14 de março de 2014

Demonizar Putin

Uma manobra perigosa

Andrew Levine

CounterPunch: Tells the Facts and Names the Names

Democratas e republicanos passam praticamente todo o tempo uns com as unhas na garganta do outros. Há muitas razões. Mas entre elas não se incluem diferenças filosóficas ou ideológicas fundamentais.

Mas essa não é a concepção dominante. A sabedoria convencional acredita que haveria filosofias diferentes entre eles – os democratas são liberais e os republicanos, conservadores. Talvez, antigamente, num tempo remoto, as coisas tenham sido mais ou menos assim. Hoje, a briga é outra.

A concepção dominante, por um lado, confere democratas e republicanos excessivo crédito. Por outro lado, insulta o liberalismo e o conservadorismo.

Ultimamente, a ideia de que Vladimir Putin é um dos “bandidos” passou a integrar a sabedoria convencional; nisso, democratas e republicanos concordam. É notável – não só porque ultimamente o hábito deles é discordar, mas também porque há pouco tempo tratava-se exatamente do contrário.

George W. Bush olhou no olho de Vladimir Putin, perscrutou-lhe a alma, achou boa. Só inconformados da Guerra Fria à antiga o espinafrava. Agora, Hillary Clinton, ecoando o consenso da imprensa, comprara Putin a Hitler. Como todos sabem, é o mesmo que dizer que Putin é o mal encarnado.

Quanto a isso, ela fala por todo o establishment político.

Mas liberais e conservadores verdadeiros não têm motivo algum para demonizar o presidente russo. Os liberais deveriam dar-lhes boas-vindas sob o mesmo amplo guarda-chuva. Os conservadores deveriam abraçá-lo.

Mas, democratas e republicanos o demonizam.

Desde que diferenças filosóficas não explicam isso, deve haver algum outro motivo. Talvez porque Putin é o presidente da Rússia?

Nem americanos nem europeus são geneticamente anti-russos, nem tendem a denegrir a cultura russa. Mas suas elites políticas e econômicas são sensíveis a todas e quaisquer sugestões de que o sistema econômico de que se beneficiam não é, por assim dizer, uma bênção para todas as nações.

Isso faz da Rússia um problema para essas elites, na medida em que, como hoje, a sabedoria convencional acredita que a relação da Rússia com o capitalismo é problemática.

Ironicamente, o conservadorismo também é. O liberalismo, não.

De fato, o liberalismo uniu-se ao capitalismo desde o primeiro dia.

Houve proximidade entre ambos na Holanda e na Inglaterra já no século 16, e os dois desenvolveram-se no mesmo compasso – unidos, há muito tempo, por centros capitalistas da Europa Ocidental e da América do Norte.

O liberalismo inicial foi, de fato, a teoria da justificação do capitalismo.

Os filósofos têm expressado visões do que o liberalismo é desde então, e a política liberal assumiu ampla variedade de formas.

Mesmo assim, apesar das muitas variantes, há um núcleo comum entre capitalismo e liberalismo. Como o nome sugere, tem a ver com liberdade ou libertação [orig. liberty or freedom]. Mais precisamente, tem a ver com visões distintas deste valor central.

A concepção de liberdade com a qual os liberais são mais apegados, histórica e conceitualmente, é individualista e negativa, os indivíduos são livres na medida em que são livres de interferências coercitivas.

Esse entendimento às vezes fundiu-se com concepções mais positivas, segundo a qual os indivíduos são livres na medida em que eles são capazes de fazer as coisas que eles querem fazer, e recentemente com compreensões menos individualistas derivadas da teoria política republicana (“r” minúsculo) do século 18.

A ideia serviu também a uma ampla gama de elaborações filosóficas que se baseiam em noções de igualdade e justiça e em outros problemas profundos de filosofia moral.

Mas como doutrina política, a ênfase subjacente do liberalismo continuou bastante estável ao longo dos anos: o foco sempre foi e continua a ser minimizar as interferências coercitivas do estado.

O liberalismo é, portanto, uma teoria do governo limitado. Nos tempos antigos, opôs-se a teorias absolutistas segundo as quais o poder do soberano é em princípio ilimitado. E venceu essa batalha há muito tempo.

Por isso, é justo dizer que, exceto por um punhado de devotos inconformados com teorias não liberais extintas, todo mundo é um liberal hoje em dia. Os conservadores são liberais demais.

Em termos comuns, não liberalismo e “ditadura” às vezes são confundidos. Isso é compreensível, mas também pode ser enganoso.

Existem regimes de Estados fracos ou fracassados que têm características ditatoriais, e há líderes políticos que às vezes têm ações “ditadoriais”.

