27 de março de 2014

Depois do golpe em Kiev, o Ocidente vai se concentrar em Moscou

Sergei Markov


Tradução / Em conversa com o presidente Barack Obama dos EUA há algumas semanas, a chanceler alemã Angela Merkel teria dito que tinha a impressão de que o presidente Vladimir Putin viveria em outro mundo.

A frase, mal interpretada e fora de qualquer contexto, foi rapidamente repetida pela mídia ocidental e foi manchete durante dias.

Mas tudo sugere que Merkel – se disse o que se diz que teria dito – só o teria feito por não compreender a realidade da Rússia, o que acontece com muita frequência entre os “especialistas” ocidentais.

O golpe ocidental de 22/2 em Kiev foi só o aperitivo. O prato principal virá quando EUA e União Europeia se alinharem completamente à oposição na Rússia, na tentativa de mais um golpe, dessa vez tentando derrubar Putin e criar em Moscou um governo à moda Maidan.

Mas qual é a realidade russa? Se se fala da natureza dos conflitos na Crimeia e na Ucrânia, o entendimento que os russos têm desses eventos é em tudo diferente do que o ocidente vê – e divulga – nos mesmos eventos.

Na realidade russa, os protestos e o golpe de Maidan não fizeram a Ucrânia aproximar-se de mais democracia nem de governo legal, mas a empurraram na direção oposta: rumo à violência contra jornalistas, opositores políticos e cidadãos comuns. As autoridades do governo de Kiev estão sob controle de uma minoria extremista armada e violenta, que já planeja campanha de repressão em grande escala contra russos étnicos e outros grupos.

Do ponto de vista dos russos, não há governo legítimo na Ucrânia, depois que os “revolucionários” derrubaram o presidente democraticamente eleito.

Para nós, russos, a Ucrânia não tem autoridade soberana, porque os principais governantes do país não foram eleitos: foram nomeados, por trás das cortinas, pelos EUA. O que, se não isso, explicaria que o desconhecido Oleksandr Turchynov seja hoje presidente da Ucrânia, e Vitaly Klitschko, conhecido aspirante ao posto, mas não “eleito” pela vice-secretária de Estado dos EUA Victoria Nuland, tenha sido afastado? E por que e como Arseniy Yatsenyuk chegou a primeiro-ministro, apesar de não ser popular entre os ucranianos e de só ter sido “eleito”, exclusivamente, pela mesma sra. Nuland?

Os planos de Nuland para a Ucrânia tornaram-se afinal conhecidos depois do vazamento de uma conversa telefônica [“Foda-se a União Europeia”], semanas antes do golpe que derrubaria o presidente Viktor Yanukovych.

Pelo modo como os russos veem as coisas, os deputados ucranianos foram ameaçados e forçados a aprovar ministros que sequer conheciam. O que se vê é que a Ucrânia é hoje governada por uma junta composta de várias milícias. Além de Turchynov e Yatsenyuk, aquela junta inclui Andrei Parubiy, chefe do Conselho de Segurança e Defesa Nacional. Foi também chefe das forças de autodefesa da Praça Maidan, grupo armado que, em fevereiro, assumiu o controle das manifestações antes pacíficas, obedecendo ordens de Washington. A junta inclui também Dmitry Yarosh e Oleh Tyahnybok, chefes, respectivamente, das milícias armadas dos partidos neonazistas Setor Direita (Pravy Sektor) e Svoboda.

Quem são esses chefes? O que se ouve é que seriam nacionalistas, mas todos exibem símbolos neonazistas. Numa referência aos fascistas da II Guerra Mundial apresentam-se como seguidores de Stepan Bandera, Roman Shukhevych e do teórico fascista Dmitry Dontsov. Bandera e Shukhevych, como os russos sabem, juraram, ambos, fidelidade a Hitler. Entraram na Ucrânia em 1941 acompanhando a Wehrmacht, ou, mais precisamente, a SD – a divisão de inteligência dos nazistas alemães, onde serviam. Essa SD nazista forneceu armas, munição e empregos administrativos a extremistas ucranianos, nos territórios ocupados. Sob ordens dos alemães, esses extremistas combateram ativamente contra a resistência dos partisans soviéticos.

Os russos sabem também que, durante os três anos que Bandera passou, depois, num campo alemão de concentração de prisioneiros, sempre teve regalias, tinha um rádio e acesso à biblioteca. Em 1944, o líder nazista Heinrich Himmler retirou Bandera da prisão e o pôs de volta no serviço ativo, abastecido com dinheiro e armas.

