advertiu que pessoas "ingénuas e ignorantes" estão a ser recrutadas como "crédulas companheiras de viagem" numa campanha anti-semita.

Funcionários israelitas estão também aparentemente a tentar infiltrar-se no movimento BDS e a usar subterfúgios para o vincular ao extremismo islâmico, de acordo com The Times of London. O governo israelita além disso está a fazer pressão nas legislaturas do estado de Nova Iorque, Maryland e Illinois com legislação censória e antidemocrática que imponha sanções financeiras a organizações académicas que boicotem as instituições israelitas. Enquanto isso, os Estados Unidos e outros impõem entusiasticamente sanções à Rússia por uma ocupação que é muito menos draconiana do que o longo desafio de Israel ao direito internacional.

As aulas de doutrinação preparadas pela ADL para os ativistas da universidade são, de acordo com aqueles a quem foi exigido que assistissem, tentativas estafadas de fazer associar toda a crítica a Israel a anti-semitismo.

"Eu e dois outros membros da SJP fomos forçados a participar do curso de 'formação em diversidade' patrocinado pela ADL, senão violávamos as condições da liberdade condicional e com isso éramos suspensos ou expulsos", disse Nadine Aly, uma ativista estudante da Florida Atlantic que com outros ativistas, abandonou a meio uma palestra na universidade pelo oficial do exército israelita Coronel Bentzi Gruber, que tinha ajudado a elaborar as regras para a Operação Chumbo Fundido, o terrível ataque a Gaza no final de 2008 e início de 2009. Contactei-a por telefone no campus da Flórida. "A simples ideia, que a administração está a insinuar, de que criticar a política israelita é ser racista é ridícula. Fomos colocados em 'condicional indeterminada', impedindo-nos de ter cargos de liderança na universidade em qualquer organização estudantil reconhecida, incluindo associações estudantis, até à nossa formatura. Eu fui despojada da minha posição de presidente da SJP, bem como de senadora dos estudante e o vice presidente da SJP perdeu a sua posição como representante da Casa do Estudante. É uma vergonha que essa universidade, como a maioria, se curve perante a pressão do lóbi sionista e dos doadores sionistas ricos, quando deviam estar a proteger os direitos dos seus alunos".

A perseguição de estudiosos como Joseph Massad e Norman Finkelstein, que desafiam a narrativa oficial israelita, tem sido uma caraterística da intervenção israelita na vida académica americana. E a ânsia dos reitores das universidades em denunciar o apelo da Associação de Estudos Americanos ao boicote académico contra Israel é uma abertura sobre a fome insaciável de dinheiro que parece governar a política da universidade. O esforço atual para fechar grupos de estudantes, no entanto, eleva a tradicional censura e interferência israelita a um novo nível. Israel agora pretende silenciar abertamente a liberdade de expressão em polos universitários americanos — todos estes grupos de estudante envolveram-se firmemente em protestos não-violentos — e já alistaram as nossas elites liberais e os administradores do ensino superior como polícias do pensamento.

Entre acadêmicos, a falha em defender o direito desses grupos de estudantes a exprimir opiniões divergentes e a envolver-se em ativismo político consiste num comentário sobre quão irrelevante a maioria dos acadêmicos se tornou. Onde estão os professores de direito constitucional a defender nesta luta o direito à liberdade de expressão? Onde estão os professores de ética, religião e filosofia, a lembrar aos alunos o direito de todas as pessoas a uma vida digna e livre de opressão? Onde estão os professores de estudos do Médio Oriente a explicar as consequências históricas do ataque violento de Israel às terras palestinas? Onde estão os professores de jornalismo a defender o direito dos dissidentes e das vítimas a uma audiência justa na imprensa? Onde estão os professores de Estudos Queer e de Gênero, de Estudos Afro-Americanos, de Estudos Americanos-Nativos ou Estudos Chicanos a agir para proteger as vozes e a dignidade de marginalizados e oprimidos?

Esta agressão não se vai ficar pelos grupos como os Estudantes para a Justiça na Palestina. A recusa em ouvir os gritos do povo palestino, especialmente aquele milhão e meio — 60% dos quais crianças — encurralado pelo exército israelita em Gaza, é parte de uma campanha mais ampla por agentes de direita como Lynne Cheney e bilionários como os irmãos Koch para acabar com todos os programas e disciplinas académicas que dão voz a marginalizados, especialmente aqueles que não são privilegiados nem brancos. Latinos, afro-americanos, feministas, os que estão em estudos queer e de gênero também sentem essa pressão. A coberto de um diploma assinado pelo governador republicano Jan Brewer, livros de autores chicanos destacados foram banidos das escolas públicas de Tucson e outros lugares no Arizona com o argumento de que tais estudos étnicos promovem o "ressentimento em relação a uma raça ou povo". É uma linguagem semelhante à que o antigo embaixador Oren tem usado para justificar o seu apelo à prossecução criminal de ativistas do BDS — de que estão a promover o "fanatismo". O neo-conservadorismo que se apodera de Israel tem a sua contraparte tóxica dentro da cultura americana. E se outros grupos marginalizados dentro da universidade permanecem em silêncio enquanto ativistas da solidariedade com a Palestina são perseguidas em campi, haverá menos aliados, quando estas forças de direita vierem por eles. E hão-de vir.

