7 de março de 2014

Crimeia, desta vez

Putin deve nos salvar outra vez?

Andrew Levine


George Washington nos alertou contra “envolvimentos estrangeiros”. Teria tido uma premonição da falta de visão, da inépcia de seus sucessores, nos anos Bush e na Era Obama?

Se aconteceu assim, a Guerra ao Terror de Bush-Cheney – agora, de Obama – comprova o quanto estava certo. Pode ter sido concebida também deliberadamente, para estimular islamitas a atacar alvos ocidentais. A má vontade que engendrou será fator ativo na política mundial ainda por muitas e muitas gerações.

Também reduziu as proteções liberais que George Washington e seus contemporâneos tanto prezavam. Os que mais sofreram foram os direitos relacionados à privacidade.

Foi essa a ideia o tempo todo? Pode ser.

Bush e Cheney com certeza cuidaram para que seu sucessor encontrasse extremas dificuldades para mudar de curso. Mas Obama, algum dia, quis mudar algum curso? Não se veem sinais de qualquer empenho dele nessa direção. Obama e equipe seguiram a velha trilha com desembestada fúria.

Quem teria suposto que o candidato da paz desenvolveria tal gosto por assassinato e massacres, ou que o professor de Direito Constitucional seria tão arrogante com a Declaração de Direitos?

Mas a Guerra ao Terror vai ficando velha, e Obama está perdendo a paixão por ela. Até os neoconservadores já andaram adiante; hoje, estão muito mais ocupados detonando o movimento BDS (Boicote, Desinvestimento, Sanções). Claramente, o tempo está maduro para novos desmandos.

E assim encontramos a Casa Branca e o Congresso avançando em passos largos rumo ao atraso – despejando vinho novo (os desmandos pós 11/9) nos velhos odres que restaram da Guerra Fria.

Todas as indicações são de que Obama sonha com acertar um ou dois golpes também à China. E por que mais “se pivotearia” rumo à Ásia? Mas ainda falta Obama achar um modo de fazer isso sem prejudicar os interesses da fração do 1% que ele se dedica a proteger e a servir.

As muitas ONGs norte-americanas “pró-democracia” também devem estar bem frustradas. Por mais que elas se esforcem para criar problemas, o estado chinês parece sempre inexpugnável. As chances de as ONGs dos EUA conseguirem destroçar o estado chinês, ou empurrá-lo para o fundo do poço de uma guerra civil são nulas.

Há movimentos separatistas na China – o mais importante dos quais, claro, no Tibete. E agora, graças a um muito propagandeado incidente terrorista no sul da China, os uigures (muçulmanos e falantes do turco) na região de Xinjiang, na franja mais ocidental do norte da China, estão no noticiário.

Mas tentar tumultuar e romper o status quo na China é missão para idiotas − e ideia idiota – porque, hoje e por todo o futuro perscrutável, o comunismo chinês é uma dádiva de deus para os capitalistas norte-americanos e ocidentais em geral.

Para eles, não há sequer possibilidade distante para dividir a China. As regiões onde vicejam sentimentos separatistas não são suficientemente importantes do ponto de vista econômico.

A Rússia, porém, é outra história.

Ali, as forças separatistas são fortes, e as apostas econômicas, altas. E, por menos que alguém venha a ser informado sobre essa verdade pela “mídia” da imprensa-empresa ocidental, abundam as oportunidades para inventar tumultos, porque o nível de repressão pelo estado é baixo. Considere-se o ponto ao qual o grupo Pussy Riot teve de ir, para gerar reação não liberal (chamada, no ocidente, de “autoritária”).

Na China, o serviço de inventar o caos, que as ONGs existem para prestar, tem as asas cortadas curtas; na Rússia e nas ex-repúblicas soviéticas, o trabalho delas é facilitado.

Assim sendo, se a ideia é fazer reviver a Guerra Fria, o lugar para fazê-lo é a Rússia. O caminho é aquele, que Bill Clinton ensinou.

