21 de março de 2014

“Fascismo na Ucrânia”: uma invenção russa?

Retorno à insurreição de Maidan e seus resultados

Jean Marie Chauvier


Tradução / A questão do “fascismo ucraniano”, com ou sem aspas, não é primordial, e não faço disso uma obsessão.

O que é essencial é principalmente o risco de guerra entre a Rússia e a Ucrânia, uma possibilidade terrível, impensável há poucos meses. E depois o desastre social que se seguirá, para o povo ucraniano, à eventual adoção, pelo poder resultante da insurreição de "Maidan", dos planos europeus de comércio livre e de "reformas" sob a égide do FMI. Mas acontece que, para lá chegar, a UE e os EUA, numa manobra deliberadamente aventureira e provocadora, puseram no poder em Kiev os partidos da oposição minoritários no país (não representativos do leste e do sul da Ucrânia) e encorajaram as suas facções extremas, os partidos e grupos neonazistas e ultranacionalistas. Acontece também que este aspecto da realidade ucraniana é ocultado na mídia, desde longa data. A partir do momento em que se viram impossibilitados de continuar a dissimular esse fato, recentemente, voltaram a referir-se-lhe, mas para lhe minimizar a importância ("uma minoria de extremistas") e pôr em dúvida as suas filiações fascista e nazista. Devemos então falar do assunto, e tentar explicar este fenômeno que não tem equivalente na Europa.

A expressão choca, escandaliza: "É a propaganda russa que faz passar os insurgentes de Maidan por fascistas e neonazistas".

E é verdade. O cartaz a favor da anexação da Crimeia à Rússia mostrava um mapa da Ucrânia com uma cruz suástica, o que é grosseiro. Esta propaganda faz uma caricatura dos factos. Exactamente como a nossa, ela apresenta os acontecimentos duma maneira ocidental. Connosco, são os ucranianos bons pró-europeus contra os bandidos pró-russos. Entre os russos, os bandidos fascistas ucranianos contra os bons ucranianos amigos da Rússia, sendo os primeiros pagos pelo Ocidente. Dum lado e doutro agitam-se velhos fantasmas. Guerra fria? Não é só isso. Há a ideologia colonialista dos ocidentais, que querem exportar o seu modelo para todo o lado e não apoiam nem compreendem aqueles que lhes resistem. As ideologias das nações reprimidas e humilhadas, a Rússia pelo Ocidente, a Ucrânia pela Rússia. Ideologias messiânicas, de todos os lados, projectam sobre outros as suas esperanças actuais ou os seus projectos “revolucionários”. Cada um tem o seu Maidan!

Revolução popular, golpe de estado fascista, um “grande xadrez” onde os manifestantes não passam de peões das grandes potências, cada qual tem a sua opinião. E, de acordo com o partido que se toma, cada um reunirá as informações que lhe convêm.

Sou da opinião que não temos tanto de “tomar partido” como de procurar informar-nos e compreender. O que não implica deixar de chamar as coisas pelos seus nomes quando é preciso. Mas como fazê-lo?
E, para começar, quem são os manifestantes de Maidan? Baseio-me aqui em testemunhos, em parte contraditórios.

Começando pelos habitantes de Kiev (falantes de Russo, estudantes e membros da “classe média” na maioria), eles foram mobilizados pela ideia europeia (liberdade, democracia, prosperidade), uma ideia que as ONG financiadas pelo Ocidente (as famosas “fundações” dos EUA) procuram desde há muito disseminar. Depois vêm as populações geralmente rurais e pobres das regiões do Oeste, trazidas em carros pelo Partido Svoboda (ex-social-nacional) de Oleg Tiagnibog, que pensa que a Ucrânia é dirigida por uma “máfia judia-moscovita”. Um partido que perfaz 10% no conjunto da Ucrânia e mais de 30% em muitas regiões do Oeste, nesse bastião do nacionalismo radical que é a Galícia.