É assim que nossa mídia retrata Vladimir Putin agora. E é como alguns partidários do Tea Party, os mais delirantes, retratam Barack Obama.

Mas, independente do mérito dessas acusações, o fato permanece: onde o poder soberano seja limitado por leis cogentes, só resta o liberalismo. Isso vale para os EUA, e isso vale para a Rússia também.

Os primeiros liberais estavam preocupados principalmente com o comércio; o objetivo deles era substituir a mão invisível do mercado pelo Estado e substituir as relações feudais de propriedade pelo regime de propriedade privada.

Os velhos inimigos mercantis e feudais do liberalismo se foram, mas seus compromissos doutrinais permanecem.

“Libertaristas” [orig. libertarians”] continuam a ecoar posições assumidas pelos primeiros liberais; a fé que tinham nos livres mercados e na propriedade privada continua inabalada. A sabedoria convencional coloca-os no campo conservador, mas, na realidade, são o mais liberal que podem ser.

Liberais dominantes são menos doutrinários, ou, como diz a sabedoria convencional, mais “pragmáticos”.

Essa palavra também tem raízes filosóficas que mantêm só vaga relação com o modo como é usada em nossa cultura política. Lá, “pragmático” significa apenas “de mente aberta” ou “flexível”.

Nesse sentido, os liberais tradicionais são, em geral, pragmáticos. Dentro dos limites gerais do compromisso estabelecido com os princípios liberais, eles se dão bem com o que funciona.

Em parte por essa razão, eles não têm qualquer interesse em promover as doutrinas econômicas liberais clássicas. A razão mais importante é que suas principais preocupações não são, de modo algum, econômicas.

Eles são defensores da tolerância e tudo que ela implica.

Esse foco não é novo. Ele antecede as revoluções francesa e americana.

Muitos fatores combinaram-se para converter o liberalismo numa filosofia da tolerância. A devastação trazida pelas guerras religiosas que se seguiram à Reforma Protestante foi, talvez, o mais importante.

A mudança de ênfase foi tão profunda e suas consequências, de tão longo alcance, que quase ninguém hoje em dia, fora dos círculos libertaristas, ainda pensa que as liberdades econômicas e políticas constituem rede inconsútil.

Na verdade, os liberais tradicionais em geral apoiam mercados regulados e restrições aos direitos de propriedade. Mas, para eles, essas são apenas preocupações secundárias. O principal interesse deles está em defender tais direitos e liberdades como são elaborados, digamos, na Carta de Direitos (Bill of Rights) da Constituição Americana e na Declaração dos Direitos do Homem (The Declaration of the Rights of Man).

Apenas para tornar tudo mais fácil, autoridades políticas estão constantemente tentados a passar por cima dessas proteções. Mas onde se mantem o Estado de Direito, há limites para o quão longe podem ir. Isso é verdade na Rússia, é verdade em toda a União Europeia e é verdade nos EUA também.

Putin é qualitativamente pior que líderes comuns de estados liberais? Ele é pior que Obama? A resposta é obviamente, ou assim nos dizem.

Afinal, como poderia alguém formado pela Faculdade de Direito de Harvard e professor de Direito Constitucional da Universidade de Chicago ser menos liberal que um ex-agente da KGB?

Mas quando se analisa finalmente, a resposta óbvia pode não parecer assim tão óbvia.

O que Putin fez que é pior, do ponto de vista liberal, que colocar todo o planeta sob regime de vigilância 24 horas/dia, sete dias por semana? Ele ordenou assassinatos sem a qualquer remota semelhança ao devido processo legal, como Obama fez? Ele deportou cerca de dois milhões de pessoas? Ele protegeu sequestradores e torturadores?


E há a questão de Edward Snowden, na qual as ideias de Obama et alii sobre transparência e liberdade de expressão ficaram bem claras, e na qual Putin alistou-se ao lado dos anjos.

É quase um axioma que a liberdade de expressão está mais bem protegida nos EUA de Obama, que na Rússia, hoje. Mas... é verdade? Compare a mídia corporativa da América e a rede de televisão RT (Russia Today), desqualificada como rede de propaganda de Putin.

O padrão dos comentários e comentaristas e das análises e analistas de RT é, de longe, muito superior, e há ali muito maior diversidade de pontos de vista. Se isso é rede de propaganda, então... temos de importá-la.

Diz-se que Putin teria violado a lei internacional na Crimeia. É ponto contra seu liberalismo, porque apoiar o império da lei é central para as políticas liberais.

Mas também nisso, seria Putin pior que Obama? Putin, pelo menos, não é invasor agressor serial.

