22 de abril de 2014

A Alemanha mais dividida do que nunca sobre o conflito russo-ucraniano

Thomas Schnee


Os grandes patrões alemães estão à beira de uma crise de nervos. A crise que opôs a União Europeia (UE) e os Estados Unidos à Rússia ameaça os negócios pacientemente desenvolvidos num país onde a lógica política perturba muito frequentemente as regras dos negócios. Em 2013 a Alemanha vendeu produtos e serviços à Rússia no valor e 67 bilhões de euros, ou seja, mais 10% do que em 2012. Para além disso, as 30 empresas do DAX – o índice bolsista alemão – empregam aí 46 000 pessoas. “Perante a deterioração da situação, as empresas alemãs receiam muito que a UE venha a curto prazo impor sanções econômicas ainda mais duras à Rússia”, lamenta-se o secretário-geral das Câmaras do comércio e da indústria alemãs, Martin Wansleben.

Putin reabilitado

O receio é tal que, desde há um mês, os grandes patrões alemães se lançaram numa operação de comunicação e de diplomacia “paralela” destinada tanto a restabelecer o diálogo com Moscou como a descredibilizar a política de sanções de Bruxelas e Washington. “Não temos a intenção de inflectir a nossa estratégia de longo prazo por causa de turbulências de curto prazo”, afirmava ainda há pouco o patrão do gigante Siemens, Joe Kaeser. Este, que aparentemente reduz a crise na Crimeia a uma simples intempérie, vinha na ocasião de um encontro com Vladimir Putin em pessoa. “Com luz verde da Chancelaria”, acrescentava aos jornalistas.

Kaeser deverá ser em breve seguido pelo patrão das ferrovias alemães Rudger Grube que, oficialmente, irá defender em Moscou um projeto de ligação ferroviária. Grube conta igualmente com a bênção da Sr.ª Merkel, que não quer que as relações com a Rússia “se rompam”.

Perante a opinião pública nacional, a posição da economia alemã face ao urso russo está bem resumida no vibrante apelo à clemência lançado em março por Gabor Steingart, patrão do “Handelsblatt”, o maior diário econômico alemão. “Des-indignem-se! O presidente russo Vladimir Putin não é o infame agressor que o Ocidente descreve”, explicava na primeira página este influente formador de opinião. Para ele, Vladimir Putin é o único homem capaz de garantir a estabilidade daquilo que foi outrora o “bloco de leste”. Seria portanto “estúpido” e “destinado ao fracasso” aplicar-lhe sanções econômicas.

A estratégia “subterrânea” dos patrões transita através dos poderosos lobbies que são o Fórum germano-russo e a “Comissão-leste da economia alemã”. Apoia-se igualmente em veneráveis figuras políticas como os ex-chanceleres social-democratas Helmut Schmidt e Gerhard Schroeder.

Expansão para leste

Schmidt considera que a atitude de Putin em relação à Crimeia é “completamente compreensível”. Coloca mesmo em dúvida, aliás, a noção de “nação ucraniana”. Posições que são inteiramente partilhadas por Schroeder, velho amigo de Putin e grande promotor do gasoduto Nord-Stream entre a Rússia e a Alemanha.

Apesar do recente anúncio da chancelaria alemã de que pretende tornar o país menos dependente do gás russo, “a Alemanha não tem qualquer desejo de se afastar da Rússia. Existe mesmo a vontade de reforçar ao máximo a imbricação econômica dos dois países. Trata-se do desenvolvimento da estratégia de integração a leste elaborada e seguida desde Kohl e Schroeder”, lembra Ewald Bocks, perito na questão russa do DGAP, um dos principais “think tanks” alemães de política externa.

O problema é que esta estratégia, centrada essencialmente na aproximação econômica, se preocupou pouco com os dados da geopolítica. Hoje, o conflito ucraniano está na iminência de a desfazer em estilhaços.

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