Aqueles de nós que denunciam o sofrimento causado por Israel e pelos seus crimes de guerra contra os palestinianos e apoiantes do movimento BDS estão acostumados a campanhas de difamação israelita desprezíveis. Eu tenho sido repetidamente marcado como anti-semita pelo lóbi israelita, inclusive pelo meu livro "A guerra é uma força que nos dá significado" [War Is a Force That Gives Us Meaning]. Que algumas dessas vozes dissidentes sejam de judeus, tais como Max Blumenthal, que escreveu "Golias: medo e delírio no Grande Israel," [Goliath: Fear and Loathing in Greater Israel] um dos melhores relatos sobre o Israel contemporâneo, não parece perturbar os propagandistas israelitas de direita que veem qualquer desvio da linha de governo de Israel como uma forma de heresia religiosa.

"Eu estive em digressão a discutir o meu livro, 'Golias', desde outubro de 2013," disse Blumenthal, com quem falei por telefone. "E em numerosas ocasiões, grupos de lóbi de Israel e ativistas pró-Israel tentaram pressionar organizações para cancelar os meus eventos antes de ocorrerem. Eu tenho sido caluniado como anti-semita por estudantes pró-israelitas adolescentes, colunistas de revistas proeminentes e mesmo por Alan Dershowitz, e a minha família foi atacada em meios de comunicação de direita simplesmente por organizar uma festa literária para mim. Os trabalhos absurdos a que se têm dado ativistas pró-Israel para impedir o meu jornalismo e análise de atingir um público amplo ilustram perfeitamente a sua exaustão intelectual e pobreza moral. Tudo o que lhes resta são montes de dinheiro para subornar políticos e a ilimitada vontade de defender o único estado de apartheid nuclearizado do Médio Oriente. À medida que jovens árabes e muçulmanos afirmam a sua presença em campi em todo o país, e que em Israel judeus americanos vacilam de aversão a Netanyahu, testemunhamos que as forças pró-Israel travam uma retirada em combate. A questão não é se eles vão ganhar ou perder, mas quanto dano podem causar aos direitos de liberdade de expressão nesse caminho para um acerto de contas com a justiça".

"Seria animador se destacados intelectuais liberais concordassem com todas as minhas conclusões ou aceitassem a legitimidade do BDS", continuou Blumenthal. "Mas a única expectativa razoável que podemos ter em relação a eles é que eles falem em defesa daqueles cujos direitos de liberdade de expressão e direitos de organização estão a ser esmagados por forças poderosas. Infelizmente, quando essas forças são alinhadas em defesa de Israel, muitos intelectuais liberais são omissos ou, como é o caso de Michael Kazin, Eric Alterman, Cary Nelson e o “quem é quem” dos reitores de universidades importantes, colaboram ativamente com elites suas companheiras determinadas a esmagar o ativismo de solidariedade com a Palestina através de meios antidemocráticos".

As secções locais de Hillel, infelizmente, muitas vezes funcionam como pouco mais do que postos avançados do governo de Israel e do campus do AIPAC. Isto é verdadeiro para a Northeastern, bem como para as escolas, tais como o Barnard College e a Columbia. E reitores como Debora Spar da Barnard não vêem nada de errado em aceitar excursões do lóbi israelita a Israel, enquanto estudantes palestinos têm de correr risco de prisão e até de morte para estudar nos Estados Unidos. O lançamento de campanhas de difamação por todo o campus por casas supostamente religiosas é um sacrilégio para com a religião judaica. Enquanto em seminário, li o suficiente de grandes profetas hebreus cuja singular preocupação era com os oprimidos e os pobres, com saber que eles não seriam encontrados hoje em centros de Hillel, mas em vez disso estariam nos protestos com ativistas da SJP.

Os centros do campus de Hillel, com orçamentos pródigos e reluzentes edifícios no polo, frequentemente situados em zonas de degradação urbana, oferecem execução de eventos, palestras e programas para promover a política oficial de Israel. Organizam viagens grátis a Israel para alunos judeus como parte do programa "Taglit Birthright", funcionando como uma agência de viagens do governo israelita. Enquanto alunos judeus, muitas vezes sem nenhuma ligação familiar com Israel, são escoltados nestes bem coreografados passeios de propaganda através de Israel, centenas de milhares de palestinianos que permanecem presos em campos de refugiados esquálidos não podem ir para casa, apesar de as suas famílias poderem ter vivido por séculos no que é hoje a terra de Israel.

Israel foi capaz de enquadrar a discussão sobre os palestinianos durante décadas. Mas o seu controle da narrativa está a chegar ao fim. À medida que Israel perde terreno atacará violenta e irracionalmente todos os contadores de verdade, mesmo se forem estudantes americanos, e especialmente se forem judeus. Virá um dia e virá mais cedo do que Israel e seus lacaios a soldo esperam, em que todo o edifício vai desmoronar, no momento em que os estudantes da Hillel deixem de ter estômago para defender a contínua expropriação e assassinato aleatório dos palestinianos. Israel, ao silenciar impiedosamente os outros, corre agora o risco de se silenciar a si mesmo.

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