8 de março de 2014

A Guerra Fria ainda não acabou

Pierre Charasse

A crise na Ucrânia coloca em evidência a crescente distância que separa o bloco ocidental da Rússia. Desde o colapso da URSS, em 1991, no mundo ocidental, sob a liderança dos Estados Unidos, foi estabelecida como prioridade estratégica não permitir nunca que a Rússia se elevasse novamente enquanto superpotência mundial. Os Estados Unidos desenvolveram uma estratégia de contenção para obrigar seus aliados da União Europeia e da OTAN a estabelecer toda uma rede de acordos políticos, comerciais e militares para impedir a Rússia de exercer novamente um papel de contraposição mundial aos Estados Unidos. Nos anos 90, os ex-membros da URSS entraram na OTAN e Washington pressionou a UE para admiti-los como novos sócios, desvirtuando assim o espírito originário da instituição europeia.

Está claro que, para o governo norte-americano, os espaços cobertos pela UE e pela OTAN devem coincidir. Desde os anos 90, a prioridade para os ocidentais era forçar a Rússia, derrotada ideologicamente e economicamente debilitada, mas ainda uma superpotência nuclear, a uma certa conduta, em particular sobre o desarmamento convencional, em troca de uma aproximação com as economias ocidentais. Criou-se a OSCE (Organização para a Segurança e Cooperação na Europa) em 1995 para tratar dos assuntos referentes ao desarmamento convencional e das fronteiras da periferia da Rússia.

Desde então, o bloco ocidental considera que as ex-repúblicas soviéticas, do mar Báltico até a China, são uma extensão da Europa Ocidental e, portanto, entram na área de intervenção da OTAN, o que incomoda Moscou fortemente. Em 1994, para acabar definitivamente com a bipolaridade do mundo e não dar à Rússia o estatuto de potência global, o G7, verdadeiro centro de poder ideológico, político e econômico do mundo (Estados Unidos, Grã-Bretanha, Alemanha, Itália, Japão, Canadá) decidiu criar um foro específico de diálogo com a Rússia, o G8. O G8 foi concebido para neutralizar a Rússia e lhe impor certas regras sobre a segurança mundial, novas ameaças, desarmamento, proliferação nuclear, terrorismo etc. Apesar do tratamento humilhante e discriminatório, a Rússia sempre deu boas demonstrações de colaboração.

Entretanto, os ocidentais lhe veem com profunda desconfiança, em especial porque os novos sócios da OTAN-UE das ex-repúblicas soviéticas se sentem vulneráveis diante de supostas pretensões expansionistas russas.

A Rússia, por razões geográficas, precisa de estados-tampões amigos ou de, pelo menos, neutros a oeste de sua fronteira. Em uma atitude muito prepotente, Washington nega à Rússia o direito de garantir sua segurança territorial em sua periferia e se surpreende que Moscou se sinta cercada por países membros da OTAN, com organização militar que não deixou de se fortalecer depois do fim do Pacto de Varsóvia.

Os Estados Unidos consideram ser o único a ter direito de organizar o mundo pós-soviético em função de seus interesses nacionais, de deslocar bases ou mísseis de acordo com as necessidades do momento (Europa, Pacífico), de atuar com ou sem a permissão da ONU (Afeganistão, Iugoslávia, Iraque, Líbia, Síria…) É a lei do mais forte. Com que legitimidade ou autoridade moral Obama pode proclamar que a Rússia está do lado errado da história?

A Rússia é um país euro-asiático com tradições políticas orientais alheias aos padrões ocidentais, gostemos disso ou não. O povo russo tem raízes milenares e uma relação muito especial com o poder, com a autoridade e com a religião ortodoxa sendo, ao mesmo tempo, rebelde e amante da liberdade. Em 20 anos, as práticas democráticas ocidentais não conseguiram permear todas as camadas da sociedade russa que, desde o século XII, sente, em sua maior parte, a necessidade de ter um poder autocrático forte por trás dos muros do Kremlin, nacionalista e paternalista. O amor à pátria (Ródina) e à terra (Ziemlia) representam um cimento que os ocidentais não veem e não entendem.