Nos anos 1990s, a Iugoslávia foi presa fácil. Com o marechal Tito, as tensões étnicas diminuíram, mas, partido ele, e com o comunismo nas cordas, o pêndulo foi empurrado outra vez.

Essa possibilidade fez babarem os capitalistas e os guerreiros da Guerra Fria. Qualquer Iugoslávia ainda que só vagamente socialista, era obstáculo no caminho deles. Para eles também, as partes valiam muito mais que o todo.

Clinton deixou que os alemães iniciassem o processo: os bancos alemães tinham muito, a maior parte, a ganhar. Além disso, as partes da Iugoslávia mais inclinadas a quebrar – Eslovênia e Croácia – sempre estiveram, historicamente, na esfera de influência dos alemães.

Mas na sequência, antes que aqueles europeus metidos a besta esquecessem quem é o verdadeiro chefão, Clinton assumiu o comando da operação.

Com a esquerda anti-imperialista diminuída, e atrocidades cometidas e sofridas pelos dois lados, a propaganda ocidental facilmente implantou uma narrativa que bem servia aos interesses do ocidente; e contaram com amplos recursos para isso, e para muito mais.

Foi simplíssimo, porque Clinton tinha a opinião pública ao lado dele. Fora dos círculos dos emigrados, as lembranças do fascismo croata estavam fanadas, e nunca houve lobby sérvio eficaz nos EUA. Foi facílimo pintar os sérvios como vilões sanguinários; e seus líderes, à frente dos quais, Slobodan Milošević, sobretudo, como demônios.

Não só os norte-americanos foram cúmplices do golpe: os europeus fizeram pior. E a Esquerda, nos dois continentes – a parte que se afastara da luta anti-imperialismo – essa, foi a pior de todas.

A Iugoslávia foi pois desmembrada, e um impedimento que havia no caminho da hegemonia neoliberal foi, sim, afastado para longe.

O modelo Clinton já funcionara uma vez; por que Obama, presidente totalmente clintonizado, não poderia tirar-lhe a poeira e tentar outra vez?

Vladimir Putin é talhado para ser convertido em outro Milošević. Meter os ucranianos no papel que foi dos croatas é mais difícil, porque eles não têm lobby já montado nos EUA e porque há poucos católicos por lá, para que a Igreja Católica se intrometa. Mas há alguma compensação, porque os russos já são mais demonizados e demonizados há mais tempo, que os sérvios. Demonizar russos essa é, sim, uma longa, duradoura, tradição norte-americana.

E para manter enquadrados os liberais, além de uma imprensa-empresa a mais servil, Obama tem excelente questão marginal a explorar: os direitos dos gays.

Não me venham com hipocrisias. Em alguns dos estados Republicanos dos EUA, a lei é mais homofóbica que na Rússia. E os norte-americanos corneteadores de Bíblias são muito mais reacionários que os mais reacionários clérigos ortodoxos russos. Mas a sorte é que nos EUA está tudo melhorando, enquanto, como se lê nos jornais e vê-se pela televisão, na Rússia está tudo piorando.

Ruim então para os novos Guerreiros da Guerra Fria, que, até o fim de semana passada, ainda não se vissem sinais de sangue na água. As hordas Pink enviadas para os Jogos Olímpicos de Sochi, embora espertas, não obtiveram o efeito cênico esperado; com certeza não cresceram a ponto de virar “notícia” e/ou boato.

Mas agora que o caos já permitiu encenar um golpe – como acontece sempre que a intervenção dos EUA é “bem-sucedida”, como, atualmente Obama & Co. estão tentando fazer-acontecer na Venezuela – a água já está espessa de muito sangue, metaforicamente e literalmente. E o “jornalismo” de boataria e futricas, esse, chega a dar falta de ar.

