2 de março de 2014

Se não fossem os franceses, o Hezbollah seria todos sírios lutando com o próprio governo no próprio país

Robert Fisk


As fronteiras estão se tornando estranhas no Oriente Médio. Elas sempre foram, é claro. Desde que Mark Sykes e François Georges Picot – esse último, cônsul da França em Beirute, por falar dele; e seu consulado custou a muitos bravos libaneses a própria vida, pelo desleixo com que ele lacrava as cartas antiotomanas deles por trás do muro da embaixada – dividiram Líbano, Síria, Iraque, Palestina, etc., muitos árabes (ou os netos deles) acabaram tendo de viver como refugiados detestados, poucas milhas distantes de seus lares originais, amaldiçoados e maltratados e às vezes mortos por outros muitos árabes que acabaram por ser – em alguns casos, para sua própria surpresa – ou libaneses ou sírios.

Então se chega à questão de um estado chamado Israel que existe numa terra chamada Palestina, 22% da qual – e porcentagem que encolhe dia a dia – supõe-se que se chame “Palestina”. Bem, talvez.

O que me leva ao ponto. Porque semana passada, o ministro de Assuntos Estratégicos – será que alguma outra nação na Terra tem tal ministério, eu me pergunto? – de Israel, avisou o Líbano de que deve tratar de impedir que o Hezbollah (armado pelo Irã, apoiado pela Síria, vocês conhecem os clichês, batidos e verdadeiros) ataque Israel, como retaliação pelo ataque de Israel a um comboio de armas – ataque que, como acontece muitas vezes, Israel sequer admitiu ter executado.

Então vamos ver se entendi. E começo com uma citação estranha da agência de notícias Reuters. "Israel advertiu o Líbano na sexta-feira para impedir a retaliação [sic] pelo Hezbollah por um suposto [sic] ataque aéreo israelense na fronteira síria." O quê? Os editores da Reuters viram-se às voltas com um problema factual, é claro. Os israelenses não admitiram que bombardearam o comboio dentro do Líbano, portanto a agência teve de dourar a pílula – porque Israel não admitiu o ataque e, sem a confirmação por Israel, ninguém pode afirmar fato algum no Oriente Médio. Mas, ao mesmo tempo, a Reuters não podia deixar de noticiar o ataque aéreo que centenas de libaneses no Vale do Bekaa viram com os próprios olhos. Por isso escreveram “suposto ataque”. Curiosamente, nem o Hezbollah noticiou o ataque, para começar. Não tem problema, eu suponho, se o ataque aéreo tivesse acontecido dentro das fronteiras sírias – como outros três, nenhum dos quais confirmado pelos israelenses.

Mas vamos voltar para Yuval Steinitz – o ministro israelense citado – que afirmou que “é evidente que nós consideramos o Líbano responsável por qualquer ataque a Israel a partir do território do Líbano”. Israel, de acordo com a mesma matéria da Reuters ameaçou destruir “milhares” de prédios residenciais que o Hezbollah usa como bases. Isto é ainda mais estranho. Por muitos anos – e já testemunhei cinco dessas guerras, embora Israel diga que só combateu três delas – vi milhares e milhares de prédios “residenciais” reduzido apedaços por Israel e que não eram bases do Hezbollah. Então, o sr. Steinitz está sendo mais contido que seus antecessores? Está dizendo que Israel pode atacar só os prédios residenciais que o Hezbollah está usando – e não outros prédios residenciais a na mesma área? E isso, claro, só se o Hezbollah retaliar depois de um ataque aéreo que pode - ou não - ter acontecido? E só para terminar com os enlouquecidos editores da Reuters, a matéria da agência tem mais uma linha sensacional que eu tenho que compartilhar com vocês. “Israel está tecnicamente em guerra contra o Líbano e a Síria”. Bem, essa me derrubou.

Então, de volta às fronteiras. Há muitas décadas, havia várias vilas no Líbano que os franceses deram aos britânicos – quando os britânicos mandavam na “Palestina” e os franceses controlavam o Líbano e a Síria (o Líbano sendo parte da Síria até que os franceses o amputaram, como aliado útil para anos futuros). Muitos libaneses, nascidos no Império Otomano, acordaram um belo dia e descobriram que não eram mas libaneses – mas palestinos. E quando os israelenses chegaram à Galileia e empreenderam o serviço de limpeza étnica (sobre isso, vejam o trabalho do excelente historiador israelense Ilan Pappe, entre outros), alguns desses ex-libaneses – já então palestinos – foram assassinados. Os demais foram expulsos de Israel (ex-Palestina), mandados para o Líbano – onde muitos deles haviam nascido – como refugiados palestinos. Há alguns anos eles receberam passaportes libaneses – e assim ficaram sabendo que eles não eram mais palestinos.

Não deve haver muitos vivos, mas – se tivessem conduzido alguns quilômetros rumo ao norte, a partir de suas atuais casas no Líbano na semana passada – eles poderiam ter testemunhado o ataque aéreo contra o Líbano que apenas “supostamente” aconteceu. Assim, veriam com os próprios olhos um ataque executado pelo país que os expulsou da “Palestina” para o país onde realmente nasceram. Observariam um ataque aéreo que talvez não tenha acontecido (“suposto ataque”), porque o país no qual eles não nasceram não declarou que realmente atacou o país do qual eles são agora (outra vez) cidadãos.

E você, leitor, que pensou que o Oriente Médio era um lugar difícil de entender. Tente viver aqui.

Bem, vamos voltar para a Síria por um momento. Como vocês sabem, há guerra civil em curso há mais de dois anos. O Hezbollah está combatendo ao lado do governo de Bashar al-Assad – ofensa terrível aos olhos dos governos ocidentais que permitiram à França amputar o Líbano, da Síria, depois da I Guerra Mundial. Se os franceses não tivessem feito isso, é claro, o Hezbollah seria todos sírios lutando lado a lado com seu próprio governo, no seu próprio país, e não nos ofenderia tanto, por cruzar a fronteira que os ocidentais criaram contra a vontade dos avós do Hezbollah. Nesse caso, os israelenses não teriam que “avisar” o Líbano sobre retaliações pelo Hezbollah contra ataque aéreo que os israelenses podem - ou não - terem executado contra o Líbano, mas ataque que – se o ocidente não tivesse inventado o Líbano – seria o quarto ataque de mesmo tipo por Israel contra a Síria, sempre supondo que Israel “reconheceu” que atacou a Síria, em primeiro lugar.

Daqui em diante é com vocês, pessoal!

The good guys and the bad guys are interchangeable

Dictators go on forever. Let’s start with Abdelaziz Bouteflika who plans to stand for his fourth presidency of Algeria. Jolly good, too. The latest edition of Jeune Afrique – which you absolutely must read if you want to understand the Maghreb – carries a fascinating interview with a much younger man who calls himself “Nabil”, who was, so he says, a member of the revolutionary Islamists who fought the regime during the 1990s war.

Under a government amnesty, he ate “couscous” with his intelligence officer enemies, persuaded his former comrades to surrender – but then discovered that some of them were billionaires.

Funny how wars end with the good guys becoming the bad guys (or vice-versa, depending on your point of view).

“Nabil”, I have to add, ended his struggle with “empty pockets”.

Bouteflika, they say in Algiers, doesn’t know which day of the week it is. Which would you prefer?

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