As discussões entre os eslavófilos e ocidentalistas que aconteceram na Rússia nos séculos XIX e que atualmente dividem a Ucrânia e o mundo eslavo ainda estão muito presentes. O povo russo está convencido de sua natureza e de sua vocação para servir de ponte entre a Europa e a Ária, e questiona profundamente a autoproclamada missão civilizadora do Ocidente, rejeitando o capitalismo mercantil representado pelos oligarcas corruptos apoiados pelo Ocidente.

Os povos da ex-União Soviética ainda lembram com emoção e orgulho a Grande Guerra Patriótica (Segunda Guerra Mundial), que lhes custou 20 milhões de mortos sacrificados para salvar a pátria mãe. Estão muito ressentidos pela falta de reconhecimentos dos europeus por este sacrifício que permitiu, tanto quanto o desembarque norte-americana, libertar a Europa da dominação nazista. Desde o desaparecimento da URSS, a Rússia se sente ferida e humilhada pelo Ocidente.

Quer recuperar seu estatuto de grande potência e que sejam reconhecidos seus direitos legítimos de segurança em suas fronteiras terrestres e marítimas. Nunca aceitará se mutilar perdendo sua base naval em Sebastopol. É um porto estratégico que lhe dá saída para o mar Negro e para o Mediterrâneo. Tampouco aceitará o desenvolvimento dos mísseis do escudo da OTAN que apontam diretamente para seu território.

Putin utilizou, nos últimos dias, os mesmos argumentos que os Estados Unidos e seus aliados usaram para justificar suas ações na Crimeia: proteger a segurança de seus cidadãos. E invoca o precedente criado pelo Ocidente na Iugoslávia e no Kosovo para pedir um referendo na Crimeia ou em outras partes da Ucrânia. Um referendo poderia decidir a autonomia da Crimeia ou de outras províncias pró-russas, ou sua independência, ou sua reincorporação à Rússia. Vladimir Putin é um grande estrategista, formado na escola diplomática soviética, bem como seu brilhante chanceler Serguéi Lavrov. Ele sabe muito bem até onde ir, ate onde sua política é expressão de um consenso nacional e patriótico e que, nos territórios da ex-União Soviética ainda há muita nostalgia pela grandeza perdida.

Sabe que os países europeus nunca serão lançadas operações militares contra a Rússia e que não estão dispostos a se sacrificar para ajudar a Ucrânia. Os países ocidentais deveriam lembrar da crise da Geórgia em 2008. A Rússia mobilizou um potente aparato militar para parar aquilo que considerava uma intolerável agressão à sua integridade territorial e colocar um basta na aventura irresponsável fomentada pelo Ocidente.

Na Europa ocidental, há divergências diante da crise ucraniana. Vários países dependem de petróleo e de gás russos. A Alemanha tem muitos compromissos com a Rússia. Os falcões norte-americanos não entendem a prudência de muitos governos europeus diante da Rússia, se enfurecem e os insulta. A UE, desgarrada quanto a seus interesses estratégicos com seu grande vizinho europeu e seu medo de desagradar seu mentor transatlântico, mostra sua fraqueza extrema. Sua política externa é inconsistente. Putin, não sem razão, adverte o Ocidente que as sanções econômicas prejudicarão os que as promovem e que a Rússia pode viver sem o G8. No Conselho de Segurança da ONU, a Rússia tem direito de veto.

A China adotou uma atitude fundamentalmente cautelosa. Sabe que obscuras forças ocidentais jogam lenha na fogueira em Xin Qiang e no Tibete, como fizeram na Ucrânia, para provocar o desmantelamento de seu território ou, pelo menos, criar um caos para frear seu inexorável desenvolvimento como potência. Por isto, a China pediu o cessar das ingerências estrangeiras na Ucrânia. É uma mensagem aos Estados Unidos.

O inimigo do bloco ocidental agora não é o comunismo, mas sim todos os povos não ocidentais (os BRICS, ALBA, Unasul, Venezuela…) que potencialmente questionam a ordem unipolar do mundo. Obstaculizar o desenvolvimento da Rússia e da China são as prioridades estratégicas de Washington para manter sua liderança mundial. É uma conduta muito irresponsável. A Guerra Fria não terminou.

Pierre Charasse

Ex-embaixador da França na União Soviética, na Guatemala, em Cuba e no México. É diretor do blog bilíngue francês espanhol La Tour de Babel - La Torre de Babel (A Torre de Babel).

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