Durante a Guerra Fria, os EUA e seus aliados usaram veteranos do grupo de Bandera em sua luta contra a União Soviética, fingindo ignorar seu passado de colaboradores dos nazistas. Mas os russos sempre vimos esses banderistas como fascistas e cúmplices de Hitler. Shukhevych, por exemplo, comandou o conhecido batalhão de execução e castigo Nachtigall, responsável por assassinato em massa de judeus e outros civis.

Hoje, os partidos Setor Direita e Svoboda atualizam muitas das ideias e práticas dos nazistas, usam símbolos nazistas estilizados, bandeiras nazistas e saudações nazistas (“Glória à Ucrânia – Glória aos Heróis”, saudação associada ao movimento dos nazistas bandeiristas). Esses dois grupos extremistas ucranianos pregam o antissemitismo, o ódio a outras etnias e povos, a russofobia, a glorificação de veteranos nazistas e são ativos “negadores” (negam que os nazistas tenham cometido qualquer crime).

Resultado disso tudo, os russos sabemos que os partidos Svoboda e Setor Direita não são “apenas” nacionalistas radicais, mas neonazistas de linha duríssima, que chegaram ao poder e agora controlam o governo e as principais forças policiais da Ucrânia.

Havia vários prisioneiros políticos na Ucrânia, mesmo antes de esses grupos tomarem o poder. No primeiro dia de “governo”, esse novo “governo” supostamente pró-Europa tomou a decisão de suspender a vigência da Carta Europeia para Idiomas Regionais e Minoritários; na sequência, fecharam todas as páginas do governo ucraniano distribuídas em língua russa; e proibiram as aulas dadas em russo, nas escolas. Quando a Corte Constitucional recusou-se a reconhecer o golpe, as autoridades neonazistas dissolveram a Corte e emitiram acusações contra todos os juízes.

Na Rússia, todos sabemos de tudo isso e, também, que militantes neonazistas mataram a tiros cidadãos que se manifestavam pacificamente em Carcóvia; sabemos também que os mesmos matadores receberam salvo-conduto para retornar a Kiev.

Quem conhece de perto essa realidade, percebe que EUA e União Europeia agem irracionalmente quando abandonam o povo ucraniano à sanha das autoridades extremistas em Kiev e apoiam aqueles criminosos que hoje ocupam postos de governo em Kiev.

Quanto às sanções... Quem no mundo entenderá por que Andrei Fursenko, assessor do presidente Putin e ex-ministro, aparece naquela lista? Talvez... porque é proprietário de uma dacha na cooperativa Ozero?!

Os russos percebemos também que a lista de nomes “sancionados” foi diretamente copiada do artigo que o “vazador” Alexei Navalny publicara semana passada no The New York Times, imediatamente antes de as sanções serem anunciadas. A única explicação que os russos vemos para tudo isso é que o Departamento de Estado dos EUA está interessado em inflar o “prestígio” e a “influência” de Navalny na Rússia...

Aos olhos dos russos, ante a realidade da Rússia, a conclusão óbvia é que EUA e União Europeia tentam ajudar a oposição russa interessados, todos, em derrubar Putin e em implantar em Moscou um governo à moda neonazista de Maidan.

O plano para um golpe na Rússia? É simples: primeiro, instalarão em Kiev algum governante semelhante ao ex-presidente da Geórgia Mikheil Saakashvili – anti-Rússia cabeça quente e ambicioso, disposto a fazer o que o ocidente mandar fazer. Depois, pagarão para rearmar o exército ucraniano. Em seguida, em 2017 – às vésperas das eleições presidenciais na Rússia – despacharão para a Crimeia e também para outros pontos da Rússia, aquele exército ucraniano rearmado. Foi exatamente o que se viu acontecer em 2008, com o deslocamento de tropas georgianas.

Mas... será que o ocidente realmente acredita que o presidente Putin receberá sem reagir essa agressão militar contra a Rússia?

A Rússia exige providências imediatas e acordo claro: que se constitua imediatamente uma nova coalizão de governo na Ucrânia; que os extremistas, ultranacionalistas e fascistas sejam desarmados; que se institua nova Constituição federalista e novo federalismo; que se deem garantias constitucionais de igualdade de direitos aos falantes de russo e de ucraniano; e que se realizem eleições limpas, livres e justas.

Mas, em vez disso, EUA e União Europeia só fazem ameaçar e insistir que a Rússia aceite sem qualquer reação o status quo.

Será que algum líder ocidental realmente supõe que Putin algum dia venha a aceitar o modo distorcido como o ocidente está apresentando as realidades em campo na Ucrânia?

De fato, ao insistir que Putin capitule, o ocidente vai, aos pontos deixando-o sem alternativas; só lhe restará a via de responder militarmente. E a história ensina claramente que diante desse tipo de dura realidade, a Rússia nunca escolheu a capitulação: sempre escolheu a guerra.

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