Enfim, Maidan juntou uma multidão de descontentes, de pessoas revoltadas pelas condutas mafiosas do poder. Mesmo o compromisso de 21 de Fevereiro, entre os partidos da oposição e o Presidente Yanoukovitch, foi recusado por essa insurreição, que levou a um verdadeiro golpe de estado, uma radicalização da situação na Ucrânia, que uma minoria excepcionalmente activa impôs ao resto da Ucrânia, às populações do Leste e do Sul que permaneceram passivas. Isto não é um preconceito, antes uma constatação: “a outra Ucrânia” e a Crimeia foram ignoradas. Os partidos que organizaram Maidan representam a Ucrânia ocidental e central. Os manifestantes vinham essencialmente dessas regiões e de Kiev, ainda que tenha havido, no Leste e no Sul, pequenas manifestações “pró-Maidan”. Mas também houve manifestações “contra”. De qualquer maneira, os dirigentes ocidentais que intervieram activamente nesta crise não falaram verdadeiramente senão com os de Maidan, ignoraram os outros, excepto Yanoukovitch, cuja rendição era preciso levar a efeito. Terão sido ingénuos ao ponto de imaginar que os pró-russos, os russos da Crimeia e Vladimir Putin deixariam passar tudo? Ou procuravam deliberadamente o conflito que agravasse as tensões no território ucraniano e talvez o lançasse na guerra? Não ouso imaginar um tal cinismo, mas já o vimos anteriormente!

Seguiu-se a secessão da Crimeia e um outro capítulo da história. A “lei do mais forte” trocou de campo momentaneamente, o que muito surpreendeu o Ocidente. Putin foi o responsável por este golpe! Violação evidente do direito internacional, que abrange a Rússia, como fazem os EUA ou a França quando lhes convém, acima das regras das Nações Unidas, edifício frágil e indispensável, se não quisermos afundar-nos na selva! Putin, aventureiro e talvez aprendiz de feiticeiro, abre um pouco mais a caixa de Pandora, em proveito dos separatismos que possam desagregar a Rússia. “Ganha a Crimeia, mas perde a Ucrânia”, considera um estratega norte-americano. Em todo o caso, perde a amizade de um grande número de ucranianos pró-russos e reforça as posições dos nacionalistas que estão contra a Rússia. Esta “vitória” a curto prazo não é a da “amizade dos povos”!

A aventura de Maidan vira-se também contra os ucranianos. Sejamos justos: não era essa a vontade dos ucranianos pró-russos, nem mesmo de Putin, que aproveitou a oportunidade que lhe ofereceram os aventureiros euro-atlânticos. Este confronto é também o resultado de longos anos de propaganda do ódio à Rússia e aos pró-russos, obra de nacionalistas e de “patrocinadores” ocidentais (as raízes do outro Atlântico) que queriam a “sua Ucrânia” só para eles. O resultado está à vista: “têm-na”, mas não na totalidade.

A Ucrânia está nas mãos de nacionalistas e de pró-ocidentais (provisoriamente?), de oligarcas que nada perderam com esta mudança, excepto certos membros do clã de Yanoukovitch. O governo pertence aos banqueiros e aventureiros. A Ucrânia está diminuída, mas certamente mais homogénea, etnicamente, os nacionalistas podem estar satisfeitos. Não se passa o mesmo com a Crimeia, com a deserção de Russos que, na sua maioria, querem voltar à Rússia. Resta esperar que o regime, apesar de tudo, encontre uma forma de coexistir com as populações pró-russas do Leste, agora em minoria (dada a partida dos habitantes da Crimeia), de tal modo que os habitantes do Dombas, de Zaporíjia ou de Odessa não exigem, por sua vez, “a anexação à Rússia”. Na melhor das hipóteses, estas relações serão envenenadas pelos nacionalismos. Na pior, será a guerra civil. Ou a guerra entre a Ucrânia e a Rússia. Mas também podemos esperar que a Ucrânia, sem a Crimeia, mantenha a coesão. Para isso, é indispensável um patriotismo de estado, político, liberto do nacionalismo étnico, do ódio anti-russo cultivado pelos “radicais” na Galícia e em Maidan.

Da revolta espontânea ao “treinamento” paramilitar

A massa dos manifestantes de Maidan não era composta nem “de fascistas” nem de adeptos do final violento dos dias 18-22 de Fevereiro. Foi um indiscritível caos de boas intenções (a democracia), de sonhos insensatos (o paraíso europeu) de estratégias camufladas (a extrema-direita militarizada a fazer figura de “protectora” dos manifestantes contra os poderosos Berkout, a polícia de choque).

Também havia anarquistas, trotskistas e outras pessoas de esquerda: alguns agitavam a bandeira estrelada da União Europeia, mas de cor vermelha! Têm esperança numa “Europa socialista”. O que dá uma distância entre as realidades europeias e o sonho da “oposição de esquerda” de Kiev. Esses militantes de esquerda foram de resto espancados pelas milícias fascistas. O movimento radicalizou-se a partir do momento em que leis repressivas foram adoptadas pela maioria parlamentar – Partido das Regiões e Partido Comunista. Este último tinha criticado a política de Yanoukovitch e reunido milhões de assinaturas por um referendo sobre a questão da “união” económica, medida muito democrática, mas que não teve eco em Maidan, o que se compreende: o objectivo dos dirigentes da oposição e dos seus apoiantes ocidentais não era uma “consulta democrática”, mas conseguir pela violência a adesão ao acordo de associação com a UE que o presidente Yanoukovitch, depois de a ter encorajado, não quis assinar no tempo pretendido por Bruxelas e Washington.