Claro, é notório que os Democratas são fracos, e que também relutam em defender valores liberais quando um deles está na Casa Branca. Então, quando recebem ordem para demonizar, eles demonizam. Não há surpresa nisso.

Mas se fossem mesmo liberais, certamente resistiriam à ordem. Eles poderiam não estar do lado de Putin na Crimeia, mas eles teriam que considerá-lo, na pior das hipóteses, como um dos seus, aquele que se extraviou. Eles consideram Obama assim também.

Então há os conservadores.

Em seu nível mais fundamental, o conservadorismo é um estado mental que atribui prioridade a conservar as coisas como estão. Assim como os liberais concedem um lugar de destaque à ausência de interferência do Estado, os conservadores valorizam a estabilidade e a ordem acima de tudo.

Eles são, portanto, avessos a mudanças, e eles são especialmente relutantes em mudar os arranjos institucionais fundamentais. As mudanças são perturbadoras, e quanto mais radical mais perturbadoras tendem a ser.

Sem dúvida esse temperamento é mais difundido nas fileiras republicanas do que nas democratas.

Mas, como uma filosofia política plena, o conservadorismo quase não existe na nossa cultura política. Como poderia, quando o que temos para conservar é inerentemente desestabilizador!

Desde o alvorecer da era cristã, os pensadores conservadores em toda a cristandade apoiaram-se em noções teológicas, como a doutrina do pecado original, que implica o apoio a instituições que mantêm a ordem através da coerção política e moral.

Porque muitos dos primeiros colonos na América do Norte Britânica eram refugiados religiosos, esta estirpe do pensamento conservador tem sido uma presença no cenário norte-americano a partir do momento da chegada dos europeus . Mas a situação evoluiu, e as formas pré-iluministas de pensar diminuiu.

De fato, a república fundada no rescaldo da nossa Guerra de Independência era liberal desde o nascimento, e seus princípios fundadores foram os do Iluminismo.

Essa é a razão pela qual linhas de pensamento que tivessem implicações antiliberais demoraram a fixar-se. Outra, é que não temos passado feudal e, portanto, nenhuma memória de modos não capitalistas de viver que prestigiam a estabilidade e a ordem.

O capitalismo, afinal, é um sistema econômico revolucionário; derruba e reconstrói tudo que encontra. Como proclamou o Manifesto Comunista, sob sob sua égide, “tudo que é sólido desmancha no ar”.

Os conservadores de hoje, os verdadeiros, vivem em sociedades capitalistas e, portanto, se acomodam às suas consequências desestabilizadoras. Mas a tensão não pode nunca ser totalmente superada.

É por isso que nossos conservadores são, na melhor das hipóteses, apenas risíveis fac-símiles do artigo genuíno.

No entanto, quase todos os republicanos e muitos democratas se chamam de "conservadores".

Não estão completamente errados, porque há pelo menos uma característica do conservadorismo autêntico que eles partilham com o genuíno.

Conservadores contemporâneos são liberais, todo mundo é. Mas liberais do lado auto-identificado consenso liberal, os que levam a tolerância mais a sério do que o que o filósofo libertarista Robert Nozick chamou de “atos de capitalismo entre adultos que consentem”, normalmente querem que o estado seja o mais neutro possível – não só no que tenha a ver com a religião e o modo de viver, mas também para todas as concepções do bem que estejam em confronto.

Para eles, o papel do estado não é promover concepções particulares do bem, mas tratar com equidade concepções que em confronto.

Os conservadores, por outro lado, os genuínos, são ainda fiéis, ou tão fiéis quanto ainda são nas modernas sociedades pluralistas, a concepções particulares do bem; concepções que estejam de acordo com seus compromissos filosóficos subjacentes.

Os liberais, é claro, também têm concepções do bem; mas as veem apenas como questões de consciência individual. Os conservadores tendem a usar o poder do Estado para promover as concepções que eles prestigiem.

Nosso auto-intitulados conservadores são como eles nesse aspecto.

Mas... Putin não está sendo acusado precisamente disso pelos que o chamam de ditador? E, por falar nisso, as concepções de bem que Putin é acusado de promover não são basicamente as mesmas defendidas pelos que o demonizam?

Se se ouve o que dizem os republicanos e e os democratas, Putin estaria comandando o espetáculo a serviço dos clérigos russos reacionários – seja por oportunismo ou por acreditar na conversa deles, ou por ambos os motivos. Mas por que isso é um problema para os políticos americanos, entre eles, os auto-intitulados conservadores? Exceto por sutilezas teológicas sem relevância política, que variam, nossos teocratas nativos fazem exatamente a mesma coisa.

Conservadores verdadeiros deveriam, portanto, abraçar Putin, e não difamá-lo; e não apenas por suas supostas simpatias pré-iluministas.

