20 de março de 2014

Violência e terror: A via ucraniana e colombiana para a construção do Império

James Petras


[Tradução] As duas vias para a construção-do-império do século XXI através-de-terceiros são ilustradas pela violenta tomada de poder na Ucrânia por uma junta, apadrinhada pelos EUA, e pelos ganhos eleitorais de Alvaro Uribe, o senhor da guerra colombiana, protegido pelos EUA. Vamos descrever o "mecanismo" da intervenção dos EUA na política interna destes dois países e os seus profundos efeitos externos – é assim que eles reforçam o poder imperialista numa escala continental.

Intervenção política e regimes alinhados: Ucrânia 

A transformação da Ucrânia num estado vassalo EUA-UE tem sido um longo processo que envolveu, em grande escala e a longo prazo, o financiamento, a doutrinação e o recrutamento de quadros, a organização e formação de políticos e de arruaceiros e, sobretudo, a capacidade de aliar a ação direta com a política eleitoral.

Conquistar o poder é um jogo de apostas altas para o império: (1) a Ucrânia, na mão de clientes, fornece à NATO um trampolim militar no coração da Federação Russa; (2) os recursos industriais e agrícolas da Ucrânia fornecem uma fonte de enorme riqueza para os investidores ocidentais e (3) a Ucrânia é uma região estratégica para a penetração no Cáucaso e para além dele.

Washington investiu mais de 5 Bilhões de dólares para arranjar clientes, na sua maior parte na "Ucrânia ocidental", em especial em Kiev e arredores, concentrando-se em "grupos da sociedade civil" e em partidos políticos maleáveis e seus líderes. Em 2004, o "investimento" político inicial dos EUA na mudança de regime culminou na chamada "Revolução laranja" que instalou um regime de curta duração pró-EUA-UE. Este, porém, rapidamente degenerou no meio de grandes escândalos de corrupção, gestão danosa e pilhagem oligárquica do erário nacional e dos recursos públicos que levaram à condenação do antigo vice-presidente e à queda do regime. Novas eleições resultaram num novo regime, que tentou manter ligações com os EUA e com a Rússia através de acordos econômicos, embora continuasse com muitas das características odiosas (grande corrupção endêmica) do regime anterior. Os EUA e a UE, depois de terem perdido em eleições democráticas, relançaram as suas "organizações de ação direta" com um novo programa radical. Os neofascistas tomaram o poder e instituíram uma junta ditatorial através de manifestações violentas, vandalismo, assaltos armados e ação da população. A composição da nova junta pós-golpe refletiu dois aspectos das organizações políticas apadrinhadas pelos EUA; (1) políticos neoliberais para gerir a política econômica e para forjar laços mais estreitos com a NATO, (2) e nacionalistas neofascistas/violentos para impor a ordem pela força e com mão-de-ferro, e esmagar os "autonomistas" pró-russos da Crimeia, os russos étnicos e outras minorias, em especial no sul e no leste industrializados.

Seja o que for que vier a acontecer, o golpe e a resultante junta estão totalmente subordinados e dependentes da vontade de Washington: não obstante a reivindicação da "independência" ucraniana. A junta procedeu à purga dos funcionários governamentais eleitos e nomeados, filiados em partidos políticos do anterior regime democrático e à perseguição dos seus apoiadores. O seu objetivo é garantir que as subsequentes eleições manipuladas proporcionem uma suposta legitimidade, e as eleições sejam limitadas a dois conjuntos de clientes imperiais: os neoliberais (auto-intitulados "moderados") e os neofascistas, rotulados de "nacionalistas".

A via da Ucrânia para o poder imperialista através de um regime colaboracionista ilustra os diversos instrumentos da construção do império: (1) o uso de fundos estatais imperialistas, canalizados através das ONGs, para grupos políticos de fachada e a montagem duma "base de massas" na sociedade civil; (2) o financiamento da ação direta de massas que leva a um golpe ("mudança de regime"); (3) a imposição de políticas neoliberais pelo regime cliente; (4) o financiamento imperialista da reorganização e reagrupamento de grupos de ação direta de massas depois da queda do primeiro regime cliente; (5) a transição dos protestos para uma ação direta violenta como o principal pano de fundo para os setores extremistas (neofascistas) organizarem a tomada do poder e a purga da oposição; (6) a organização de uma "campanha internacional nos meios de comunicação" para apoiar a nova junta enquanto demoniza a oposição interna e internacional (Rússia); e (7) um poder político centralizado nas mãos da junta, convocando "eleições manipuladas" limitadas à vitória de um dos dois candidatos pró-junta e pró-imperialistas.

