11 de março de 2014

A unidade comunista e os seus falsos amigos

Por Zoltan Zigedy

Parafraseando de Maistre, todo partido político tem a liderança que merece. É a confiança na sabedoria desta máxima que me impede de comentar extensamente acerca do contínuo esforço de recuo do marxismo-leninismo por parte do presidente Sam Webb e o resto da liderança de topo do Partido Comunista dos Estados Unidos da América (PCEUA).

Como o número de membros continua a contrair-se – descontando os "amigos" da Internet e os "curtir" – só se pode admirar a tenaz lealdade de maior parte dos membros remanescentes, uma lealdade talvez residual dos tempos em que o Partido estava sob ataques vindos de todos os lados.

Mas hoje o Partido não está sob o ataque de ninguém, especialmente desde que todo o seu tipo de trabalho coincide com o trabalho abnegado para vitórias eleitorais do Partido Democrata enquanto segue servilmente (fora da estação eleitoral) a liderança da AFL-CIO.

Aparentemente há mudanças em andamento no PCEUA pois aproxima-se a sua Convenção Nacional de junho. Ali será mudada a liderança. Infelizmente, esta não promete ser acompanhada por uma mudança na perspectiva ideológica. No entanto, alguns manterão uma infundada "esperança" numa nova direção, uma esperança que imobilizará a dissidência.

Também há a conversa de deixar fazer referências a "Comunismo", a barreira final, se se acreditar nos "webbitas", para que o PCEUA se torne um partido com apoio de massa.

Para uma discussão honesta e crítica das mais recentes cogitações de Sam Webb, clique aqui: (http://houstoncommunistparty.com).

Deixando de lado seu declínio contínuo, o PCEUA conta como uma pequena voz, mas uma voz com autoridade para a esquerda dos EUA, sobre assuntos respeitantes ao Movimento Comunista Mundial. Recentemente, Sue Webb, que representou o PCEUA na reunião internacional de partidos comunistas e operários efetuada em Lisboa, em novembro do ano passado, apresentou um relatórios daquela reunião, destacando as avaliações e visões do PCEUA e outros partidos sobre a situação atual e o caminho pela frente.

Grande parte do comentário de Sue Webb é um ataque velado ao Partido Comunista Grego (KKE) sob o disfarce do apoio à diversidade e independência no movimento mundial. Ao mesmo tempo, ela explora diferenças entre Partidos para justificar o êxodo do PCEUA do marxismo-leninismo.

O KKE não precisa de ninguém para defender sua honra e suas posições; ele é muitíssimo capaz disso. Contudo, é importante para todos os comunistas e amigos do comunismo examinar cuidadosamente e criticamente as visões representadas em Lisboa. O comentário de Sue Webb não alcança tais padrões.

Ela desdenhosamente sugere que o KKE obstinadamente e não razoavelmente frustrou uma declaração final, unificadora: "As críticas do partido grego foram tão fortes que ele rejeitou e bloqueou a emissão de qualquer declaração final de consenso sumarizando o pensamento da conferência. Ao assim fazer, o partido grego e seus apoiadores de alguns outros partidos elevaram-se claramente contra o pensamento e as políticas da esmagadora maioria de partidos representados na reunião".

Ao mesmo tempo, ela apregoa as diversas estradas tomadas por vários Partidos e sua autonomia relativa em relação a um caminho único, citando Lenine copiosamente bem como a sua confiança no Partido com base nas "nossas próprias experiências e condições de luta". Por outras palavras, ela culpa o KKE por não aceder à vontade dos outros baseando-se nas suas "próprias experiências e condições de luta". Aparentemente, ela não vê inconsistência em louvar a velha linha eurocomunista do comunismo nacional enquanto reprova o KKE pela sua posição de princípio e independente na reunião de Lisboa.

A acusação de instigar a desunião é particularmente espúria quando o grande papel do KKE em revitalizar as reuniões, conferências e intercâmbios internacionais é reconhecido.