As regras do confronto dispensam comentários: era uma revolução e, desta vez, ao contrário de 2004, com um compromisso, mas indo até ao fim, até à mudança de regime. Isso fez-se com a ajuda de emissários norte-americanos (a Sra. Nuland) e europeus, intelectuais com discursos incendiários, como Bernard-Henri Levy, berrando na tribuna de Maidan: “Os Ucranianos são uma grande civilização, a Rússia não é nada”. É mesmo o tipo de discurso de incitação ao ódio nacional. É então que, montando barricadas, tomando de assalto os edifícios institucionais, batendo-se frontalmente com a polícia de choque, os Berkout, o movimento foi progressivamente integrando grupos de combate, milícias para militares que os infiltrados (sou um deles) reconheceram imediatamente. Entre outras, as milícias ultranacionalistas da UNA-UNSO, que já combateram nas frentes de guerra na Chechénia, na Abecásia, na Transnístria. Ou ainda os bandos da Patriot Ukrainy, autênticos nazis. Enfim, juntando todos os grupos, o Pravyi Sektor, sector “direito” ou “de direita” (o termo é polissémico), conduzido por Dmitro Yarosh, tornado “comandante de Maidan”, de grande profissionalismo.

Sejamos exactos: no momento em que a situação se acalmou, em que um compromisso (assinado a 21 de Fevereiro) estava em vias de ser encontrado, as tropas de choque de Maidan, a 18 de Fevereiro, retomaram a ofensiva, o assalto de edifícios do estado, as agressões à polícia de choque, que responderam com balas reais.

Sobre este terrível desfecho, as coisas não foram esclarecidas. O Sektor incitou os seus militantes a trazer armas a Maidan. Atiradores não identificados dispararam sobre manifestantes e polícias. Um “mistério” que está por esclarecer, quando se escrever a história verdadeira desta tragédia. A insurreição e a repressão terão feito, no total, uma centena de mortos. O presidente Yanoukovitch, que não tinha, manifestamente, qualquer interesse neste desfecho sangrento, nada podia fazer senão fugir. Um novo governo de partidos de direita e de extrema-direita podia então tomar lugar, com a bênção dos seus protectores ocidentais, portanto adeptos do compromisso do 21 de Fevereiro, rapidamente relegado ao esquecimento.

O Partido Svoboda, virado para a sua direita, entrou no governo a 27 de Fevereiro. Dmitro Yarosh, “comandante de Maidan”, situa-se nesse campo, tal como Andriy Paroubyi, secretário da Segurança e Defesa do Estado. Isto não é “um governo fascista”, como diz a propaganda russa, mas uma aliança entre os ultra-liberais, encarregados de pôr em marcha a “terapia de choque” preconizada pelo FMI, e uma extrema-direita que serviu de ponta de lança na operação “Derrube de Yanoukovitch”… Fascistas no poder, logo, com o encorajamento dos EUA e da UE? É inacreditável. A mensagem não passa. Há um problema. Que problema?

Um problema grave: uma mensagem “que não passa”

Constato-o desde há 20 anos. Periodicamente chamo a atenção sobre os feitos e atitudes desta extrema-direita. Ora, a informação não passa. Há um verdadeiro black-out ocidental. Incluindo nos meios de esquerda. Este tabu manteve-se sempre durante a insurreição de Maidan. E a partir do momento em que o segredo não pode manter-se, os jornais falaram disso, como o Le Monde, mas para minimizar o fenómeno, dar a impressão de que se trata de uma minoria de extremistas, ocultar o facto de que estes detêm as alavancas do poder central e numerosos poderes regionais, que fazem reinar o terror em muitas regiões do Oeste, incendiando sedes de partidos não nacionalistas, etc.