Em resumo, os construtores do império funcionam em vários níveis: violento e eleitoral; social e político; e com operadores selecionados e rivais empenhados num único objetivo estratégico: a tomada do poder estatal e a transformação da elite dominante em vassalos obedientes do império.

Democracia dos esquadrões de morte da Colômbia: Peça central do avanço imperialista na América Latina

Perante o declínio da influência dos EUA em toda a América Latina, a Colômbia destaca-se como um bastião permanente dos interesses imperialistas dos EUA: (1) a Colômbia assinou um acordo de comércio livre com os EUA; (2) ofereceu sete bases militares e convidou milhares de operacionais americanos da contra-insurreição; e (3) colaborou na criação em grande escala de esquadrões de morte paramilitares preparados para ataques transfronteiriços contra a Venezuela, arqui-inimiga de Washington.

A oligarquia dirigente da Colômbia e as suas forças armadas conseguiram resistir à vaga de levantamentos maciços democráticos, nacionais e populares e de vitórias eleitorais que deram origem aos estados pós-neoliberais no Brasil, na Argentina, na Venezuela, no Equador, na Bolívia, no Paraguai e no Uruguai.

Enquanto a América latina avançou para "organizações regionais" excluindo os EUA, a Colômbia reforçou os laços com os EUA através de acordos bilaterais. Enquanto a América latina reduziu a sua dependência nos mercados dos EUA, a Colômbia alargou os seus elos comerciais. Enquanto a América latina reduziu os seus laços militares com o Pentágono, a Colômbia reforçou-os. Enquanto a América latina avançou para uma maior inclusão social aumentando os impostos sobre as multinacionais estrangeiras, a Colômbia baixou os impostos a essas empresas. Enquanto a América latina expandiu a colonização de terras para as suas populações rurais sem terra, a Colômbia deslocou mais de 4 milhões de camponeses, no âmbito da política contra-insurreição de "terra arrasada", traçada pelos EUA.

A "excepcional" submissão inabalável da Colômbia aos interesses imperialistas dos EUA tem raízes em vários programas de grande escala e a longo prazo traçados em Washington. Em 2000, o presidente Bill Clinton comprometeu os EUA num programa contra-insurreição de 6 bilhões de dólares (Plano Colômbia) que aumentou enormemente a brutal capacidade repressiva da elite colombiana para confrontar os movimentos populares de base de camponeses e trabalhadores. Juntamente com armamento e treinamento, as Forças Especiais e as ideologias americanas entraram na Colômbia para desenvolver operações terroristas militares e paramilitares – destinadas principalmente para penetrar e dizimar a oposição política e os movimentos sociais da sociedade civil e assassinar ativistas e líderes. Alvaro Uribe, apadrinhado pelos EUA, um conhecido narcotraficante e a própria personificação de um vassalo imperialista desumano, tornou-se o presidente duma "Democracia de esquadrões de morte".

O presidente Uribe militarizou ainda mais a sociedade colombiana, trucidou os movimentos da sociedade civil e esmagou qualquer possibilidade de um renascimento democrático popular, como os que estavam a ocorrer em todo o resto da América latina. Foram assassinados, torturados e encarcerados milhares de ativistas, sindicalistas, defensores dos direitos humanos e camponeses.

O "Sistema Colombiano" aliou o uso sistemático de paramilitares (esquadrões da morte) para esmagar os sindicatos locais e regionais e a oposição camponesa com a "tecnificação" e a massificação das forças armadas (mais de 300 mil soldados) na luta contra a insurreição popular e para "limpar o terreno" de simpatizantes rebeldes. Muitos milhares de milhões de dólares do tráfico da drogas e da lavagem de dinheiro formaram a "cola financeira" para cimentar uma forte relação entre oligarcas, políticos, banqueiros e conselheiros americanos da contra-insurreição – criando um terrível estado policial com alta tecnologia nas fronteiras da Venezuela, do Equador e do Brasil – países com substanciais movimentos de massas populares.

A mesma máquina de estado terrorista, que dizimou os movimentos sociais pró-democracia, protegeu, promoveu e participou em 'eleições encenadas', a marca da Colômbia enquanto 'democracia de esquadrões de morte'.