Não há canto de página ou fim de linha em que não se leia que Putin, o neo-Milošević que Obama quer inventar, “violou lei internacional” – como se Obama não vivesse de violar lei internacional – porque Putin meteu na própria cabeça que vai restaurar o poder e a influência de que a União Soviética gozou um dia. Talvez, até, Putin tenha planos para reemendar junta toda a velha União.

E quer combater a decadência ocidental. O ocidente, parece, é excessivamente tolerante, para o gosto de Putin. O ocidente aceita a homossexualidade, por exemplo. E Putin – diz a lenda – odeia qualquer desvio das normas estabelecidas; multiculturalismo e livre-pensar o deixam doente. É feito o Grande Inquisidor. Ou um Hitler, como Hillary Clinton já disse.

Como se podia prever, liberais, muitos dos quais não são, nem de perto, tão reacionários como os Clintons, também já subiram na mesma canoa, como fizeram quando o cara metade de Hillary supervisionava o desmembramento da Iugoslávia. De fato, estão-se superando, mesmo pelos padrões que fixaram quando as bombas de Bill choviam sobre a Iugoslávia.

Há uma história bem conhecida, que ilustra o que significam propaganda e boatos: sobre um homem que, acusado de ter assassinado pai e mãe, suplicou clemência ao juiz, apresentando-se como órfão.

Quando todos os fatos vierem à luz, culpar Putin pelos eventos na Ucrânia fará a história do órfão parecer conto de fadas.

Mas por hora ainda há muitos “sabidos não sabidos”, como diria Donald Rumsfeld. Mas há também muitos sabidos sabidos, e muita coisa que se pode pressupor com segurança.

Sabemos, por exemplo, que os EUA vêm-se fazendo de picador, cutucando o touro russo, pelo menos desde que Ronald Reagan mentiu descaradamente a Mikhail Gorbachev (disse-lhe que os EUA não tinham intenção de levar a OTAN até as fronteiras da Rússia).

Por que Gorbachev deixaria de acreditar em Reagan? Porque sem adversário soviético, a OTAN já não teria razão de ser.

Mas o complexo industrial-militar e o establishment da Guerra Fria não cederiam facilmente, e Bush Pai era homem fácil de convencer. Com os vetos no Conselho de Segurança, e nações do Terceiro Mundo incluídas como membros, a ONU tornou-se absolutamente inútil para o serviço de apoiar projeções do poder dos EUA. Com a OTAN, os EUA podiam fazer o que bem entendessem.

Sabe-se também que na Guerra ao Terror, a CIA assumiu muitas missões que, antes, foram dos militares – deslocar e usar os drones de Obama, por exemplo. E sabemos que, quando se trata de fabricar o caos em países distantes, o Departamento de Estado é a nova CIA.

A coisa opera principalmente através da National Endowment for Democracy (NED) e outras organizações ostensivamente “não governamentais”. A NED sempre atuou por toda a Ucrânia e outras repúblicas ex-soviéticas. Opera até dentro da própria Rússia.

Mas ainda não se sabe com certeza qual o papel que a NED e as demais ONGs tiveram na instigação dos eventos que começaram nas ruas de Kiev. Sabemos que serviram como catalisadoras, mas não sabemos sobre a extensão do envolvimento daquelas ONGs.

Sabemos, isso sim, que, no mínimo, e aparentemente em nome de alguma democracia, norte-americanos e europeus apoiaram um golpe contra governo democraticamente eleito; sabemos também que, nesse processo, deram renovado vigor aos demônios longamente reprimidos, da direita europeia no leste da Europa.

Desnecessário dizer que o povo ucraniano tinha objeções legítimas contra o governo deles; era governo corrupto, suas políticas econômicos eram ruinosas. O povo líbio tinha objeções legítimas contra o governo deles e, também os sírios e os egípcios e outros.

A questão é que, por projeto e plano, ou por inépcia, sempre que EUA e União Europeia metem-se em assuntos de outros povos, as coisas sempre pioram muito; quase sempre pioram muito mais que muito.