Leia-se Jacques Julliard em Marianne, resumindo uma visão muito conhecida: “Quando invoca o perigo fascista e nazi representado pelas formações paramilitares na Ucrânia, ela retoma à letra o argumento dos soviéticos para deter a sublevação de Berlim em 1953, de Budapeste em 1956, de Praga em 1968 (eis-nos numa confusão e num anacronismo típicos da guerra-fria!). Há de facto grupos paramilitares de extrema-direita fascizante na Ucrânia, mas muito minoritários.” (Quantos anos foram precisos para os descobrir e para os minimizar?) Mais além, o autor compara a eventual partição da Ucrânia às divisões… da Alemanha e da Coreia [1]

Que surpreendente nulidade de argumentação! Numa emissão da France Inter, muito pró-pensamento único sobre a questão, uma ouvinte que colocou a questão da “extrema-direita” foi acusada, de forma agitada, de “propaganda putinana”. O mesmo cenário com Jean-Luc Mélenchon. Tendo relevado o aventureirismo ocidental na crise ucraniana, Daniel Cohn-Bendit dirigiu-lhe uma torrente de imprecações. Isto torna-se cada vez mais frequente, e surge quando são colocadas certas questões: “eles” nada têm a dizer, sentem-se culpados, logo insultam. Aí está o establishment ocidental no seu esplendor!

A própria utilização, pelo Ocidente, de forças fascistas em Kiev não pode deixar de agravar o problema: como justificá-la? Na medida do possível, negamos, fingimos não saber. Ouvimos mesmo vozes de judeus contestar a realidade de agressões anti-semitas que outras fontes judias assinalaram. Porquê este silêncio, ou esta discrição, haverá uma intimidação, um medo de falar na Ucrânia onde “estas pessoas” de extrema-direita ditam a lei e, no nosso caso, uma espécie de auto-censura? É necessário abordar aqui outro debate, recorrente: a “fabricação das opiniões públicas”, de que o caso ucraniano é um novo caso de estudo.

Mais do que responder aqui e agora a estas questões, é preciso responder a uma outra: quando é que devemos falar de “fascistas” ou “neonazis”? Estes termos são problemáticos, visto que são injúrias, mais que conceitos rigorosos. E estes movimentos e partidos não são, evidentemente, a reprodução dos nacionais-fascistas e dos nazis dos anos trinta e quarenta. A sua “matriz” comum, a Organização dos Nacionalistas Ucranianos (OUN), nas suas diversas tendências, evoluiu mais ou menos no sentido da adopção da ideologia ocidental dos novos patrocínios norte-americanos. Serão eles então “pós-fascistas”, ou “pós-nazis”? Estas definições parecem insultuosas para os seus militantes, mas também para os analistas ucranianos. Nos média fala-se deles de forma prudente como “nacionalistas”. A mesma palavra designa, na Bélgica, a N-VA (Partido Nacionalista e Liberal Flamengo). Não é suficiente para qualificar o Svoboda ou o Pravyi Sektor? Não creio. E mesmo a analogia com a Frente Nacional da França seria insuficiente. Comparemos com uma situação belga: que se diria, na Bélgica, se um partido flamengo reclamasse as tradições do VNV e do Verdinasso, movimentos de colaboração e de mobilização dos SS sob ocupação nazi, ou se um partido francófono se reivindicasse de Léon Degrelle, antigo chefe da Legião Wallonie (brigada e divisão SS) e célebre antigo combatente na frente da Ucrânia? Comparação escandalosa? Para a apoiar, deparo-me com outros obstáculos. A falta de informação. E, por vezes, a desinformação. Existe falta, sim, mas de quê?

1920-1939: Ucrânia Soviética, Ucrânia Polaca, dois destinos

Falo de falta de conhecimento da história do nacionalismo ucraniano, e mais especialmente ucraniano da Galícia, essa região do ocidente que fez parte da Polónia até 1939. O movimento nacional ucraniano, no século XIX e no princípio do século XX, vestido contra os impérios czarista e austro-húngaro, comportou tendências socialistas, democráticas, etnicistas. Reencontramo-las no momento da revolução russa e dos primeiros poderes nacionalistas, anti-bolchevistas, durante a guerra civil. O seu líder na época, Simon Petlioura, mistura ideias socialistas e nacionalistas. As suas tropas livram-se no entanto de vastos pogroms anti-judaicos, os maiores massacres anteriores ao nazismo.

É neste clima de “brutalização” da I Guerra Mundial e da Guerra Civil e, mais ainda, dos ressentimentos da derrota, que se radicaliza o movimento. Em 1920, o território ucraniano é vítima de tratados que o repartem entre a Polónia, a Roménia e Checoslováquia, enquanto uma república soviética da Ucrânia, co-fundadora da URSS em 1922, vê a luz do dia nas partes central e oriental da actual Ucrânia. É aí, na URSS, que a jovem nação ucraniana pode desenvolver-se como nunca antes ou noutro lugar: A língua, a alfabetização, o ensino permitem uma “ucranização”. Por consequência, o centralismo estalinista, a formação das indústrias e o afluxo de imigrantes de outras regiões da URSS até essa zona de desenvolvimento (as bacias industriais do Leste da Ucrânia) contribuíram para uma nova russificação. Nesse mesmo período, a Ucrânia central e oriental conhece, como todas as regiões cerealíferas da URSS, a terrível fome de 1932-1933.