Perde-se no relato simplista de Sue Webb a contribuição singular que o KKE traz a qualquer discussão do caminho para o socialismo. Sem julgar os méritos de toda a sua conclusão, deve-se respeitar a análise profunda que o KKE fez do colapso dos Partido Comunistas europeus de massa desde a Segunda Guerra Mundial. Enquanto a maior parte dos Partidos tem-se debatido com as lições da perda da União Soviética e da comunidade socialista da Europa do Leste, poucos exploram as consequências teóricas da quase completa auto-destruição de poderosos Partidos Comunistas de massa na Itália, França e Espanha como faz a fundo o KKE. O processo de estripamento do marxismo-leninismo em Partidos Comunistas e Operários não governantes começou bem antes da queda do poder soviético. É o KKE que extrai as lições mais profundas desta experiência. Webb ignora-as inteiramente.

O fracasso em enfrentar as lições do colapso do socialismo no Leste europeu e o fracasso do euro-comunismo leva a um mapa da rota pela frente limitado e distorcido.

É neste contexto que o KKE desafia a posição de que há "etapas" entre capitalismo e socialismo. Após a Segunda Guerra Mundial, muitos Partidos projetam uma etapa anti-monopolista na transição para o socialismo. Outros ainda quiseram construir uma etapa baseada numa "democracia de um novo tipo", um sistema de domínio que não era nem burguês nem socialista. Estas estratégicas implicavam um foco sobre a luta parlamentar e a colaboração com todas as forças capitalistas não monopolistas. O "Compromisso histórico" italiano foi a culminação simbólica desta perspectiva, envolvendo uma estratégia que abria a porta para o aburguesamento do Partido Comunista Italiano (PCI) e consequentemente sua morte inevitável.

Um dos vendedores ideológicos desta abordagem, Giorgio Napolitano, demonstra, com a trajetória da sua vida, a tragédia cruel do fracasso do PCI: Outrora membro de um grupo de juventude fascista na universidade, Napolitano juntou-se à resistência, aderiu ao PCI, assumiu um papel de liderança na sua nova direção, e hoje reina como o presidente da república burguesa italiana. Com civilidade e dignidade medidas, ele legitimou o governo do buffo-fascista, Silvio Berlusconi. Suas muitas honrarias, condecorações e prêmios testemunham o seu serviço ao capitalismo.

Numa entrevista em 1975, Napolitano, então o porta-voz econômico do PCI, dançou habilmente em torno de perguntas difíceis colocadas por Eric Hobsbawm: "Acredito que em qualquer país o processo de transformação socialista bem como regimes socialistas têm de ser fundados sobre uma base ampla de consenso e participação democráticas... Meu argumento acerca dos princípios e formas de vida democrática a serem mantidos no contexto de um avanço para o socialismo e a construção da sociedade socialista refere-se mais concretamente aos países da Europa Ocidental na qual nasceu a democracia burguesa, onde instituições representativas têm uma tradição mais ou menos forte e diversas correntes democráticas, ideológicas, culturais e políticas têm operado mais ou menos livremente... [e] as quais são caracterizadas em graus variados... pela presença de apreciáveis grupos intermediários entre o proletariado e uma grande burguesia controlando os meios de produção básicos".

Apenas uns meros trinta anos depois de comunistas desempenharem um papel chave na queda do despotismo anti-democrático europeu, Napolitano celebra vigorosamente a dúbia tradição europeia de democracia burguesa enquanto atende oportunamente aos interesses dos estratos médios. Infelizmente, estas ilusões ainda perduram em muitos Partidos Comunistas. É esta perspectiva fracassada que é vigorosamente combatida pelo KKE.

Analogamente, o Partido Espanhol de massa, sob a liderança de Santiago Carrillo, entrou num colapso próximo da irrelevância graças ao fetiche da democracia burguesa e às concessões a estratos não proletários. Carrillo argumentou que "... o Partido Comunista deveria ser o partido da liberdade e da democracia... Devemos trazer para o nosso programa como parte integral, não apenas as reivindicações dos trabalhadores, mas também aquelas de todas os setores da sociedade que são sub-privilegiados".

