30 de março de 2014

O trunfo de "Marianne": Março de 2014, 70º aniversário do programa do CNR

Annie Lacroix-Riz e Georges Gastaud


Tradução / Atormentada pelo insaciável MEDEF, dividida entre a Europa federal em construção e a euro-regionalização galopante do território nacional, esvaziada do seu emprego produtivo por uma grande burguesia que sacrifica a indústria ao financeiro todo-poderoso (cf. o comportamento da família Peugeot) desprovida da sua proteção social e dos seus serviços públicos vindos do CNR, agredida até na sua língua pela invasão do inglês todo-poderoso, a França Republicana está ameaçada de decomposição.

À sua cabeceira, François Hollande, pequeno procônsul do Eixo Washington-Berlim-Bruxelas, só tem olhos para o grande patronato "nacional" e internacional. Mais grave ainda, o povo francês é chamado a "escolher" entre dois tipos de morte igualmente desonrosos: abandonar-se ao Partido Mastrichtiano Único (Pmu), formado pelo PS, UMP, do centro e da Europa-Ecologia, e a euro-austeridade eterna, tornará rapidamente inviável a ex-"doce França" com milhões de franceses em situação precária e empobrecidos.

Que o nosso povo, levado pela atual vaga azul-castanho-azul-marinho, acabe por optar por UM’Pen em gestação, e será a subida implosiva do racismo de Estado, violências intercomunitárias sobre um fundo de caça aos desempregados (os pretensos "auxiliados"), aos sindicalistas e aos funcionários. Nos dois casos, assistiríamos à negação inusitada da herança da Revolução francesa, da Comuna, das leis de 1905, da Frente popular e do CNR, com a terceira-mundialização das classes populares à cabeça e uma parte maior das "camadas médias". As municipais recentes de resto confirmaram e agravaram este quadro inquietante confrontando a direita radicalizada de M. Coppé e instalando a extrema-direita na escala local.

Ora a "esquerda da esquerda" não tem atualmente a capacidade de impulsionar o levante popular urgente. A "esquerda" do PS está ridicularizada pela opção neoliberal dura escolhida por Hollande. Quanto à Frente de esquerda, continua infelizmente prisioneira da mentira reformista da "Europa social" e "do euro ao serviço dos povos" em nome dos quais há decênios o PS se inscreveu na euro-desmontagem das aquisições sociais e da República. Acrescentemos a esse quadro sombrio que os estados-maiores sindicais euro-formatados e holando-complacentes apresentam uma grande inércia, com uma cumplicidade mal dissimulada, perante os incessantes ataques anti-sociais da UE, do MEDEF e do governo Ayrault.

Mas existem pontos de apoio para um contra-ataque progressista. As lutas duras multiplicam-se nas fábricas e nos serviços públicos. No plano ideológico, intelectuais progressistas tão diversos como J. Nikonoff, F. Lordon, A. Bernier, J. Sapir, E. Todd, o casal Pinçon-Charlot, pronunciam-se para que a França saia do euro, ou seja da UE e da OTAN, para alguns deles. À escala europeia, partidos comunistas e progressistas afastam-se do Partido da Esquerda europeia (presidida por Pierre Laurent), que admite em última análise a funesta moeda única. Personalidades não comunistas como Oskar Lafontaine (RFA) ou Tony Benn (Grã-Bretanha) apontam o dedo ao euro e colocam em causa a ruinosa "construção" europeia. Não só está claro que a UE não é sinônimo de democracia, de justiça social ou de prosperidade, que esse bloco reacionário, anticomunista e grosseiramente russófobo não receia promover em Kiev forças abertamente nazistas, como os conjurados da OTAN e da "União transatlântica" em gestação (na qual a UE imperial aspira a fundir-se sob os auspícios de Washington) não param de provocar confrontos político-militares explosivos do Próximo Oriente aos pés da Rússia passando pela África.

Mas nestas condições ainda há uma cartada de mestre para "Marianne"

É essencialmente a carta ideológica vencedora de uma nova dialética entre o patriotismo republicano e o internacionalismo popular de nova geração. Não, a ligação à soberania nacional não se opõe à cooperação internacional: constitui pelo contrário a condição como o demonstram os países latino-americanos da Alternativa bolivariana das Américas (Alba). Tão pouco a defesa republicana da soberania nacional se opõe ao internacionalismo dos trabalhadores e à resistência anti-imperialista dos povos, pois é associando-se um ao outro, como foi o caso de 1936 ou durante a Resistência, que o patriotismo e o internacionalismo progressistas poderão vencer a aliança duvidosa do euro-atlantismo, nacionalismos reacionários, comunitarismos integristas e regionalismos da Antiga Senhora.

A seguir o mapa estratégico de uma ruptura progressista com o euro, a OTAN, a UE, e o conjunto das instituições do neoliberalismo em perspectiva, a ruptura revolucionária com o capitalismo. Se a França sair, pela via progressista desta prisão dos povos que é a UE, não só as bases de uma reconstrução da nossa economia produtiva poderiam ser reconstituídas, não apenas uma política avançada inspirada nos princípios do CNR poderia ver o dia, mas este desmoronamento politico salutar — necessariamente impulsionado pela Frente antioligárquica, soldando as camadas médias ao mundo do trabalho — lançaria o nosso povo à ofensiva suscitando a simpatia dos trabalhadores bem para lá do continente europeu.

É enfim o mapa tático de uma campanha de massas para deslegitimar sobre bases progressistas a monstruosa UE de Maastricht; para isso convém boicotar as eleições ao parlamento europeu. Já a maioria dos cidadãos europeus e principalmente os trabalhadores, os empregados, os pequenos camponeses e artesãos, recusam votar nestas eleições estrangeiras de que o único fim — a direita e a social-democracia tendo tomado o hábito de co-gerir o "parlamento" de Strasbourg — é extorquir aos povos um cheque em branco que permita à oligarquia instituir o "salto federal europeu" exaltado pelo MEDEF, o PS, os Verdes e a UMP; embora participar na mascarada signifique de fato "por um ato de cidadania", caucionar a obsolescência programada da República francesa. Ao apelo de forças republicanas diversas, quer venham do republicano Jean Moulin, do comunista Ambroise Croizat, do homem do 18 de Junho ou de Jean Jaurés, uma vasta frente francamente republicana poderia então organizar-se em todo o país para dar o seu pleno senso político em virtude da recusa de voto majoritário do nosso povo. Assim a "insurreição dos cidadãos" pedida pela Frente de esquerda sem produzir até agora o menor efeito tangível, poderia pôr em movimento milhões de cidadãos. Hoje, "dentro do possível" o campo do trabalho, da República e do progresso social poderia passar pela brecha de uma abstenção de cidadãos de massas para retomar a iniciativa nos planos social, cultural e político.

Para que o povo francês possa jogar essa cartada de mestre todos os que querem fazer viver os ideais muito atuais do CNR e forçar as barras da prisão euro-atlântica têm o dever, no "momento atual", de impor todos juntos um debate abrangente de massas sobre a saída unilateral da UE atlântica, da OTAN, e da ruinosa moeda única.

Annie Lacroix-Riz e Georges Gastaud militam no Polo de Resistência Comunista na França (PRCF).

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