Sublinhemos então este facto: entre 1920 e 1939, os ucranianos do Ocidente e do Leste conhecem caminhos muito diferentes. Nasce um povo ucraniano soviético, em esforço e desenvolvimento, entre diversas nacionalidades, e vê-lo-emos bastante solidário com a causa soviética face à invasão hitleriana em 1941.

Entretanto, a Ocidente, o regime polaco reprime a língua, a cultura, as actividades políticas ucranianas. Passa-se o mesmo em Bucóvina e Bessarábia romenas, onde os ucranianos são tratados como escravos. Melhor sorte lhes é reservada na Ruténia, que é chamada, à época, “Ucrânia subcarpática” ou “Rússia subcarpática”, a actual Transcarpácia integrada na Checoslováquia, que esta cederá à URSS em 1946.

A Organização dos Nacionalistas Ucranianos (OUN) aliados dos Nazistas

É neste contexto, na Galícia, que nasce a Organização dos Nacionalistas Ucranianos, a OUN, de que os nacionalistas ucranianos actuais se dizem herdeiros. Anti-polaca, anti-soviética, anti-semita, a OUN diz ser “contra todos os ocupantes” polacos, russos, judeus, de terras ucranianas.
A ideologia da OUN, do seu principal teórico, Dmitro Dontsov, era inegavelmente de família fascista. “Nacionalismo integral”, etnicista e xenófobo, associando “nação” e “raça”, darwinismo social e culto do “povo dos senhores”. Estava mesmo próximo do nacional-socialismo Völkisch (a ideia do povo raça), tirando o facto de que Dontsov, elitista e conservador, estava de certa forma mais próximo de Salazar, Horthy ou Franco. O dirigente mais conhecido da OUN foi Stepan Bandera. O seu retrato estava por todo o lado em Maidan, mas os jornalistas ocidentais ignoram esta personagem emblemática do nacionalismo ucraniano. Ora, todas as organizações actuais reivindicam o legado da OUN e de Bandera e, parte deles, como Svoboda, da Waffen-SS Galitchina (da Galícia).

Bandera, li em jornais bastante sérios de esquerda, “não pode ser qualificado de fascista”. Vejamos. Foi dirigente do OUN ou não? Alguma vez renegou a ideologia? Isso saber-se-ia. Em todo o caso, desde que esteve aos comandos, em 1940-1941. Até lá, é verdade, certas instâncias nazis (os serviços secretos de Abwehr, o teórico racista de origem balta Alfred Rosenberg) fizeram a falsa promessa, aos olhos de diversos nacionalismos anti-russos na URSS, duma perspectiva de estados independentes sob protectorado alemão; não seriam tratados como untermenschen(1) judeus ou russos. Era uma forma de mascarar a natureza da guerra hitleriana: aniquilação, extermínio, colonização, Lebensraum(2) a leste.

Bandera, de ideologia fascista, mas também independentista ucraniano, fez aliança com a Alemanha nazi e fundou os batalhões ucranianos da Wehrmacht. O seu companheiro de armas, chefe de um dos batalhões, Roman Choukhevitch comandou de seguida a Schutzmannshaft 201, batalhão da polícia nazi encarregado da repressão aos partisans soviéticos na Bielorrússia. Em seguida, fundou a Armada dos Insurgentes Ucranianos (UPA ou OUN-UPA), a armada dos banderistas que participou no genocídio de judeus e ciganos, conduziu um massacre e genocídio dos civis polacos na Volínia. É verdade que Bandera, Choukhevitch, a OUN-UPA, tive divergências e conflitos armados com o ocupante alemão, por causa da promessa de independência ucraniana que não foi mantida [2]. Os banderistas fizeram então o golpe de fogo contra o ocupante e foram reprimidos pelos seus amigos alemães lutando contra o inimigo comum, “o judaísmo-bolchevismo”. Mas o facto de terem estado em conflito com o ocupante vale-lhes serem hoje qualificados de “resistentes”. Isso permite aos seus defensores actuais apresentarem-nos como tendo combatido contra “todos os ocupantes” ou ainda “contra os dois totalitarismos” Esta última etiqueta está muito na moda no Ocidente. Assim, os “totalitários” dos anos 1930-1940 são rebaptizados de “anti-totalitários”, o que fica sempre bem.