Estes slogans vazios e superficiais servem bem a burguesia, como o fazem quando inscritos nas plataformas dos modernos partidos burgueses parlamentares. Não é de admirar que trabalhadores tenham fugido maciçamente do PCE; eles entendem o marxismo muito melhor que os líderes do Partido.

Reflexões sobre estes trágicos desacertos deveriam levar a prestar atenção às advertências contra o oportunismo emitidas pelo KKE:

Deixa-os indefesos contra o trabalho corrosivo das forças burguesas e oportunistas as quais estão tentando assimilar os PCs ao parlamentarismo, castrá-los e fazer deles uma parte do sistema político burguês, com colaborações sem princípios, com participação em governos de administração burguesa os quais têm uma etiqueta "esquerda-progressista", aprisionados na lógica da colaboração de classe, com apoio a centros imperialistas, como está acontecendo, por exemplo, com os PCs do chamado Partido de Esquerda Europeu, bem como outros PCs que estão seguindo o mesmo caminho (G. Marinos, membro da Comissão Política do CC, KKE).

No rastro da mais profunda crise econômica global desde a Grande Depressão, a ideia de que Partidos Comunistas e Operários deveriam lutar para conduzir o capitalismo para fora das suas mazelas – para melhor "administrar" o capitalismo – é uma estratégia absurda assegurando mais uma vez marginalizar as perspectivas para o socialismo. Se apenas os Comunistas (ou Comunistas em aliança com outros) podem resgatar o capitalismo, por que eles deveriam fazer isso?

Sue Webb falha no enquadramento das posições do KKE no contexto do partidarismo de classe, um erro que garante confusão e mal-entendidos. Ela falha em encontrar uma diferença entre combater por reformas na estrutura do capitalismo e recusar tomar o lado de uma classe burguesa, uma distinção que o KKE faz nitidamente. Onde reformas beneficiem o povo trabalhador – aumentos e melhorias na educação pública, bem-estar social, saúde pública, etc – os comunistas combatem mais arduamente do que ninguém e aceitam aliados incondicionalmente.

Mas onde trabalhadores são solicitados a posicionarem-se com a burguesia – sacrificando salários e benefícios para fazerem seu patrão mais competitivo, boicotando produtos fabricados por trabalhadores estrangeiros – os comunistas instarão aqueles trabalhadores a afastarem-se.

Sue Webb acusa o KKE de não considerar economias emergentes como rivais do imperialismo ocidental: "o conceito dos países BRICs... ou outros, tais como na América Latina, a emergirem como desafios para o imperialismo ocidental é rejeitado".

Mas isto é absurdo; os comunistas vêm estes países como rivais imperialistas ao imperialismo ocidental. Isto é, eles têm os seus próprios desígnios sobre a economia global, seus próprios interesses expansionistas. Ao mesmo tempo, os comunistas opõem-se à agressão e à guerra por parte das potências imperialistas em todos os casos e de toda espécie.

Exemplo: os comunistas opõem-se calorosamente à intervenção dos EUA na Venezuela; eles opõem-se à intromissão da UE e dos EUA na Ucrânia. Contudo, não apoiam as respectivas burguesias nacionais. Isto está em contraste como algumas organizações "marxistas" que vacilaram ou capitularam a mudanças de regime ou ao "democrático" trabalho missionário em países como o Iraque ou a Líbia.

Sue Webb zomba da rejeição pelo KKE do termo "financiarização". "Identificar financiarização como uma característica particular do capitalismo de hoje é uma patranha, uma diversão. Capitalismo é capitalismo". Pode-se bem perguntar-lhe: se capitalismo não é capitalismo, então o que é? Estou certo de que ela perdeu a noção de que haver um bom capitalismo e um mau capitalismo é estranha ao marxismo. A social-democracia e todos os seus parentes genéticos tentam encontrar um bom capitalismo para cavalgar rumo ao socialismo. Naturalmente eles fracassaram sempre – o capitalismo não vai nessa direcção.