Daí a situação que se vê fermentar hoje na Crimeia.

Ainda é cedo para pânico. Afinal de contas, Obama recuou de uma guerra contra o Irã, apesar de toda a pressão que o lobby israelense conseguiu mobilizar. Foi caso em que o interesse nacional predominou sobre a covardia política.

No caso atual, o interesse dos EUA é ainda mais claro: fazer guerra à Rússia seria muito pior que total loucura. Por isso, ninguém obra a favor disso, exceto a camarilha de sempre, de senadores Republicanos e os “especialistas” imbecis que os cercam.

Ainda assim, Obama deve considerar tentadora a ideia. Afinal, ele tem de zelar pelo seu “legado”: quem quer ser lembrado por drones, impasses por todos os lados, vigilância 24 horas/dia sete dias por semana contra tudo e todos, e Obamacare?

Obama quebrou a “muralha da cor”. Se tivesse renunciado no 1º dia depois da posse, teria deixado legado realmente glorioso. Mas, como logo todos descobriram, Obama nunca foi um Jackie Robinson.

A glória abundou na Guerra da Crimeia, ou, pelo menos, é o que deve ter passado pela cabeça de muitos rapazes com interesse em história. E se o jovem Barry Obama assistiu à “Carga da Brigada Ligeira” em idade ainda impressionável? Não sei, não faço ideia, mas é conjectura plausível o suficiente para despertar muita preocupação.

Fato é, contudo, que aquela aventura da Brigada Ligeira, muito diferente da Guerra Fria, não pode ser ressuscitada. A Guerra da Crimeia foi criatura de outra época, não se repetirá, sequer como farsa. Se Obama está à cata de glória, terá de procurar noutro lugar.

Na verdade, há semelhanças superficiais. Também foi o ocidente – França e Grã-Bretanha – contra a Rússia; e a Rússia ter acesso a porto de águas temperadas no Mar Negro também era motivo se preocupação. E sempre, então, como hoje, abundavam pretextos e racionalizações ocas e tolas.

Mesmo assim, os tempos eram outros. Hoje é difícil de imaginar, mas nos anos 1850s jamais teria passado pela cabeça de alguém na Grã-Bretanha ou na França, e menos ainda nos EUA – e não passou – que algum dia o ocidente teria de se defender contra o oriente muçulmano. Não esqueçam: o Império Otomano era aliado de Grã-Bretanha e França.

Naqueles tempos, o choque de civilizações se dava entre a cristandade do ocidente e do oriente. Aí, precisamente, os belicistas procuravam e obtinham os seus pretextos. A questão que supostamente teria desencadeado a Guerra da Crimeia foi o controle sobre santuários cristãos em Jerusalém – cidade eternamente disputada e problemática. Franceses e britânicos uniram-se aos otomanos, alegadamente para impedir que a Igreja Russa Ortodoxa deslocasse várias seitas Protestantes e a Igreja de Roma.

Desnecessário dizer que o pretexto central tinha tanto a ver com aquela Guerra da Crimeia quanto a democracia tem, hoje, a ver com as maquinações de EUA e Europa na Ucrânia. Naquele momento, como hoje, tudo era, como sempre, manobra geopolítica.

As potências ocidentais nos anos 1850s nunca tinham ouvido falar, nem davam qualquer importância ao petróleo do Oriente Médio. Mas muito se interessavam, sim, por suas várias “possessões” asiáticas – sobretudo a Índia. Queriam promover o evanescente Império Otomano, para conseguir manter ao largo o Império Russo. O Império Otomano podia ser controlado; o Império Russo era rival que os europeus queriam destruir.

Hoje, claro, a Rússia não tem interesse algum pela Turquia, nem quer dominar o leste do Mediterrâneo. Muito lhe agrada deixar Constantinopla (Istambul) para os turcos. Quer pacificar os muçulmanos em seu território, mas não quer somar os muçulmanos à população da Rússia.

