7 de março de 2014

Deus abençoe Putin

Uri Avnery


BINYAMIN NETANYAHU é muito bom em fazer discursos, especialmente para os judeus, neocons e tal, quem saltam para aplaudir descontroladamente tudo o que ele diz, inclusive que amanhã o sol nascerá no oeste.

A pergunta é: ele é bom em alguma coisa?

Seu pai, um ultra ultra-direitista, disse uma vez sobre ele que ele não serviria para primeiro-ministro, mas que ele poderia ser um bom ministro das relações exteriores. O ele queria dizer era que Binyamin não tem a profundidade de compreensão necessária para conduzir a nação, mas que vende muito bem qualquer política concebida por um líder de verdade.

(Faz lembrar o que Abba Eban disse de David Ben-Gurion: “Ele explica muito bem. Depois que se diz a ele o que explicar”).

Essa semana, Netanyahu foi convocado a Washington. Tinha que aprovar o novo “quadro” de John Kerry para algum acordo, o qual serviria de base para o reinício de negociações de paz que, até agora, deram em nada.

Na véspera da reunião, o presidente Barack Obama deu uma entrevista a um jornalista judeu, e culpou Netanyahu pelo congelamento do “processo de paz” – como se tivesse havido algum processo de paz.

Netanyahu chegou lá com a mala vazia – quero dizer, com a mala cheia de slogans vazios. A liderança israelense tinha se esforçado muito para alcançar a paz, mas não há avanços por culpa dos palestinos. A culpa é de Mahmoud Abbas, porque se recusa a reconhecer Israel como estado-nação do povo judeu.

O quê... hmm... E sobre as colônias, que aumentaram muito ao longo desse ano? Por que os palestinos teriam que estabelecer negociações sem fim, se, ao mesmo tempo, o governo israelense rouba mais terra, exatamente a terra que estaria sendo negociada? (Como dizem os palestinos, argumento clássico: “Negociamos sobre dividir a pizza, enquanto Israel está comendo a pizza”). 

Obama se obrigou a confrontar Netanyahu, o AIPAC e seus lacaios do Congresso. Estava a ponto de torcer o braço de Netanyahu até ele gritar “titio” – sendo “titio” o tal “quadro” de Kerry, que está tão diluído que parece mais um manifesto sionista. Kerry é louco por uma conquista, seja qual for o seu conteúdo e descontentamentos.

Netanyahu, à procura de alguma coisa para repelir o ataque, estava pronto a chorar, como de costume, "Irã! Irã! Irã!"– quando algo inesperado aconteceu.

NAPOLEÃO, em uma frase famosa, disse: “Deem-me generais que tenham sorte!”. Ele teria adorado o general Bibi.

Porque, no caminho para enfrentar um Obama recentemente revigorado, houve uma explosão que abalou o mundo:

Ucrânia.

Era como os tiros que ecoaram em Sarajevo, cem anos atrás. A tranquilidade internacional foi subitamente abalada. A possibilidade de uma grande guerra estava no ar.

A visita de Netanyahu desapareceu do noticiário. Obama, ocupado com crise histórica, só queria se livrar dele o mais rápido possível. Em vez da admoestação severa que havia planejado, só rápidas frases ocas. Todos os discursos maravilhosos que Netanyahu tinha preparado ficaram não discursados. Sequer seu discurso habitual triunfante no AIPAC despertou interesse.

Tudo por causa da agitação em Kiev.

Até agora, inúmeros artigos foram escritos sobre a crise.Associações históricas não faltam.

Embora Ucrânia signifique “fronteira”, o país sempre esteve no cento dos eventos europeus. Coitados dos alunos ucranianos! As mudanças na história de seu país foram frequentes e extremas. Em momentos diferentes a Ucrânia era uma potência europeia e um pobre e exaurido território, extremamente rica (o celeiro da Europa) ou abjetamente pobre, atacada por vizinhos que capturaram seu povo para vendê-los como escravos ou atacando seus vizinhos para ampliar seu país.

A relação entre Ucrânia e Rússia é ainda mais complexa. Num certo sentido, a Ucrânia é o coração da cultura, da religião e da ortografia russa. Kiev foi muito mais importante que Moscou, antes desta tornar-se a pedra central do imperialismo moscovita.

Na Guerra da Crimeia da década de 1850, a Rússia lutou valentemente contra uma coalizão da Grã-Bretanha, França, o Império Otomano e a Sardenha, mas perdeu a guerra. A guerra eclodiu por causa de direitos cristãos em Jerusalém, e incluiu longo sítio de Sebastopol. O mundo lembra a Carga da Brigada Ligeira. Uma britânica de nome Florence Nightingale criou a primeira organização para atender feridos no campo de batalha.

Durante minha vida, Stálin assassinou milhões de ucranianos, que morreram de fome. Resultado disso, muitos ucranianos festejaram a chegada da Wehrmachtalemã, em 1941, como libertadores. Poderia ter sido o início de uma bela amizade, mas, infelizmente, Hitler estava decidido a erradicar os ucranianos Untermenschen [sub-humanos], para integrar a Ucrânia ao Lebensraum [espaço vital] alemão.