Sendo pessimistas quanto a natureza humana, os verdadeiros conservadores tendem a favorecer estilos políticos autoritários e duros, a diplomacia realista. Eles gostam de líderes fortes, e desprezam o debate de moralistas sem noção – como os que hoje fazem a política externa dos EUA.

Eles acertam em um ponto: liberais internacionalistas – especialmente interventores humanitários – são mais perigosos.

Mas, então, por que demonizar Putin por ser tipo de líder que os conservadores verdadeiros admiram?

Ele está fazendo o que um dos menos presunçosos participantes da recém concluída Conferência da Ação Política Conservadora [orig. Conservative Political Action Conference (CPAC)] em Washington, embora a contragosto, concordou.

Rudolph Giuliani aproveitou para depreciar Obama, elogiando a liderança de Putin. Em vez de vagar como Obama de uma direção para outra, Putin, disse Giuliani, sabe para onde está indo.

Como outros grandes líderes conservadores do passado – Charles de Gaulle vem à mente – Putin aborda a política e a diplomacia como um jogo de xadrez, considerando toda a situação e antecipando o movimento certo, várias jogadas à frente.

E assim, quando interessa ao seu objetivo, Putin salva Obama, como fez quando Obama se encurralou de tal modo que, sem a intervenção de Putin, teria metido os EUA na guerra da Síria – com prejuízo para todos os demais envolvidos.

Ou, quando isso é do seu interesse, ele pode se impor até em relação ao presidente dos EUA, não obstante o fato de que os EUA tenham a carta mais alta.

Sob o guarda-chuva conservador, evidentemente, não há lugar para um tipo de grandeza que está faltando na ala liberal do grupo liberal maior.

Grandeza, mas não bondade. Quanto a isso, como em quase tudo, George W. Bush estava errado. Hillary Clinton está errada também..

Putin é o mais próximo do que há em relação aos grandes líderes conservadores do passado. Os conservadores deveriam louvá-lo por isso. Mas a diferença entre os verdadeiros conservadores e os auto-intitulados conservadores que há por aí é enorme; é como se fossem espécies diferentes.

Mas, ainda assim, a questão permanece: por que demonizar Putin?

Atrevo-me a sugerir que o fato de Putin ser presidente da Rússia tem mais do que um pouco a ver com isso.

Mesmo no país que Gore Vidal chamou apropriadamente de Estados Unidos da Amnésia, ainda há registros de que, há um século, os russos fizeram a história andar para a frente; e se libertarem do sistema capitalista.

Os comunistas que lideraram a Revolução Russa, em seguida, passaram a organizar e supervisionar a construção de uma ordem ostensivamente socialista, sem precedentes na história. Foi um grande esforço – realizado em um país economicamente atrasado e em face da oposição implacável  de inimigos muito mais fortes.

Tragicamente, o que eles fizeram converteu-se no que não era. Sete décadas depois, ruiu.

Mas o comunismo – na Rússia e, depois, na Europa Oriental e na China – era presença viva durante grande parte do século 20; seus efeitos na política e na reflexão sobre a política foram profundos.

Mesmo em um país e em uma época em que estados e regiões com tendência aos Republicanos são chamados de “vermelhos”, a memória do comunismo persiste, em algum nível.

Putin não é menos pró-capitalista do que qualquer outro na vertente liberal , e ele é um líder conservador tão bom quanto se pode ser no mundo de hoje.

À leste, a parte russa, tanto quanto os chineses - já não é nem remotamente vermelho (exceto, talvez, no sentido de que os republicanos são ), mas a memória persiste em nossa consciência coletiva.

E assim, quando um líder russo torna-se um obstáculo nos caminhos dos americanos, o império contra-ataca. O primeiro passo é difamar o líder. E, se houver algo que nosso establishment de política externa e a nossa mídia corporativa compatíveis é bom, difamação está no topo da lista.

Demonizar Putin pode ser útil no curto prazo para os administradores do ‘bipartidarismo’ imperial.

Mas estão lidando com alguém mais competente do que a si mesmos, e já estão com a água no pescoço. É uma manobra cínica e perigosa da qual um dano incalculável pode se seguir.

Andrew Levine é professor sênior do Institute for Policy Studies, e autor de The American Ideology (Routledge) e Political Key Words (Blackwell), bem como de muitos outros livros e artigos em filosofia política. Seu livro mais recente é In Bad Faith: What’s Wrong With the Opium of the People. Foi professor de Filosofia) na University of Wisconsin-Madison e professor pesquisador (filosofia) na University of Maryland-College Park. Foi também co-autor de Hopeless: Barack Obama and the Politics of Illusion (AK Press).

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