O papel da OUN durante a guerra foi tratado pelos historiadores, nomeadamente alemães, norte-americanos, canadianos, ucranianos. Tenho pena se o leitor francófono não tiver disso nenhum conhecimento. Os nossos editores não se preocupam com esses “detalhes” da história. Existe, de todo o modo, uma caricatura, que encontramos no filme Apocalipse, segundo a qual “os ucranianos” teriam acolhido os alemães como libertadores e “a” Ucrânia teria estado “do lado da Alemanha”. Isso é falso. Uma parte dos ucranianos, sobretudo a ocidente, onde tinham sido reprimidos, deportados, aquando da anexação soviética em 1939, tiveram simpatia pelos alemães. Foi nas suas regiões (a antiga Galícia oriental sob o regime polaco até 1939) que foram constituídos os exércitos da OUN. Foi em Cracóvia (“governo geral” alemão na Polónia ocupada) que foi instalado o Comité Central ucraniano que organiza sistematicamente a colaboração, transmitida por diversos “comités nacionais” na Ucrânia ocupada. Mas a grande maioria dos ucranianos combatentes foram-no no seio do Exército Vermelho e dos partisans soviéticos. São especialmente os seus túmulos que hoje os “radicais” profanam.

Um outro braço do OUN, conduzido por Andry Melnik, rival dos banderistas, e apoiado pela Igreja Greco-católica (Uniate) fundou a divisão Waffen-SS da Galícia, a Galitchina. Hoje é evocado ocultando a menção “Waffen-SS”. Que subtil.

Assim começa a desinformação, especialmente praticada nos nossos dias por jornalistas e historiadores ucranianos, norte-americanos ou canadianos, geralmente oriundos da Galícia, que tomam a palavra em Paris e noutras partes, no Ocidente. Estão muito presentes no Canadá. Outro aspecto desconhecido desta história: o papel da diáspora. Os colaboradores nazis ucranianos, os militantes da OUN, os SS, fugiram da Ucrânia (por causa do Exército Vermelho) em 1944 e foram transferidos secretamente para os EUA e para as Ilhas Britânicas através das Américas. E reciclados, por muitos, nas oficinas da Guerra Fria, incluindo a Alemanha, para Munique, para a Europa liberta. Tornaram-se os “baluartes do mundo livre”.

De lá, afluíram (eles ou os seus herdeiros) em direcção à Ucrânia depois do fim da URSS. Tendo a “fronte ideológica” sido abandonada pelos comunistas em 1991, foram eles que a ocuparam. E ei-los reescrevendo a história, os manuais escolares na Ucrânia… entre nós, escrevem “sobre a Ucrânia”, redigem as enciclopédias populares.

Revisionismo ocidental

O Courrier Internationale atingiu agora o cúmulo. Passo a citar: os banderistas eram “partisans nacionalistas ucranianos de Stephan Bandera, que combateram os nazis, depois o Exército Vermelho de 1942 a 1950, apresentados pela historiografia soviética, depois russa, como colaboradores e fascistas [3]”. Trata-se duma nota da redacção, em que a responsabilidade da rubrica “Ucrânia” é de uma certa Larissa Kotelevets. Será ela por acaso uma militante nacionalista ucraniana? Encontramos este género de “revisionismo” inspirado nos artigos da Wikipédia. Como dizia uma jornalista russa, ainda veremos Himmler ser descrito como “defensor dos direitos do homem”.

Mas, onde encontramos este non-sense? A ideologia fascista está nas fontes do banderismo, a colaboração nazi começa no fim dos anos 30. Em 1941-42, os banderistas estão na Wehrmacht e nas polícias nazis. Em 1943, no seio da UPA, massacram polacos, judeus, ciganos. Depois, sim, até 1950, combatem exclusivamente o Exército Vermelho e, sobretudo, o NKVD, como “resistência anti-soviética” ou “anti-estalinista” muito apreciada no Ocidente, e integrada na esquerda anticomunista, o que explica, por outro lado, as complacências actuais face a esta UPA, em que também se salienta o papel muito combativo e corajoso nas revoltas do Gulag no principio dos anos 50. Depois da desestalinização operada por Khrutschov, os antigos membros da UPA, libertados e regressados ao país, ligaram-se aos meios dissidentes, que asseguraram a sua propaganda por parte do Ocidente, a sua reabilitação nos meios de contestação aos regimes do Leste.