As eleições realizam-se ao abrigo de uma vasta rede sobreposta de bases militares, em que os esquadrões da morte e os traficantes de droga ocuparam cidades e aldeias intimidando, aterrorizando e 'corrompendo' o eleitorado. O único protesto 'seguro' nesta atmosfera repressiva tem sido a abstenção. Os resultados eleitorais são pré-estabelecidos: os oligarcas nunca perdem nas democracias de esquadrões de morte, são eles os vassalos de maior confiança do império.

Os efeitos cumulativos da purga sangrenta, que durou década e meia, da sociedade civil colombiana pelo presidente Uribe e pelo seu sucessor, Santos, foram eliminar qualquer oposição eleitoral consequente. Washington conseguiu o seu ideal: um estado vassalo estável; uma força armada de grande escala e obediente; uma oligarquia ligada às elites empresariais dos EUA; e um sistema "eleitoral" controlado apertadamente que nunca permite a eleição de um opositor genuíno.

As eleições colombianas de março de 2014 ilustram brilhantemente o êxito da intervenção estratégica dos EUA em colaboração com a oligarquia: a grande maioria do eleitorado, mais de dois terços, absteve-se, demonstrando a ausência de qualquer real legitimidade entre os votantes elegíveis. Entre os que "votaram", dez por cento apresentaram boletins nulos ou em branco. A abstenção dos votantes e os votos inutilizados foram especialmente elevados nas áreas da classe trabalhadora que tinham sido sujeitas ao terrorismo do estado.

Dada a intensa repressão do estado, a massa dos eleitores decidiu que nenhum partido autêntico pró-democracia teria qualquer hipótese e por isso recusaram-se a legitimar o processo. Os 30% que votaram foram principalmente colombianos da classe média e alta urbana e e os residentes nalgumas áreas rurais totalmente controladas por narcotraficantes e militares onde a "eleição" pode ter sido "compulsória". De um total de 32 milhões de eleitores elegíveis na Colômbia, 18 milhões abstiveram-se e mais 2,3 milhões apresentaram boletins inutilizados. As duas coligações oligárquicas dominantes chefiadas pelo presidente Santos e pelo ex-presidente Uribe obtiveram apenas 2,2 milhões e 2,05 milhões de votos, respectivamente, uma fração do número dos que se abstiveram. Nesta farsa eleitoral, amplamente criticada, os partidos centro-esquerda e esquerda deram um espetáculo miserável. O sistema eleitoral da Colômbia põe um revestimento de propaganda num estado vassalo perigoso, altamente militarizado e preparado para desempenhar um papel estratégico nos planos dos EU para "reconquistar" a América latina.

Duas décadas de terror sistemático, financiado por um programa de militarização de seis bilhões de dólares, garantiram que Washington não encontrará qualquer oposição substancial na assembleia legislativa ou no palácio presidencial em Bogotá. Isto é o "aroma acre do êxito, com laivos de pólvora" para os políticos dos EUA: a violência é a parteira do estado vassalo. A Colômbia foi transformada num trampolim para o desenvolvimento de um bloco comercial centrado nos EUA e uma aliança militar para sabotar as alianças regionais bolivarianas da Venezuela, como a ALBA e a Petro Caribe, assim como a segurança nacional da Venezuela. Bogotá vai tentar influenciar os regimes vizinhos de direita e centro-esquerda, pressionando-os para aderirem ao império dos EUA contra a Venezuela.

Conclusão

A organização da subversão em grande escala e a longo prazo na Ucrânia e na Colômbia, assim como o financiamento de organizações paramilitares e da sociedade civil (ONGs), têm possibilitado a Washington: (1) construir alianças estratégicas; (2) montar ligações a oligarcas, políticos maleáveis e assassinos paramilitares e (3) aplicar o terrorismo político para a sua tomada de poder estatal. Os planejadores imperialistas criaram assim "estados modelo" – desprovidos de opositores consequentes e "abertos" a eleições de farsa entre políticos vassalos rivais.

Golpes e juntas, orquestrados por políticos mandatados de longa data, e estados fortemente militarizados dirigidos por "Executivos de esquadrões da morte" são legitimados por sistemas eleitorais destinados a expandir e reforçar o poder imperialista.

Ao tornar impossíveis os processos democráticos e as reformas populares pacíficas e ao derrubar governos independentes, democraticamente eleitos, Washington está a tornar inevitáveis guerras e levantamentos violentos.

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