O lucro é a força condutora do capitalismo; é impossível imaginar capitalismo sem lucro. E a busca do lucro molda a trajectória do capitalismo. Como predadores raivosos, os capitalistas procuram lucros por toda a parte – no sector dos bens de capital, no sector dos bens de consumo, no sector de serviços e no sector financeiro. O facto de que o sector financeiro desempenhou um papel maior na busca do lucro em tempos recentes lança pouca luz sobre a operação fundamental do capitalismo. Ao invés, consagrar a actividade financeira como uma espécie única de capitalismo só obscurece o mecanismo básico da acumulação capitalista. Não acrescenta nada.

É inegável que a crise global estalou primeiramente nos centros financeiros capitalistas. Mas o facto de que as erupções iniciais eram o resultado de processos há muito postos em movimento é igualmente inegável. Sociais-democratas teriam feito acreditarmos que a crise foi provocada pelo comportamento aberrante, por uma fixação febril em manobras financeiras, facilmente reparada pela regulação e reforma. Isto é insensato. Isto não é marxismo.

Portanto, o termo "financiarização" é uma espécie de patranha. Um termo do agrado também daqueles demasiado preguiçosos ou temerosos de examinar o funcionamento interno de um sistema cúpido.

Não é preciso concordar com toda a perspectiva e toda a formulação do KKE para reconhecer que eles estão a tomar a dianteira sobre questões que confrontam o Movimento Comunista Internacional; estão a perguntar questões difíceis que desafiam velhos hábitos, suposições fáceis e posições não examinadas. Sim, eles desafiam crenças convenientes que tornam fáceis interacções com outras forças de esquerda, mas fazem-no a partir da fidelidade à tradição comunista. Sim, eles não colocam o consenso por amor ao consenso à frente dos princípios.

Mas aqueles de nós que querem restaurar a vitalidade do movimento comunista devem mostrar uma apreciação profunda – e não desprezo – pelo seu compromisso desprendido para ressuscitar um comunismo militante baseado sobre os fundamentos lançados por Marx e Lenine.

Por toda a sua arrogância auto-congratulatória acerca de escapar do dogmatismo, sectarismo e ideias "exóticas", o Partido de Sue Webb está prestes a afundar no esquecimento. Como num navio a afundar, a liderança do PCEUA está a desfazer-se das suas cadeiras no tombadilho e do mobiliário das cabines tão rapidamente quanto a água ascende. Foram-se os arquivos do Partido, o jornal do Partido, as livrarias do Partido, as organizações do Partido, a educação e mesmo as reuniões do Partido. Foram-se os símbolos do Partido, os princípios organizacionais, a ideologia e mesmo as saudações de camarada. Em sua substituição estão comunicações Facebook e Twitter, conferências por telefone e vídeo, e causas comuns com grupos liberais entre esforços obrigatórios em apoio de campanhas eleitorais do Partido Democrático.

Diz Sue Webb: "A perspectiva e políticas do nosso partido ajusta-se bem dentro da corrente principal do movimento comunista mundial como se exprimiu em Novembro último na reunião de Lisboa".

Tomara que fosse assim! A liderança actual do PCEUA rejeita abordagens audaciosas para alcançar o socialismo enquanto espera passivamente pela segunda vinda de Franklin Delano Roosevelt e o New Deal. Eles desenham sua linha estratégica a partir das medidas desesperadas e defensivas impostas pela ascensão do fascismo oitenta anos atrás, uma frente temporária com forças da classe não trabalhadora que rapidamente traíram aquela aliança após a II Guerra Mundial e a queda do fascismo. Sam Webb e a sua clique na liderança permanecem presas ao pensamento de outro tempo.

"Bem dentro da corrente principal"? Penso que não. O Movimento Comunista Internacional está a crescer outra vez graças, em parte, a conversações francas e vivas acerca do caminho em frente, como ocorreu em Lisboa. Enquanto o consenso permanece ilusório, o processo de discussão é, no entanto, clarificador e unificador.

Mas para aqueles capturados na teia do oportunismo, o futuro é negro.

O original encontra-se em Marxism Leninism Today.

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/.

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