2 de abril de 2014

Economia estagnada, finança próspera

Costas Lapavitsas

Research on Money and Finance

Estarão as economias desenvolvidas numa estagnação de longo prazo? Nos quatro anos desde a grande crise de 2007-2009, os EUA cresceram a uma taxa anual de 2,2%, a Alemanha a 2%, o Japão a 1,6% e o Reino Unido a 1%. Considerando que o PIB destes países contraiu-se num total de 4 a 6% durante a crise, eles apenas recuperaram o terreno perdido – e o Reino Unido nem sequer conseguiu isso. Enquanto isso, as perspectivas de crescimento em 2014 e mais além parecem longe de brilhantes.

Alguns economistas conhecidos começaram a manifestar-se muito preocupados. Larry Summers, por exemplo, afirmou que a estagnação a longo prazo é o "novo normal". A razão é que as taxas de juro exigidas para crescimento sustentado do setor privado realmente seriam negativas. Uma vez que as taxas nominais não podem cair abaixo de zero, as economias maduras só podem escapar à estagnação se tiverem uma bolha financeira. Isto é um pouco como tomar anfetaminas: há um pesado preço a pagar quando a bolha explode. Paul Krugman corrobora no essencial, descrevendo o atual estado de coisas como uma "armadilha de liquidez". Para ambos os economistas, a resposta é expansão decisiva da despesa pública.

Há pouca dúvida de que o fraco desempenho econômico em 2010-2013 é o resultado das políticas implementadas para enfrentar a crise. Os Estados visaram apoiar o sistema financeiro, enquanto transferiam os custos para a sociedade como um todo. Portanto, bancos centrais forneceram grandes quantias de dinheiro e conduziram taxas de juro praticamente para zero, enquanto governos garantiam a solvência de instituições financeiras. A lucratividade da banca foi rapidamente restaurada e o sistema financeiro foi capaz de começar uma nova bolha, desta vez no mercado de ações. Em contraste agudo, os salários reais foram mantidos estagnados, ou em queda, e a despesa pública foi restringida. Bastante naturalmente, os trabalhadores reduziram seu consumo e começaram a reembolsar as gigantescas dívidas acumuladas durante os anos 2001-2007. Globalmente, a política governamental impediu uma repetição da Grande Depressão da década de 1930, mas a procura e o crescimento foram muito fracas, apesar da emergência gradual de uma nova bolha.

A questão real, entretanto, é se economias desenvolvidas estão em estagnação a longo prazo ou simplesmente a ter um desempenho fraco após a crise. A estagnação a longo prazo é um problema muito sério pois os rendimentos sofrem, o nível de emprego torna-se fraco, o bem-estar declina, a instabilidade econômica é exacerbada e as tensões sociais aumentam. Nas quatro décadas desde o início da década de 1970, a taxa média de crescimento nos EUA, Japão, Alemanha e Reino Unido caiu de cerca de 4% para cerca de 2%. Durante o mesmo período verificou-se uma sucessão de crises, 1973-1975, 1980-1982, 1990-1992, 2000-2002 e 2007-2009, das quais as últimas três foram claramente associadas a bolhas financeiras. Enquanto isso, o trabalhou perdeu dramaticamente para o capital pois a desigualdade disparou. Isto pode não ser totalmente estagnação, mas o crescimento tem sido indiferente e permeado por bolhas e crises.

Muitos à esquerda consideram que estes fenômenos são o resultado neoliberalismo, isto é, da ideologia dominante do período, a qual prega mercados livres e advoga a desregulamentação e privatização. Contudo, processos mais profundos têm estado a verificar-se durante este período, incluindo uma revolução tecnológica e a expansão do emprego em tempo parcial e inseguro. Estas mudanças profundas aumentaram a produtividade do trabalho, mas não como nos períodos históricos anteriores. Apesar de expectativas exaltadas, a tecnologia da informação sob este aspecto demonstrou-se inferior a, digamos, a eletricidade ou ao motor de combustão interna.

Por outro lado, nova tecnologia e práticas de trabalho alteradas foram excepcionalmente eficazes para impulsionar a finança. Ajudada pela desregulamentação financeira, eles transformaram o modo como operam bancos e mercados financeiros, facilitando um crescimento notável. O aspecto mais gritante das últimas quatro décadas é a assimetria entre o setor real e o setor financeiro das economias desenvolvidas. A finança inchou, proporcionando novas fontes de lucros enormes, promovendo desigualdade, inflando bolhas enormes e exacerbando crises, ao passo que a produção desempenhou-se de modo indiferente. Ainda mais impressionante, as práticas, perspectivas e moralidade da finança penetraram o resto da economia.

Em suma, o capitalismo contemporâneo tornou-se financiarizado: empresas industriais e comerciais sentam-se sobre enormes quantias de dinheiro, as quais são relutantes em investir mas utilizam-no ao invés para gerar lucros financeiros; os bancos emprestam menos para a produção, procuram lucros no trading financeiro e alimentam uma bolha após a outra; as famílias tornaram-se enormemente endividadas bem como dependentes de instituições financeiras privadas para pensões. O fracasso do capitalismo contemporâneo em produzir crescimento sustentado está relacionado com a sua financiarização e não na incapacidade de as taxas de juros caírem abaixo de zero.

Há políticas que podiam melhorar coisas no curto prazo, incluindo regulamentação do sistema financeiro, redistribuição do rendimento e da riqueza em favor dos trabalhadores e expansão da despesa pública. Por este meio, poder-se-ia esperar recuperação, melhoria de padrões de vida e que a arrecadação fiscal ascendesse equilibrando a contabilidade do estado. Mas o desafio real é alcançar mudança estrutural revertendo a financiarização, uma tarefa que exige medidas intrinsecamente anti-capitalistas. Elas incluem restauração maciça do estado previdência e reintrodução da propriedade pública, com um mandato estimulante e energia, tanto no setor real como no financeiro. A escolha a longo prazo para sociedades desenvolvidas é ou continuar com a desastrosa financiarização ou seguir um caminho intrinsecamente anti-capitalista.

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