Fóruns mediáticos, cadeiras de universidades, são ocupados, no Ocidente, por “uma certa Ucrânia”, a dos banderistas convertidos ao liberalismo, mas sempre fieis “à tradição”, profundamente hostis à “outra Ucrânia”… que os nossos média ignoram arrogantemente, ou apenas descobriram agora, com todos os clichés e preconceitos esperados, desde logo que é questão de “pró-russos” ou “saudosos da URSS”. Esta pequena história, muito sumaria, do nacionalismo ucraniano radical e das relações com o “Ocidente”, desde logo, o fascista dos anos 30-40, depois anticomunista americanizado nas últimas décadas, ajuda sem dúvida a clarificar as complacências de que beneficia a gente do Svoboda, “nossa aliada” na batalha da Ucrânia.

Então, porque falar de “fascistas” e de “nazis”? A minha resposta situa-se na filiação histórica reivindicada: os herdeiros actuais do OUN, da UPA, de Bandera, celebram as suas glórias passadas (Bandera e Choukhevitch foram consagrados “heróis nacionais” em 2010 pelo presidente Viktor Iouchtchenko) e reencontram-se a cada ano, a 28 de Abril, para comemorar o nascimento, em 1943, da divisão “Galitchina” (Waffen-SS). Isso não é novo, quem conhece o assunto sabe bem… mas não os leitores da imprensa ocidental, não os nossos telespectadores, de quem esses acontecimentos “perturbadores” são cuidadosamente escondidos. As razões de uma mentira por omissão tão duradoura e sistemática deveriam ser um dia clarificadas. Mas devemos admitir que os termos “fascista” e “nazi” estão conspurcados pela emoção ou propaganda. Então, como dizer? Nacionalistas, radicais, extrema-direita? Em todo o caso, nacionalistas radicais de filiação nazi.

Retorno à atualidade: de Svoboda ao Pravyi Sektor

Regressemos à actualidade. O Svoboda será um simples partido “mais à direita”, como disse Laurent Fabius?

Convidemos pois Fabius (e outros: BHL, Cohn-Bendit, Julliard) à próxima celebração das SS em Lviv, sob o auto patrocínio do Svoboda, partido do governo. É a 28 de Abril. Haverá então equipas de televisão, ao contrário do que tem acontecido de há tantos anos a esta parte?

Mas não quero deter-me num antifascismo primário, que se contentaria a estigmatizar todos aqueles que, na Ucrânia, alinham nessa extrema-direita e com a figura emblemática de Stephan Bandera. Situação estranha, mas real: autênticos militantes das liberdades democráticas, e mesmo do anti-capitalismo, da auto-gestão, estão misturados com esses militantes nacionalistas e fascistas não menos devotados à “causa do povo” e da “revolução” dirigida contra os oligarcas, as repressões e...  “os bolcheviques”.

Neste país traumatizado pela guerra civil de 1918-20, a fome de 1932-33, o genocídio nazi, as deportações estalinistas, a “guerra das memória” (símbolos, monumentos) tem um lugar importante na vida política. O fenómeno Maidan foi acompanhado de destruição, por iniciativa do Svoboda, de umas quarenta estátuas de Lenine. Vejam-se os ajustes de contas com “o bolchevismo”.

Às vezes temos a impressão de assistir a uma vingança dos nacionalismos por causa das derrotas que lhes infligiu o Exército Vermelho em 1920 e em 1945. Isso é um “detalhe” que escapa sem dúvida aos observadores estrangeiros, de nariz colado à actualidade. O peso da história.

Não se trata apenas de condenar aqui “os fascistas”. É preciso compreender, e isso é toda uma outra tarefa, os prós e os contras desse nacionalismo radical ucraniano, em confronto com os não menos radicais bolchevismo, estalinismo e nacionalismo polaco. Compreender porquê e como os confrontos se prolongam numa “guerra de memórias” virulenta, em que a reabilitação de Bandera responde à de Estaline e vice-versa…

Uma profunda crise identitária opõe, depois de 20 anos, as populações do Ocidente (sobretudo da Galícia) que se identificam com os banderistas e rejeitam o passado soviético, e aquelas do Leste que conservam uma melhor lembrança da URSS, apesar de todas as dificuldades, e preferem celebrar a vitória sobre o Fascismo a 9 de Maio do que a Waffen-SS a 28 de Abril, ou a OUN-UPA, a 14 de Outubro.

Entre as representações diametralmente opostas do passado, os historiadores conscienciosos (que os há) têm enorme dificuldade em se situar. O desequilíbrio provocado pela insurreição de Maidan, que radicaliza os esquemas binários, ao mesmo tempo que coloca a Ucrânia quase numa guerra civil, não irá certamente favorecer a “reconciliação ucraniana” que precisa de “patriotas” esclarecidos, que recusem a peste emocional dos nacionalismos.