A Crimeia sofreu terrivelmente. O povo tártaro, que tinha governado a península no passado, foi deportado para a Ásia Central; décadas depois, foram autorizados a voltar. Agora eles são uma pequena minoria, aparentemente indecisa quanto às suas lealdades.

A RELAÇÃO entre a Ucrânia e os judeus não é menos complicada.

Alguns autores judeus, como Arthur Koestler e Shlomo Sand, acreditam que o império Khazar, que governou a Crimeia e territórios vizinhos há mil anos, converteu-se ao judaísmo, e que muitos judeus asquenazes descendem dos khazares. Isso transformaria todos nós em ucranianos. (Muitos líderes sionistas vieram da Ucrânia).

Quando a Ucrânia fazia parte do extenso império polonês, muitos nobres poloneses tomaram conta de grandes propriedades lá. Empregaram judeus na administração dos negócios. Daí que os camponeses ucranianos tenham passado a ver todos os judeus como agentes dos que os oprimiam e exploravam; e o antissemitismo tornou-se parte da cultura nacional da Ucrânia.

Como aprendemos na escola, a cada salto da história ucraniana, os judeus eram massacrados. O nome de inúmeros heróis do folclore ucraniano, de líderes e de rebeldes reverenciados na terra natal, são, na consciência dos judeus, associados a terríveis pogrom.

Cossack Hetman (líder) Bohdan Khmelnytsky, que libertou a Ucrânia do jugo polonês e é considerado pelos ucranianos o pai da nação, foi um dos mais terríveis assassinos em massa na história dos judeus. Symon Petliura, que liderou os ucranianos na guerra contra os bolcheviques depois da I Guerra Mundial, foi assassinado por um vingador de judeus.

Em Israel, alguns dos imigrantes mais velhos terão dificuldade para decidir quem odeiam mais: os ucranianos ou os russos (ou, os poloneses, não se pode esquecer).

As pessoas, pelo mundo, acham difícil escolher seu lado.

Os fanáticos da Guerra Fria, não; escolhem facilmente - ou eles odeiam os americanos ou os russos, por força do hábito.

Quanto a mim, quanto mais analiso a situação, mais inseguro me sinto. Essa não é situação em preto e branco.

A primeira simpatia vai para os rebeldes da praça Maidan (Maidan é palavra árabe, que significa praça da cidade. Curioso que tenha chegado a Kiev. Provavelmente, via Istambul).

Queriam unir-se ao ocidente, ter independência e democracia. O que há de errado nisso?

Nada, exceto que aqueles rebeldes apareceram aliados a estranhos companheiros de cama: neonazistas em uniformes nazistas, saudando à Hitler e gritando slogans antissemitas. Não, nada atraentes. O encorajamento que recebem de aliados ocidentais, incluídos os odiosos neoconservadores norte-americanos, é impalatável.

Por outro lado, Vladimir Putin, também não é muito atraente. É o velho imperialismo russo mais uma vez.

O slogan usado pelos russos – a necessidade de proteger as pessoas de língua russa em um país vizinho – soa estranhamente familiar. É uma cópia exata da afirmação de Adolf Hitler em 1938 para proteger os alemães dos Sudetos dos monstros checos.

Mas Putin tem alguma boa lógica a seu favor. Sebastopol – cenário de sítios heroicos, tanto na Guerra da Crimeia como na II Guerra Mundial, é essencial para as forças navais russas. A associação com a Ucrânia é parte importante das aspirações que a Rússia tem como potência mundial.

Um operador de sangue-frio, calculista, de um tipo agora raro no mundo, Putin usa as cartas fortes que tem, mas toma cuidado para não se expor a riscos. Está administrando a crise com astúcia, usando as óbvias vantagens da Rússia. A Europa precisa de seu gás e de seu petróleo; Putin precisa dos capitais e do comércio da Europa. A Rússia tem papel de liderança na questão síria e na questão do Irã. Os EUA, de repente, parecem simples transeunte.

Assumo que, ao final, os dois lados farão concessões. A Rússia manterá influência sobre a próxima liderança ucraniana. Os dois lados proclamarão vitória.

(Por falar nisso, a todos que acreditam na “solução de um Estado”: outro estado multicultural que se parte em pedaços) .

E O QUE TUDO ISSO tem a ver com Netanyahu?

Ele ganhou tempo, alguns meses ou anos, sem nenhum passo em direção à paz. E, entretanto, pode continuar a ocupar e construir colônias em ritmo frenético.

Essa é a estratégia sionista tradicional. Tempo é tudo. Cada adiamento oferece oportunidades para criar mais fatos consumados.

As preces de Netanyahu foram atendidas. Deus abençoe Putin.

Nenhum comentário:

Postar um comentário