Mas a Rússia, sim, sim, quer segurança nas suas fronteiras. George Washington e os homens e mulheres que pensavam à volta dele compreendiam esse desejo; lembrem-se da Doutrina Monroe. Até John Kennedy entendia: quase pôs fim ao mundo como o conhecermos, e pela mesma razão (quando os soviéticos instalaram mísseis em Cuba) que hoje mobiliza os russos.

A Rússia quer também proteger os direitos e as propriedades de russos que vivam no exterior. Os fundadores da república norte-americana aprovariam imediatamente também essa ideia (o que os piratas da Barbary Coast logo perceberam, para muito lamentarem), como também logo perceberam (e muito lamentaram) os mexicanos e os norte-americanos nativos e incontáveis outros povos, com o passar dos anos.

Até Ronald Reagan entendia bem tudo isso. Quando Reagan e seus conselheiros decidiram que a “Síndrome do Vietnã” já estava a atrapalhar por tempo demais o ímpeto predador do império, usaram pretextos inventados (que de que estudantes norte-americanos, que estudavam Medicina em Grenada, estariam sendo ameaçados), para remobilizar seus soldados.

Fato é que, não se sabe por que, Putin é hoje o único demônio ativo no planeta. Não é coisa que só senadores Republicanos e “especialistas” da direita estejam dizendo. NÃO! Pergunte a qualquer liberal! Se conseguir aguentar sem vomitar, sintonize a rádio NPR ou o canal MSNBC.

No caso do Vietnã, muitos liberais no final da guerra já estavam mais espertos e começavam a ver os fatos. Hoje, só tipos irrecuperáveis como John McCain ainda defendem aquela guerra. E, embora a imprensa-empresa liberal tenha sido tão servil ao governo depois do 11/9 como é hoje sobre os eventos na Ucrânia e na Crimeia, ninguém, hoje, fora do círculo familiar dos Cheney e dos Bush, ainda pensa que a Guerra do Iraque foi boa ideia.

Sobre a Iugoslávia, os liberais continuam tão cegos como sempre. E, porque foi Obama quem bombardeou, ainda há liberais em torno dele que pensam que bombardear a Líbia foi boa ideia. Que bando de gente lamentável, lastimável, sem salvação possível, tornaram-se os liberais norte-americanos!

Por tudo isso, não contem com os liberais para ajudá-los a compreender como e por que – quando Obama e seus agregados culpam Putin por tudo que eles mesmos fizeram – o que mais se vê são liberais que se se apresentam à opinião pública como se fossem o “órfão” da piada. No futuro, os historiadores verão, assim como tantos hoje veem já bem claramente o Vietnã e o Iraque; mas “no futuro” talvez já seja tarde demais.

Por sorte, a política exterior russa está em mãos muito mais inteligentes, lúcidas, espertas que a dos EUA. Faz pouco tempo, os russos – de fato, foi Putin em pessoa – salvaram Obama de meter-se numa guerra catastrófica contra a Síria, depois de o próprio Obama ter armado a arapuca para si mesmo, com declarações imbecis sobre uma “linha vermelha” que Bashar Al-Assad não poderia atravessar.

Agora, outra vez, as melhores esperanças dos EUA estão nas mãos dos russos. Se o que acontece na Crimeia ficar na Crimeia, os EUA ficaremos devendo mais essa aos russos.

Andrew Levine é professor sênior do Institute for Policy Studies, e autor de The American Ideology (Routledge) e Political Key Words (Blackwell). Ele foi professor de Filosofia) na University of Wisconsin-Madison e professor pesquisador (filosofia) na University of Maryland-College Park. Seu livro mais recente é In Bad Faith: What’s Wrong With the Opium of the People. Ele contribuiu com Hopeless: Barack Obama and the Politics of Illusion (AK Press)

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