Em oposição, os svobodistas parecem inaugurar um pós-nazismo, os temas mais reaccionários do seu programa coexistem com uma respeitabilidade liberal adquirida com o reconhecimento oficial de Svoboda e do seu líder, Oleg Tiagnibog, pelos emissários dos EUA e da UE. Uma espécie de liberal-fascismo, como já conhecemos no Chile, associando, na Ucrânia, os símbolos arcaicos do nacional-socialismo local e as exigências duma gestão da economia conforme aos cânones neoliberais. O Svoboda irá consenti-lo? Isso não foi dito e pode prever-se que o partido, se aprovar “medidas dolorosas” anunciadas por Iatseniouk, terá dificuldades ao nível da base popular na Galícia e também no Ocidente. Porque os pequenos agricultores do Ocidente serão, tal como os operários do Leste, os principais sacrificados com a “liberalização” musculada que se anuncia.

O (antigo?) partido neonazi tem à sua direita um Pravy Sektor favorável aos “valores europeus”. Bruxelas depressa terá problemas com estes pequenos camaradas que poderão não se contentar com o papel de “idiotas de serviço”.

O “sector” de Iarosh pretende-se anti-imperialista, anti-mundialista, partidário da neutralidade da Ucrânia e hostil à NATO, bem menos obcecado que o Svoboda pelas questões étnicas, visto que conta sempre com russos entre as suas fileiras. O que promete tensões no seio da nova direcção “revolucionária”, especialmente, por parte do primeiro-ministro Arseni Iatseniouk, próximo dos EUA, e do seu partido Batkivchtchina (pátria) da “musa” Ioulia Timochenko. De qualquer modo, a intervenção musculada dum comando do Svoboda para obrigar um director de televisão a demitir-se suscitou reacções negativas por parte do partido da anterior oposição, mas não governamental, Oudar, cujo líder Vitali Klitschko parece mais próximo da UE, e o preferido de Angela Merkel. Esta violência do Svoboda é pouca coisa comparada à que reina em diversas regiões por causa do mesmo partido e os outros “ultras”, mas, desta vez, o acontecimento beneficiou de publicidade nos média ocidentais, o que sugere que o comportamento do partido de Oleg Tiagnibog começa a aborrecer, e que se decidiu, num posto de poder em Kiev, “recorrer à televisão”.

Resumamos. A “revolução de Maidan” resultou num banho de sangue, um golpe de estado que trouxe ao poder uma equipa neoliberal aliada à extrema-direita, ao que o Kremlin replicou pela secessão da Crimeia (pretendida pela maioria russa) e a sua anexação pela Rússia. Daí a divisão entre dois povos “irmãos”, que sentiram durante a maior parte do tempo enquanto tal, um grande desastre humano e social, uma situação muito difícil de ameaças de guerra civil e internacional: são estes os factos que deveriam ser respondidos por todos os actores desta aventura, incluindo nós próprios, a começar pelos dirigentes ocidentais e seus “missionários”, políticos e intelectuais, que, em Maidan, vieram pôr mais achas na fogueira.

Notas

1 [N. do T.] Os untermenschen eram os “sub-humanos”, conceito absurdo e criminoso da doutrina nazi, que incluía, como se sabe, milhões de seres humanos que se afastavam do ideal da “raça perfeita”, “ariana”, excluídos do III Reich e destinados a desaparecer; aqui encontramos opositores políticos, nomeadamente comunistas, minorias étnicas, como os Roma, pessoas com deficiências várias, homossexuais, para além, claro, dos judeus.
2 [N. do T.] O Lebensraum era o “espaço vital”, outro conceito absurdo e criminoso dos nazis, para quem, nomeadamente, o Leste Europeu deveria ser destinado ao III Reich. Com essas populações, e isso marca uma grande diferença na forma de fazer a guerra dos alemães na Frente de Leste, não deveria haver negociações ou contemplações, mas deveriam ser pura e simplesmente eliminados; isto ajuda a explicar as chacinas de populações inteiras nestas regiões, e a crueldade que assumiu o tratamento das populações e o tratamento reservado aos prisioneiros de guerra soviéticos.

Notas do Autor:

[1] Marianne, 7-13, Março de 2014
[2] A 30 de Junho de 1941, os banderistas proclamaram, em Lvov (Lwow) um “Estado Independente” ucraniano devotado ao III Reich e a Hitler. Mas Berlim não quis. Bandera foi preso em Sachsenhausen, libertado em 1944. Numerosos militantes da OUN foram vítimas da repressão nazi. A Alemanha aceitou-os como aliados, na condição de se submeterem.
[2] Le Courrier International, nº 218, 6-12 Março de 2014, p. 10.

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