24 de março de 2014

Mais uma vez, a Austrália está roubando suas crianças indígenas

John Pilger

CounterPunch: Tells the Facts and Names the Names

A gravação é torturante. Há a voz de uma criança gritando enquanto é arrancada da mãe, que implora: “Não há nada de errado com o meu bebê. Por que você está fazendo isso conosco? Eu deveria ter sido enforcada anos atrás, não é mesmo? Porque (como uma aborígene australiana) a gente é culpada antes de ser declarada inocente”. A avó da criança exige saber por que “o roubo de nossas crianças está acontecendo de novo”. Enquanto um funcionário do serviço social diz: “Eu vou levá-lo, amiga”.

O que aconteceu com uma família aborígene na zona rural do estado de Nova Gales do Sul está acontecendo por toda a Austrália numa escandalosa e, de modo geral, não reconhecida violação dos direitos humanos que evoca a “geração roubada” do século passado. Até os anos 1970, milhares de crianças mestiças foram tiradas de suas mães por funcionários do serviço social australiano. As crianças eram entregues a instituições como mão de obra barata ou escrava; muitas sofreram abusos.

Descrita pelo responsável pela Proteção dos Aborígenes como “eliminação da cor”, a política era conhecida como assimilação. Foi influenciada pelo mesmo movimento eugenista que inspirou os nazistas. Em 1997, um relatório marcante, intitulado “Bringing Them Home” (traga-os de volta para casa), revelou que cerca de 50.000 crianças e suas mães tinham sofrido “a humilhação, a degradação e a pura brutalidade do ato de separação forçada... produto de políticas deliberadas e calculadas do Estado”. O relatório classificou isso como genocídio.

A assimilação continua sendo uma política do governo australiano de todas as formas, menos no nome. Eufemismos como “Reconciliação” e “Futuro mais Forte” encobrem uma engenharia social semelhante e um persistente racismo insidioso na elite política, na burocracia e, de modo geral, na sociedade australiana. Quando em 2008, o primeiro-ministro Kevin Rudd pediu perdão pela “geração roubada”, ele acrescentou: “Quero ser franco sobre isso. Não haverá compensação”. O jornal “The Sydney Morning Herald” cumprimentou Rudd pela “manobra esperta” que “removeu um pedaço de destroços políticos, o que responde a algumas das necessidades emocionais de seus partidários, mas não muda nada”.

Hoje, o roubo de crianças aborígenes –incluindo bebês retirados da sala de parto– é agora mais disseminado do que em qualquer época durante o último século. Até junho do ano passado, quase 14 mil crianças aborígenes tinham sido “removidas”. Isso é cinco vezes o número da época em que o relatório “Bringing them Home” foi redigido. Mais de um terço das crianças retiradas de suas famílias são aborígenes – cerca de 3% da população. Com a taxa atual, essa remoção em massa de crianças aborígenes vai resultar em uma geração roubada de mais de 3,3 mil crianças somente no Território do Norte.

Pat (nome fictício) é a mãe cuja angústia foi secretamente gravada em um telefone enquanto quatro funcionários do Departamento de Serviços à Criança e seis policiais chegaram em sua casa. Na gravação, um funcionário alega que eles vieram somente para uma “avaliação”. Mas dois dos agentes de polícia, que conheciam Pat, disseram a ela que não viam nenhum risco para o filho dela e alertaram-na para que ”saísse rapidamente”. Pat fugiu, segurando o filho, mas o bebê de 1 ano foi depois apreendido sem que ela soubesse por quê. Na manhã seguinte, um agente de polícia voltou para lhe pedir desculpas e disse que o bebê dela nunca deveria ter sido levado. Pat não tem nenhuma ideia de onde está seu filho.

Pat tanto procurou cumprir as normas como enfrentou com coragem a burocracia punitiva que pode remover crianças com base em rumores. Ela foi duas vezes inocentada de falsas acusações, incluindo “sequestro” dos próprios filhos. Um psicólogo a descreveu como capaz e boa mãe.

A maioria das famílias aborígenes vive no limite. Sua expectativa de vida nas cidades a curta de distância de voo de Sydney é muito baixa, cerca de 37 anos. A Austrália é o único país desenvolvido que não erradicou o tracoma, um tipo de infecção bacteriana que causa cegueira nas crianças aborígenes.

Josie Crawshaw, ex-diretora de uma respeitada organização de apoio a famílias em Darwin, disse-me: “Em áreas remotas, autoridades vão com um avião nas primeiras horas do dia e levam as crianças para milhares de quilômetros de distância de sua comunidade. Não há explicação, nenhum apoio, e as crianças podem sumir para sempre”.

Em 2012, a coordenadora geral de Serviços Remotos para o Território do Norte, Olga Havnen, foi destituída quando revelou que cerca de US$ 75 milhões tinham sido gastos na vigilância e remoção de crianças aborígenes, em comparação com apenas US$ 469 mil para apoiar as mesma famílias pobres. Segundo a coordenadora, “as razões básicas para a remoção de crianças são questões de bem-estar diretamente relacionadas com a pobreza e a desigualdade. O impacto nas famílias é simplesmente horroroso porque se eles não são reunidos dentro de seis meses, é provável que não se encontrarão novamente. Se a África do Sul estivesse fazendo isso, haveria um escândalo internacional”.

Ela e outros profissionais com longa experiência que entrevistei repetiram os argumentos do relatório “Bringing them Home”, que descreve uma “atitude” oficial na Austrália que considera todas as pessoas aborígenes como “moralmente deficientes”. Um porta-voz do Departamento de Serviços Comunitários disse que a maioria das crianças indígenas removidas em Nova Gales do Sul foram enviadas para cuidadores indígenas. De acordo com redes de apoio aos indígenas, isso é uma cortina de fumaça; não se trata de famílias e esse tipo de ação é monitorado pelo divisionismo que é a verdadeira realização da burocracia.

Encontrei um grupo de avós aborígenes, sobreviventes da primeira “geração roubada”, todas agora com netos roubados. “Vivemos em um estado de medo, outra vez”, dizem elas. David Shoebridge, um parlamentar de State Greens, disse-me: “A verdade é que existe um mercado entre os brancos para essas crianças, especialmente bebês.”

O parlamento de Nova Gales do Sul irá em breve debater a legislação que introduz a adoção forçada e a “tutela”. Crianças com menos de dois anos estarão disponíveis – sem o consentimento da mãe– se tiverem sido “removidas” há mais de seis meses. Mas muitas mães aborígenes, como Pat, podem levar seis meses simplesmente para entrar em contato com seus filhos. “Isso está destinado a fazer com que as famílias aborígenes fracassem”, disse Shoebridge.

Perguntei a Josie Crawshaw o por quê: “A ignorância deliberada na Austrália sobre seu primeiro povo nativo tornou-se agora o tipo de intolerância que chega ao ponto de esmagar um grupo inteiro da humanidade, e não se faz nenhum barulho por isso.”

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